quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

crônica em homenagem ao centésimo ano de vida do Amilton Carvalho


Eu tenho domínio apenas de duas linguagens escritas: a acadêmica e a literária. Eu não tenho capacidade para escrever um artigo sobre o Amilton e sua obra. Assim, fico preso na literatura. Prefiro escrever sobre a nossa relação. Algo entre nós, que envolve muita coisa, e também minha família. A relação do pai com meu irmão é diferente. Meu irmão foi corajoso e aceitou o sobrenome Carvalho, seguindo no mesmo campo. Minha irmã é uma moça, bem mais nova, o bebê da casa. Eu não cursei direito, não sou uma moça. Assim há todas essas diferenças. Mas todos nos aproximamos, pois estamos na academia. Algo bem pequeno burguês, não? Uma família de intelectuais... Isso para mim foi algo como um “determinismo”. Não poderia ser diferente, por sermos filhos de quem somos. E herdamos outras identidades mais duras, profundas: somos gente da classe média, brancos, heterossexuais, brasileiros, gaúchos, colorados. Poderíamos culpá-lo por isso. Você nos obrigou a ser quem somos!  Você nem perguntou! Assim do nada nos pôs no mundo! Se eu fosse um desses românticos existencialistas poderia dizer: eu não queria ser humano, nem existir, a culpa é sua. Porém, além do “determinismo”, ser filho do Amilton, quanto a mim, me abriu todo um campo de possíveis, realidades a serem escolhidas, potencializadas, experimentadas, transgredidas. Desde pequeno, eu o via em seu gabinete, só, escrevendo ou lendo. Não era um santuário, um lugar que criança não podia ficar. Mas sabia que era seu espaço de trabalho e respeitava. O gabinete cheio de livros, com pinturas. Cedo comecei a sentir prazer em ler e ficar recolhido. Com a chegada do vídeo cassete, os filmes se somaram. Desde criança, eu fui muito extrovertido, tinha muitas turmas, como o pai. E como ele, eu gostava, então, de ficar sozinho, lendo minhas revistas e vendo meus filmes. Um dia, com quatorze anos, ele me botou na parede e me intimou a ler um livro; eu nunca havia lido um além dos obrigados pelo colégio. Eu não fui com a cara do autor. Era um psicanalista metido a libertário. Mas, meses depois, comecei a ler Bukowski, Fante e a Geração Beat. Fui posto na parede e aceitei, mas aceitei da minha forma. Literatura foi o mais importante em minha adolescência e na graduação. Faz pouco tempo, lancei um livro de crônicas. Nele não falo da minha relação com meu pai, mas da relação pai e filho; da dicotomia; da prisão de ser o termo menor. Mas de forma alguma faria uma crítica a um centro de poder tendo como base minha experiência pessoal. Não sou um amador. E na real, talvez seja uma prisão maior ser o termo dominante; ser obrigado a agir como um adulto, branco, macho. Portanto, duas coisas que se atualizaram: a solidão e essa experiência com a literatura e o cinema; solidão e arte duas coisas que se atravessam. Fui obrigado quando criança a me mudar para inúmeras cidades do interior, porém, isso me possibilitou uma relação com a cidade. Sempre havia coisas e pessoas novas. No início da pré-adolescência, mudamos para uma cidade maior. Sempre me foi dada a liberdade para circular por ela. Algo comum, já que era uma cidade segura; mas não me tratavam feito criança. Eu podia ficar até de noite na rua, como podia ir na locadora e pegar o filme que eu quisesse. E quando não podia, fazia assim mesmo. Isso me foi possibilitado e a forma como experimentei a cidade me atinge até hoje. Meus pais se separaram; depois disso meu pai tentou alguns relacionamentos mais duradouros. Não deu certo. Eu experimentei alguns quase casamentos. Pensei em ter filhos em certos momentos. Morei com algumas garotas, possíveis esposas. Mas já faz muito tempo que isso para mim é impossível. Não quero ter uma esposa e filhos. Um caminho seria casar para saber que isso é insuportável. Mas o campo de possíveis foi aberto. Vi que a vida familiar não é uma obrigação. O pai em um momento parou de votar. Eu achei algo radical. Porém, comecei aprofundar meus estudos sobre os movimentos de resistência a ali me encontrei. Virei anarquista. Como eu digo: não estou repetindo os passos, se fizesse isso seria obrigado a enfrentar muitos erros. Mas a figura do meu pai permitiu que eu escolhesse algumas coisas. Eu não pude ser um rockeiro, isso não me foi permitido, já que o pai nunca teve interesse por música e isso me afetou. Mas pude ser um teórico que trabalha com as resistências, já que o pai sempre teve ligação com movimentos sociais. Não tenho problemas com a prisão de ser filho dele. A vida é uma prisão se você deseja se manter dentro dos padrões dominantes. Mas a beleza é todo esse campo aberto, múltiplos caminhos. Escolher, traçar linhas, montar uma vida como se monta um mosaico. Ele viveu muito e sempre esteve presente, aprendi com os erros dele.

Ele é meu parceiro de cafés. Um cara muito intuitivo. Um bom cristão. Melhor, alguém que fez sua antropofagia do cristianismo. Alguém que se pode contar. Um bom pai. Eu posso chamá-lo de fascista ou sacana em nossas divagações “cafeínicas”; e ele tem a cabeça tão boa que reconhece que é de uma geração anterior, com todos seus vícios. Eu poderia dizer que ele tem muito ainda a aprender. Mas, como ele sabe disso, tem como projeto o trabalho com Nietzsche, nestes últimos tempos – que estes durem o máximo possível. 

domingo, 23 de outubro de 2016

CFC - crônicas fora de controle

Prazer e dor ou outra história  

Sempre pensei que a história do cara que cheira coca é de fugir da frita, do repé, da ruim, do fim do pó. O cara começa a cheirar e daí faz o possível pra não parar; fica uma semana acordado até acabar ou o corpo parar. Daí desmaia por três dias, mal na cama, fritando, suor lá em cima, ressaca moral e um monte de merda. Daí tem o lado bom, o pico do pó; o lado ruim é o pico da dor da falta do pó. Mas acho que seria legal sair das oposições, das piores, bom e mal, prazer e dor, e pensar que isso faz parte do território do pó. O território: o cara junta o máximo de grana de alguma forma, como está só na fissura, só muito a fim, junta uma grana de forma legal, ou se for ilegal, faz algo bem pensado. De repente, pega no morro um quarto de fumo e combina com o patrão que paga depois. O cara pega o fumo, faz as parangas e vende rápido pros amigos (em outro caso, se  o cara só fuma maconha, pega metade pra consumo próprio, com o resto faz a grana do patrão e sobra mais uma boa grana), paga o patrão e fica com uma grana boa pro brilho, tipo mais que dobra a mão. Mas trafiquinho é uma opção, ele pode passar algum lance, sempre tem algo pra vender em casa; pode fazer um roubo bem pensado, algum equipamento eletrônico dum vizinho. Pega o pó. Se dá sorte pega com alguém que recém recebeu e que tá vendendo ainda com bom preço. No caso, penso no cara que não passa o pó, ou se passar, vai ser pouco, penso mais no cara que acha que tráfico de pó é meio roubada. Pega o pó e faz a mão. O pó vai acabar uma hora. Ainda mais cheio de pó, vai acabar liberando pras minas, pros manos, de repente, vai acabar liberando até pros malas. E esse pó vai acabar e o lance é não deixar acabar. Como falava, pode ser a fuga da dor, mas pode não ser só isso, porque quanto mais cheirar, mais dor vai ter depois. O pó vai acabar. Antes das últimas carreiras já pensa: quero mais e não tenho grana. Vai ter que fazer grana de forma ilícita, mas de forma alguma quer ser preso, muito menos por coisa pesada. Possibilidades: vender fumo vai demorar muito. Pedir arrego pro patrão, certamente já fez isso e tá fugindo dele. Vender algo, trocar algo por mais pó, já foi tudo. Provavelmente, tá queimado para pedir empréstimo pros pais e nenhum dos amigos vai emprestar, porque tão juntando grana pra fazer a própria mão. Uma boa é saber o número dos cartões dos velhos, o que já deve saber. Roubo: de repente um som de carro. Algo na casa dos vizinhos. Atacar alguém na rua. Simular um michê com algum veado e roubar o cara. Fazer um michê. Daí pega mais pó. E a história continua. Quando acabar e sempre acaba, vai pra cama. Toma Valium, fuma um e daí o resto é o pesadelo. Só que o que parece que é oposto é muito próximo, falta e barato da droga. Talvez sejam a mesma coisa. A cabeça que funciona sem parar nos dois casos. A fala contínua no uso; na falta, a cabeça continua, mas sem o outro pra exteriorizar.  As ações que fogem daquilo que se faria normalmente, no uso. Na falta, a impossibilidade da ação, os pensamentos delirantes, fora do normal. O corpo que sua, treme, mesma coisa nos dois casos. E como dizia um cheirador: uma semana cheirado só vale se a gente sofre na cama depois uns três dias. Faz parte.

Relação diferente com o corpo

Acho que nos últimos anos é cada vez mais fácil parar de fumar do que continuar fumando. A mídia, a área da saúde mais os psis, a indústria do corpo com as academias, as pessoas comuns, Estado com suas leis e etc.; tudo isso serve como uma rede de terapia em massa. Pra quem quer parar de fumar e entrar na onda, beleza. Pra quem quer resistir, esse se fode. Mas tudo muito bonito, em nome da saúde, da gorda saúde dominante.  O cara que fuma sabe que vai trocar alguns anos de vida por décadas daquilo que o cigarro permite. Já que uma doença grave, tipo câncer, avc, aparece só na velhice, ou se o cara tiver azar de já ter tendência pra certos tipos de doenças. Mas e daí, vale a pena uma morte talvez bem dolorosa, menos tempo de vida, pelo que o cigarro proporciona?   Acho que o prazer é o mesmo pra todos, talvez... Fumo principalmente como estimulante: café, cigarro e computador pra mim criam uma combinação perfeita. Me sinto bem sempre em saber que vou poder fumar o próximo cigarro. Isso que interessa, né? O próximo cigarro. Decidi continuar fumando após anos de pressão de todos os lados e dentro de mim. Uma época não conseguia nem ver certos programas de Tv, rádio ou ler certas matérias que tratavam do tema. Sentia o câncer virtual dentro de mim.  Em três momentos cheguei a agendar uma data pra parar. Mas uma hora decidi dizer: foda-se! Fico com o crivo. Se isso me der um final de vida mais doloroso, bem, isso pode acontecer com todos. E provavelmente morfina e heroína vão continuar existindo, ou drogas mais pesadas vão existir, o que já dá uns anos de alívio. E no caso de avc, que deve ser um lance foda pelas sequelas, eutanásia caseira sempre é uma saída.  E na real, acho legal pôr a ideia de saúde em jogo, tirar a doença do espaço marginal, ou mais, colocar em termos de desejo: desejo da enfermidade, pôr a doença como possibilidade até de alegria, ou mesmo a morte; tirar as associações negativas. De repente, uma relação diferente com o corpo, uma relação existencial diferente, dessa existência que criam para todos. Interessante que o padre sempre diz: “mas você fuma, você não tem amor pela vida”. Só que viver uma vida construída por algo que vem de cima (poder), que funciona para acabar com a vida (apropriá-la), é amor pela vida? Claro que fumar não é uma grande solução, mas a gente faz o que dá.  Ouvi de um cara da saúde num programa de TV: “as pessoas não têm direito ao cigarro somente à saúde”, ele disse isso em rede nacional. Mas daí comecei a dar mais atenção às pessoas ao meu redor quando estou fumando, e o que acontece é a reprodução (só que mais chata) do mesmo tipo de discurso fascista.  


A tradição romântica da arte

As experimentações de Willian Burroughs – o escritor mais radical da geração Beat – eram com as drogas. Droga como possibilidade de fuga do pensamento tradicional, do corpo normalizado, dos afetos dominantes. Não só droga, como os outros beats, junto disso a estrada.  Estrada e droga, só que isso não garante muita coisa. Tipo viagens turísticas que só o corpo se desloca, a mente continua a mesma. A droga como imbecilização, como dizia o velho punk: o que aprendemos com Sid Vicious[1] é que ninguém precisa de talento pra se drogar.  Só que a droga e a estrada dos beats, com toda a sua dor e alegria, com todas as merdas... Bem, sobre isso, a gente pode falar em transcendência. Outro elemento que vem junto da droga e da estrada na tradição marginal da arte, é a pobreza: Artaud, Rimbaud, Wilde, Baudelaire, De Quincey. A crítica literária fala sempre do desregramento dos sentidos, mas isso e a vagabundagem da estrada estão ligados a uma pobreza espontânea. Pobreza que na real é autonomia e não a prisão da falta. O drogado que desiste de tudo, até dos bens, pela droga. Largar tudo e cair na estrada. E a pobreza produz riqueza, se sairmos do senso comum. Privação, dor, fome, tudo isso fez parte do caminho seguido por esses caras e outros. Tipo Bukowski, um beat solitário. O cara era meio reacionário de direita; só que, na real, ele tinha um inconformismo com a geração do paz e amor. Importante que ele segue essa tradição: pagar por algumas noites por um barraco de papelão em alguma cidade qualquer dos EUA, bêbado e com fome, e buscar um pouco de luz pra escrever alguma coisa. Ou seu mentor, Fante, que se alimentava apenas de frutas colhidas, não trabalhar (vagabundear) pra ter tempo de escrever. Burroughs no Tanger, em seu estado terminal da heroína, esperando que alguém morra em sua frente pra roubar sua carteira e ter grana pra se drogar; e tempos depois descobrir rascunhos dessa época que nem se lembrava de ter escrito. Só que tudo isso ainda preso no sujeito, o gênio moderno, criador. Mas o próximo passo é quando os beats se tornam referência de massa, com a contracultura. Daí, droga, estrada, pobreza espontânea viram uma possibilidade pra mais gente, pela difusão do estilo de vida. Hoje a gente vê algo parecido nos movimentos de okupação de praças. Algo que deve ser pensado.


 Prostituição

Sobre a prostituição, seria legal pensar nela como potência, não como impotência, vergonha. Impotência é mais que real: exclusão, marginalidade criadas pelas significações dominantes. Ou mesmo, prostituição como fantasma: as minas que se sentem putas quando transam. E daí elas misturam vergonha, desejo escondido, tudo negativo. Quanto à potência, ela não é a imitação da prostituição: a mina que dá pro cara já que ele lhe deu um presente caro. Seria um mundo melhor se a prostituição fosse mais uma das cores da vida, e se faltasse essa cor no mundo, no caso, esse mundo melhor, ele seria menos vivo. Se fosse assim.

Laranja Mecânica

Cena inicial: a gangue de Alex (personagem principal) e ele, eles tomam “leite com facas”, um tipo de droga pesadíssima. Estão sentados, olhando pra câmera. Olhar fixo de chapados. O som de fundo, um órgão com alguma música de Beethoven. A câmera vai abrindo aos poucos. A primeira metade do filme o torna o que é: uma grande obra; só que da libertação de Alex da prisão, no meio do filme, até um poucos antes do final é moralista. Nesse tempo, Alex paga pelos pecados. Já o final é um final feliz, mas diferente desses de filmes ruins: a felicidade de um psicopata.  Depois de se dar mal, pode voltar a agir como um monstro.  A história do filme: Alex tem menos de 18. Toma drogas pra ficar violento. Em uma noite, espanca uma gangue rival; quase mata um velho mendigo com seus amigos; estupra uma jovem esposa de 30 anos. No fim, bebe mais leite, vai pra casa e meio que adormece ouvindo Beethoven. Tem sonhos com assassinatos. Em seu quarto toda uma riqueza de signos: escultura de cristo dançando; uma cobra de verdade; quadros de mulheres nuas de pop arte. No meio do filme, mata uma mulher, é traído pelos companheiros, pega 14 anos de prisão. Na prisão, entra em um programa de condicionamento. Vê filmes de violência e impõem a ele doses de uma droga terrível, ao fundo a música de Beethoven que mais gostava, a Nona Sinfonia. Fica condicionado. Sempre que pensa em agir violentamente ou ouve a música, sente que vai morrer, uma dor terrível. Até aí ok, mas depois, como disse, o filme fica chato, Alex paga o preço. Encontra todos que abusou com violência, e quase morre. No fim do filme, o Estado o acolhe, e ele se liberta do condicionamento. Eu não havia falado da violência sádica, no caso de Alex, por prazer. Violência pela violência. Legal que o Estado permite a violência de Alex. Isso tá mais evidente no livro do Anthony Burgess, que deu origem ao filme. No livro, uma hora ele acaba se cansando, como se a violência estivesse mais relacionada à juventude. Duas coisas importantes que estão relacionadas: violência e juventude.  Isso aparece nos movimentos de luta contra o sistema. Vemos a violência contra o Estado feita pelos jovens, só que violência legítima, a violência da revolução. Aparece como possibilidade aqui neste livro, algo como tentar uma escrita violenta; a partir da violência existente. Violentar o leitor, ou seus ideais, o que dá no mesmo. Um pouco de psicopatia talvez, frieza, meter o dos outros na reta e também o meu. O dos outros que está em mim, o que compartilho, ou seja, me violento. Uma coisa que não gosto em aula: falta paixão nas falas, reflexo da mesma falta nos textos. Nas assembleias dos movimentos de ocupação, já senti o ambiente aguado. Só que em Barcelona o pessoal tá realmente indignado. Ouvi algumas vezes, nos encontros do movimento, o pessoal falando de ação direta violenta, de forma apaixonada. E bem, os caras tão encarando a polícia de frente, diferente daqui do Brasil.     

Mulheres

Um amigo meu jovem, duns vinte e poucos anos. Tava numa fase bem aberta: drogas, loucuras, mulheres. Tava meio que namorando uma mina. Daí começou meio que namorar a melhor amiga dela. Ficava com as duas. É, tava ficando com as duas, e um dia, do nada, apareceu uma mina que ele meio que tinha namorado. Era verão, elas não tinham o que fazer nem ele e... bem, um dia ele diz que olhou pra sala e estavam as três conversando: duas de 18 e uma mais velha que ele. Sentiu que tava num transe, e de repente acordou com elas ali. Daí olhou pro outro lado da sala e estava uma mina que morava com ele. Dormia na cama com ele, os dois abraçados. Ele transava com todas elas, uma de cada vez, enquanto as outras faziam sei lá o que. O cara não era bonito, também não era feio. Não era burro, mas também meio pateta pra ser inteligente. Podia só fingir que tinha lido. E o cara não era nenhum grande amante. Na real, o cara era filha da puta. E as garotas eram bonitinhas, a mais nova, a mais bonita virou namorada fixa. Ele não se preocupou com preservativos com elas. Quando a festa acabou, ele pensou: me fodi, vou ser pai de quatro crianças direto, tô fodido; mais, aids na certa. Só que elas se cuidavam, ele que não. Eram todas meio caretinhas, deixaram de ser com ele. Mesmo assim, ele tava meio noiado com tudo e conta que o fantasma da aids meio que pegou ele por um tempo. Meio foda, delírios e tudo mais. No fim, tava tudo bem.  Só que ele pensou na loucura: talvez fosse bom, de repente, nós cinco com aids, uma família decadente feliz. Dessas dos adesivos dos carros: tipo cinco lacinhos vermelhos.   

Sono

 Muito puto porque em algumas noites peguei umas gatinhas caídas. Daí, durmo muito no fim de semana, e travo na terça. Fico dois dias sem dormir. Daí uma amiga me liga dizendo que tá com uma doença de merda. Isso me deixou fodido pacas. Primeira crise existencial do semestre. Um saco; muita noia. E por aí vai. Daí, decidi ficar mais em casa, o que acentuou tudo, meti solidão no meio. Como não dormi até agora, fiz um café bem forte. Nove da manhã. A vizinha do andar de baixo vai tomar banho. E eu aqui escrevendo. Como dizia: aproveitar o que tá rolando. Mesmo que me leve bem pra baixo.    

Cinema Strange

Viajo todos os dias pra Novo Hamburgo de carro. Cidade que fica a 50 quilômetros de Porto Alegre.  Gosto de dirigir, é quando ouço um som. Não ouço em casa, só no carro e em festa. Notei um dia que já fazia um tempo que tava ouvindo só um disco duma banda. Uma banda bem estranha, Cinema Strange. Tão estranha que demorou um tempo pra eu conseguir ouvi-la de verdade. Eu sabia que a banda era boa. Faz parte dum segmento que me interessa: death rock. Um tipo de som gótico, meio puxado pro punk ou pro metal. Então, gostava do segmento, tinha lido sobre a banda, mas não conseguia ouvir. Já em vídeo descia melhor. A banda era muito estranha no visual: moicanos, roupas rasgadas e coloridas. Especial o vocal: alto, magro, feio. Vestido com roupas de mulher. A cara com pasta d’água e batom. Uma cara de palhaço assassino. Na real, queria ver um show deles. Ou talvez, dançar numa festa. Só que ouvir no carro, era muito pra mim. O som era difícil de ouvir. Barulhento, sem melodia, nervoso. Mais, a voz do vocal não tem referência a outros vocalistas. Aguda, não humana. De mulher, de criança? Isso é o que mais me chamou a atenção. Daí, uma hora, notei que tava ouvindo direto no carro. Ouvi muito. Um momento, comecei a ouvir só duas músicas. Fiquei dias ouvindo as duas músicas, melhor, semanas. Não conseguia parar de ouvir. Ouvi esse som enquanto escrevia esse texto. Uma dose de loucura sonora pra compor a loucura textual. Som sem controle (do Cinema Strange, esquisitão), fazendo a trilha duma literatura que tenta ser descontrolada.  

Revivendo  

Fazia tempo que ele não cheirava. Fazia uns cinco anos. Tinha sido um bom cheirador por muito tempo. Parou porque mandaram ele  parar. Um monte de gente: namorada, pais, treinador, psicólogo, Polícia, pombos, ratos e mais um monte de chatos. Ok, parou, e parou mesmo. Cinco anos sem cheirar. Nesse tempo, virou o senhor bom cidadão. Virou um cara bom, um amor, o filhinho da mamãe, o esposinho que abre a porta. Olhava para o espelho e se sentia orgulhoso. Percebia como os outros olhavam pra ele e se sentia orgulhoso. Empinava a cabeça e estufava o peito não mais por causa do pó, mas pelo orgulho. Até os policiais quando passavam por ele, olhavam com admiração. Só que um dia apareceu um mano. O mano tava com a mão, não muito sabe, só umas cinquenta gramas de pó. E ele deu um teco. E depois outro, e depois outro. Quando viu tinha passado o final de semana e o pó tinha acabado. Daí, ele subiu o morro sozinho e pegou mais umas 20 gramas. Pegou um quarto de motel barato. Esticou umas belas carreiras. Se olhou no espelho e disse pra si mesmo: vou vender tudo que eu tenho. Vou comprar tudo em pó. Quando acabar o pó, vou me dar um tiro, e já era. Decidiu isso porque não queria ficar preso na rotina. É, a rotina do pó: conseguir grana, comprar, cheirar, depois ficar sem, ter que roubar pra ter mais. Incomodação demais. Então, não queria a rotina do pó e, muito menos, a rotina do bom cidadão, do filhinho da mamãe, do babaca que ama uma babaca. Vendeu tudo, comprou tudo em pó. Se enrolou com uma mina muito louca porque ela tinha um ap. Esticou as carreiras. Fez a festa. Uns três meses de festa. Pó, canha, sexo, brigas, grana pra Polícia, bares, putas, muitas pessoas, tudo a cem por hora. Ele sabia que se resolvesse não se matar, a ressaca seria tão grande que acabaria se matando. Ou seja, o tiro na cabeça já era certo. Tava na praia de Ipanema em Porto Alegre. Tava no carro. Não tinha vendido o carro porque pó e carro andam juntos. Tava na praia, tava com as últimas parangas de pó. Esticou uma carreira com tudo que tinha. Deu uma longa aspirada. Botou tudo pra dentro. Esperou o pó descer. Esperou o brilho começar a se apagar. Pegou a arma. Meteu na boca. E já era. Parte dois. Ele namorou-a por cinco anos. Ela meteu-o nos eixos. Fez ele parar de sair, de beber  e se drogar. Ele virou o caretão. E gostava disso. Dizia: agora eu sou um homem. Encarava de frente o pai, não ouvia mais o velho o chamar de “um imaturo que só faz merda”. Tomava cerveja apenas no almoço de domingo. Enchia a cara junto com o sogro. Depois via tv com toda a família da namorada. Viam o jogo de futebol todos bêbados. Ele era novo, tinha 28 anos, mas já se sentia um senhor. Falava sobre casamento. Falava sobre ter filhos. O pai ofereceu uma grana pra montar seu negócio e seguir em frente, fazer sua família. Montou uma empresa. Em pouco tempo, começou a dar dinheiro. Fez uma grana. Marcou o casamento. Todos estavam tão felizes. Ele podia se casar, tinha autonomia que nenhum amigo tinha. Uma semana antes do casamento ele disse: tô fora. Não quero mais me casar. O pai, a família dela, ela, todos ficaram loucos com ele. Mas ficou firme na posição. Primeira coisa que fez depois de toda a novela, foi num bar. Tomou todas com os velhos amigos. Fumou uns baseados, cheirou umas carreiras. Depois foram numa casa noturna. Pegou uma gatinha duns 20 anos. Levou-a pra casa. Transou com ela. Era a primeira transa em cinco anos com alguém diferente das ex-quase esposa. Transou com ela feito louco. Parecia uma transa que nunca tinha experimentado. A coisa foi demais. A partir daí, começou a sair direto. Na sexta, no sábado, no domingo. Em pouco tempo, voltou à ativa do pó, mas de uma forma diferente. Não tava viciado como já tinha sido. Durante a semana o negócio até ia bem. Trabalhava normalmente. Mas não passava um dia de trabalho sem que pensasse nas festas. Na real, pensava o dia todo nas gatinhas, nas drogas. Só que sabia que tinha que ser um lance eventual, senão ele não ia ter como se manter. Tinha que trabalhar. Era sexta, tava na noite. Rolou mais uma gatinha. Levou-a pra casa. Transou com ela. De manhã, ainda tava cheirando umas carreiras na sala, vendo tv. Ela dormia no quarto. Como disse, ele não tava viciado em pó, estava encarando de uma forma diferente o lance. Isso não era o mais importante. O que ele queria era a noite, a festa, com tudo que vem junto, sempre. Mas só tinha a opção da festa apenas no fim de semana. Sentia uma dor por dentro. Daí, decidiu o que fazer.  Vendeu tudo que tinha. Não falou pra ninguém. Vendeu o carro, móveis, o que era seu da empresa. Pegou toda a grana do banco. Foi pra Europa. Tinha grana suficiente pra fazer festa durante cinco meses direto; e fez. Curtiu. Se apaixonou por garotas, curtiu festas, usou drogas que nunca tinha usado. No fim, quando acabou a grana, comprou uma arma. Estava em um quarto dum ap que dividia com estrangeiros. Tomou uma garrafa de uísque.  Meteu a arma na boca, e já era.  





[1] Baixista da banda punk mais famosa dos anos 70, os Sex Pistols. Vicious criou fama principalmente por ser viciado em morfina e um péssimo instrumentista. 

domingo, 16 de outubro de 2016

crônicas fora de controle

Introdução 2

Esses textinhos curtos, impressionistas, posso chamar de lixinhos. São restos, do que vai vir pela frente.  Surgiram de um monte de coisa. Surgiram da pesquisa, de contatos com gente de muitos locais diferentes, das minhas leituras, de coisas mal lidas, que tenho que ver e rever, de pedaços de memória, minhas, de outras pessoas. Aqui atiro pra todos os lados, com a chance certa de erro. Penso coisas que são do discurso dominante e busco linhas de fuga. Não só discurso, mas o que é dominante na vida. Busco isso no que está ao meu redor, sem rigorosidade. Ou o que estava ao meu redor. Escrevi, principalmente, como linha de fuga da dureza disciplinar, da caretice acadêmica, que é a vida que sigo e quero continuar seguindo. Mas experimento a linguagem, as ideias, num barato porra loca da pesquisa acadêmica, da minha pesquisa. Barato louco, drogado, puto, marginal, etc. Claro que o texto não se torna puto; como um livrinho se tornaria puto? Como injetar pó num livro, se ele não tem veias? Como fazer dele um ladrão? Provavelmente, se passar pra qualquer acadêmico que se diz sério demais pra falar algo simples, e muitas vezes carinhoso, como “foda-se” em sala de aula, em seus artigos, nos congressos... se eu passar esses textos pra esse cara, ele vai dizer que eu tô fora da casinha. Vai me mandar pra longe.  Parte por medo, da disciplina, da burocracia, parte por pudor, ou mesmo porque se acha acima disso. Só que mano, eu posso defender minha bundinha acadêmica, dizendo que eu uso essa linguagem, tom, porque os autores em que eu me apoio não medem palavras; posso dizer que tenho influências da geração romântica, então posso falar dessa forma: saca?  Tô usando a arte como potência. Posso dizer que tô fazendo literatura, o que já fiz e, aliás, foi sempre bem aceita, mesmo no ambiente acadêmico, porque na arte é permitido. Mas o que interessa é usar, experimentar pra depois cravar os dentes na pesquisa em sua forma tão branca, chata e careta; cravar os dentes nela... delícia, um pouco de pele, de sangue, de dor, prazer, uma curra por traz no pescoço; contagiar ela, com o vírus, numa transa vampiresca; deixar o vírus agir aos poucos, mesmo deixá-lo adormecido, sem que ela saiba... até que! até que!! Atéé-hummm!!!... ver o que acontece.    

Sid e Nancy

Puta filme. Os dois viciados em heroína. Nancy garota de programa. Sid roqueiro que come todas. Os dois se amam de uma forma punk. Se batem, se xingam, fazem um monte de merda. Sid chega ao final da carreira como músico. Só heroína. Perde show. Nancy se acaba também, daí Sid a mata. Música anarquista, heroína, amor livre, um amor punk.  

Detonação em Porto Alegre

Moro então em Porto Alegre. Merda de cidade do Sul do Brasil. Cidade de merda. Nada pra fazer. Tinha o que fazer quando eu topava todas. Hoje, merda, tô noutras. Só que bem... olha só. Saí com uma amiga na segunda de noite. A gente foi nuns picos. A gente queria conversar. A gente não tinha trampo na terça. Daí a gente queria ficar na nossa, mas na rua. Daí, o que fazer? Não tinha quase nada aberto. A gente foi nuns postos. Eu tava dirigindo. Daí a gente tava numas de café. Muito café, cigarro. Rango a gente tava pensando pra mais tarde. Uma hora a gente sacou que já tinha encarado todos os postos legais. Daí a gente foi pro aeroporto. Mais café e conversa. Daí a gente saiu de lá às 2 horas da madruga. Só que queria ainda dar mais banda. Daí, não tinha realmente mais nada pra fazer. E a gente foi pro ap dela. Beleza. Só que depois das 11 da noite notei que, em alguns lugares, bem poucos, tinha gente. Lugares em que eu não queria estar. Daí tinha gente nesses lugares. E essa gente tava bebendo. Era segunda-feira. Era quase madruga. E os manos bebendo ali na Cidade Baixa. Daí, me lembrei de uns anos antes na segunda, quando eu quebrava todas; quando curtia todas. E segunda era só mais um dia. Mais importante quando era continuação de domingo. Não mano, era continuação de sábado. Mano, podia ser continuação de sexta. Ou de sete dias atrás. E bem... então, segunda, noite. Nada pra fazer. Pior dia da semana. Tudo fechado.  Só que é noite e o cara tá a fim de festa. E depois da meia noite, o cara tá bêbado e cheirado. Daí vai pra cima e pra baixo. Procura lugar com gente. Sempre encontra, mesmo os lugares sendo boca braba. Só que uma hora não tem mais ninguém. Daí o cara tá num carro com mais três caras. Um amigo e dois caras que não sabe como tão ali no carro. Todos tão ligados. Têm ceva. Pó na mão. E querem ver outras pessoas. Melhor, querem ver mulher. Daí o que faz? Acho que por isso que vários puteiros ficam abertos a noite toda todos os dias. As putas são gente legal, topam todas. Tão ali pra fazer o serviço. E assim mano, na real elas são legais. São gente como a gente. Só tão na ruim. Só tão a fim de fazer a mão delas. Então... bem mano, daí nasceu o sol. O carro é metade puta, metade uns caras que comem puta sem preservativo. Eles vão num posto. Eles baixam ceva. Eles se revezam no estacionamento. Fodem feito louco. Todos eles têm namoradas. Todos têm emprego. Eles tão na faculdade. E que se foda tudo. Que se foda os dias da semana e os professores. A futura esposa. O patrão. O superego. Que se foda o sol. Que se fodam os neurônios. Que se foda.  

As vilas de Porto Alegre

Uns merdas de garotos. Hoje médicos, economistas, comunicadores, e tal. Um ou outro fodido. Mas poucos. Os caras tinham 15 anos. E nada na cabeça. Eram caras da classe média que tinham levado bomba em colégio particular. Daí os velhos os colocaram  em colégio público. No público, os colegas todos pobres.  Daí os classe média se reuniram e formaram a gangue dos playboys. Diferente dos outros, eles tinham mesada. E mesada gorda. Tinham cigarro caro que pegavam dos pais. E todo o resto, roupas, bons presentes. Bem, só que caíram em outra real. Começaram a fazer amizade com os caras mais pobres. Uns caras de vila, marginais. Interessante como as vilas e bairros ricos se misturam em Porto Alegre, bem Brasil.  Por isso, essa mistura nos colégios públicos. É cara, um dos bairros mais chiques de Porto Alegre, tipo Assunção, só com casas de milionários... Olha só, casa residencial e riqueza, um lance raro hoje em dia. Cara, essas casas tão do lado de um monte de favelas. Favela da Guaíba. Antes tinha uma mais abaixo que virou shopping pra rico. Mais acima, favela Conceição. Mais pro lado, tem a Funil e, uns dez anos atrás, tinha uma vilinha, a Vagão. E pertinho tem uma das maiores, a Cruzeiro do Sul. Da parte alta da Assunção (olha que massa, o nome do bairro é Vila Assunção, vila de rico) dá pra ver a Cruzeiro. E mais legal, no coração desse bairro de ricos tem um colégio público, que mistura os ricos caídos com os pobres. Voltando, pra história. E cara... os riquinhos entram no colégio levando soco; só que no ano seguinte tão dando soco junto com os manos pobres. Entraram na turma. Daí os riquinhos meio que viram a casaca. O cara tem grana no bolso, mas porra, não vai comprar comida no super. O cara compra e vai ser roubado. Daí, o cara riquinho rouba também. Vai pagar bus? Os manos vão sacar que tá com grana, melhor descer por trás. E por aí vai. Daí os caras crescem juntos. Aos poucos, frequentam as casas. Aparecem amizades que meio que se fortalecem. Daí vira merda. Vira merda já que muitos dos manos pobres já tavam marcados pra fazer merda na vida adulta. E certos manos riquinhos acham essa uma vida legal. Melhor, usam os manos pobres como trafi, receptor, e tudo mais. 

Iggy Pop  

Iggy Pop foi num show dos Doors. Gostou pacas da performance do Morrison. Dá pra notar isso em sua dança. Só que Pop deixou as coisas mais cruas. Bem, o cara tornou urbana a dança do Morrison, que era ritual. Um ritual de xamanismo, pagão, tudo isso misturado com ácido. E ácido, bem, nos anos 60 permitia o contato com algo divino. Além da vida. O lance do Iggy era punk. Acho que isso: um Morrison punk, do subúrbio, da heroína, do lixo da vida real. Heroína torna o cara um rato. Ácido deixa o cara, ou deixava, numas de “vejo deus”, ou até de “sou deus”. E Morrison dizia isso: sou Dionísio, sou um xamã. Pop deixava bem claro: quero ser seu cachorro, nada mais que isso.  

Experimentação da marginalidade

Acho que é melhor falar na marginalidade como um todo. Não pensar só em coisas específicas. Tudo se liga. A prostituta se droga e rouba. O drogado faz michê e rouba. E por aí vai. Daí tem essas crianças. Eles têm entre 12 e 17 anos. São amparadas pela lei. Os de classe média papai faz de tudo por eles. Daí, eles fazem o que querem. Não vão ser presos. Eles não são drogados, michês, putas, ladrões profissionais. Só que eles fazem isso tudo, e parte por curtição. Depois ficam adultos e a coisa muda. A maioria não se torna viciado, muito menos ladrão e profissional do corpo. Pra mim, isso é uma das riquezas da juventude: experimentar a marginalidade, de um jeito espontâneo e sem paranoias. E mais importante: quando adultos, têm a possibilidade de experimentar algo que tava presente na adolescência. Não sendo marginal, mas algo ligado ao marginal, um marginal possível. Pode ser na escrita, na arte. Na relação com a esposa ou marido. Na relação com o filho. Na relação com os alunos. No trabalho, com o patrão ou empregado. Na vida, na relação com a vida. Pode ser até nos pensamentos. Manter o coração com o jovem, o marginal, não como um lance paternalista. Ser parceiro de sua própria adolescência.

Gírias drogadas

Muitas gírias se referem a coisas ligadas a drogas, ao uso, ao usuário. Segue uma lista. Massa: uma coisa legal. Massa é a maconha da boa. Palha, uma coisa ruim. Palha é maconha fraca. Fraca como uma palha.  Na loucura, doido, são palavras dúbias. Podem se referir a um cara do tipo sem noção, um bobão, ou um cara legal que faz merdas que não sujam. Sujeira e limpeza: sujeira com os canas, com os pais, com os amigos. O cara que tá com o filme queimado. Limpeza, um cara tranquilo, um lance que pode ser feito sem problema. Noia é um cara meio sujeira. Que viaja. Viagem: lance também bom e ruim. O cara é uma viagem, é uma figura, é massa. Ou é um viajão, o cara tá fora da casinha. Tipo o cara que pirou da bola. Na antiga, todo mundo falava de artane: uma bola, remédio, que levava o cara à loucura, uma sujeira. Da boa: maconha forte. Fazer a mão: comprar droga. Fazer algum lance, uma história. “Faz a mão então, busca as biras. Dá um jeito”. Frito: o cara que fritou do pó. A ressaca do pó. Que coisa: redução de coisa boa. Droga boa. “Essa é da boa”. Tá ligado: o cara é ligado, antenado. O cara que saca das coisas. Quem tá ligado curtiu uns estimulantes. Desligado, largado: o cara chapado de maconha. O cara que não tá nem aí pra nada. Furar a mão: o cara que não cumpre o que prometeu. “O cara disse que ia estar com o fumo tal hora e não apareceu”. Alto, alturas: o cara que tá podendo; tomou algo bom. Cai da boca: o cara que tá na boca de droga, queimando o filme. Sai fora. Dá um tempo: o cara que larga as drogas pra fazer a cabeça careta. Cabeça feita: um cara ligado, dos bons. Careta: o que não se droga. Careteou. O cara que deixou de fazer a mão. Roubada: ser passado pra trás. O cara compra droga malhada. Melado: alguma combinação não realizada. Melou a história. Melado é o pó que fica no sol e vira uma pasta grudada. O cara só pode pôr embaixo da língua, depois frita. Se queimar, queimou. Queimar a cabeça: usar muita droga. Parece que a cabeça, os neurônios, tão queimando. Ficar burro: usar maconha. Não é só uma coisa ruim. O cara fuma e fica burro, mas numa legal. Legal: inversão de ilegal. O cara faz um lance ilegal, se droga, mas pros drogados isso é legal. Ilegal pro Estado, legal pros manos. Mete a história: tipo: “faz a mão. Dá um jeito”. “Mete a história rápido, a droga rápido. A polícia pode chegar”. Ou os pais. Cortar: misturar droga. Coca com farinha. Cair a casa: dar tudo errado. Polícia atracando o barraco. Enquadrar: sacanear. Tirar. Ser preso pela polícia.  Onda: curtir uma onda, fazer onda. Onda da maconha. O cara viaja em alguma coisa. Fica uma hora divagando sobre algo mínimo. Dar um brilho: fazer algo legal. O cara ligado de pó. Acabado: cansado, falido. O cara que tomou todas, tá acabado. Se acabar: fazer as coisas ao extremo. Fez demais.  

Porto Alegre nos anos 90


A gente tava na Oswaldo. Tava fazendo a cabeça no Bar João. Tava rolando aquelas cachaças da boa. Alguém pegava um copo grande e botava na roda. Aquela merda era muito forte. Um golinho por vez. E de gole em gole o barato batia. A gente ia até outro bar, o Escaler, e pegava um fumo. Uns trafis vendiam ali numa viela sem luz. A gente fumava. Voltava pro João. Pedia mais uma canha. Sempre rolava algo mais. Umas minas vendiam hipofagin e inibex. A gente comprava. É, a gente tava lá. A gente tava curtindo. Chegaram uns boys. Eles tavam de carro. Era uma saveiro. Disseram pra gente: sobe aí, vamos dar uma volta. A gente subiu na parte aberta da caminhonete. Eu, um mano e duas minas. A gente tava doido de bola, fumo e canha. Os manos da direção, os boys meteram o carro na rua. Alta velocidade. E a gente ali atrás. A gente tava passando pelo Parcão, numa descida. Os caras não tiravam o pé do acelerador. Era nos anos 90. Não tinha essa de lei seca. Não tinha essa de que menor não pode entrar em casa noturna. Não tinha essa de que menor não pode comprar cigarro. A gente fazia a festa. A gente tava descendo a lomba ali do Parcão. Na traseira tava o mano, viajando. Junto tavam as duas minas. Uma delas eu tava ficando fazia um tempo. Só que a outra era muito gata. Dei uns beijos na mina que eu tava ficando. Vi que a outra ficou com a cara fechada. Saquei que ela tava a fim. Beijei-a também. Ela gostou. Quando vi, nós três, a gente tava se beijando. Eu com duas garotas. E elas também se beijavam. Primeira vez que fiquei com duas garotas ao mesmo tempo. Primeira vez que duas garotas se beijavam na minha frente. O carro voltou pra Oswaldo. Os boys eram parceiros. Dei uma paranga de fumo pra eles. A mina que eu tava ficando me chamou prum canto. A outra desapareceu. Parte dois. A gente saiu da Oswaldo, eu e um mano. Era no meio dos anos 90. A gente tava doido de bira e bola. A gente passou pela universidade federal. Tava tudo meio escuro. A gente tava quase no centro e passava por uma rua estreita. Daí meu mano disse: cara, tem uma galera ali na frente. Era uma gangue duns 50 caras, blacks, de vila. Eles tinham saído das festas no alto do centro, ali do lado da Santa Casa, e se concentram na rua. Tavam atrás de confusão.  Eu e meu mano, a gente tava doido. A gente nem deu bola e passou por eles. Os caras nos tiraram. Falaram dos nossos tênis de marca. A gente nem olhou pra eles. E eles deixaram assim. Devem ter pensado: esses caras são loucos de passar por nós. Daí, a gente parou numa outra ruinha. Ficava entre o centro e a Cidade Baixa. A gente tava ali esperando o ônibus que não passava. A gente ficou conversando. Putos já que não tinha mais crivo. Putos porque não tinha mais fumo. Mas a gente tava na boa. A rua, a gente já tinha sacado, era lugar que uns michês faziam ponto. Eles pegavam putos ali. Mas isso só rolava de vez em quando. Mas daí a gente não ficou surpreso quando um veado passou e nos ofereceu carona. A gente entrou no carro.  Pediu crivo pra ele. Ele deu. Perguntou se tinha fumo. Ele disse que não tinha. Daí ele disse pra gente: vamos fazer programa? Eu e meu mano a gente disse que topava. A gente disse que podia rolar na Usina do Gasômetro. Lá tinha um estacionamento e ninguém passava. Era junto do rio Guaíba. O veado parou o carro e disse pro meu mano: “quero fazer primeiro com você. Quero chupar você.” Saí do carro. Meu mano tava na carona. O veado tentou baixar as calças dele. Meu mano deu uma joelhada na cara dele. Eu abri a porta na parte que o veado tava. Empurrei ele pra fora. Meu mano veio junto. A gente encheu ele de chute na cara. A gente chutou ele até apagar. A gente pegou a carteira do cara. Ele tava cheio de grana. A gente empurrou ele até a areia. Deu mais chutes na cabeça pra apagar ele de vez. A gente pegou o carro, e se foi. Eu era o único que sabia dirigir, a gente tinha só 16 anos. Meu mano do meu lado, tava tremendo todo. Começou a falar: “será que e gente matou o cara, será que a gente matou?” Eu também tava nervoso, tinha ficado careta com toda a história. Daí disse: “cara, vamos até a Cruzeiro, a gente deixa o carro ali perto. A gente pega essa grana e compra pó. Não se preocupe.” A gente deixou o carro numa rua. Subiu o morro. A gente pegou toda a grana em pó. Deu umas 10 gramas. Tava de boa. A gente cheirou, e daí esqueceu do cara. Nos dias seguintes a gente ainda tava com medo. Podia dar merda, a gente podia ter matado o cara. Mas não rolou nada. Três semanas depois a gente tava no mesmo ponto que tinha pegado o cara. A gente queria pegar mais um veado e roubar o cara e fazer a festa. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

umas crônicas foda de controle

Adolescentes riquinhos  

Uns caras da classe média, filhinhos da mamãe, que vão ser os pais da classe média do futuro. Mas eles não são a versão mais jovem de papi e mami. Eles tão na rua de madrugada num bus passando uma vila, cheio de maloqueiro no bus. Eles tão bebendo vodka de garrafa de plástico e tão fazendo amizade com os blacks. Eles tão de manhã cedo acordando no meio da rua com um monte de gente ao redor na mesma. Vômito no chão e tudo mais. Eles tão subindo o morro de madrugada e são amigos dos trafi. Eles frequentam a casa dum traficante, um cara fodido, com aids, a mulher também, e os filhos do trafi tudo magros e fodidos. Se bate fome e tão sem grana comem até do lixo. Eles transam no mato. Eles fodem em banheiros sujos. Mas meu, eles não tão imitando o bebê que faz caquinha nas calças ou vomita a papinha no peito, meu... eles tão fugindo exatamente disso, ou de repente, tão tornando a impotência da criança na potência. Claro que eles sempre voltam pra casa, para a caminha com edredom. Podem pegar o carro de papai quando fazem 18. Vão pra praia nas férias. Vão pra Disney. Mas entre 13 e 17 anos meu, na noite são como mendigos. Mesadinha acaba na hora com umas pedras de fumo, e o resto do mês...  fazer o quê?  Os garotos sempre pensam, de repente fazer um michê pra conseguir grana. Se for com uma mulher nem precisa pensar. Fazem uns lances de pobre, drogado, veado, puto, maloqueiro, e tudo mais. Experimentação, de tudo que papai e mamãe odeiam. E daí classificam e dizem: isso passa. E é pra passar, não pode continuar, e os jovens vão envelhecendo: aparece carro, viagem,  trabalho, dinheiro.  O cara comia comida do lixo, em meia hora chega o sushi. Ontem tava bebendo vinho de três real, hoje é whisky escocês e red bull. A cola de sapateiro virou 50 gramas de coca, comprada por um amigo já que não sobe mais o morro e nem mais trafica. Transa de pé, mas no banheiro com água quente do  ap, não no banheiro de um bar com um mina pra lá de louca. Catava bituca no chão, juntava e com uma seda fazia um crivo; hoje tá lá o estoque de crivo pro mês todo guardado. A gente pode e é foda, a pobreza que se foda. Não quero nem me lembrar, diz mamãe quando pensa no filho que fumava crack. E o filho diz o mesmo. E mamãe fica braba porque filhinho tá corneando a nora, e lembra ele: você era um viciado. E ele se sente mal. Ela transava com todos os caras e depois chorava de culpa. Tava aprendendo a crescer.  E daí o esposo joga com ela: você era uma puta. E come ela por trás com dor. A mina filhinha da mamãe, o bibelô da casa: transou com o namorado viciado em todos os lugares, o cara comia ela em qualquer lugar, banheiros públicos, praças e ela gostava. A mina era quente demais na cama. Mas sem sujeiras. Era uma puta mulher. Era assim quando tava com o namorado doidão. Mas em casa vestia pijaminha rosa. Comprava artesanatos, brinquedinhos.  Mamãe dava suquinho de maça antes de dormir. A princesinha da casa. Hoje ela tá velha, nem se lembra da juventude. Nem se lembra, mas a juventude tá presente, toda a noite quando toma remédio pra dormir. E ela fecha os olhos e tem pesadelos. Oh, o que foi que eu fiz, eu era uma vadia. Vadia a mãe que fechava a mina em casa; batia nela quando ficava um mês fora de casa na rua sendo um outro tipo de vadia. A das nossas, mano. Daquelas minas do rock que a gente admira. Mina que só os manés falam mal. E ela fecha os olhos quando o marido a come, e experimenta algo relacionado ao passado, mas depois se olha no espelho e diz com culpa: eu sou uma vadia. Deixam de lado a experimentação, põem no lixo. Isso já passou. Era adolescência. Hoje você é homem e tem que impedir a experimentação, principalmente pro seu filho. Odeie a pobreza, a vagabundagem, e tudo mais. Você parece um negro, tá agindo feito bicha. Acabe com o minoritário em você. Não experimente. E a questão não é de fuga momentânea da caretice, mas uma questão existencial. Ele velho, com seus quarenta anos, um tio bem-sucedido, pai de família; ele experimenta um lance meio homossexual quando caminha, e gosta disso; não é muito, mas é um pouco; depois o filho vai dizer “eu sou bicha” e ele vai dizer: curta a vida meu filho. As minorias vão pra rua, dizendo: não nos incomodem; e ele vai dizer: meu coração está com vocês. Não sou pai de vocês, sou uma bichona, mesmo sem dar o cu. A mulher vai chorar enquanto ele a penetra, e ele vai dizer: não chore, você não precisa ter vergonha de ser mulher, quando eu penetro a sua, na verdade é você que está me penetrando; aí o território dos dois aumenta, podem mais. Eu sou sua mulher, enquanto eu penetro a sua, seja meu homem, não aquele que tem poder sobre mim, mas aquele que está do meu lado. Seja puta com alegria. Somos todos veados. Somos brasileiros e favelados. Viva a pobreza. A gente se fode, mas é divertido. Uma grande putaria. Carnaval. Isso que se impede, a alegria contra uma suposta seriedade. Sou um homem sério, sou uma mulher séria. Mas aqui ninguém tá brincando, não é qualquer coisa, já havia dito: experimentação do texto acadêmico. Torcer o pensamento, cavar até lá embaixo, no lugar que tá o demo. Traçar caminhos. Uma hora a gente acerta. Me erra!  

Texto indignado contra os caras do consenso 

Eu tô falando exatamente com você e você sabe muito bem disso. E quando você lê isso, dói as suas... costas, já que eu meto bem onde você quer levar, essa é a real. E eu gosto disso, sou às vezes como você, um filho da puta... mas o lance é você, quem está em jogo... você foi filho da puta por muito tempo. Você deve. Você sustenta essa merda e diz que não. Você diz que é cool, que luta contra a merda. Só que na real, isso é a sua forma de manter as coisas como elas estão. Só que a gente tá de olho em você e você sabe disso. Sua política mantém essa merda mesmo que você diga que lute contra ela. Sua saída é se tornar puta ou puta. A puta que nos fode ou a puta que é puta como a gente. Nós, as putas com alegria.  E você sabe o que isso significa quando você é inteligente, quando é dos nossos. E aí, mané, vai encarar? Já sabe com que tá lidando. SOMOS LEGIÃO. E a gente vai lutar até acabar com você; a gente quer derrubar tudo que você construiu. E você está em tudo, ou tudo está em você. E como é que é? Você acha que eu vou deixar tudo de lado e que vou escrever uma tese exatamente sobre você, toda branca e limpinha, cheia de palavras retinhas, tudo muito veado? Acha que vou dar a real sobre você sem ao menos dizer: eu vou pegar você e vou quebrar você e acabar com você? Acha que vou quebrar sua cara apenas com um texto insípido, como se fosse uma carta branca de paz? Cuspir na sua cara é pouco, e uma tese não faria mais que isso. E todos sabem que você é o problema, que você reforça o problema. E arma branca é pouco. Um tiro é pouco. Eu quero acabar com você e isso vai doer e muito, da forma que você tem mais medo. Vamos acabar com seu mundo. E não com palavras apenas. Eu não deixo minha paixão de lado. Eu quero vida e sangue. Se eu gosto do gozo quando eu trepo, eu quero trepar loucamente e estou fazendo isso agora, trepando com sua vida, fodendo com sua vida. Não basta falar sobre a loucura, estou fazendo a loucura, experimentando... com você agora. Você está faz tempo sentando e calmo na sua vidinha, e a calmaria acabou: CHEGOU A HORA. “Controle-se”, você diz o tempo todo, e isso está dentro de nós, mas agora...  é o reverso. Vamos acabar com o controle, vamos enlouquecer; aprendemos isso na juventude e agora é guerra. “Controle o que você fala e o que você faz. Sente-se como se fosse um âncora de TV. Não fale merda. Escreva de forma insípida. Faça o certo. Enlouqueça longe. Faça o que você quiser longe; não chegue bêbado, ou se chegar: imite alguém sóbrio. Faça as coisas certas. Ou finja que está fazendo arte.” Que você é um cara legal, que curte arte, já que arte é coisa de gente legal, livre. Você entende o significado de indignado. Não é?

Escrita maluquete

Só que mano, tô meio maluquete. Acordei assim semana passada, e depois não dormi mais. Tô meio maluquete, cabeça queimando. Parece que os neurônios tão se indo. Parece não, os neurônios tão na neura. E putz, véio, num tomei nada. Tipo Roger Waters 20 anos depois da fase do doce: “um flash back me pegou, pensei que ia ficar que nem o Syd”. Tô mais pra Waters, mas estar em Waters é ter medo do Syd, nosso Syd. Syd em mim. Mora um Syd no coração de todo cidadão. Véio, figura, mano. Loucura veio pra ficar, e se ficar meu... Já tô numas, eu pirado, saindo pra rua e mandando: mano, trafi, tem uma noia pra me passar? Trafi, tem um deliriozinho só pra mim, do bom pra vender? Mano, trafi, tô a fim de qualquer coisa, pode ser uns tocs, ou até um déficit de atenção. Pode ser até deprê da boa. Me vende aí uma bipolaridade.  Porque se passo o meu lance pros cara da saúde, os cara me trancam, daí vou pro xilindró. E daí o lance é fugir, meu. Sair correndo. E não só noia, meu, qualquer coisa viagem.  Me vende aí uma viragem de 180 graus do cabeção. Pode ser uma viadagem. Umas horas de lésbica. Me vende aí uma cor pretinha, pra eu ficar neguinho. Pode ser uma dose de cigano. Qualquer barato.  Me vende umas horas de sapo. Virar um sapinho e curtir um lance úmido. Meu, tem um lance pra vender tipo norteafricano na Europa? Tipo, cubano nos anos 80 na Flórida? Meu, preciso de qualquer coisa. Cansei de correr. Tô dando volta e tô tonto. O mundo tá muito circular, sei lá. Me passa aí um câncer, me passa um avc, qualquer barato meu. Pode ser um hiv. Pode ser uma dose de qualquer coisa de duas horas, meu. Qual é. Vai deixar o mano na seca? Só não me passa barato ruim: tipo ladrão na cadeia; tipo viciado em clínica; tipo doente em hospital; tipo louco no manicômio. Meu, não quero ar livre, me vende uma poluição. Meu, me trafica um ataque nuclear. Meu, me dá uma radiação, qualquer merda. Meu, me passa aí uma febre religiosa, tipo: amo deus. Meu, me passa um lance meio vadia, transando em banheiro em fim de festa. Me passa aí um barato tipo briga de faca na rua. Meu, me dá uma noite inteira por duas horas, cara. Pode ser também comida transgênica. Rango de super, sucrilhos, doritos. Uma ceva brasileira. Um vinho da colônia. Um mcdonalds. Meu, qualquer coisa. Pode ser até notícia ruim. Meu, me manda uma notícia horrível, tipo: depois de dez anos de revolução nada mudou. Meu, tá vendo que tô sendo flexível. Topo todas; qual é? E aí? Só não me coloca numa fila. E se for engarrafamento, só devido a acidente com mortes. Me dá uma morte aí, meu. Uma morte eterna, no fogo do inferno por duas horas, meu. Muito a fim. Mina feia. Puta com dst. Qualquer coisa. Me dá umas veias cheia de coágulo, abscesso. Conhaque francês falsificado do Paraguai. Me dá uma traição. Me dá uma chifrada da boa. Mas tem que ser junto ao mar. Meu, me dá uma frase: seu cachorro. Pode ser criança chorando; o choro de um monte de crianças. Depois eu pago. Passa agora. Senão, vou cair numas. E pra prisão não volto.

Relacionamentos

Viver uma vida clichê não é difícil. Melhor, difícil é não viver uma vida clichê. Imite um filho, imite um pai, imite alguém incluído; ou mesmo: imite uma bicha. Tudo muito fácil. A gente sabe como agir, tá tudo pronto. Imite um namorado. É só comprar um fone de ouvido, a mina vai falar a tarde toda. Mais sutil: finja que você está interessado. Se o cara não finge, se está interessado, é porque tá fodido... encontrou o amor de sua vida. Vive num conto de fadas, naqueles que se diz de coração: você chupa bem, meu bem. Mesmo que ela não saiba o que tá fazendo. Difícil fingir ter paciência. Impossível. E tem uns caras que querem isso pra sempre. O cara do filme o Homem do Ano (do José Fonseca), diz: quero casar, ter filho, arrumar um emprego. No fim, mata a esposa, vende o filho, larga tudo, cai na estrada. Deve ter prestado atenção no Pereio que diz no filme: são todas umas vingativas, umas chatas, tem que dar porrada. Sobre filhos, Pereio lança outra: no casamento o que é mais complexo são os tipos de merda, tem de todo tipo, nada muda de casamento pra casamento, só a merda. E eu falei acima do cara que tem tesão de gozar e falar: quero casar com você. Uma boa tática pra brochar, isso sim. Outra tática é olhar pra esposa ou namorada de longa data. Mesmo se for bonita, deixa de ser de tanto o cara olhar pra ela. Por isso, o cara tem que ficar na espreita, olhar as minas que tão namorando há mais tempo. Forma mais fácil de pegar mulher bonita. E já faz um bem pra sociedade. Faz elas se sentirem amadas por alguém.

Retorno

Reviver uma história, só se foi suave, sem compromissos. Sem que se saiba muito um do outro. Senão, quando a coisa esquenta, se acrescenta o passado, coisas do tipo; ele: você era uma puta que eu sei. Ela rebate: e você era um filho da puta, que comia todas putas sem preservativo.  Ele, terminando a conversa: Como você? Andar pra trás é um saco; legal ficar cego, sem direção num giro de 350 graus.  

Gatinha 1

Pô, gatinha. Hoje quando chamam você de gatinha, são esses merdinhas que tão a fim duma mina mais velha e gata. Só que pra eles, na real, gatinhas são aquelas que eu chamo de crianças. Você era mulher, 11, 12 anos atrás. Daí eu tinha medo. Só que agora você é a gatinha. Gatinha, sou eu que envelheço. Eu que fico velho, você sempre mais gatinha. E você fica puta quando eu chamo essas menininhas de gatinhas. Mas entre nós é diferente. Você é mais velha, sempre foi... só que quando você sorri; quando seus peitinhos empinam; quando você fala; e você dança quando fala; e quando você caminha e rebola as coxinhas e a bundinha. Mina, você é a gatinha, demais. É, você diz: mas você chama todas as vadias de gatinha, eu sou o que, então? Você é essas coxas delicadas, mas fortes em mim. Essa boca que sabe muito bem o que quer. Daí fico aqui esperando, envelhecendo em uma madeira meio nobre. Só que a gente quer. Você quer. Eu quero. E a gente se encontra. Então, antes que a gente morra. Antes que ele volte. Ou que ele apareça. Ou antes que  a dança vire um bocejo. Antes que a gente vire o que não deve. Seja minha gatinha. Vai deixar essas crianças terem o que é seu? Meu corpo. Deixa assim, mas não comigo. Comigo não vai ser assim. As suas pernas viraram história. As minhas são mais fortes. Isso é bom pra nós. Sem complicação. No gelo você sabe muito bem se virar. Dança bem com o seu terninho de couro. Sabe muito. Só que quando você sorri e geme, meu bem, a gente tá jogando o mesmo jogo. É só deixar de imitar aquele tipo de gatinha. Você sabe mais. Posso tratar você daquele jeito. Você deixa, mas se sente mal. Então, vamos fazer direito. Como deve ser feito. A gente não vai casar. Não vai ter filhos. Vai curtir. E só. Fecha as pernas, meu bem. Mas fecha com o meu dentro. Me machuca que eu machuco, e isso é bom. Como você sabe fazer. E eu faço em você.   

Festa no centro  

Pegava metrô direto pras cidades vizinhas de Porto Alegre. Ia pra Canoas, Esteio, São Leopoldo, Novo Hamburgo, quando tinha entre 13 e 20. Muitos amigos viviam nessas cidades.  Um dia tava no metro. Tava voltando dum campeonato de skate. Era quase meia noite. Aparece um mano. Conhecia meio mal o cara. Só que a gente começou a conversar. O cara disse que tinha brigado com a mina. O cara era mais velho. Tinha brigado com a mina e tinha recebido a grana do trampo. Aproveitei a situação: mano, baixa uma ceva. A gente foi num bar bem no centro. Uma ceva virou umas dez das grandes. O mano tava bebendo feito água. Eu seguindo a onda. Eu morava na zona Sul. Saía só nos picos rock de gente branca. Esse mano era negro. Daí ele disse: vamos num pico que tem som e umas gatinhas. Era também no centro, do lado do Mercado Público. O dia era um domingo. Eu disse, vamos, já que ele tava baixando a festa. O pico era só um salão com um bar. Nada demais. Só que o público era bem diferente do que eu tava acostumado. Metade brancos, metade negros. E a aparência física das minas era... elas eram todas meio gordas.  O som que tava tocando era música regional. O pessoal dançava abraçado. O mano tava doido. Começou a pegar as minas. O cara pegou umas cinco em pouco tempo, umas feiosas. Daí meio que entrei na onda. Tava dançando com uma mina muito feia. Conversando com ela. Daí ela disse que no bar as minas eram todas prostitutas. Só que tavam ali curtindo a noite. Eu pensei: putz... as putas mais caídas da cidade. Daí o mano meio que se grudou numa feinha e ela nos convidou pra ir pra outro pico. No centrão, o mano encarou uns caras. Pediu pó. Os caras venderam. A gente deu uns tecos na rua. Quando dei a aspirada no lance... porra meu, deu um baque. Eu puxei o pó e cuspi. O cara tinha vendido uma merda. Fiquei com medo. O mano nem aí, continuou cheirando. Daí a gente foi pros bares da parte alta do centro, do lado da Santa Casa, um hospital. O som no pico, mais eletrônico, só que brega. Tinha um grupo de minas. Umas bonitas. Cheguei nelas, eram tudo lésbicas. Daí o mano apagou. Dormiu no bar. Eu peguei uma grana no bolso dele pra pagar o bus. Caí fora. Nunca mais vi o cara.   





quarta-feira, 12 de outubro de 2016

umas crônicas do tipo: elas tão descontroladas

Gatinha 3

Gatinha, sou todo teu pra sempre. Amo você gata, muito. E você é gata demais. Linda!  Toca aqui no meu peito. Olha só, bate por você bem forte. Ele tá forte por você. Muito forte e vivo só pra você. E só pra você; pra você pra sempre. E você sabe que é verdade. Pra sempre. Tipo hoje é sábado. Pra sempre, até terça. O meu coração forte pra sempre. Forte pra você pra sempre. Desde hoje pra sempre. Desde sábado até terça. E isso é muito. Você sabe, baby, é muito. É o máximo que se pode ter. O coração que pulsa forte. Pulsa muito. Só pra você gata. Sabe disso. A sua boca faz coisas maravilhosas. Sua saliva é um drink dos bons. E isso misturado com seu sorriso. Com seu cheiro. E não para por aí. Isso que importa... a forma como você dança. E como você dança. Você dança como ninguém. Tudo compondo um lance que me faz ficar muito apaixonado por você. Pra sempre, meu bem... até terça. E sei que estou sendo sincero demais. Eu estou sendo demais. É muito pra mim. O suficiente. Paixão total. E quando você dança seus olhos aparecem e desaparecem entre seus cabelos. E muita coisa que era pra ser importante, não é mais. Não quero saber sua idade. Nome não importa; você é a gatinha, minha deusa. Porque eu sei muito de você quando você fala, sorri, beija e dança. E como você dança gatinha. Dança que vai ficar muito bem guardada. Você vai ficar muito bem guardada. Lá em casa pra sempre. Eternamente. Até terça. Não quero ver você na ressaca do dia seguinte. Neurose não combina com a gente. E não precisa. Depois a gente pega outro sábado e faz tudo de novo. Mesmo que você, daí, já seja outra. Mas vai ser tão bom quanto. As ondas batem. Cada uma diferente. Ainda mais se for um dia, uma festa, uma cidade, um país diferente. Tudo tão diferente. Só que tão bom quanto. Porque eu atravesso a cidade. Eu abro a porta. Só pra ver você dançar. Porque você é gata demais. E se isso não diz muito na boca de “gatinhos”... bem, eu não sou um gatinho. Nasci na selva. Devo ser filho de lobos. Algum felino ou canino selvagem. Então, gatinha me lembra algo.... você sabe;  se  não sabe, deixa que eu mostro pra você.

Gatinhas  

Meu bem, eu posso ser o que você quiser, e não vou ser falso. Teatro não é falsidade. É uma coisa legal da vida. Tem gente que até paga pra ver um teatro. Faço pra você de graça. Não tá bom? Você quer uma peça especial pra você? Você quer aquele lance que tanto quer? Tanto assim?  Então, deixa assim.  Sei bem que o problema é que você não sabe o que quer. Daí vira qualquer coisa. Você sai correndo do meu ap pra me ver. Estranho, não? Depois ligo, você não atende. Pô, baby, teatro é um lance, mas drama psicológico... Você menstruadinha? O lance baby, deixa que eu faço o que tem que ser feito. Eu faço a história. Deixa eu fazer uma história. Um pouco mais do que isso, já que o corpo tá envolvido. Deixa que eu armo tudo. Deixa eu guiar. E não estou sendo o macho que guia. O braço forte. Meu braço é forte, sim, naturalmente. Posso alcançar o céu com esses braços fortes. Então deixa, baby. Sem onda. Sem neurose. Eu sei o que você quer. Está aqui nas minhas mãos. Estou olhando agora de frente pro que você quer. Deixa de frescura. Não precisa me chamar de tio, mesmo eu conhecendo bem sua mãe. E mesmo que seu pai tenha medo de mim. E bem, meu bem. Deixa de ser... melhor, deixa que seja. Sem onda.

Gatinhas 2

Você tá com medo como sempre. Repara em tudo que eu faço. Cada palavra, cada gesto. Tá esperando que role alguma merda. Que eu faça alguma merda. Que eu aponte uma arma. Que eu pegue você na força; amarre você na cama. E eu torne você um monstro como o monstro que eu sou pra você. Gatinhas têm medinho de monstrinhos. Leram muitos contos de fadas. Então, você sabe que eu não sou o príncipe. E isso é bom. Já economiza muita conversa. Mas eu não vou amarrar você na cama. Não vou tirar do armário meus apetrechos. Não vou dar a você uma bela noite de sadismo. Eu vou fazer pior. Tenha medo. Muito medo. Depois do que vai rolar, as pessoas não vão mais respeitar você. Você não vai mais ter coragem de olhar na cara do seu pai. Nunca mais vai sentar no colo do vovô. Não vai mais poder dar selinho no seu irmão. Você vai ser um monstro. E gatinha, eu não estou brincando. Quem brinca aqui é você. Com seus medinhos. Com seu jeitinho de fada. Com sua educação. Com esse seu jeito de criança. E isso... bem, isso já era. Porque chegou a hora. Sou legião, você sabe. E você vacilou. Entrou no meu ap. Bebeu vinho comigo. Bebeu demais, aliás. E você me deixou beijar você. Você entrou na jogada. Agora a chave tá lá embaixo. Joguei pela janela. Não tem mais ninguém por perto. Ninguém vai ouvir você. E você pode rezar. E você pode até relaxar. Você pode me chamar de meu bem. Até dizer que me ama. Mas nada disso vai ajudar você. Porque a jogada agora é outra. Você ficou muito tempo fantasiando que eu era um monstro. E agora eu quero entrar na jogada. Você entrou com a fantasia. Eu entro com meu corpo. Com minha vontade... de enlouquecer, você.   

 Profundidade e experimentação


Tava em um encontro de um grupo ligado aos occupy em Porto Alegre. Era dia 11 do 11. Não sei exatamente por que esse dia foi escolhido, já que tem toda uma carga espiritual religiosa. Só que após um contato com pessoas ligadas às ocupações da cidade, percebi que muitos seguiam algumas formas de religiões, mesmo que não cristãs. Esse encontro era centrado em uma palestra sobre utopia. O mais importante, em um momento, um rapaz que se autodenominou de “o artista”, disse: “hoje é o dia em que todas as pessoas terão a chance de encontrar o verdadeiro amor”. Mais alguns dados: boa parte do pessoal de ocupação em Porto Alegre era de novos hippies. Os hippies foram a geração do paz e amor. Uma garota-okupa tinha tatuado “amor” em sua mão. Outra, em foto de sua página do Facebook, tem as seguintes palavras escritas: um amor. Um senhor que tava passando pela Praça 15 (lembrem-se desse número), praça central em Porto Alegre, numa demonstração dos okupas no 15 de maio de 2012, olhou um cartaz da galera que dizia, “amor”, e falou: “é isso que falta pra sociedade”. No Natal, como sempre, minha tia me enviou um cartão dizendo: “que você tenha uma vida cheia de amor”. Penso o amor partindo do senso comum: um sentimento “profundo” por alguma coisa, de preferência uma pessoa. Um sentimento “profundo”. No caso de jovens a gente sabe que dura pouco, não vira um casamento, isso acontece raramente. Também, o amor não é um lance só pra pessoas de gêneros diferentes; e não significa um lance monogâmico. Isso endurece mais com uma idade avançada. Mesmo que não endureça, em muitos casos. Só que continuam existindo casais de namorados jovens que dizem sentir esse sentimento profundo. Então, o amor é isso, algo muito profundo. Recebo uma mensagem de uma amiga que diz: “espero que você realize os seus sentimentos mais profundos”. No caso, ela não falava de amor. Em uma conversa com meu pai, ele disse que a vida de casado, com filhos, é mais rica, já que tudo é muito mais profundo, as relações são mais íntimas. Pensar profundamente sobre si mesmo cria o autoconhecimento. Pesquisa é um pensamento profundo sobre determinada coisa: às vezes, uma coisa neurótica em cima de um pequeno recorte do real. Os poetas românticos e seus sentimentos profundos. “Muito profundo isso que você disse”. “É uma pessoa profunda”. “Você foi profundo nisso.” Ensaiando: o que são os desejos profundos? Aquilo que está escondido e que deve ser conhecido? Ou aquilo que está escondido, e que não pode ser dito? Tarinhas se encaixam aí, tipo sexuais, que são da ordem do desvio? Só que profundo por isso, e deve ser escondido, ou realizado entre quatro paredes: como aceitar que papais e mamães troquem de papéis quando estão trancados no quarto? Então profundidade, aqui no caso, diz respeito a uma pessoa, suas questões, seus desvios, uma pesquisa, ou duas pessoas, o amor, etc. Uma pesquisa profunda sobre o mundo é impossível. O amor por inúmeras pessoas é menos profundo que a fidelidade. Mas “seja profundo” é uma boa palavra de ordem: na pesquisa, no amor, na terapia. No caso do amigo “artista”, todos querem um verdadeiro amor. A juventude é legal, em parte, pela experimentação.  Os jovens não se obrigam a ter relações profundas. Mesmo que a adolescência seja uma fase profunda, um lance chato. Acho que suas experiências legais são as de superfície.  A questão da festa, ambiente interessante. Um espaço de experimentação, não um lugar escuro no qual se realizem coisas proibidas. Droga é permitida de certa forma, desde que não dê problema aos donos. Os banheiros que enchem de gente pra cheirar pó, três pessoas em um banheiro em que só cabe uma. Também é proibido sexo em público, e pessoas de sexos diferentes podem ficar um bom tempo no banheiro, sem problemas. Casais do mesmo sexo se beijando. Ninguém se importa – claro que depende do lugar. Tudo isso dura pouco, deve durar apenas uma noite.   

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Crônicas Fora de Controle - algumas crônicas

Adolescentes


Caíram da infância mais cedo que os outros. Nenhum motivo em especial. Quem os dava eram os pais, psicólogos, orientadores educacionais. Essa gente lerda e burra que não entende nada. Só que eram novos e não tinha muito o que fazer. Ficar trancados no quarto longe da sala e da televisão. Fugir do pai e da mãe quando convidavam pra ir pra praia no fim de semana. Fazer desenhos no caderno em sala de aula. Só que daí a cabeça começou a funcionar. Sacaram que tinha outros na mesma e montaram a turma. Venderam os brinquedos. Compraram pranchas de surfe, skates e roupas de gente mais velha. Começaram a ouvir e tocar rock n’ roll. Os caras mais velhos começaram a notá-los. Nas festas ofereciam bebidas. Bebiam, se detonavam, enquanto os outros dançavam e tentavam pegar aquelas crianças, gatinhas mimadas. Não tinha mais razão pra ficar em sala de aula. Eram os únicos que saíam na hora que queriam. Os professores tinham medo deles. Deixavam assim. Todos juntos, na frente do colégio, fumavam cigarros. Os caras mais velhos trouxeram uns baseados. Não tinha motivo pra não fumar. Fumaram um, dois, três, quatro, cinco vezes, e nada. Na sexta vez, bateu o barato. Daí, a vida realmente começou. Sete horas da manhã, todos juntos no campo de futebol. Uma turma grande da galera de 13 e 14 anos. Tinham pegado fumo com os caras mais velhos. Um ou dois já sabiam enrolar. O baseado era grande, parecia ser de duas sedas e bem grosso. O baseado passava de mão em mão. Depois entraram na sala de aula. Riram dos professores. Riram dos alunos. E eles faziam as gatinhas rirem. Rápido, já eram um dez baseados por manhã. Depois do terceiro nem mais fazia a cabeça. Almoçavam meio chapados com os pais. Fumavam mais um depois do almoço. De tarde, tocavam com a banda de metal. Andavam de skate. Caminhavam pela cidade. Não bebiam muito, mais no fim de semana. Sexta caíam pra Oswaldo Aranha. Eram os mais novos. Mais novos que eles só as crianças que estavam em casa dormindo. E a maioria da idade deles tava vendo tv com papai e mamãe, ou indo pras festinhas que eles odiavam. Papai e mamãe ficaram putos no dia em que eles chegaram em casa de manhã cedo no sábado. Passaram a noite na rua. Os pais chamaram até a Polícia. Eles disseram pros velhos: agora é assim que as coisas funcionam. Papai achou 100 gramas de fumo. Eles disseram pros velhos: não se metam na nossa vida. Eram novos, mas pegavam as gatinhas com mais idade. Pegavam as de 16 e 17. Mentiam a idade e pegavam as de 18. Bêbados no bar do João, na Oswaldo Aranha, entraram no banheiro. Um cara esticou umas carreiras, todos cheiraram, e eles disseram: a vida começou. Em pouco tempo, não precisavam mais dos caras mais velhos pra se drogar. Aliás, os caras de mais idade começaram a buscar eles pra se drogar. Eles subiam o morro a qualquer hora, em qualquer dia. Terça de madrugada, eles estão numa parte da vila Cruzeiro do Sul, junto do bairro Cristal. Não tem pó no asfalto. Decidem subir o morro com um morador. Tudo escuro. Ruas estreitas. Podiam ser mortos. Entram na casa do traficante. Era uma mina duns 30 anos. Ela pergunta se eles não querem pó de graça; era só deixar ela chupar eles. Um deles diz: eu topo. Ela chupa no quarto ao lado. Os outros ficam rindo: olha só o cara, olha só. Depois disso, ela sempre liberava pó pra turma por uma chupada. Um deles meio que começa a namorar ela. Uma noite, tavam passando pela Vila Conceição. O ônibus tinha deixado eles longe, já que não tinham grana. Motorista filha da puta. Passaram por um bar fechado. No mezanino três caras endolavam uma montanha de pó, os olharam e disseram: tão a fim? Cheiraram as maiores carreiras que já tinham cheirado. Os que tavam endolando diziam: vai fundo meu. Daí, mandaram eles cair fora, mas liberaram de graça umas gramas.  Iam todo dia pro Parque Marinha. Lá, junto da pista de skate, toda a galera se encontrava e daí eles fumavam vários. Uma época uns manos iam até o Gasômetro e buscavam fumo mesclado. Maconha com crack. Eles fumavam de vez em quando, mas o barato era a maconha e o pó. Uma hora só queriam saber de pó e era caro. Então, pegavam maconha e vendiam pra galera no cursinho. Ali no centro de Porto Alegre, naquela praça ao lado do hospital Santa Casa. Todo mundo comprava fumo deles de manhã. De tarde, pegavam a grana e compravam pó. Um dos manos um dia cheirou muito. Tava com 50 gramas na mão. O cara morreu, mas foi ressuscitado por paramédicos. Ainda eram jovens, não estavam viciados. Mas quando acabava o pó doía na alma. Queriam mais e mais e mais. O pai de um deles tinha dólares guardados. O mano sabia a senha do cofre. Eles pegavam e iam pro morro. Os traficantes ficavam felizes em ver grana estrangeira. De noite tavam sempre no Timbuka. Bar famoso no bairro Assunção. Ali fumavam, vendiam, cheiravam. Não tinham medo da polícia. Pegavam o prato e esticavam as carreiras na rua mesmo. Os mais velhos ficavam putos. Só que agora os mais velhos tinham medo deles. As gatinhas estavam sempre em cima. Umas minas meio caídas, mas não importava. Eles liberavam pó pra elas, e elas faziam o serviço. Já tavam fazia anos nessa. Não iam mais pra escola. Já tinham sido internados. Saíam e entravam da clinica. Os pais enchiam o saco, mais os psicólogos, toda essa gente.  Eles só queriam curtir. O que tem de errado em curtir a vida? Eram jovens, o corpo era forte. Os outros, os integrados viam eles como lixo. Com 20 anos, a coisa mudou. Alguns deles pararam com tudo. Outros deram um tempo. Outros caíram na vida, continuaram. Uns morreram de overdose. Outros tão com aids. Os mais espertos, caíram de casa, montaram negócio, se formaram. Só que nos fins de semana tão na noite fazendo a cabeça. 

Crônicas Fora de Controle - algumas crônicas

Os pais, os professores, os alunos e os filhos  


Sempre ouço as pessoas falarem com orgulho: sou o que sou pela educação que meus pais ou avós me deram. Lembro de pais de amigos que impunham algo como fibra moral: não faça festa, estude. Anos depois o filho que sofria e muito com a disciplina paterna, dizia: meu pai me ensinou a ser o homem que eu sou. Se não fosse ele, eu teria continuado a usar drogas, eu não teria ido à escola etc.  Na graduação, notei que os professores mais chatos eram aqueles mais queridos. Os mais duros, os que forçavam a estudar. Lembro de dois paraninfos, que obrigavam os alunos a estudar. O desejo da dureza, da disciplina. Provavelmente, os alunos agora dizem: se não fosse o professor tal, eu não seria quem eu sou hoje. E esse mesmo cara, após o final de semana chega no trabalho se sentindo um merda, já que tomou todas, se drogou. Se sente envergonhado, quando o lembram da sua adolescência. É meu, você usava todas, e agora taí dando uma de pai, de trabalhador. O lado vergonhoso que tentam deixar de lado. Garotas dizem depois que vocês as chifram: vou ensinar a você; uma expressão que circula em tudo. Acho que família, ser pai, ter filho, mesmo com toda a flexibilização, se é obrigado a ser o disciplinador, o cara que vigia e pune. No máximo dá pra fazer uma revisão, uma reforma, mas o que não é muito. É isso: na rua você se fode, em casa você se tornará o bom cidadão. E todos querem ser bons, bons cidadãos, trabalhar, pra ter dinheiro. Legal as imagens do The Wall, na parte dois da música. O professor tendo pesadelos com as punições impostas aos alunos.  Deve ser foda saber que você vai ter que acabar com a raça de uma pessoa, ainda mais de alguém que ama, seu filho. Palavra interessante: vagabundo. Aquele vagabundo que só bebe; aquela vagabunda que dá para todo mundo. Papai não deixa o filho se drogar pra ele não virar um vagabundo. O professor fecha o aluno na sala, não deixa sair pra não virar um vagabundo. Pense e aja de tal forma.  E daí a gente pensa que tá criando uma fuga a partir do campo do saber, pensar melhor o mundo, mas fecham a gente em mais regras. O ensaio é uma escrita vagabunda. O jornalismo é interessante porque qualquer um entende. Notícia ninguém tem prazer com a forma, mas qualquer um pode ler. Crônica algo que dá prazer. Livro de jornalistas: eles sabem muito bem escrever pra todos. 99% de lixo. Mas pro homem comum, o trabalho acadêmico é 100% de lixo. Quem tá certo? Você deve trilhar esse caminho pra chegar ao texto correto. No ensaio você tem muitos caminhos para trilhar, mais fácil de errar. Faça o certo. Mas Cazuza talvez estivesse certo: erra comigo.  Os manos tão sempre certos: não me enquadra mano, me erra. O corredor é uma bagunça, mas ali também você não pode fumar um.  Mas sempre há os lugares especiais que você pode. Procurar um lugar especial no ensaio. Não para ser mais um na massa. Massa de ensaios, qualquer coisa, todos. Todo mundo enlouquece um pouco. Mas você não fuma um beque na mesa ao lado da vovó. Você não escreve um título de artigo do tipo: pau no cu do método. Aja como eu quero que você aja. Papai e professor. Todos conhecem a fundo as disciplinas, dentro de si. A maioria aceita. Eu não quero ser pai, mas quero ser professor.  E a questão não é de autoconhecimento, o poder em mim, mas de pensar o mundo. Estamos no mundo. Mas então há esse mundo, duro, o bom mundo, de papai, dos professores, do trabalho; e a fuga desse mundo, as drogas, as putas etc. o que a gente vive como vergonha. Se drogar não garante nada. A mamãe, a esposa, a vovó, a irmã, a sogra, a cunhada, todas tomam Valium e são as mais caretas de todas. Os pais bebem. Um adolescente com um beque na mão não tem nada na cabeça. Talvez venha a ter. Estava na aula de artes marciais.  Lugar bem interessante, o professor é um PM e todos os alunos são PMS. Daí aparece um gordinho, 13 anos. Cheguei nele: por que você tá aqui? Ele: quero aprender a lutar e emagrecer. Falei: meu, compra um skate, uma bike ou um roller e vai todas as tardes numa pista. Rápido você vai fazer uma turma. Eles vão oferecer cigarros pra você e drogas; vão levar você pras festas; você vai começar a emagrecer e as garotas vão começar a notar você; não só porque você vai emagrecer, mas porque você vai virar um cara legal.  Não ouça sua mãe nem seu pai. Aprenda a mentir.Você deveria ter aprendido isso sozinho, mas como até agora não, eu passo só umas dicas. Qual é? Você aceita ser aluno de um pai ou de um professor? Aceita ser aluno? Faz a sua, mano. Faz a sua. Não encontrou até agora o caminho, problema é seu. Se fecha na estrutura. Política só nas ruas, ou a burocracia. Academia não é a rua. Aqui é o lugar. Torre de marfim, meu bem. Mas como assim, sempre foi assim, é assim em tudo, você quer acabar com nosso mundo? Eu só conheço esse mundo, amo meu pai e minha mãe, quero ser um pai e uma mãe, quero trabalhar, ser um bom cidadão. Isso é coisa de revolucionário de merda! Revolução é quando tudo vai abaixo, os de cima vão pra baixo, carnaval e putaria. As vadias sacaram bem: putaria política, putaria como potência, não como segredo ou sujeira. Diferente quando a esposa e mãe diz pro marido, o qual ela chama de pai: me chama de puta. Só ele pode chamá-la de puta e ninguém pode saber. Depois olha pro filho e se envergonha. Não é qualquer  coisa meu, quando a gente pensa que tá criando, a gente pode estar no erro; mas vamos errar um pouco, uma hora a gente acerta. Me erra meu; qual é?