sexta-feira, 15 de junho de 2012

SINGULARIZAÇÃO NA SOCIEDADE DE CONTROLE


SINGULARIZAÇÃO NA SOCIEDADE DE CONTROLE


Este trabalho (parte escrita, roteiro de apresentação oral em uma classe no ppgcom da unisinos) é continuação do trabalho em outras disciplinas, no qual penso a sociedade de controle e o fim das disciplinas em suas afetações epistemológicas. Centro minha atenção na sociedade de controle, e também seus efeitos midiáticos, um dos principais, para entender o mundo em que vivemos.

INTRODUÇÃO: Sociedade de controle é a intensificação da sociedade disciplinar como tomada de poder a partir das lutas de 68. A potência molecular das lutas das massas, re-estrutura o molar, o campo macropolítico. Potência como produção de mundo e resistência, biopolítica, poder como captura da produção, biopoder.

Característica mais marcante da sociedade de controle é o fim da exterioridade, dos limites dos territórios, sejam físicos, subjetivos, teóricos, existenciais.  Centro a apresentação nesta característica, e busco pensar também as possibilidades biopolíticas na condição atual.
Segundo Bruno:

[o controle] se aproxima ou mesmo se confunde com o fluxo cotidiano de trocas informacionais e comunicacionais. p. 152 BRUNO

Podemos acrescentar, que o controle e a resistência se confundem nos territórios. Por isso, a importância do mapeamento dessas linhas de forças de natureza diferentes. Creio que o mapa Deleuziano, o conceito de devir, o pensamento da diferença servem para fazer esse mapeamento.  

1.                  ESMAECIMENTO DOS TERRITÓRIOS E DE SUA RELAÇÃO COM O FORA


Fora do trabalho: pela natureza da produção no pós-industrial podemos trabalhar em casa. Levar trabalho para casa. Aqui produção e reprodução se dão em um plano de indiscernibilidade.  Também a produção, em alguns casos, se aproxima da reprodução: trabalhos em ambientes lúdicos. As TICS servem como ferramentas de controle, que acentuam a inexistência de fora do trabalho: o empregador pode contatar o empregado em qualquer lugar e hora. Mais, pode localizá-lo; pode rastrear o empregado em suas ações por redes sociais. No entanto, as mesmas técnicas que servem ao controle, servem de empoderamento: possibilidade de produção intelectual e criativa cada vez mais inclusiva. Também o fim do fora da produção em um contexto biopolítico é a valorização de produção de mundo. Negri diz que como todos produzem o mundo deveria haver uma renda de existência.

Fora da formação: a formação tende a ser constante. Vê-se isso na oferta cada vez maior de cursos de pós-graduação, e de cursos superiores. O ensino centra-se na produção de saber e de palavras de ordem: pense de tal forma, seja tal coisa. Importante perceber como isso é acentuado na sociedade de controle. Questões biopolíticas: a inexistência de fora da formação, significa a possibilidade de aumento do saber. Também se percebe um outro tipo de deslocamento do ambiente da escola para a rua: a produção de saber típica dos movimentos de resistência; saber não direcionado à profissionalização, nem à cultura culta; saber com fins políticos, mas também existenciais. Interessante notar, que conjuntamente à intensificação disciplinar, há também uma flexibilização dos papéis. Uma característica de técnicas biopolítica apropriadas pelo poder: o papel do professor e chefe é cada vez mais esmaecido. Produz-se em rede. Sabemos que esse tipo de produção coletiva, sem um centro é a mais produtiva. A produção em rede é fruto das lutas contra o sistema de dominação. Por fim, formação e produção não se distinguem, são da mesma natureza, diferem em grau, considerando o trabalho intelectual e afetivo.

Fora da subjetividade dominante: este é um caso especial e talvez o mais importante, que envolve também a produção e a formação.  

O capitalismo global (pós-moderno) tomou de assalto a subjetividade de forma mais acentuada que na modernidade. Segundo Guattari a mídia e indústria cultural afetam memória, inteligência, sensibilidade, afetos e fantasmas inconscientes Pelbart, p. 12 (rever ortografia da citação)

Fora das mídias: Como vimos as TICS são usadas como técnicas de controle, tanto na produção quanto na formação. Mais importante pensar como as mídias fazem parte da produção do consenso e da subjetividade dominante. A mídia é muito mais eficaz que a escola para difusão de palavras de ordem. Todos os discursos passam por ela.  Exemplo de produção de subjetividade são as identidades produzidas pela indústria cultural, como nas modas relacionadas à música: que envolve afetos, ouvir, mas também ver, uma relação com o corpo, e vestir, com o saber; e pode envolver estilos de vida: relações com a sexualidade, com os outros, com drogas. E as modas mudam e conjuntamente tudo isso, ou parte. Outro exemplo: o que as mídias vendem como modos de existências: negro, homem, mulher, gay.  

Fora do consumo: o capitalismo é inclusivo, para ele não importa diferenças, territórios.
Bruno exemplifica a inexistência desse fora: oferta de produtos tendo como base conteúdos de e-mail. Isso aponta uma inexistência de fora do privado [mercadológico] que afeta o privado pessoal.      


2.  RECUPERAÇÃO DO FORA COMO RESISTÊNCIA: INCLUSÃO DA DIFERENÇA

Outra característica do controle é a tentativa de apagamento das minorias como resistência, inclusão total: negros, mulheres, homossexuais. O discurso sobre se flexibiliza. Mais consumidores e produtores. Processo de inclusão e reterritorialização constante. Afirmação de identidades.  

Inclusão na arte e indústria cultural da diferença: A tradição romântica da arte faz apologia aos desvios: sexuais, drogas. Ao artista e a arte a diferença é permitida. Essa permissão é apropriada pela indústria cultural, produzindo inclusão, principalmente no mercado. Exemplo: pode se falar abertamente sobre uso de drogas e práticas homossexuais. Em alguns casos, pode-se fazer apologia, e mais, isso é vendável. Caso do Rock contracultural faz parte de um duplo movimento. Uso de drogas e sexualidade aberta como forma de contestação. No entanto, é apropriado pelo mercado. Rock como elemento da contracultura, que torna a diferença uma possibilidade. Que logo após ou ao mesmo tempo se torna valor de consumo.

Inclusão intelectual: em sociedades não democráticas ou autoritárias o intelectual tem um papel marginal, subversivo. Caso de Negri, que ficou preso durante décadas. Hoje, nas sociedades democráticas o intelectual é incluído na academia, que é financiada pelo Estado ou por corporações. Exemplo: podemos fazer crítica à rigidez institucional, disciplinar, e ao Estado em instituições do próprio Estado; podemos fazer crítica ao capitalismo, ao controle, em instituições privadas capitalistas.  

2.1. Desejo de inclusão pelas minorias: mesmo elas como resistência desejam inclusão.

Caso 1.  Desejo de inclusão no capitalismo: da marcha da maconha. Interessante que a marcha, não se refere apenas ao uso da droga como possibilidade de diferença; a marcha pede também uma inclusão dentro do sistema, não só político, mas também econômico:   

Trata-se de um dia de luta e manifestações favoráveis a mudanças nas leis relacionadas a maconha, em favor da legalização da cannabis, regulamentação de comércio e uso (tanto recreativo quanto medicinal e industrial, tendo em vista as milhares de aplicações da cannabis em várias áreas).  http://pt.wikipedia.org/wiki/Marcha_da_Maconha

Caso 2. Marcha das vadias: desejo de inclusão de cidadania:

[1] mulheres ainda são minoria em cargos de poder e recebem em média 70% do salário dos homens [2] há trabalhos desempenhados por uma maioria feminina que não são reconhecidos, nem dotados de valor econômico [3. As prostituas negam] suas cidadanias.

Pelbart sobre direitos humanos, inclusão: segundo ao autor os direitos humanos, o discurso sobre cidadania não são garantias de uma vida menos sacana:

[nas] democracias-mercado que respeitam os chamados direitos humanos [...] se vive e se pensa como porcos [essa é a ilusão que vende o neoliberalismo [...] caberia examinar [...] em que medida essa miragem [no pós-moderno] nos obriga a repensar a ideia de direitos humanos e traz à tona sua insuficiência PELBART p. 23


2.2 as resistências repetindo os discursos do poder, afirmando o poder, pois não há fora:

Caso 1. Poder na resistência: Movimento primavera global em porto alegre: em assembleia, horizontal, totalmente inclusiva, foram feitas duas propostas: fazer um evento contra a corrupção e uma campanha do agasalho. Contra a corrupção não foi aceita, pois diz respeito à reforma política, e o movimento pede radicalização da democracia. Já a campanha do agasalho, foi aceita. Interessante notar que esse tipo de campanha é realizado por entidades de consenso, paternalistas, e difundidas na mídia.

Caso 2. Lutas dos homossexuais: produz normas, e regras, identidades, caracteristicas do poder:

De que adianta lutar contra a norma heterossexual e hetero-fascista, se o movimento acaba reinventando-a como norma homossexual? Reinstala-se uma nova opressão: é o gay enquadrado e com família de comercial de margarina [...]  Que chega a nutrir preconceito contra as bichas loucas e os travestis. É a lésbica que não admite que outra mulher fique de quatro numa relação sexual. É o meio profissional de cabeleireiros ou estilistas, que conformam uma normatividade igualmente coagida. CAVA

3. TENTATIVAS DE SINGULARIZAÇÃO

Singularização é a produção de subjetividades diferenciais em relação à subjetividade dominantes, que enquadra sujeitos em identidades.

Movimento Queer:

[...]  afirma que ser homossexual já está capturado na heteronormatividade. Homossexual, bissexual, lésbica ou gay, isso por si só não é suficiente. É preciso escapar da divisão binária homem/mulher ou hetero-homo. [recusar] a própria ideia de uma normalidade [...] CAVA


CRÍTICA RADICAL: como produção de diferença quando se chega a um consenso. No caso, vejo mais como uma experimentação.

Comunicado do Black block sobre as lutas em Copenhagen:

Esse comunicado se refere ao grupo em sua crítica aos ativistas que lutam pelo clima e contra o capitalismo. No comunicado é dito que parece haver mesma lógica entre representantes do governo, ONGs e até os ativistas ecológicos mais radicais. Todos estes apresentam mesmo discurso: “nós estamos salvando o mundo”. “Quem não ia querer lutar para isso? E mesmo se você não, você tem mesmo uma escolha?”.
                 
[...] pode-se ouvir o [...] chamado para submeter-se. Sacrificar tudo o que faz a vida valer a pena em nome da própria vida. Encerrar o presente e salvar o futuro. Para controlar nossos desejos, e acima de tudo, para não perturbar o delicado equilíbrio. Ecologia pressupõe a mesma concepção de existência que caracteriza a polícia: o perigo está em toda parte, e, antes de tudo, em nós mesmos. Quando o sucesso desta conferência depende da participação da população em cada centro da cidade, onde você acha que devemos ir? E se a polícia, em todas as suas formas, é a essência da nova política global, o que você acha que deve fazer?




4. INEXISTÊNCIA DO FORA DA RESISTÊNCIA

OCCUPY, da resistência: a fórmula dos movimentos: a palavra de ordem: “somos os 99%” cria uma inclusão generalizada na resistência contra o 1%:

“O socius torna-se um megavideogame em que alguns poucos jogadores invisíveis brincam com seus milhões, de dólares, de empregos, de vidas alheias.”  PELBART, p. 23

Caso dos Anonymous: sintoma da inclusão generalizada na resistência:

Anonymous é coletivo de hacktivismo que atua na rede em ataques a sistemas de corporações e Estados. O anonymous luta diretamente contra o controle: luta pelo anonimato na rede; contra a apropriação da colaboração e do bem comum da multidão. Luta também contra a classificação da multidão: não tem nome, identidade, não é restrito a um grupo, ou centro. Age em comum, produz em comum, produção que foge da valoração dominante capitalista.

Sua produção vai além dos ataques DNS. Difunde saber, conhecimento, em seus comunicados em vídeos e texto. Também pode ser pensada como um modo de vida na rede, anônima, entre legalidade e ilegalidade, para aqueles que participam dos ataques. E mesmo as máscaras, elas são vistas em manifestações, por pessoas que não atuam nos ataques. Uma subjetividade anônima produzida. 

Só funciona por enxameamento; suas operações dependem da colaboração em massa. Por isso, é totalmente inclusivo.  A máscara que qualquer um pode vestir e o nome simbolizam muito bem a inclusão generalizada. Tem relação direta com a obra de Negri, isso é notado na citação: somos legião. Em passagem de multidão, o autor cita um mito cristão. Fala de um demônio, de nome legião, que na verdade é uma multiplicidade de demônios. Aqui uno e múltiplo se confundem. Uma boa alegoria para pensar a multidão: que é um conjunto de singularidades diferenciadas que agem em comum mediante colaboração e comunicação. Torna-se uma, pela produção e pelo comum. E não pode ser enquadrada em identidade, como a de povo. As singularidades são potentes por não terem identidades. Isso é forma de resistência ao controle:

Como diz Amadeu: “O controle é avesso ao anônimo, ao incerto e ao nômade.” p. 130

CONCLUSÃO: Por isso são produzidas identidades fixas, apropriam-se as minorias a partir do enquadramento, e de movimentos de desterritorialização e reterritorialização. As minorias, em sua potência molecular, desterritorializam os códigos macropolíticos, molares, no entanto, são reterritorializadas, perdendo potência, sendo enquadradas, em uma inclusão diferencial. Daí, importante pensar no que resta de diferenciação para ser usada como potência.

Ex. A CUFA, entidade de fomento das manifestações e modos de vida das favelas, está produzindo um concurso de top models para moradoras dos morros. Gisele Bundchen e uma marca famosa de produtos de beleza promoverão o evento. Os pobres são sinônimos de padrão de não beleza. Provavelmente as garotas com beleza mais próxima do padrão serão as vencedoras. O evento propõe que a beleza das favelas seja incluída. Assim a favela desterritorializa a moda, um das possibilidades do evento, porém, os códigos da moda reterritorializam a favela.    












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