sábado, 15 de julho de 2017

belas vidas; vidas especiais

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Eu tive amigos com belas vidas. Não eram bons alunos, mas sempre passavam de ano; eram mais calmos, namoravam firme meninas. Sim, se drogavam mas sabiam a hora de parar. Se pintava muita cocaína na banda arranjavam desculpa e iam pro interior visitar os avós. Como não queimavam o filme, os pais davam dinheiro, e isso ajudava em tudo, principalmente em conseguir as minas que não eram caídas. Uma mina, que não tava estudando, que bebia vodka na rua, de dezesseis anos – que podia ser a paixão do garoto skatista que toma todas –, esses amigos de belas vidas nem olhavam. Eles – os da bela vida – tavam nos mesmos ambientes que os malucos: Oswaldo, Lider, Porto de Elis, Araújo Viana, CB. Não era difícil de ver eles com o nariz sangrando, de ver eles com os olhos injetados, de ver eles sorrindo muito loucos; mas só que na segunda de manhã, bem, eles tavam na sala de aula. Entraram cedo na universidade e a partir daí viraram adultos, pessoas estudiosas e sérias, a carreira deles começou aí. Sim, ainda, faziam merdas, mas não se afundavam nelas. Belas vidas, de experimentações, loucuras, mulheradas, mas também de estudos, estudos sérios, que levaram eles pra carreira bem sucedida. Uma vida com belas histórias pra contar pros filhos, mas também com histórias especiais pra lembrar com os amigos no sábado de noite. Belas vidas, mas não necessariamente especiais. As vidas especiais são aquelas que se atualizam de alguma forma na arte. Muitos que escrevem sobre elas, viveram essas vidas. E isso não é algo positivo, de forma alguma; quem gostaria de levar uma vida especial como: a de Jean Genet, o prisioneiro gay? Ou a de Bukowski, o pobre alcoólatra? Ou a de De Quincey, o viciado em morfina, paupérrimo? Ou uma vida como a de Dean Moriarty, o viciadão, morto muito novo? Ou a de Carl Solomom, gay, louco, interno de manicômios? Ou uma vida como a de Dee Dee Ramone, quinze anos, viciado em morfina, michê? Ou como a de Edie Sedgwick, viciada, morta muito nova? Ou a vida da trupe de Miguel Piñero, gays, michês, prostitutas, viciados, mortos por overdose, cirrose, aids? E sim, todos esses foram imortalizados por fazerem arte; mas e aqueles que levam vidas parecidas mas não produzem obra? Os caras da ralé, exatamente os ídolos desses que viraram ídolos que citei acima. Quem gostaria de ser como eles, ser a ralé? Talvez apenas eles mesmos, aqueles que vivem essa vida já que é a única forma possível de vida antes do suicídio.
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Na adolescência, ficava puto já que nunca ganhava nos jogos tipo General, Poker, War. Meus amigos sempre ganhavam já que eu era o mais novo, eles tinham cinco anos a mais do que eu. Saquei que não tinha como vencer, como disse, eles eram bem mais velhos, e, então, vi que a vitória em um jogo não significa nada; é só um jogo. Daí comecei a fazer jogadas especiais, jogadas malucas, ousadas. O skate é isso, pra quem não compete; o cara só busca uma manobra legal. Pular mais alto do palco num show, isso é legal, ousado; como outras coisas idiotas, mas perigosas: beber de uma vez um quarto de uísque; fumar de uma vez um baseado enorme, em um pega; tomar elixir paregórico e vomitar, tomar de novo e vomitar, tomar de novo e vomitar; engolir caixas de estimulantes mesmo que dois comprimidos fossem mais do que suficientes; ter a infeliz ideia de meter uma quantidade enorme de pó embaixo da língua e depois fritar na cama. E tudo isso.... bem, são jogos, brincadeiras de garotos. Só que o cara vai ficando mais velho e tudo fica mais perigoso; pouquíssimos seguem na vida. O gênio do som de Manchester, um idiota, com muito estilo, ele diz: é, me deram uma grana pra gravar um grande disco, mas pra que fazer isso? Daí ele pega toda a grana e compra em crack. E o importante é isso, a loucura e não uma carreira de sucessos. Se faz arte não pra ser alguém de sucesso – apenas uma pessoa boba pensaria que se daria bem por fazer arte, poucos conseguem. Legal é não tentar ser um artista bem-sucedido, mas, sim, ser louco como muitos artistas, e isso já é arte. E quando se faz esse tipo de arte... bem, o cara faz já que não dá pra fazer mais nada. “Eu vou tomar um jeito na vida a partir de agora”, essa deve ser a máxima dos perdedores que se negam a ser perdedores. Em o Homem do Ano, o filme, o personagem principal entra num jogo que o leva cada vez mais pra baixo, exatamente quando decide se tornar um cidadão de bem. Renton em Trainspotting diz ao longo do filme que queria ter uma vida de bom cidadão. Dean Moriarty tentou muitas vezes ser um bom pai. Burroughs largava a morfina, mas continuava na loucura, tomando todas as outras drogas; ele era mais inteligente, entendia como as coisas funcionam. Um amigo meu de cinquenta anos tava em uma clínica e o pessoal dizia pra ele, os enfermeiros, eu mesmo dizia pra ele: cara, você tá velho, a gente sabe que você não vai parar, mas faz a loucura sem queimar o filme, e ele não conseguia não queimar o filme. Muitos pararam sim... Mas quantos morreram? E era isso, é isso: a droga ou a morte. E na real, quando a morte chegar, que chegue. Um dos músicos dos Dolls sai da clínica e compra na hora uma garrafa de uísque. O tio, meu vizinho aqui da banda, na Cidade Baixa, ele é alcoólatra, passa o dia sozinho, quieto, na dele, bebendo sua garrafa de canha com refri. Ele vai pra clínica com frequência, vai e volta. No dia que ele sai da clínica, compra garrafas de Sete Campos e mistura com refri. Bukowski quase morreu já que teve uma séria hemorragia no estômago; e daí o médico disse pra ele: mais um gole e você já era. Um mês depois tava bebendo como gente grande.

domingo, 9 de julho de 2017

idiotices perigosas, mas com estilo


Coisas idiotas sempre rolam, mas coisas idiotas feitas por jovens mini machos são muitas vezes perigosas. Fazer uma coisa idiota e perigosa mas com certo estilo é o que chamo de sarcasmo:

O maninho tenta subir no capô de um carro em movimento e quebra a clavícula. O mesmo maninho manda um segurança se foder e todos os seguranças quebram ele.  

Um idiota coloca o dedo no nariz pra ver se tem pedrinhas de coca dentro; ele também mijava na mão pra tirar o cheiro de maconha.

Cheirou tanto que morreu, mas foi ressuscitado pelos paramédicos.

O carinha que quebra o para brisa do carro com a testa em um acidente, quase morre, mas só se preocupa em esconder o pó já que a polícia ia chegar logo.

Ficou cinco dias acordado, mas dormiu quando tava dirigindo e bateu o carro numa árvore. Acorda com a mão de uma mina afagando o seu pescoço; ela perguntava, a mina: você está bem? Também tinha um monte de gente em volta já que ele bateu na frente de uma loja de conveniência. Ele saca o que aconteceu; não pensa duas vezes: pega a máquina fotográfica que tava no banco do carona e tira fotos do carro; ele faz isso na boa e nem notou que tinha quebrado o nariz.  

Sete guris dentro de um carro em alta velocidade, o motorista freia de forma brusca no sinal vermelho e quase rola um acidente, e mais, conseguiu fazer isso ao lado de um carro policial; daí rola uma batida. A polícia diz pra galerinha acompanhar eles, tavam presos; um deles pensa: legal, a gente vai ser preso!

Subiram terça de madrugada o morro.

O carinha toma chá de cogumelo e resolve ir pra casa. Chega lá e tem visita, os amigos dos pais. Ele se direciona pra dar “oi” pra todo mundo, mas fica olhando o teto, já que o teto tava derretendo. Percebe o que tá rolando e sai correndo.

No alto da Duque, naquele bar só de traficante, os maninhos cheirados dão 200 gramas de fumo prum cara, pra ele vender. Esse cara vai vender na rua abaixo, mas quando volta, diz que assaltaram ele. Os maninhos ficam com cara de idiota.

Sete horas da manhã numa vila da Zona Sul, a gente fuma um baseado com os trafis e um deles nos aponta uma arma; a gente sorri e diz: legal cara, uma arma! A gente pode ver ela? O trafi deve ter pensado: eles são idiotas.

Ficou sabendo que Manson, o vocalista, tinha fumado ossos humanos. Foi numa vala de indigentes no cemitério, achou ossos; quando chegou em casa, triturou e fumou. 

Depois de três overdoses, ele sacou que podia tomar qualquer coisa, tinha corpo fechado.

Bêbado e muito louco deu um cavalo de pau numa ruela qualquer e quebrou uma roda; continuou, deu outro cavalo de pau, quebrou outra roda. O carro não andava mais. Acordou em casa, lembrou dessa história, mas não sabia se era real; olhou o carro e tava tudo na boa. Quando foi pegar o carro, viu que as rodas eram diferentes das antigas. Ligou pro mano, que disse: você trocou as rodas originais por velhas com uns caras duma oficina.

Agarra uma mina feia na casa noturna; tava tão louco que abraça ela, diz que a ama, leva pra casa e a come.

Comia a traficante pra ter pó de graça.

Entra no banheiro feminino e uma mina tava fazendo xixi; ela diz: não toca em mim; ele fica olhando. Depois dela mijar, ele a agarra e pede pra ela chupar ele; ela começa a abaixar a calça dele, que diz: gata, não faça isso, não chupe o pau de qualquer um num banheiro público.

Comeu a mina dum traficante. Dias depois tá na Osvaldo, tava lá bebendo em uma roda com uns manos, e ele sente uma explosão na cara e cai no chão atordoado; o trafi quebrou uma garrafa na cara dele.

Tava caminhando na rua de noite, vê uma mina e a agarra a força, ela deixa, mas depois sai correndo.

Bebe canha numa praça na frente do colégio Julinho junto com moradores de rua. 

Os gays velhos iam na pista de skate pra pegar os garotos. Uns da turma só davam uma banda com os gays, que ofereciam maconha, bira, pó; mas outros, faziam um programa completo. Com um programa já dava pra comprar rodas novas pro skate.

Não sabia em que bairro tava, não sabia quem era, e não tava nem aí.
                                             
Na casa de alguém, numa festa, entra no banheiro com duas minas, e eles ficam se curtindo. Uns caras que tavam na festa batem na porta e dizem: meu, você pode ficar com uma mina no banheiro, mas só uma. Vinte anos depois, o mesmo cara tava na fila do banheiro dum bar na Cidade Baixa; tinha essas duas minas na frente dele, e elas entram no banheiro, ele entra junto. O banheiro era grande, com bastante luz. A mais bonitinha se abaixa e faz xixi daquele jeito que elas fazem pra não tocar a bundinha no acento. Ele olha ela e ri, ela olha ele e ri. A outra fica mais de canto, mas tavam os três ali. Ele que era meio bobo beija a bonitinha. Ela diz de forma sacana: ai, o gatinho quer carinho. Ele diz: olha só, tá no início da festa, quero curtir mais um pouco, depois a gente faz o que deve ser feito.

Arrebentou a porta do ap já que tinha deixado a chave do lado de dentro. É, teve que arrebentar já que tava com duas amigas prostitutas e queria fazer a festa. Na mesma noite elas disseram: cara, a gente podia trampar juntos, a gente faz programas no teu ap, você cuida também da segurança, metade da grana pra nós, metade pra você. Ele não achou uma má ideia, mas era muito novo pra pensar em grana. 

Tava em uma festa, Cidade Baixa de novo, conversando com uma mina bem bonita. Ela diz: quero te comer agora; ele diz: aqui não rola. Ela diz: vamos pra tua ou pra minha casa. Ele diz: vamos sim, e vai ser demais, só quero resolver antes uns assuntos com um pessoal. Ela pergunta: você é viado? Ele diz: não aluga, a noite é longa na minha casa. Ela diz: não gosto de viados. Ele diz: ok, mas eu gosto. Depois disso voltou bravo pra casa sozinho, se perguntava: como uma mina tão bonita pode ser tão idiota?

Esfaqueou a namorada. Depois disso ela mostrava a cicatriz pra todo mundo e dizia com orgulho: isso foi uma prova de amor.


Naquele bar na parte alta do Centro, ele ia com a mina, eles tomavam umas. Como o bar era cheio de gente, os dois simplesmente saiam sem pagar. Só que um dia, nesse bar, ele cheirou uma paranga que tinha comprado ali no Mercado Público; ele cheirou no banheiro e desmaiou, acordou e caiu fora. Não sabia que veneno de rato era a nova onda.  


sábado, 24 de junho de 2017

por uma teoria suja

                                                       
                                    Cartinha de Amor para Maceduss 

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Pintou sujeira, rolou sujeira, o sujeira tá na banda, seu sujo, seu imundo, seu porco. Um texto científico deve ser limpo, o mais possível. A cidade tem que ser limpa, a casa limpa, o corpo limpo, perfumes, pratos especiais. Da Vinci odiava a sujeira da peste. Acabaram com as Passagens de Paris. Prefiro bombas de efeito moral desde que saia do cú de um porco. O Rio Sujo é nosso cenário de fim de tarde; sujo, podre, com urubus e peixes mutantes que apenas os urubus comem. Um urubu come carniça já que tem estômago forte; gosto mais de um bom fígado. Mijam na rua, no Centro, o cheiro é delicioso. Os crakeiros são nossos vizinhos. Os moradores de rua, sujos, os guardadores de carros, sujos, são nossos amigos. Os pombos, ratos com asas, a gente tira foto com eles, ali na frente da Prefeitura.   
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João Gordo não tomava banho e os caras do Sepultura, na boa fase, eram moleques podres. Johnny Rotten. GG Allin o grande sujo. Dirty Harry. Os Skrotinhos. Fresh Fruits for Rotting Vegetables. Porcos em decomposição nos shows de bandas de Black. O viciado em morfina não toma banho. Dar o cú é algo sujo, suja o lençol. A gente lambe elas e elas nos lambem sem que a gente e elas, sem que todo mundo tome banho. Catarro tá ali dentro, pronto pra ser jogado na calçada. Merda tá ali dentro, mijo, suor, uma hora saem de dentro, mas ficam a maior parte do tempo dentro. O ciclo de merda de um filme do Pasolini. Feios sujos e malvados. A gente ficou uma semana sem tomar banho já que tava rolando a festa. Porcos, galinhas no galinheiro. Santa Bosta de Vaca; Deus Cogumelo. Maconha fungada. Chocolate com pelos de rato, gosma de barata, larvas. O maninho que trampa no McDonald's cospe no Mac Lixo Feliz; viva Bob Cuspe!
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O Mano chega com uns lances vermelhos na boca, lambeu uma bocetinha da onda vermelha. Chuva vermelha, porra perolada, chuva negra; cospe em mim! Minha namorada trabalha na rua e chega em casa com aquele cheiro depois de dar pra todo mundo. A estética da fome, a estética daquele que não toma banho já que não tem banheiro público com chuveiro. Se dão o cú no Centro naquele banheiro público, porra os caras podiam meter uns chuveiros ali. O gari que limpa a sujeira é sujo. Toneladas de comida em decomposição. Estamira, a estrela do lixo mais famosa do Brasil. Pau no cú do Joãozinho Trinta, lixo não é espetáculo seu Trinta. É, nazismo que era limpinho, asséptico, com aqueles cabelos ridículos. O presidente faz plástica pra ficar com visual mais limpo. O museu, a galeria são hospitais? Pelo menos no hospital a gente pega infecção hospitalar. Menos pior. O mauricinho lava o carro. O hipster tem a barba mais limpa. Aromaterapia. Cheiro de café quentinho, cheiro de infância; infância, sua puta! A gente prefere Iggy Pop, que tirava meio quilo de ranho do nariz e comia, e a mulherada adorava. Gostava dos abcessos no braço do Dee Dee Ramone. Queria dar um beijo no rosto do Lemmy quando ele tinha furúnculo na cara. Queria beijar a boca dela: meu herpes com o dela. 
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Maceduss só fala palavra de ordem, repete os mesmos clichês faz anos. Ele era amigo daquele que Te Meteu o Pinto. Maceduss queima filme, Maceduss é nóia, Maceduss é lixo; saco de lixo na cara suja, pra esconder a cara suja. Maceduss chama atenção da polícia, daí a gurizada não gosta do Maceduss. Maceduss passa a mão na bunda de todo mundo. Maceduss nunca será Marcos, nem Anonymous. Maceduss é viadinho, não dança nem pega mulher. Maceduss é um tipo de paródia de merda de Debord; sub situacionista. Maceduss é tão ruim que toca menos que Sid Vicious. Maceduss é a nossa vadia. Todos somos vadias, dizem as minas da marcha; é, todas são Maceduss. Mas quando não resta mais nada, a música morreu, eis que surge: Maceduss.
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O noise existe pra que a gente não morra... de tédio. A voz da Madonna, ela podia calar a boca quando eu meto nela. Fazer barulho com estilo é o que chamo de noise. Noise pixa a música. Noise é sujeira não é música. Pra que a gente precisa de música se tem o noise? Black Metal Lo Fi, pedal de distorção virou coisa de criança, som industrial, britadeira no ouvido, gutural de pulmão sujo. 
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Pureza, coca pura, anfetamina pura, codeína pura, corpo podre e sujo, e quanto mais, melhor. Nariz sangrando, veias que já eram, fígado que já foi. Matar células, acabar com a saúde, é melhor que parque de diversões. Mete o pó, mete o noise, faz a mão e FIM.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

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Já tentei inúmeros tipos de estilos desde quando comecei a escrever. Meu primeiro trabalho era de contos sobre realidades delirantes. Em determinado momento escrevi um livrinho de poemas conceitual, com linguagem de rua, mas que não funcionou e ficou esquecido. Amadureci meu trabalho com um livro de crônicas, também conceitual, que se centra em minhas experiências principalmente na adolescência. [........] O estilo deste livro difere do estilo das crônicas do terceiro capítulo do livro anterior publicado neste volume, mas há proximidades. Como já disse na primeira parte do outro livro, este é uma linha de fuga, um aumento de território, a tentativa de produzir o descontrole, de enlouquecer pelo menos na língua. Deleuze fala em gagueira, estrangeirismo na própria língua [.....] Aqui fujo da língua dominante dentro dela; e gírias, expressões de rua mostram a sua maleabilidade. Certas turmas em certas estações, certos guetos em certas estações, os jovens, os marginais, os drogados criam expressões que só têm sentido para eles nesses momentos, e o que eles fazem, é poesia, considerando poesia como um devir menor da língua. Eu uso aqui muitas expressões dos inúmeros guetos que pertenci, e aliás, mesmo sendo doutor, eu não consigo fugir de certos vícios de linguagem de rua, quando falo, seja em aula, palestra, o que for e que se foda. [........] E não só em relação às expressões, alguém chapado de maconha, morfina tem um ritmo de fala diferente, mais lento, pausado, baixo, calmo. Alguém louco de cocaína ou anfetamina tem uma fala rápida, dura, sem respiração, direta [...] Quem está louco de coca não quer parar de falar, por isso, conta histórias em detalhes, os mínimos detalhes para prolongar ao máximo a fala [....] Ele, o cheirado, não quer contar uma história quer apenas falar. [...] Membros da trupe de Andy Warhol gravavam conversas presenciais ou por telefone loucos de anfetamina.  [................] A ideia do texto que segue surgiu quando eu com frequência comecei a pensar em frases sem sentido. Me perguntei se seria possível escrever algumas páginas com frases do tipo. Fiquei espantado que escrevi de forma fluida o que será apresentado posteriormente. [........] Há um ritmo em todo o texto, variações, mas todas as frases foram escritas e editadas para serem lidas, apresentadas em voz alta. A linguagem da rua é a fala, dificilmente é atualizada na escrita, por isso a importância da poesia, registrar esses fluxos linguísticos. [...............] As frases absurdas que compõem o texto, mesmo as mais absurdas, que talvez sejam impossíveis de serem lidas, foram escritas de tal forma que posso declamá-las. No trabalho de revisão, e foram muitas revisões, manter o ritmo foi central. Ou seja, as frases não foram simplesmente jogadas no texto, elas passaram por um tratamento rigoroso. [........] Todas as frases são curtas. Frases curtas permeiam meu trabalho literário. As frases curtas ajudam no ritmo; é mais fácil de narrar, ler, uma frase curta; e como as frases são absurdas ou se conectam com outras de forma absurda, quanto mais longas, mais difícil seria de manter esse ritmo. Sempre achei pequeno burguês frases longas, escritas por aqueles que têm total domínio textual, que se permitem escrever frases de muitas linhas para mostrar seu domínio. Textos escritos para pequenos burgueses, os que que conseguem manter a leitura de frases que nunca acabam. [.....] O carinha de rua, o jovem, o marginalzinho, ele fala rápido e muitas vezes essa fala é composta apenas de gírias, expressões de rua [......] No texto há graduações de absurdidade, de falta de sentido, essas graduações se referem às experimentações, ao mapa que fui montando, pequenas diferenças internas, as quais busquei, mas sem sair do conceito do texto. Me perguntava: quanto posso enlouquecer, quais novas linhas traçar, mantendo o conceito?  [........................] O texto é dividido em blocos, os blocos não narram histórias, há muitas frases isoladas, que não se ligam a outras, porém, algumas frases se conectam a partir de um possível sentido. Há um narrador, alguém, uma primeira pessoa que fala para outros. Há sujeitos, algo como personagens, mas eles não agem, não tem história, são citados a partir de um humor peculiar. Há humor, e muito, pelo menos para mim. Também estão presentes alguns elementos de cultura pop, cultura drogada. Palavras de baixo calão estão em todos os blocos, além de gírias e expressões de certos guetos de jovens e drogados – aliás, se histórias forem buscadas em certas partes podem ser encontradas, pelo menos por mim, e são histórias referente à sexualidade livre e ao uso de drogas. O texto pode ser recortado, como se quiser, pode ser lido de qualquer forma: é um caos, mas organizado... Ele foi finalizado quando atingiu o tamanho mínimo de um livro de literatura já que talvez nem tenha sido feito para ser lido. [....] Mas como disse:  o texto não é espontâneo, não são palavras jogadas na tela. Escrevi com calma, li e reli, reescrevi, tirei muita coisa, coloquei coisas novas. É necessária uma tal rigorosidade para se criar um trabalho absurdo e caótico, considerando que quem escreveu “Diego este que fala” é um bom cidadão, criado na academia, doutor. E mais, considerando que tenho experiência na escrita, que não sou naif sempre estudei literatura e artes, sei que tentar enlouquecer na arte pode se transformar em qualquer coisa. Esse tipo de exercício é importante, já que se realiza em um meio em que posso enlouquecer sem ser preso: a literatura; ou seja, é quase medicina. [....] E isso já permite um grau de loucura para o leitor. Se alguém enlouquece na rua, na sala de aula, em casa, no trabalho, pode ser preso, mal visto ou internado. Gosto de ser mal visto. Enlouquecer é buscar linhas de fuga dos padrões – a prisão – dominantes. Enlouquecer na escrita; um pouco de ar, vida – louca vida.   

sábado, 13 de maio de 2017

curtições


Dia de semana, fim da tarde; notei alguns caras – o que me pareciam guardadores – em volta de dois carros. Notei que eles olhavam para dentro dos carros. Voltei a escrever e no cigarro seguinte fui para sacada, e tive a sorte de ver os dois carros, grandes, caros, serem abertos no mesmo momento; e mais, saíram no mesmo momento. Obviamente, foram roubados por aqueles que estavam em volta deles. Mas o mais importante, me perguntei se eu delataria uma ação desse tipo. Carros caros, comprados por cidadãos de bem, gente próxima a mim, roubados por ladrões de rua. Eu não tenho nenhum apreço por ladrões profissionais, que desejam ser ricos, como não tenho por banqueiros, políticos. E quanto ao cidadão de bem, que compra seu carro com esforço, um dos grandes bens de sua vida? Tenho algum apreço por ele? O defenderia daqueles que precisam, ou mesmo querem, ir às ruas para roubar? Deleuze e Guattari eram ladrões profissionais, e os admiro. Eu sou um ladrão pé de chinelo, e não estou procurando ser admirado. Sempre quando ouvia a palavra “doutor”, ficava com medo, pensava: alguém muito importante está próximo. Hoje, ser doutor para mim significa muito pouco. É interessante como o empresário cheirador de pó, yuppie, o pesquisador alcoólatra, a dona de casa que toma valium, como esses são tão bem aceitos socialmente; o que não acontece com o ladrãozinho pobre que rouba para manter seu vício. O empresário se orgulha de si, se sente feliz por não ser um ladrãozinho. O intelectual se considera especial, por pensar o mundo, como se pensar fosse algo restrito a poucos. E eu estou no meio disso, não estou livre, sou mais um; melhor, menos um. Rimbaud dizia que era um negro. O Beatnik era negro, melhor, white negro. Os White Phanters queriam ser negros armados. Negri foi um presidiário. Deleuze foi um fraco, suicida; Hemingway e Thompson também. Bukowski, o vagabundo; os ladrões, viciados, gays como Burroughs, Jim Carrol. Vagabundos, presidiários, michês, suicidas, ladrões, me sinto bem com eles. [.......................] Há toda essa tradição, na literatura, no cinema, na música, nas artes em geral que tratam do excesso, da vida em excesso, dos prazeres diferenciais. Na literatura para citar alguns: Baudelaire, os Beats, Bukowski, o Gonzo, Piva, Huxley, Artaud, Pepe Escobar, Breton, Blake. Os Beats são centrais pelo contado deles direto, físico com a contracultura norte americana. Burroughs, o Beat com mais idade, é considerado pai da arte pós-moderna. Sua escrita era tão radical quanto seus excessos.  Kerouac, o escritor desse livro tão importante para a geração da contra cultura, On the Road, produziu uma escrita que está na borda entre realidade e ficção. A vida dele era tão rica que se negou a escrever algo além dela. Kerouac ajuda na escrita etnográfica, já que ele fez seu trabalho de campo pelos Estados Unidos e o narrou em seus livros. Bukowski se irmana a Kerouac, já que ambos mostram realidades duras, da estrada, da pobreza, da narcose, do alcoolismo.  Se os escritores apresentavam eles mesmo suas loucuras em suas obras, as vidas de muitos músicos, tão loucos quanto, são expostas principalmente pelo jornalismo alternativo e cultural. Documentos sobre os músicos que surgem a partir do sessenta – talvez o início de uma tradição de suicidas, drogados, sexualmente perversos – são muitos, em formato de vídeo e texto.  São tantos, que afirmam o fascínio por essas vidas singulares. No rock é muito comum a criação de guetos, micro fascismos; muitos fãs se apegam a um estilo e rechaçam todos que destoem desse estilo escolhido. Porém, no que diz respeito ao excesso, estilos diferentes se ligam, há esse comum entre a psicodelia, o pré punk, o punk. O pop vende a imagem do artista belo, jovem, saudável, o pop é uma música para o bom cidadão. Entretanto, são muitos os artistas vendidos dessa forma, mas que têm vidas desregradas. No rock, marginal, o estilo de vida desregrado é mostrado de forma descarada.  E como já me perguntei no livro algumas vezes: por qual motivo valorizam essas vidas que parecem não ter valor? Vício, abstinência, prisão, temporadas em manicômios, ressacas longas e duras. O que todos eles mostram é que a vida cotidiana é insuportável, por isso, preferem os excessos mesmo que sejam extremamente dolorosos. É melhor o risco da morte do que a vida das pessoas comuns. E não fazem isso para se ser uma pessoa especial, já que um viciado não é alguém especial é um pária; e mesmo se é glorificado pelo que faz, ninguém ficaria feliz em ser um. É comum dizerem que as drogas ajudam na criação. Talvez em certo momento, antes da prisão do vício. Fascina muito mais quem está de fora, o fã, do quem está por dentro, o viciado pesado. 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

tomações


No fim da tarde, quando começa a escurecer, a vista fica mais bonita, com as luzes dos prédios. Agora, pessoas se reúnem em grupos pequenos no Largo; alguns fumam maconha. Depois da hora de pico os carros passam com mais velocidade. Como estou sem internet, a vista é minha tela. Fiquei dez anos no ap. antigo. Fiz as contas e o que gastei de aluguel – nesses dez anos – daria para comprá-lo. O mais curioso é que eu estava para locar um outro apartamento, que coincidentemente era da mesma proprietária desse ap. antigo. Talvez ela tenha comprado o imóvel com o meu dinheiro; e eu continuaria sendo sugado por ela. Aprendi na prática como o inquilino está à mercê do proprietário. Porém, há uma liberdade em alugar, não ter um imóvel, ter pouco, não ter laços fortes, isso para mim é importante. Ter pouco a perder, essa é a alegria do vagabundo. Ele tem seu corpo, sua linguagem, seu carrinho, seus desejos. [.................] A Cidade Baixa é um dos bairros de Porto Alegre com maior número de moradores de rua. Aqui na frente, numa praça junto ao Largo, se reúnem muitos deles. No bairro, uma mulher que pede esmolas volta e meia desaparece e reaparece. Em 15 anos vi ela grávida inúmeras vezes. Na República, uma das ruas mais bonitas da Cidade Baixa, há um outro morador de rua, com idade avançada, que está ali faz uns seis anos. Também o bairro tem muitos guardadores de carros, jovens, que possivelmente não têm moradia. Além disso, junto a um conjunto habitacional, faz alguns anos, um grupo grande passa o dia junto a colchões e colchas velhas. O bairro também conta com um albergue popular e seu entorno (do albergue) reúne essas pessoas que possuem apenas o que podem carregar com as mãos. E mais, o cartão postal da cidade, nos últimos tempos, aglomera tendas em toda sua extensão, se tornou espaço dos que não têm casa – é o Viaduto da Borges, que fica a três quadras daqui e o veria se não existissem alguns prédios que tapam a vista. A prefeitura volta e meia desaloja o pessoal, mas eles sempre voltam. Interessante é o fato de que o Viaduto já foi palco de batalha entre manifestantes e polícia, principalmente em 2013. [.......................]
Em 2013 jovens saíram do Centro e vieram até o Largo. Ali, lutaram contra a polícia, depredaram carros e edifícios. Nessa época, eu e um amigo, numa segunda feira, estávamos no local, em um encontro de um coletivo libertário. Meu amigo queria tomar uma cerveja; eu disse: vamos, mas depois voltamos. Atravessamos a Perimetral e vimos junto a uma praça um bloco policial, todos policiais armados e em posição de ataque. Passamos por eles. Os policiais, por fim, não agiram contra o coletivo, mas como a cidade estava “muito quente” na época, eles faziam o controle. As brechas na cidade não são poucas. O controle não é absoluto na cidade pela própria estrutura dela. O poder quer que as linhas de fuga não existam, mas existem. [........................] O nojo dos cidadãos para com os moradores de rua mostra quem eles – os cidadãos – são; odeiam qualquer coisa que macule a cidade que deve ser higienizada, modelada – é, eles desejam o controle.  Os moradores de rua, são os sujeitos da vida nua, despida de bens, eles praticamente não consomem, não tem moradia, são feios e sujos, vivem do lixo. Mas são uma das diversidades do tecido urbano. Não é uma pobreza voluntária e esse é o problema. Porém, a riqueza deles é algo que deve ser mapeado.    
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Essa minha relação afetiva com a cidade é muito antiga. Quando comecei a usar maconha – diariamente, três, quatro, cinco, mais baseados, isso com treze anos – gostava de fumar principalmente, antes da aula, de manhã, e enfrentar a rua; era o primeiro “beque” do dia e assim fazia efeito. Eu gostava de contemplar, sentir o início do dia chapado. Eu pegava ônibus, ficava na janela e olhava para a rua como se estivesse vendo um filme. Curtia, também, quando ia fumar com meus amigos mais velhos de carro. Era a mesma sensação, o para-brisas como tela. Quando estava sentado do lado do motorista, ficava olhando o espelho retrovisor que parecia uma pequena televisão. [..........................] Minha primeira crônica foi sobre o trecho de uma estrada que vai de Porto Alegre até uma cidade vizinha; minha primeira reportagem foi sobre a noite na cidade. Na monografia trabalhei com a vagabundagem urbana. Parte da tese dediquei à cidade de Barcelona. [............] A questão afetiva sempre moveu meus trabalhos, por isso, não me encaixo na identidade ideal de pesquisador, de cientista. O que move meu trabalho, sempre, é o afeto. Considero que é impossível pensar o mundo, a sociedade em que vivemos, sem sentir dor, medo, frustração e, até mesmo, um sentimento perigoso como o de insuportabilidade.  Mas, como as linhas de fuga estão sempre agindo, como a multidão produz, resiste, deseja, pensar nisso permite afetos nobres, como paixão, alegria. E como ou por qual motivo abstrair isso – o afeto – se está sempre presente? Falar de forma aberta, franca, demonstrar os sentimentos, não se perder em uma assepsia própria a ciência é uma falha, um erro? Sim, é um erro, mas eu gosto de errar. Quando falo “eu” (e isso é frequente aqui) afirmo minha posição afetiva, tento fugir da fala impessoal acadêmica; mas obviamente ‘eu’ não diz muito. Dizer “EU” é rotular, criar uma fotografia que nega os fluxos, as conexões, os agenciamentos. O livro está cheio de memórias pessoais que dizem respeito a esse “eu”, mas foi a forma que encontrei para pensar certos coletivos e os processos que passam as cidades. Como já disse, há contradições no meu trabalho, claro, pois é uma experimentação.  
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[....................] Como havia pessoas no pátio dessa ocupação aqui perto – que eu estava rondando faz um tempo – eu abordei o pessoal e disse: olha, eu pesquiso okupas, eu passei aqui na frente inúmeras vezes, vocês devem ter me notado, estava com vergonha de me aproximar de vocês, já que eu sei que o pessoal antissistema não gosta de pesquisadores, mas gostaria de falar com um de vocês, fazer perguntas sobre o funcionamento do espaço, como ele está sendo gerido [..............] O coletivo, no momento, era formado por garotas, já tinha notado que a maior parte dos membros eram mulheres. As garotas me interrogaram e muito, disseram que eu deveria saber que eles não são abertos ao diálogo, pelo menos com gente como eu, um pesquisador. Notei que elas estavam incomodadas com a situação. Quando vi que não haveria realmente diálogo eu disse: peço desculpas por ter vindo aqui, não vou mais passar na frente do espaço, admiro vocês, que vocês fiquem bem e que dê tudo certo.
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[...................] As pessoas pensam sempre no futuro, desejam um bom mundo, mas que sempre está além e, por isso, não dão importância para o que está acontecendo, agora no presente. E o que é o presente? Tempos diversos sempre estão interagindo. O tempo do drogado não é o tempo do bom cidadão. O tempo em uma okupa funciona de forma diferente do tempo em uma empresa ou escola. Qual presente? [.....................] A revolução Contra Cultural aconteceu faz quanto tempo? E não foi apenas cultural, uma revolução de costumes – não há como separar cultura de política –, foi uma luta contra o poder reticular, as disciplinas, os dispositivos de poder atualizados: no chão da fábrica, na universidade, nas relações parentais, na família como destino obrigatório, no Estado de Bem Estar que estancava as lutas mais radicais, no patriarcado, nos gêneros e na sexualidade, no racismo, na guerra as drogas.................. [........................]  As lutas moleculares de 68 atingiram as malhas do poder e o mundo não foi mais o mesmo; direitos foram conquistados; porém o poder, tomou outras formas, mais capilares. A empresa modulada, desterritorializada, impediu a luta dos trabalhadores. As minorias se tornaram consumidores e produtores. O poder transcendente, mais localizado, os termos dominantes que se sobrepunham a termos menores, ficaram mais fluidos, imanentes. A sociedade de controle abarcou todo o social. Se na sociedade disciplinar ainda existiam buracos, brechas de subversão, na sociedade de controle o poder começou a aparecer em todo o lugar. Os cidadãos, todos, viraram policiais, de si e dos outros. Formas novas de opressão surgiram. [.............................] Uma das formas de opressão é exatamente a negação de que estamos em outro paradigma, faz muito tempo. Qual presente? Ainda usam conceitos de outros paradigmas para pensar o presente. As dicotomias correm soltas, como se o mundo fosse uma coisa simples, uma luta de opostos que leva para um bom futuro. As dicotomias ainda correm soltas: homem x mulher, inteligência x idiotia, loucura x sanidade, riqueza x pobreza, trabalho x vagabundagem, norte x sul, ciência x empiria, público x privado, frieza científica x paixão artística, indivíduo x massa, eu x o outro, direita x esquerda. Isso é o óbvio, o que todos veem, muitos só enxergam isso. Só que eles não entenderam as lutas de 68 e desconhecem as lutas em rede que começaram com os Zapatistas. Eles desconsideram as análises de poder de Foucault (o velho, mas sempre presente Foucault), não entendem o trabalho de Deleuze, nunca leram Negri. E não por falta de inteligência; eles não suportam a insegurança que o trabalho do pensamento da diferença produz, já que este mostra um mundo caótico, deliciosamente caótico. Usam bases intelectuais de um paradigma para pensar outro. Ou seja, se loucura é estar fora da realidade, isso é loucura. Qual presente? [.....................................................] O idiota não é alguém com menos saber, não há problema em ter menos saber. Idiotia é amar a segurança ao ponto de não querer enxergar o caos, e o caos é o mundo. O pensador privado em sua sala, aquele que pensa, se vê como um indivíduo, que gosta de ser visto como um sujeito pensante, dono de suas ideias, autor, ou seja, o gênio moderno, se ainda existe, não consegue ler Deleuze, já que ama sua segurança, sua vidinha pequeno burguesa. Ele, o que faz é apenas dar certa consistência para o que pensa, pensamento que na verdade é só reflexo do senso comum. Se acha especial por conseguir falar e escrever o que pensa, mas como disse, ele pensa como todos, é tão moralista, conservador, idiota como todos; só é um idiota com um capital. Como pouquíssimos conseguem fazer isso, ele se acha diferente dos que não escrevem e falam de forma articulada. Ele gosta de pensar e falar muito e sempre, ou seja, extensivamente, não intensivamente, por isso, não há diferenças de natureza entre um idiota que não escreve e um idiota que escreve, só diferenças de grau. [..........] O que pouco veem e o que o “intelectual” não vê é o caos. Para ele, caos é uma expressão pejorativa, idiotia é sua forma de se impor em relação aos outros, loucura é o que ele detesta já que é um moderno, racional. Mas idiotia é o bom senso; caos é a beleza do mundo, que deve ser experimentada com certa cautela; loucura, esquizofrenia são marcas do pós-moderno, são possibilidades de alegria ou expressões do poder. [.................................]. Os movimentos em rede não precisam ler Negri já que sabem muito bem o que Negri pensa. Deleuze e Negri já fizeram o trabalho de leitura e contextualização de Marx, Espinoza, Foucault, Bergson e tantos outros. Apenas o “gênio” moderno – que vive faz décadas na pós-modernidade e não sabe – que tentaria se colocar ao lado de Negri e fazer sua leitura de Marx para pensar o paradigma atual. [..............] Contra a segurança, dura, linha dura da mentalidade velha e cansada, contra isso temos a leveza e a liberdade da criação de conceitos novos. “O velho tem que morrer” é uma palavra de ordem dos setenta, mas faz tempo que morreu; e muitos tentam dar vida ao cadáver. [...........].  
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Em Porto Alegre, nos últimos tempos, a mobilidade ficou mais fácil, a partir de muitas ciclovias criadas. Está na moda se locomover de skate, bike e roller. E me parece que isso faz parte da moda hipster. O hipster difere dos que estão na moda, é alternativo; porém ser hipster é uma moda, mesmo que dita alternativa. Para ser um tem que se estar dentro de certos padrões. O hipster é ligado em arte e cultura de massa cult; tem interesse em gastronomia. Visualmente, a partir de suas roupas, se percebe um sem dificuldades: barbas longas, cabelos alinhados, camisas de manga curta com colarinho apertado e bermudas (ambas com adornos psicodélicos), tênis social, óculos enormes. Durante mais de um ano, ao menos em Porto Alegre, foi usado por homens um tipo peculiar de corte de cabelo: Razor, uma imitação do corte dos samurais. Todos os hipsters o usavam. Da mesma forma que surgiu, o cabelo razor despareceu, de uma hora para outra. A Cidade Baixa é o bairro hipster de Porto Alegre. Aqui há os cafés com bebidas não alcoólicas especiais, os restaurantes-bares com comidas, feitas de forma criativa, e cervejas artesanais. Além disso, o bairro tem inúmeras casas noturnas com som chamado alternativo. O bom gosto gastronômico aliado ao bom gosto musical. Nos últimos meses em Porto Alegre e, claro, na Cidade Baixa, começaram a aparecer centros de moda hipsters. Neles se faz o cabelo, a barba, tatuagens, se toma cerveja e se come. É uma moda tão pegajosa que é difícil não ter certos atributos da identidade hipster, tanto que há hipsters que odeiam ser chamados de hipsters.   Quanto a questão da mobilidade verde, aliada de um certo repúdio a grandes empresas, marcas dos hipsters, isso diz respeito a um tipo de anti-capitalismo, a uma questão ecológica, portanto, desvios de certas normas dominantes. Mas o Hipster se desvia da norma para criar uma nova norma. Ele é o bom cidadão das redes sociais, ele vai às ruas, luta por seus direitos, milita como pode, é o sujeito controlado, mas que vive como se tivesse um grande grau liberdade.  Ele se sente feliz por lutar por um bom mundo, acredita que está construindo um bom mundo possível.  Se sente feliz por ser quem é: politizado, com uma moral elevada, além de ser alguém diferenciado. O barulho que faz é pouco, não abala em nada os códigos dominantes; esse barulho não passa de uma resistência incluída, ou seja, não é resistência. Se o cidadão está feliz, não incomoda. E se ele sente feliz por ter um sentido em sua vida, ele pode dizer: eu vivi, eu lutei, eu busquei um bom mundo, sou uma pessoa especial. 
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quinta-feira, 11 de maio de 2017

sacações


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Dessubjetivar com drogas, que é um tipo de dessubjetivação, mas a partir de outras linhas de fuga e devires, faz parte da ética dos drogados. Dessubjetivação é uma questão ética, o sentido de uma vida, a forma mais importante de resistência. A cartografia não é uma questão apenas intelectual, e não precisa ser: um disco, um livro, uma transa, uma tomada da cidade, a relação com a droga podem ser mapas.
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E obviamente quando falo em loucos, em enlouquecer, estou falando em fluxos esquizos, experimentações de modulações do caos, que são os mapas, aumentar o território, dessubjetivar.
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Há um comum [....] que aproxima marginais, coletivos libertários, artistas, filósofos, cientistas; esse comum concerne a formas de viver e pensar o mundo, que não deixam de ser também políticas, já que viver é uma questão ética, estética, não de sobrevivência. Penso que a não aceitação do controle, a luta contra ele, é esse comum. A luta contra o controle é o ponto de partida para experimentações, criações de linhas de fuga. E as linhas de fuga possibilitam uma percepção ou experimentação do molecular. Essa percepção move este trabalho. Esse comum também toma uma forma mais direta, quase física: certos artistas, da linha romântica, aqueles que viveram e muito, e muitas vezes isso está mais que visível em suas obras, foram marginais e influenciaram coletivos libertários.  Muitos desses coletivos têm contato direto com teóricos. Teóricos libertários foram influenciados por artistas românticos e vice versa; e muitos desses artistas são teóricos, e certas obras do campo do conhecimento são obras de arte romântica.  Essas proximidades se devem já que, como disse, há uma questão existencial que os aproxima.  
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Deleuze não inventou a percepção molecular, deu um nome a ela, essa percepção tão especial que nos permite fugir, devir outro, enlouquecer. E quanto a fuga, a linha de fuga: Deleuze não inventou a fuga da prisão, nem o rap nos presídios ou o baseado antes do café da manhã. [........] Uns chamam a potência da vida de “aquele momento em que faço sexo com minha 'Garota Mágica' e parece que meu coração explode”, outros de “quando estou dormindo, junto a 'Ela' e [......................]
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Perceber que até o funcionamento do corpo é uma prisão [......] que a cidade é uma prisão, que fazer parte de um povo é estar preso a sua identidade, perceber que ser homem, branco racional é uma prisão, que uma família, escola, empresa são prisões, perceber que o sexo pode estar centrado em tarinhas de almanaque, que quando se delira muitos dos delírios são apenas neuroses presenteadas pela espetacularização da área médica, perceber que os  porcos pensam, são racionais e têm bom senso, muito mais do que a maioria dos humanos, que prazeres são vendidos no atacado, que mesmo a luta na rua pode afirmar o modelo político dominante [..........................] Perceber tudo isso pode levar a impotência ou a abolição. [....] Negri e Deleuze criaram esses conceitos que são linhas de fuga em relação a tudo isso, que nos mostram o vitalismo , possibilidades de formas de vida não capturadas; conceitos que afirmam a crítica total e radical e ajudam a enfrentar o encarceramento ao ar livre. E para compreendê-los, os conceitos, se necessita ativar a percepção molecular. E como ativar? Vivendo.
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Importante reconhecer as significações dominantes, em nós, na vida, na sociedade e traçar as linhas de fuga, isso é a cartografia, uma dessubjetivação em constante processo: não sou mais tão idiota, mas permaneço idiota. E deve permanecer, importante ter um pouco de segurança. Idiota não é uma pessoa, como o crítico da idiotia não é uma pessoa; percepção molecular e idiotia não são duas coisas separadas isoladas, são linhas de um agenciamento. Mesmo ao produzir crítica podemos estar afirmando o controle, o descontrole pode muitas vezes se confundir com o micro fascismo, por isso a cartografia.
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Sim, eu sei ler, escrever, interpretar, muitos não conseguem dar consistência para o que pensam, mas isso não me torna especial, já que muitos fascistas, seres sacanas, sabem ler, escrever e interpretar; e fazem isso melhor do que eu. Talvez o que eu faça bem seja esse processo de despersonalização em que “Eu” não diz muito, diz muito pouco. A despersonalização não exige inteligência, genialidade e, sim, abertura ao caos. 
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O comando central é desnecessário já que as regras e normas circulam livremente: sabemos as formas “corretas” de sentar, nos portar, caminhar, falar, urinar, cagar, nos alimentar, fazer sexo. Sonhamos com um futuro, acordamos de manhã, dormimos à noite, regramos os excessos, nos vestimos, amamos, conversamos, trabalhamos, estudamos, festejamos, ficamos felizes, nos submetemos [....] fazemos tudo isso, e muito mais, naturalmente. Sim, todos sabem disso, mas estou falando obviedades já que é divertido rir de tudo isso, dessa vida de rebanho afirmada duramente. Fazer sexo, ter prazeres, amar, e muito mais, são obviamente importantes, o problema é quando há uma forma correta de fazer isso e os desvios são rechaçados. A forma correta une as pessoas, e isso é muito diferente do comum que é a base da tradição romântica, marginal [....] A grande importância social dessa tradição é mostrar que a vida pode ser tão bela, melhor, tão interessante, quanto uma bela, melhor, interessante obra de arte.
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Posso apresentar muitas palavras de ordem que dizem respeito à base de dispositivos de poder, ao senso comum do bom cidadão:  “é um policial, então mostre os documentos”. “É um pai, um padre, um patrão: respeite”. “ Faz frio: se agasalhe”. “É uma vida, a sua: não se mate”. “É um drogado, um traficante: fuja”. “É uma rua: caminhe na faixa”. “São sete horas da manhã: acorde”. “Está tarde: durma”. “É sexta: fique feliz”. “Fuja da pobreza”. “Ele leu muitos livros: é um bosta de intelectual, o respeite”. “Está com fome: coma”. “Não fume: é proibido”. “Ame a vida. Seja feliz”. “Está com dor de dente: vá ao dentista”. “Seja de direita ou de esquerda.”.
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A arte cria um outro mundo, muito mais interessante por ser fictício. A função da droga não é essa? Arte, alucinações, devires são realidades em si mesmas. Fictício diz respeito à diferença, é tão real quanto o real, é melhor.  [.........]. Para entender o mundo não se necessita de teses, estudos de caso, e sim, se experimenta a arte; a arte ajuda a entender o mundo, mesmo que seja o mundo das percepções e afecções [....] A cidade é o suporte dessas proezas que alguns fazem: deliram a cidade, deliram na cidade.
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Junk, como chamam heroína, significa lixo e é uma das drogas mais potentes. A percepção molecular diz respeito a droga; é um estado narcótico, não é sadio [....] Mas a bad trip para quem curte drogas é algo interessante. O pesadelo é uma experiência das mais ricas; ser assaltado, ser esfaqueado, sofrer um acidente, enfrentar cirurgias, sofrer de abstinência, transar com garotas e depois saber que estavam doentes; enfrentar o mundo, vivê-lo com toda sua dor e alegria. O prazeroso e o doloroso, o triste e o feliz, esses conceitos são rasteiros; importam sim, os excessos; experimentar. Bukowski em um poema diz que se pôr em risco, mas com estilo, que isso é arte;  ou seja, a existência deve ser uma obra de arte.  
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Talvez o erro seja mais importante. O fazer acadêmico é o certo. O certo é a assepsia. O vagabundo é sujo, o punk é sujo, o hippie é sujo. Esse texto é meio punk, meio hippie. A pureza é importante, desde que seja uma anfetamina pura, coca pura, o que cria um corpo sujo, doente, drogado, maculado.
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sábado, 6 de maio de 2017

porto alegre, desde os anos 90


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Vivo em Porto Alegre desde os anos noventa. A cidade mudou, eu mudei, o mundo mudou, o Brasil mudou [................] A cidade sempre foi, também, meu espaço de festas, dramas, namoros, loucuras. O adolescente não fica muito em casa já que ele não pode fazer muito nesse tipo de espaço. Maconha tem um cheiro muito forte, e outras drogas deixam louco o suficiente para ser notado. Se a namoradinha é muito nova os pais não vão querer que ela fique no quarto do filho, por respeito aos pais delas. Os pais não aprovam a amizade com certos amigos, então eles não podem frequentar a casa. E o que o adolescente pode fazer é pouco, uma hora cansa e ele vai para a rua. [................]
Os pais de certos amigos, os que tentavam prender os filhos em casa, quando estes estavam próximos dos 15 anos não conseguiam mais impedi-los de sair. Os meus pais foram aos poucos cedendo. Um dia, era de manhã cedo e perceberam que eu não estava em casa. Entenderam que eu tinha passado a noite fora. Eu tinha 14 anos e foi toda uma cena, chamaram até a polícia. Cheguei em casa pelas 10 horas da manhã, minha mãe chorava, como disse, uma cena. Eu tinha ido para a Oswaldo Aranha, fiz a festa com amigos, quando tudo fechou fomos para um bar na Avenida Goethe. Fiquei com uma garota no alpendre de um prédio, foi minha primeira transa. Depois disso, meus pais não podiam mais me dizer: não saia.
Eu morava no bairro Tristeza, ali havia muitas possibilidades de vida noturna, muitos amigos começaram a sair pela cidade a partir desse desbravamento da região. Um dos bares mais famosos da Porto Alegre marginal, o Timbuka, era muito perto da minha casa. O bairro era incrivelmente seguro sem ladrões e polícia. Apenas uma vila próxima tinha algumas gangues de adolescentes, mas eles eram colegas meus, da minha turma, eram amigos.
Esse bairro, Tristeza, é um dos mais ricos da cidade e fica junto de um outro, o Assunção, mais rico ainda, no qual estava situado o Timbuka; além disso, há um colégio público exatamente na parte central do Assunção. O colégio público reunia o pessoal pobre ou de classe média baixa de bairros das imediações. Eu estudei ali por um bom tempo. Para mim, foi muito importante, já que tive meus primeiros amigos pobres e negros. O Timbuka juntava uma turma de malucos, que ia lá para fumar maconha, traficar, beber, cheirar pó. O meu grupo era formado pelo pessoal mais novo que o frequentava. E essa era a grande questão: pra que ficar em casa, quieto, vendo televisão, se a turma podia estar na rua, bebendo, usando drogas, vivendo a vida, curtindo a vida, curtindo tudo aquilo que a cidade, grande, proporciona? Talvez a cidade nem fosse tão fascinante, ainda mais nos anos 90, mas era muito mais do que a casa familiar.
Fiquei fascinado ao ler Bukowski, Kerouac e Fante. Eu já bebia, fumava maconha, era festeiro e peregrinava a cidade de skate. Pelo meu estilo de vida me encontrei na obra deles, isso com 14 anos. A partir dessas leituras e outras não tive mais medo de usar qualquer tipo de droga; a droga que aparecia eu usava. A noite começou a ficar mais louca e perigosa; subir o morro, também, não era mais um problema. Uma das maiores vilas de Porto Alegre ficava em um bairro próximo do local que eu morava, a Cruzeiro do Sul. Quando tinha sorte, comprava lá coca de boa qualidade. Como já andava pela cidade de madrugada e tinha amigos pobres, não havia motivo para ter medo de ir numa vila.  [..........]
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Aqui do lado, do local em que moro, há um dos cartões postais da cidade, o Viaduto da Borges. Nos anos noventa havia muito comércio mais tradicional. Hoje, exatamente hoje, serve de moradia para quem está na rua. Em 2013 ficou marcado como ponto das lutas “por outro transporte público”. Outro ponto tradicional na cidade é a Usina do Gasômetro, junto ao Rio Guaíba, que sempre reuniu turmas de maconheiros no fim da tarde; nos últimos anos está sendo reformulado arquitetonicamente. Na frente do Gasômetro há uma praça que juntava meus amigos punks na virada do século; hoje é uma praça familiar, reconstruída.
Também junto ao Rio, mas no início da Zona Sul, foi fundado um museu, o Iberê Camargo. Ele reúne pessoas nos fins das tardes; é um ponto para se tirar fotos e postar no Faceboook. Além disso, foi construída uma ciclovia que vem do centro até um dos bairros mais caros de Porto Alegre. A ciclovia passa por um shopping center recentemente construído. No local em que está o shopping e a ciclovia, havia uma avenida perigosa, que era ladeada por terrenos baldios e uma vila. Na frente do Museu, uma curva era famosa por ser local de muitos acidentes de carro. Eu sofri um acidente ali, um amigo meu também, e muitos outros. O governo da cidade preocupado com a curva fez muitas tentativas de torná-la segura. Uma delas, foi a criação de sensores na pista, o que não ajudou em nada [..................................]
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Porto Alegre na virada do século era uma cidade diferente. Haviam poucos controles de velocidade de carros nas ruas. Dava para beber nos postos de gasolina e fumar dentro das casas noturnas. A Rua Oswaldo Aranha estava no auge como ponto underground da cidade; as áreas de prostituição da Rua Farrapos e do Bairro Menino Deus eram bem vivas. A casa noturna NEO (antigo Fim de Século) passava pelo seu melhor momento. Outra, o Garagem Hermética, tinha bons shows de bandas locais além de festas para aqueles com interesse em cultura alternativa. Nos domingos à noite o pessoal fazia pegas de carro pela cidade, principalmente na Rua Nilo Peçanha. No fim da tarde de domingo enchia de gente nesse bar, o mais clássico da Zona Sul, o Timbuka. Nas segundas feiras de noite o pessoal tomava o cruzamento da Rua Independência com a Barros Cassal. Também nas segundas uma casa noturna abria, o Virtual. Além disso, ainda funcionavam outras, como o Elo Perdido e o DR Jekill.
Não sei se a cidade nessa época era tão diferente dela no início de 1990 quando tinha acabado de entrar na adolescência. Mas para mim aconteceu uma mudança radical ao começar a dirigir e ter mais dinheiro no bolso, passei a experimentar a cidade de outra forma. Sim, os automóveis são um dos grandes problemas urbanos, mas para um jovem, tirar a carteira, ter um carro em mãos, isso cria um tipo de empoderamento. Comentei sobre os pegas de carros, facilitados pelo trânsito não muito controlado. O pega é uma brincadeira na cidade, meio suicida: andar em alta velocidade pelas ruas, passar sinais vermelhos, não respeitar nenhuma sinalização, e isso as vezes em duplas, grupos de carros
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Na virada do século em Porto Alegre, o carro permitia então passar por todos esses espaços, comentados no primeiro parágrafo dessa parte, de uma forma simples e rápida. Um trajeto comum era ir da Oswaldo Aranha até a Farrapos. Dois pontos distantes, pouco comunicáveis, diferentes. Na Oswaldo, o pessoal ficava na rua, não tinha que pagar para entrar nos bares; dava para estacionar o carro curtir o espaço, sair dele e depois voltar. Na Farrapos, o que interessava era a área de prostituição, as meninas que ficavam nas ruas. O pessoal jovem frequentava a Rua não necessariamente para fazer um programa, mas sim para ver as meninas, falar com elas. E sem um carro fazer tudo isso seria impossível.
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Sempre me interessou a área de indiscernibilidade entre a vida diurna e noturna, quando a festa continua, sem parar: passar noites e dias seguidos na curtição da cidade, sem dormir, usando pó, anfetamina, álcool, o que vier pela frente. É dia, meio da semana, tudo funcionando a todo o vapor, gente no trabalho, os estudantes nas escolas, o trânsito lento e monótono, mas alguns poucos estão em outra lógica. Me interessa essa área de indiscernibilidade entre dia e noite já que diz respeito a uma apreensão, percepção, experimentação diferente da cidade. Virar a noite com a cabeça cheia de muita coisa e se chocar com a vida diurna, essa mudança da noite para o dia já é radical. E se a festa está rolando direto, e não importa qual é o dia, é fácil seguir o ritmo em uma cidade grande. [......................] Virar a noite, não dormir, ficar uma, duas, mais noites acordados, e isso não nas férias na praia, mas em uma cidade urbanizada, isso acentua a percepção molecular. Prostitutas, drogados, traficantes, gente maluca, sempre estão nas ruas, são fáceis de serem encontrados a qualquer hora de qualquer dia; claro que é mais difícil as três da tarde de quarta-feira do que as três da manhã de sexta; mas os malucos sempre se encontram.  
O tempo cronológico é um controle, duro, doloroso, e ele é marcado na metrópole. Em Porto Alegre a maioria das ruas estão praticamente paradas em muitos horários. E isso doí, é uma forma horrível de opressão, estando de carro ou de ônibus. Mas na rua pode ter esse pessoal, no mesmo horário, caminhando ao lado dos carros. Esse pessoal pode estar bêbado e chapado indo em direção do Rio para ver o pôr do sol.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

cartografia


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O idiota é o bom cidadão; é o controlado, é aquele que afirma as significações dominantes. Mas o idiota não é alguém, uma pessoa, diz respeito a uma forma de pensar. Não há como não ser idiota, não pensar como todos, não ser bom cidadão. Porém, pode-se traçar linhas de fuga, ficar menos protegido, experimentar. Isso pode ser na arte, na vida, na ciência, na filosofia, na música, no que for.  
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O controle não necessita de um comando central; as pessoas vigiam a si e aos outros. A cartografia não é autovigilância é exatamente a compreensão da vigilância, e o que se pode ou se quer fazer em relação a isso. As pessoas são apegadas a uma certa normalidade e lutam a todo custo para mantê-la. Se sentem seguras aprisionadas, longe do caos. Gostam de suas casas, querem elas bem cuidadas e agradáveis. E quando estão na rua se sentem bem em ver um policial. Seria um mundo perfeito se houvessem policiais em todas as esquinas; mas há policiais tão duros, ou piores, nas ruas, por todos os lados, como disse, vigiando os outros e a si mesmo.
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Não é fácil, principalmente sendo um doutor, branco, classe média, compor a cartografia, já que os devires, as linhas de fuga são mais imperceptíveis para a subjetividade dominante. É interessante que muitos, o bom cidadão, só conseguem pensar em termos de macro política, política do Estado. Desconsideram a micro política, que não é menos expressiva, mas se refere a outras lógicas. Não conseguem enxergar a multidão já que ela não tem rosto e não assina seu próprio nome. Ninguém diz: ‘somos a multidão’; ou: ‘ali está a multidão’. Já um político é facilmente identificado: tem um nome, um partido, fala por si mesmo, se representa. Políticos de qualquer esquerda são um atraso, parece que não viveram a virada do século; se tivessem vivido não seriam políticos, esses “Eus” centrados, personas; eles deveriam estar no meio dos movimentos em rede, ser mais um na multidão. Sim, os indivíduos são importantes e singulares nos movimentos, mas não são egocêntricos ao ponto de ter o desejo de salvar o mundo sendo um político do Estado. As pessoas enxergam apenas o visível: um político, um rosto, um posicionamento ideológico, um discurso. Belzebu é um enxame; Legião (o demônio) é uma multiplicidade; Baphomet é um monstro impuro; isso é a Multidão, não um bom Deus, seu bom filho, alguém acima, em um mundo ideal que dá as leis para que seus filhos vivam. Por isso, Negri trata os políticos, o Estado, como afirmadores de transcendência. Voltamos para a luta primeva? Deus X a Legião Demoníaca? Talvez por isso não se fale em multidão e movimentos em rede e sim apenas na política estatal. O demoníaco não pode nem ser mencionado pelos fanáticos pela transcendência. Isso mostra a necessidade de uma nova percepção para entender um outro mundo vivo, atual e caótico – e só os loucos enxergam o caos.
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O bom cidadão é apaixonado por si e os seus, eles são bons; o vagabundo é o erro da sociedade, como os outros párias. Mas o vagabundo mostra outras realidades, tempos possíveis, e isso dói no bom cidadão já que ele é apaixonado por sua vida. O bom cidadão, o sujeito incluído, de classe média, que vive com mais segurança que os outros, se ama tanto que deseja que todos tenham uma vida igual a sua, essa é sua utopia. Ele não aceita a vida do pária, o pária não pode ser pária, ele não pode ter essa possibilidade de vida. Todos têm que trabalhar, ter casa, ser consumidor, ter seus deveres e cumpri-los. Mais democracia, mas numa falsa democracia, continua sendo falsa democracia; capitalismo mais humano continua sendo capitalismo.  Claro que ‘bom cidadão’ é uma identidade ideal que não abarca uma pessoa, todos fogem, enlouquecem de certa forma, mesmo sem notar. 
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A não aceitação da vida como ela é imposta é a crítica, assim, mesmo sem produzir obra, sem teorizar a sua existência, o drogado é um crítico apenas por ser quem é. É radical, não aceita a percepção e a afecção normatizadas, não aceita o funcionamento do próprio corpo, não aceita o tempo cronológico, as leis, é contra a lógica do trabalho assalariado, mas produz, sim, essas formas de vidas críticas. Pensar assim, no drogadinho como crítico, permite que se fuja da transcendência, de colocar a teoria, o campo do saber, em um local privilegiado. Viva a sabedoria das ruas!
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Método? Se faz o possível em determinado momento a partir de certas condições para produzir, pensar e viver. Não há método para viver. Cartografia não é um método. Percepção molecular não diz respeito a métodos. Ver, ouvir, cheirar, tocar, lamber, perceber o mundo molecularmente não é método, é questão existencial. Cartografia não é um método a ser usado para se pensar determinados tipos de objetos. Não se tem a cartografia em mãos e se usa ela quando em campo. A percepção molecular, por ser um tipo de percepção, está sempre acionada, em alguns momentos fica mais clara, expressiva. É a percepção livre dos freios da normatização. Muitos não a notam, ou se assustam com ela. Como ela faz parte da vida, pensar sobre ela, é pensar sobre a vida.
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Creio que os “meus” cacos de memória, que misturam sonhos, alucinação, drogadição, vida em vigília, lembranças pela metade ou borradas, com buracos negros sempre presentes, são como Cut Ups, recortes prontos e daí…. os uso aqui nesse texto. Burroughs escreveu muitos livros a partir de Cut Ups completamente louco de morfina. Ele mesmo dizia que relia seus escritos e não tinha ideia de como aquilo havia sido escrito. Os Cut Ups, como cacos de lembranças, não se referem a método, os cacos são experiências de vida, que já estavam mais consistentes ou que foram aparecendo na escrita, se atualizando. Assim, em muitas partes o livro toma a forma de um mosaico, os cacos reunidos.
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Perceber valor na vida de um viciado, abobado, desletrado como um punk, pode parecer um romantismo bobo, mas creio que seja importante buscar valor no extremo da pobreza. O discurso corrente diz: “o suicida se matou pela tristeza”, “o mendigo é totalmente infeliz pela pobreza”, “o preso de forma alguma conseguiria sorrir”, “o viciado em crack tem que se regenerar”. Qualquer um, mesmo o bom cidadão tem momentos de tristeza e alegria. Um fumante de crack, um mendigo, um preso tem seus momentos de alegria. Um viciado em crack é tratado como um rato, ou é preso ou morto, mas naquele momento que junta um pouco de dinheiro, quando o tem em mãos, ele se dirige para a boca, pega as pedras e se recolhe feliz em sua tenda imunda; daí ele acende a pedra e se a quantidade for o suficiente para o seu vício, o suficiente para que ele se chape, fique bem chapado, naquele momento ele é mais feliz que um rei, ele é um rei. Claro que depois o barato passa e ele sente a pior dor que pode ser sentida por alguém.
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A poesia, o que ela faz bem é trazer, atualizar, mostrar, todos esses fluxos linguísticos, de fala, do que seja, menores, perdidos por aí: na rua, em certos guetos, em certas estações, cidades. Enlouquecer na língua, enlouquecer a língua, fazer ela delirar, foder a língua, a currar como ela merece. O acadêmico é aquele que fala corretamente; ele fala como poucos já que os da sua casta falam assim. Contra essa prisão, contra a seriedade dos caretas, a fala do louco, daquele que não domina a fala, do ignorante que se quer assim e que se foda, não mais que isso. E o coração do poeta está com estes, os párias.
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Este livro é uma experimentação, nele testo estilos de escrita: crônica, ensaio, caderno de notas, cadernos de notas refinado, texto acadêmico, literatura. A crônica atravessa todos os capítulos, como também insights, sacações que podem ser elementos da crônica. Junto a tudo isso está a cartografia, que não é um método, e se isso transparece em certos momentos se deve as contradições internas do trabalho.
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O grande tema do livro, portanto, é a cidade, pensada como local do controle, o qual é afrontado pelas experimentações dentro dela, contra e fora de controle. O que move o livro é a tentativa de experimentação de uma percepção molecular, essencial para pensar a potência das formas de resistência dentro da cidade.  
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Acentuando o caráter experimental do trabalho, após o fim do livro, publico no mesmo volume um outro livro. Sim, é outro livro, tem um tamanho mínimo de um livro de literatura, e é publicado conjuntamente, pelos seguintes motivos: 1. Foi escrito ao mesmo tempo que o primeiro livro. 2. Ele é continuação das linhas de fuga traçadas. 3. Ele possui uma escrita absurda, é totalmente experimental, não sei se foi feito para ser lido [..........] Esse outro livro é a dessubjetivação em estado mais bruto e ele será apresentado com mais detalhes em uma abertura em seu espaço nesse volume.