sexta-feira, 26 de maio de 2017

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Já tentei inúmeros tipos de estilos desde quando comecei a escrever. Meu primeiro trabalho era de contos sobre realidades delirantes. Em determinado momento escrevi um livrinho de poemas conceitual, com linguagem de rua, mas que não funcionou e ficou esquecido. Amadureci meu trabalho com um livro de crônicas, também conceitual, que se centra em minhas experiências principalmente na adolescência. [........] O estilo deste livro difere do estilo das crônicas do terceiro capítulo do livro anterior publicado neste volume, mas há proximidades. Como já disse na primeira parte do outro livro, este é uma linha de fuga, um aumento de território, a tentativa de produzir o descontrole, de enlouquecer pelo menos na língua. Deleuze fala em gagueira, estrangeirismo na própria língua [.....] Aqui fujo da língua dominante dentro dela; e gírias, expressões de rua mostram a sua maleabilidade. Certas turmas em certas estações, certos guetos em certas estações, os jovens, os marginais, os drogados criam expressões que só têm sentido para eles nesses momentos, e o que eles fazem, é poesia, considerando poesia como um devir menor da língua. Eu uso aqui muitas expressões dos inúmeros guetos que pertenci, e aliás, mesmo sendo doutor, eu não consigo fugir de certos vícios de linguagem de rua, quando falo, seja em aula, palestra, o que for e que se foda. [........] E não só em relação às expressões, alguém chapado de maconha, morfina tem um ritmo de fala diferente, mais lento, pausado, baixo, calmo. Alguém louco de cocaína ou anfetamina tem uma fala rápida, dura, sem respiração, direta [...] Quem está louco de coca não quer parar de falar, por isso, conta histórias em detalhes, os mínimos detalhes para prolongar ao máximo a fala [....] Ele, o cheirado, não quer contar uma história quer apenas falar. [...] Membros da trupe de Andy Warhol gravavam conversas presenciais ou por telefone loucos de anfetamina.  [................] A ideia do texto que segue surgiu quando eu com frequência comecei a pensar em frases sem sentido. Me perguntei se seria possível escrever algumas páginas com frases do tipo. Fiquei espantado que escrevi de forma fluida o que será apresentado posteriormente. [........] Há um ritmo em todo o texto, variações, mas todas as frases foram escritas e editadas para serem lidas, apresentadas em voz alta. A linguagem da rua é a fala, dificilmente é atualizada na escrita, por isso a importância da poesia, registrar esses fluxos linguísticos. [...............] As frases absurdas que compõem o texto, mesmo as mais absurdas, que talvez sejam impossíveis de serem lidas, foram escritas de tal forma que posso declamá-las. No trabalho de revisão, e foram muitas revisões, manter o ritmo foi central. Ou seja, as frases não foram simplesmente jogadas no texto, elas passaram por um tratamento rigoroso. [........] Todas as frases são curtas. Frases curtas permeiam meu trabalho literário. As frases curtas ajudam no ritmo; é mais fácil de narrar, ler, uma frase curta; e como as frases são absurdas ou se conectam com outras de forma absurda, quanto mais longas, mais difícil seria de manter esse ritmo. Sempre achei pequeno burguês frases longas, escritas por aqueles que têm total domínio textual, que se permitem escrever frases de muitas linhas para mostrar seu domínio. Textos escritos para pequenos burgueses, os que que conseguem manter a leitura de frases que nunca acabam. [.....] O carinha de rua, o jovem, o marginalzinho, ele fala rápido e muitas vezes essa fala é composta apenas de gírias, expressões de rua [......] No texto há graduações de absurdidade, de falta de sentido, essas graduações se referem às experimentações, ao mapa que fui montando, pequenas diferenças internas, as quais busquei, mas sem sair do conceito do texto. Me perguntava: quanto posso enlouquecer, quais novas linhas traçar, mantendo o conceito?  [........................] O texto é dividido em blocos, os blocos não narram histórias, há muitas frases isoladas, que não se ligam a outras, porém, algumas frases se conectam a partir de um possível sentido. Há um narrador, alguém, uma primeira pessoa que fala para outros. Há sujeitos, algo como personagens, mas eles não agem, não tem história, são citados a partir de um humor peculiar. Há humor, e muito, pelo menos para mim. Também estão presentes alguns elementos de cultura pop, cultura drogada. Palavras de baixo calão estão em todos os blocos, além de gírias e expressões de certos guetos de jovens e drogados – aliás, se histórias forem buscadas em certas partes podem ser encontradas, pelo menos por mim, e são histórias referente à sexualidade livre e ao uso de drogas. O texto pode ser recortado, como se quiser, pode ser lido de qualquer forma: é um caos, mas organizado... Ele foi finalizado quando atingiu o tamanho mínimo de um livro de literatura já que talvez nem tenha sido feito para ser lido. [....] Mas como disse:  o texto não é espontâneo, não são palavras jogadas na tela. Escrevi com calma, li e reli, reescrevi, tirei muita coisa, coloquei coisas novas. É necessária uma tal rigorosidade para se criar um trabalho absurdo e caótico, considerando que quem escreveu “Diego este que fala” é um bom cidadão, criado na academia, doutor. E mais, considerando que tenho experiência na escrita, que não sou naif sempre estudei literatura e artes, sei que tentar enlouquecer na arte pode se transformar em qualquer coisa. Esse tipo de exercício é importante, já que se realiza em um meio em que posso enlouquecer sem ser preso: a literatura; ou seja, é quase medicina. [....] E isso já permite um grau de loucura para o leitor. Se alguém enlouquece na rua, na sala de aula, em casa, no trabalho, pode ser preso, mal visto ou internado. Gosto de ser mal visto. Enlouquecer é buscar linhas de fuga dos padrões – a prisão – dominantes. Enlouquecer na escrita; um pouco de ar, vida – louca vida.   

sábado, 13 de maio de 2017

curtições


Dia de semana, fim da tarde; notei alguns caras – o que me pareciam guardadores – em volta de dois carros. Notei que eles olhavam para dentro dos carros. Voltei a escrever e no cigarro seguinte fui para sacada, e tive a sorte de ver os dois carros, grandes, caros, serem abertos no mesmo momento; e mais, saíram no mesmo momento. Obviamente, foram roubados por aqueles que estavam em volta deles. Mas o mais importante, me perguntei se eu delataria uma ação desse tipo. Carros caros, comprados por cidadãos de bem, gente próxima a mim, roubados por ladrões de rua. Eu não tenho nenhum apreço por ladrões profissionais, que desejam ser ricos, como não tenho por banqueiros, políticos. E quanto ao cidadão de bem, que compra seu carro com esforço, um dos grandes bens de sua vida? Tenho algum apreço por ele? O defenderia daqueles que precisam, ou mesmo querem, ir às ruas para roubar? Deleuze e Guattari eram ladrões profissionais, e os admiro. Eu sou um ladrão pé de chinelo, e não estou procurando ser admirado. Sempre quando ouvia a palavra “doutor”, ficava com medo, pensava: alguém muito importante está próximo. Hoje, ser doutor para mim significa muito pouco. É interessante como o empresário cheirador de pó, yuppie, o pesquisador alcoólatra, a dona de casa que toma valium, como esses são tão bem aceitos socialmente; o que não acontece com o ladrãozinho pobre que rouba para manter seu vício. O empresário se orgulha de si, se sente feliz por não ser um ladrãozinho. O intelectual se considera especial, por pensar o mundo, como se pensar fosse algo restrito a poucos. E eu estou no meio disso, não estou livre, sou mais um; melhor, menos um. Rimbaud dizia que era um negro. O Beatnik era negro, melhor, white negro. Os White Phanters queriam ser negros armados. Negri foi um presidiário. Deleuze foi um fraco, suicida; Hemingway e Thompson também. Bukowski, o vagabundo; os ladrões, viciados, gays como Burroughs, Jim Carrol. Vagabundos, presidiários, michês, suicidas, ladrões, me sinto bem com eles. [.......................] Há toda essa tradição, na literatura, no cinema, na música, nas artes em geral que tratam do excesso, da vida em excesso, dos prazeres diferenciais. Na literatura para citar alguns: Baudelaire, os Beats, Bukowski, o Gonzo, Piva, Huxley, Artaud, Pepe Escobar, Breton, Blake. Os Beats são centrais pelo contado deles direto, físico com a contracultura norte americana. Burroughs, o Beat com mais idade, é considerado pai da arte pós-moderna. Sua escrita era tão radical quanto seus excessos.  Kerouac, o escritor desse livro tão importante para a geração da contra cultura, On the Road, produziu uma escrita que está na borda entre realidade e ficção. A vida dele era tão rica que se negou a escrever algo além dela. Kerouac ajuda na escrita etnográfica, já que ele fez seu trabalho de campo pelos Estados Unidos e o narrou em seus livros. Bukowski se irmana a Kerouac, já que ambos mostram realidades duras, da estrada, da pobreza, da narcose, do alcoolismo.  Se os escritores apresentavam eles mesmo suas loucuras em suas obras, as vidas de muitos músicos, tão loucos quanto, são expostas principalmente pelo jornalismo alternativo e cultural. Documentos sobre os músicos que surgem a partir do sessenta – talvez o início de uma tradição de suicidas, drogados, sexualmente perversos – são muitos, em formato de vídeo e texto.  São tantos, que afirmam o fascínio por essas vidas singulares. No rock é muito comum a criação de guetos, micro fascismos; muitos fãs se apegam a um estilo e rechaçam todos que destoem desse estilo escolhido. Porém, no que diz respeito ao excesso, estilos diferentes se ligam, há esse comum entre a psicodelia, o pré punk, o punk. O pop vende a imagem do artista belo, jovem, saudável, o pop é uma música para o bom cidadão. Entretanto, são muitos os artistas vendidos dessa forma, mas que têm vidas desregradas. No rock, marginal, o estilo de vida desregrado é mostrado de forma descarada.  E como já me perguntei no livro algumas vezes: por qual motivo valorizam essas vidas que parecem não ter valor? Vício, abstinência, prisão, temporadas em manicômios, ressacas longas e duras. O que todos eles mostram é que a vida cotidiana é insuportável, por isso, preferem os excessos mesmo que sejam extremamente dolorosos. É melhor o risco da morte do que a vida das pessoas comuns. E não fazem isso para se ser uma pessoa especial, já que um viciado não é alguém especial é um pária; e mesmo se é glorificado pelo que faz, ninguém ficaria feliz em ser um. É comum dizerem que as drogas ajudam na criação. Talvez em certo momento, antes da prisão do vício. Fascina muito mais quem está de fora, o fã, do quem está por dentro, o viciado pesado. 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

tomações


No fim da tarde, quando começa a escurecer, a vista fica mais bonita, com as luzes dos prédios. Agora, pessoas se reúnem em grupos pequenos no Largo; alguns fumam maconha. Depois da hora de pico os carros passam com mais velocidade. Como estou sem internet, a vista é minha tela. Fiquei dez anos no ap. antigo. Fiz as contas e o que gastei de aluguel – nesses dez anos – daria para comprá-lo. O mais curioso é que eu estava para locar um outro apartamento, que coincidentemente era da mesma proprietária desse ap. antigo. Talvez ela tenha comprado o imóvel com o meu dinheiro; e eu continuaria sendo sugado por ela. Aprendi na prática como o inquilino está à mercê do proprietário. Porém, há uma liberdade em alugar, não ter um imóvel, ter pouco, não ter laços fortes, isso para mim é importante. Ter pouco a perder, essa é a alegria do vagabundo. Ele tem seu corpo, sua linguagem, seu carrinho, seus desejos. [.................] A Cidade Baixa é um dos bairros de Porto Alegre com maior número de moradores de rua. Aqui na frente, numa praça junto ao Largo, se reúnem muitos deles. No bairro, uma mulher que pede esmolas volta e meia desaparece e reaparece. Em 15 anos vi ela grávida inúmeras vezes. Na República, uma das ruas mais bonitas da Cidade Baixa, há um outro morador de rua, com idade avançada, que está ali faz uns seis anos. Também o bairro tem muitos guardadores de carros, jovens, que possivelmente não têm moradia. Além disso, junto a um conjunto habitacional, faz alguns anos, um grupo grande passa o dia junto a colchões e colchas velhas. O bairro também conta com um albergue popular e seu entorno (do albergue) reúne essas pessoas que possuem apenas o que podem carregar com as mãos. E mais, o cartão postal da cidade, nos últimos tempos, aglomera tendas em toda sua extensão, se tornou espaço dos que não têm casa – é o Viaduto da Borges, que fica a três quadras daqui e o veria se não existissem alguns prédios que tapam a vista. A prefeitura volta e meia desaloja o pessoal, mas eles sempre voltam. Interessante é o fato de que o Viaduto já foi palco de batalha entre manifestantes e polícia, principalmente em 2013. [.......................]
Em 2013 jovens saíram do Centro e vieram até o Largo. Ali, lutaram contra a polícia, depredaram carros e edifícios. Nessa época, eu e um amigo, numa segunda feira, estávamos no local, em um encontro de um coletivo libertário. Meu amigo queria tomar uma cerveja; eu disse: vamos, mas depois voltamos. Atravessamos a Perimetral e vimos junto a uma praça um bloco policial, todos policiais armados e em posição de ataque. Passamos por eles. Os policiais, por fim, não agiram contra o coletivo, mas como a cidade estava “muito quente” na época, eles faziam o controle. As brechas na cidade não são poucas. O controle não é absoluto na cidade pela própria estrutura dela. O poder quer que as linhas de fuga não existam, mas existem. [........................] O nojo dos cidadãos para com os moradores de rua mostra quem eles – os cidadãos – são; odeiam qualquer coisa que macule a cidade que deve ser higienizada, modelada – é, eles desejam o controle.  Os moradores de rua, são os sujeitos da vida nua, despida de bens, eles praticamente não consomem, não tem moradia, são feios e sujos, vivem do lixo. Mas são uma das diversidades do tecido urbano. Não é uma pobreza voluntária e esse é o problema. Porém, a riqueza deles é algo que deve ser mapeado.    
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Essa minha relação afetiva com a cidade é muito antiga. Quando comecei a usar maconha – diariamente, três, quatro, cinco, mais baseados, isso com treze anos – gostava de fumar principalmente, antes da aula, de manhã, e enfrentar a rua; era o primeiro “beque” do dia e assim fazia efeito. Eu gostava de contemplar, sentir o início do dia chapado. Eu pegava ônibus, ficava na janela e olhava para a rua como se estivesse vendo um filme. Curtia, também, quando ia fumar com meus amigos mais velhos de carro. Era a mesma sensação, o para-brisas como tela. Quando estava sentado do lado do motorista, ficava olhando o espelho retrovisor que parecia uma pequena televisão. [..........................] Minha primeira crônica foi sobre o trecho de uma estrada que vai de Porto Alegre até uma cidade vizinha; minha primeira reportagem foi sobre a noite na cidade. Na monografia trabalhei com a vagabundagem urbana. Parte da tese dediquei à cidade de Barcelona. [............] A questão afetiva sempre moveu meus trabalhos, por isso, não me encaixo na identidade ideal de pesquisador, de cientista. O que move meu trabalho, sempre, é o afeto. Considero que é impossível pensar o mundo, a sociedade em que vivemos, sem sentir dor, medo, frustração e, até mesmo, um sentimento perigoso como o de insuportabilidade.  Mas, como as linhas de fuga estão sempre agindo, como a multidão produz, resiste, deseja, pensar nisso permite afetos nobres, como paixão, alegria. E como ou por qual motivo abstrair isso – o afeto – se está sempre presente? Falar de forma aberta, franca, demonstrar os sentimentos, não se perder em uma assepsia própria a ciência é uma falha, um erro? Sim, é um erro, mas eu gosto de errar. Quando falo “eu” (e isso é frequente aqui) afirmo minha posição afetiva, tento fugir da fala impessoal acadêmica; mas obviamente ‘eu’ não diz muito. Dizer “EU” é rotular, criar uma fotografia que nega os fluxos, as conexões, os agenciamentos. O livro está cheio de memórias pessoais que dizem respeito a esse “eu”, mas foi a forma que encontrei para pensar certos coletivos e os processos que passam as cidades. Como já disse, há contradições no meu trabalho, claro, pois é uma experimentação.  
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[....................] Como havia pessoas no pátio dessa ocupação aqui perto – que eu estava rondando faz um tempo – eu abordei o pessoal e disse: olha, eu pesquiso okupas, eu passei aqui na frente inúmeras vezes, vocês devem ter me notado, estava com vergonha de me aproximar de vocês, já que eu sei que o pessoal antissistema não gosta de pesquisadores, mas gostaria de falar com um de vocês, fazer perguntas sobre o funcionamento do espaço, como ele está sendo gerido [..............] O coletivo, no momento, era formado por garotas, já tinha notado que a maior parte dos membros eram mulheres. As garotas me interrogaram e muito, disseram que eu deveria saber que eles não são abertos ao diálogo, pelo menos com gente como eu, um pesquisador. Notei que elas estavam incomodadas com a situação. Quando vi que não haveria realmente diálogo eu disse: peço desculpas por ter vindo aqui, não vou mais passar na frente do espaço, admiro vocês, que vocês fiquem bem e que dê tudo certo.
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[...................] As pessoas pensam sempre no futuro, desejam um bom mundo, mas que sempre está além e, por isso, não dão importância para o que está acontecendo, agora no presente. E o que é o presente? Tempos diversos sempre estão interagindo. O tempo do drogado não é o tempo do bom cidadão. O tempo em uma okupa funciona de forma diferente do tempo em uma empresa ou escola. Qual presente? [.....................] A revolução Contra Cultural aconteceu faz quanto tempo? E não foi apenas cultural, uma revolução de costumes – não há como separar cultura de política –, foi uma luta contra o poder reticular, as disciplinas, os dispositivos de poder atualizados: no chão da fábrica, na universidade, nas relações parentais, na família como destino obrigatório, no Estado de Bem Estar que estancava as lutas mais radicais, no patriarcado, nos gêneros e na sexualidade, no racismo, na guerra as drogas.................. [........................]  As lutas moleculares de 68 atingiram as malhas do poder e o mundo não foi mais o mesmo; direitos foram conquistados; porém o poder, tomou outras formas, mais capilares. A empresa modulada, desterritorializada, impediu a luta dos trabalhadores. As minorias se tornaram consumidores e produtores. O poder transcendente, mais localizado, os termos dominantes que se sobrepunham a termos menores, ficaram mais fluidos, imanentes. A sociedade de controle abarcou todo o social. Se na sociedade disciplinar ainda existiam buracos, brechas de subversão, na sociedade de controle o poder começou a aparecer em todo o lugar. Os cidadãos, todos, viraram policiais, de si e dos outros. Formas novas de opressão surgiram. [.............................] Uma das formas de opressão é exatamente a negação de que estamos em outro paradigma, faz muito tempo. Qual presente? Ainda usam conceitos de outros paradigmas para pensar o presente. As dicotomias correm soltas, como se o mundo fosse uma coisa simples, uma luta de opostos que leva para um bom futuro. As dicotomias ainda correm soltas: homem x mulher, inteligência x idiotia, loucura x sanidade, riqueza x pobreza, trabalho x vagabundagem, norte x sul, ciência x empiria, público x privado, frieza científica x paixão artística, indivíduo x massa, eu x o outro, direita x esquerda. Isso é o óbvio, o que todos veem, muitos só enxergam isso. Só que eles não entenderam as lutas de 68 e desconhecem as lutas em rede que começaram com os Zapatistas. Eles desconsideram as análises de poder de Foucault (o velho, mas sempre presente Foucault), não entendem o trabalho de Deleuze, nunca leram Negri. E não por falta de inteligência; eles não suportam a insegurança que o trabalho do pensamento da diferença produz, já que este mostra um mundo caótico, deliciosamente caótico. Usam bases intelectuais de um paradigma para pensar outro. Ou seja, se loucura é estar fora da realidade, isso é loucura. Qual presente? [.....................................................] O idiota não é alguém com menos saber, não há problema em ter menos saber. Idiotia é amar a segurança ao ponto de não querer enxergar o caos, e o caos é o mundo. O pensador privado em sua sala, aquele que pensa, se vê como um indivíduo, que gosta de ser visto como um sujeito pensante, dono de suas ideias, autor, ou seja, o gênio moderno, se ainda existe, não consegue ler Deleuze, já que ama sua segurança, sua vidinha pequeno burguesa. Ele, o que faz é apenas dar certa consistência para o que pensa, pensamento que na verdade é só reflexo do senso comum. Se acha especial por conseguir falar e escrever o que pensa, mas como disse, ele pensa como todos, é tão moralista, conservador, idiota como todos; só é um idiota com um capital. Como pouquíssimos conseguem fazer isso, ele se acha diferente dos que não escrevem e falam de forma articulada. Ele gosta de pensar e falar muito e sempre, ou seja, extensivamente, não intensivamente, por isso, não há diferenças de natureza entre um idiota que não escreve e um idiota que escreve, só diferenças de grau. [..........] O que pouco veem e o que o “intelectual” não vê é o caos. Para ele, caos é uma expressão pejorativa, idiotia é sua forma de se impor em relação aos outros, loucura é o que ele detesta já que é um moderno, racional. Mas idiotia é o bom senso; caos é a beleza do mundo, que deve ser experimentada com certa cautela; loucura, esquizofrenia são marcas do pós-moderno, são possibilidades de alegria ou expressões do poder. [.................................]. Os movimentos em rede não precisam ler Negri já que sabem muito bem o que Negri pensa. Deleuze e Negri já fizeram o trabalho de leitura e contextualização de Marx, Espinoza, Foucault, Bergson e tantos outros. Apenas o “gênio” moderno – que vive faz décadas na pós-modernidade e não sabe – que tentaria se colocar ao lado de Negri e fazer sua leitura de Marx para pensar o paradigma atual. [..............] Contra a segurança, dura, linha dura da mentalidade velha e cansada, contra isso temos a leveza e a liberdade da criação de conceitos novos. “O velho tem que morrer” é uma palavra de ordem dos setenta, mas faz tempo que morreu; e muitos tentam dar vida ao cadáver. [...........].  
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Em Porto Alegre, nos últimos tempos, a mobilidade ficou mais fácil, a partir de muitas ciclovias criadas. Está na moda se locomover de skate, bike e roller. E me parece que isso faz parte da moda hipster. O hipster difere dos que estão na moda, é alternativo; porém ser hipster é uma moda, mesmo que dita alternativa. Para ser um tem que se estar dentro de certos padrões. O hipster é ligado em arte e cultura de massa cult; tem interesse em gastronomia. Visualmente, a partir de suas roupas, se percebe um sem dificuldades: barbas longas, cabelos alinhados, camisas de manga curta com colarinho apertado e bermudas (ambas com adornos psicodélicos), tênis social, óculos enormes. Durante mais de um ano, ao menos em Porto Alegre, foi usado por homens um tipo peculiar de corte de cabelo: Razor, uma imitação do corte dos samurais. Todos os hipsters o usavam. Da mesma forma que surgiu, o cabelo razor despareceu, de uma hora para outra. A Cidade Baixa é o bairro hipster de Porto Alegre. Aqui há os cafés com bebidas não alcoólicas especiais, os restaurantes-bares com comidas, feitas de forma criativa, e cervejas artesanais. Além disso, o bairro tem inúmeras casas noturnas com som chamado alternativo. O bom gosto gastronômico aliado ao bom gosto musical. Nos últimos meses em Porto Alegre e, claro, na Cidade Baixa, começaram a aparecer centros de moda hipsters. Neles se faz o cabelo, a barba, tatuagens, se toma cerveja e se come. É uma moda tão pegajosa que é difícil não ter certos atributos da identidade hipster, tanto que há hipsters que odeiam ser chamados de hipsters.   Quanto a questão da mobilidade verde, aliada de um certo repúdio a grandes empresas, marcas dos hipsters, isso diz respeito a um tipo de anti-capitalismo, a uma questão ecológica, portanto, desvios de certas normas dominantes. Mas o Hipster se desvia da norma para criar uma nova norma. Ele é o bom cidadão das redes sociais, ele vai às ruas, luta por seus direitos, milita como pode, é o sujeito controlado, mas que vive como se tivesse um grande grau liberdade.  Ele se sente feliz por lutar por um bom mundo, acredita que está construindo um bom mundo possível.  Se sente feliz por ser quem é: politizado, com uma moral elevada, além de ser alguém diferenciado. O barulho que faz é pouco, não abala em nada os códigos dominantes; esse barulho não passa de uma resistência incluída, ou seja, não é resistência. Se o cidadão está feliz, não incomoda. E se ele sente feliz por ter um sentido em sua vida, ele pode dizer: eu vivi, eu lutei, eu busquei um bom mundo, sou uma pessoa especial. 
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quinta-feira, 11 de maio de 2017

sacações


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Dessubjetivar com drogas, que é um tipo de dessubjetivação, mas a partir de outras linhas de fuga e devires, faz parte da ética dos drogados. Dessubjetivação é uma questão ética, o sentido de uma vida, a forma mais importante de resistência. A cartografia não é uma questão apenas intelectual, e não precisa ser: um disco, um livro, uma transa, uma tomada da cidade, a relação com a droga podem ser mapas.
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E obviamente quando falo em loucos, em enlouquecer, estou falando em fluxos esquizos, experimentações de modulações do caos, que são os mapas, aumentar o território, dessubjetivar.
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Há um comum [....] que aproxima marginais, coletivos libertários, artistas, filósofos, cientistas; esse comum concerne a formas de viver e pensar o mundo, que não deixam de ser também políticas, já que viver é uma questão ética, estética, não de sobrevivência. Penso que a não aceitação do controle, a luta contra ele, é esse comum. A luta contra o controle é o ponto de partida para experimentações, criações de linhas de fuga. E as linhas de fuga possibilitam uma percepção ou experimentação do molecular. Essa percepção move este trabalho. Esse comum também toma uma forma mais direta, quase física: certos artistas, da linha romântica, aqueles que viveram e muito, e muitas vezes isso está mais que visível em suas obras, foram marginais e influenciaram coletivos libertários.  Muitos desses coletivos têm contato direto com teóricos. Teóricos libertários foram influenciados por artistas românticos e vice versa; e muitos desses artistas são teóricos, e certas obras do campo do conhecimento são obras de arte romântica.  Essas proximidades se devem já que, como disse, há uma questão existencial que os aproxima.  
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Deleuze não inventou a percepção molecular, deu um nome a ela, essa percepção tão especial que nos permite fugir, devir outro, enlouquecer. E quanto a fuga, a linha de fuga: Deleuze não inventou a fuga da prisão, nem o rap nos presídios ou o baseado antes do café da manhã. [........] Uns chamam a potência da vida de “aquele momento em que faço sexo com minha 'Garota Mágica' e parece que meu coração explode”, outros de “quando estou dormindo, junto a 'Ela' e [......................]
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Perceber que até o funcionamento do corpo é uma prisão [......] que a cidade é uma prisão, que fazer parte de um povo é estar preso a sua identidade, perceber que ser homem, branco racional é uma prisão, que uma família, escola, empresa são prisões, perceber que o sexo pode estar centrado em tarinhas de almanaque, que quando se delira muitos dos delírios são apenas neuroses presenteadas pela espetacularização da área médica, perceber que os  porcos pensam, são racionais e têm bom senso, muito mais do que a maioria dos humanos, que prazeres são vendidos no atacado, que mesmo a luta na rua pode afirmar o modelo político dominante [..........................] Perceber tudo isso pode levar a impotência ou a abolição. [....] Negri e Deleuze criaram esses conceitos que são linhas de fuga em relação a tudo isso, que nos mostram o vitalismo , possibilidades de formas de vida não capturadas; conceitos que afirmam a crítica total e radical e ajudam a enfrentar o encarceramento ao ar livre. E para compreendê-los, os conceitos, se necessita ativar a percepção molecular. E como ativar? Vivendo.
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Importante reconhecer as significações dominantes, em nós, na vida, na sociedade e traçar as linhas de fuga, isso é a cartografia, uma dessubjetivação em constante processo: não sou mais tão idiota, mas permaneço idiota. E deve permanecer, importante ter um pouco de segurança. Idiota não é uma pessoa, como o crítico da idiotia não é uma pessoa; percepção molecular e idiotia não são duas coisas separadas isoladas, são linhas de um agenciamento. Mesmo ao produzir crítica podemos estar afirmando o controle, o descontrole pode muitas vezes se confundir com o micro fascismo, por isso a cartografia.
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Sim, eu sei ler, escrever, interpretar, muitos não conseguem dar consistência para o que pensam, mas isso não me torna especial, já que muitos fascistas, seres sacanas, sabem ler, escrever e interpretar; e fazem isso melhor do que eu. Talvez o que eu faça bem seja esse processo de despersonalização em que “Eu” não diz muito, diz muito pouco. A despersonalização não exige inteligência, genialidade e, sim, abertura ao caos. 
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O comando central é desnecessário já que as regras e normas circulam livremente: sabemos as formas “corretas” de sentar, nos portar, caminhar, falar, urinar, cagar, nos alimentar, fazer sexo. Sonhamos com um futuro, acordamos de manhã, dormimos à noite, regramos os excessos, nos vestimos, amamos, conversamos, trabalhamos, estudamos, festejamos, ficamos felizes, nos submetemos [....] fazemos tudo isso, e muito mais, naturalmente. Sim, todos sabem disso, mas estou falando obviedades já que é divertido rir de tudo isso, dessa vida de rebanho afirmada duramente. Fazer sexo, ter prazeres, amar, e muito mais, são obviamente importantes, o problema é quando há uma forma correta de fazer isso e os desvios são rechaçados. A forma correta une as pessoas, e isso é muito diferente do comum que é a base da tradição romântica, marginal [....] A grande importância social dessa tradição é mostrar que a vida pode ser tão bela, melhor, tão interessante, quanto uma bela, melhor, interessante obra de arte.
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Posso apresentar muitas palavras de ordem que dizem respeito à base de dispositivos de poder, ao senso comum do bom cidadão:  “é um policial, então mostre os documentos”. “É um pai, um padre, um patrão: respeite”. “ Faz frio: se agasalhe”. “É uma vida, a sua: não se mate”. “É um drogado, um traficante: fuja”. “É uma rua: caminhe na faixa”. “São sete horas da manhã: acorde”. “Está tarde: durma”. “É sexta: fique feliz”. “Fuja da pobreza”. “Ele leu muitos livros: é um bosta de intelectual, o respeite”. “Está com fome: coma”. “Não fume: é proibido”. “Ame a vida. Seja feliz”. “Está com dor de dente: vá ao dentista”. “Seja de direita ou de esquerda.”.
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A arte cria um outro mundo, muito mais interessante por ser fictício. A função da droga não é essa? Arte, alucinações, devires são realidades em si mesmas. Fictício diz respeito à diferença, é tão real quanto o real, é melhor.  [.........]. Para entender o mundo não se necessita de teses, estudos de caso, e sim, se experimenta a arte; a arte ajuda a entender o mundo, mesmo que seja o mundo das percepções e afecções [....] A cidade é o suporte dessas proezas que alguns fazem: deliram a cidade, deliram na cidade.
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Junk, como chamam heroína, significa lixo e é uma das drogas mais potentes. A percepção molecular diz respeito a droga; é um estado narcótico, não é sadio [....] Mas a bad trip para quem curte drogas é algo interessante. O pesadelo é uma experiência das mais ricas; ser assaltado, ser esfaqueado, sofrer um acidente, enfrentar cirurgias, sofrer de abstinência, transar com garotas e depois saber que estavam doentes; enfrentar o mundo, vivê-lo com toda sua dor e alegria. O prazeroso e o doloroso, o triste e o feliz, esses conceitos são rasteiros; importam sim, os excessos; experimentar. Bukowski em um poema diz que se pôr em risco, mas com estilo, que isso é arte;  ou seja, a existência deve ser uma obra de arte.  
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Talvez o erro seja mais importante. O fazer acadêmico é o certo. O certo é a assepsia. O vagabundo é sujo, o punk é sujo, o hippie é sujo. Esse texto é meio punk, meio hippie. A pureza é importante, desde que seja uma anfetamina pura, coca pura, o que cria um corpo sujo, doente, drogado, maculado.
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sábado, 6 de maio de 2017

porto alegre, desde os anos 90


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Vivo em Porto Alegre desde os anos noventa. A cidade mudou, eu mudei, o mundo mudou, o Brasil mudou [................] A cidade sempre foi, também, meu espaço de festas, dramas, namoros, loucuras. O adolescente não fica muito em casa já que ele não pode fazer muito nesse tipo de espaço. Maconha tem um cheiro muito forte, e outras drogas deixam louco o suficiente para ser notado. Se a namoradinha é muito nova os pais não vão querer que ela fique no quarto do filho, por respeito aos pais delas. Os pais não aprovam a amizade com certos amigos, então eles não podem frequentar a casa. E o que o adolescente pode fazer é pouco, uma hora cansa e ele vai para a rua. [................]
Os pais de certos amigos, os que tentavam prender os filhos em casa, quando estes estavam próximos dos 15 anos não conseguiam mais impedi-los de sair. Os meus pais foram aos poucos cedendo. Um dia, era de manhã cedo e perceberam que eu não estava em casa. Entenderam que eu tinha passado a noite fora. Eu tinha 14 anos e foi toda uma cena, chamaram até a polícia. Cheguei em casa pelas 10 horas da manhã, minha mãe chorava, como disse, uma cena. Eu tinha ido para a Oswaldo Aranha, fiz a festa com amigos, quando tudo fechou fomos para um bar na Avenida Goethe. Fiquei com uma garota no alpendre de um prédio, foi minha primeira transa. Depois disso, meus pais não podiam mais me dizer: não saia.
Eu morava no bairro Tristeza, ali havia muitas possibilidades de vida noturna, muitos amigos começaram a sair pela cidade a partir desse desbravamento da região. Um dos bares mais famosos da Porto Alegre marginal, o Timbuka, era muito perto da minha casa. O bairro era incrivelmente seguro sem ladrões e polícia. Apenas uma vila próxima tinha algumas gangues de adolescentes, mas eles eram colegas meus, da minha turma, eram amigos.
Esse bairro, Tristeza, é um dos mais ricos da cidade e fica junto de um outro, o Assunção, mais rico ainda, no qual estava situado o Timbuka; além disso, há um colégio público exatamente na parte central do Assunção. O colégio público reunia o pessoal pobre ou de classe média baixa de bairros das imediações. Eu estudei ali por um bom tempo. Para mim, foi muito importante, já que tive meus primeiros amigos pobres e negros. O Timbuka juntava uma turma de malucos, que ia lá para fumar maconha, traficar, beber, cheirar pó. O meu grupo era formado pelo pessoal mais novo que o frequentava. E essa era a grande questão: pra que ficar em casa, quieto, vendo televisão, se a turma podia estar na rua, bebendo, usando drogas, vivendo a vida, curtindo a vida, curtindo tudo aquilo que a cidade, grande, proporciona? Talvez a cidade nem fosse tão fascinante, ainda mais nos anos 90, mas era muito mais do que a casa familiar.
Fiquei fascinado ao ler Bukowski, Kerouac e Fante. Eu já bebia, fumava maconha, era festeiro e peregrinava a cidade de skate. Pelo meu estilo de vida me encontrei na obra deles, isso com 14 anos. A partir dessas leituras e outras não tive mais medo de usar qualquer tipo de droga; a droga que aparecia eu usava. A noite começou a ficar mais louca e perigosa; subir o morro, também, não era mais um problema. Uma das maiores vilas de Porto Alegre ficava em um bairro próximo do local que eu morava, a Cruzeiro do Sul. Quando tinha sorte, comprava lá coca de boa qualidade. Como já andava pela cidade de madrugada e tinha amigos pobres, não havia motivo para ter medo de ir numa vila.  [..........]
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Aqui do lado, do local em que moro, há um dos cartões postais da cidade, o Viaduto da Borges. Nos anos noventa havia muito comércio mais tradicional. Hoje, exatamente hoje, serve de moradia para quem está na rua. Em 2013 ficou marcado como ponto das lutas “por outro transporte público”. Outro ponto tradicional na cidade é a Usina do Gasômetro, junto ao Rio Guaíba, que sempre reuniu turmas de maconheiros no fim da tarde; nos últimos anos está sendo reformulado arquitetonicamente. Na frente do Gasômetro há uma praça que juntava meus amigos punks na virada do século; hoje é uma praça familiar, reconstruída.
Também junto ao Rio, mas no início da Zona Sul, foi fundado um museu, o Iberê Camargo. Ele reúne pessoas nos fins das tardes; é um ponto para se tirar fotos e postar no Faceboook. Além disso, foi construída uma ciclovia que vem do centro até um dos bairros mais caros de Porto Alegre. A ciclovia passa por um shopping center recentemente construído. No local em que está o shopping e a ciclovia, havia uma avenida perigosa, que era ladeada por terrenos baldios e uma vila. Na frente do Museu, uma curva era famosa por ser local de muitos acidentes de carro. Eu sofri um acidente ali, um amigo meu também, e muitos outros. O governo da cidade preocupado com a curva fez muitas tentativas de torná-la segura. Uma delas, foi a criação de sensores na pista, o que não ajudou em nada [..................................]
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Porto Alegre na virada do século era uma cidade diferente. Haviam poucos controles de velocidade de carros nas ruas. Dava para beber nos postos de gasolina e fumar dentro das casas noturnas. A Rua Oswaldo Aranha estava no auge como ponto underground da cidade; as áreas de prostituição da Rua Farrapos e do Bairro Menino Deus eram bem vivas. A casa noturna NEO (antigo Fim de Século) passava pelo seu melhor momento. Outra, o Garagem Hermética, tinha bons shows de bandas locais além de festas para aqueles com interesse em cultura alternativa. Nos domingos à noite o pessoal fazia pegas de carro pela cidade, principalmente na Rua Nilo Peçanha. No fim da tarde de domingo enchia de gente nesse bar, o mais clássico da Zona Sul, o Timbuka. Nas segundas feiras de noite o pessoal tomava o cruzamento da Rua Independência com a Barros Cassal. Também nas segundas uma casa noturna abria, o Virtual. Além disso, ainda funcionavam outras, como o Elo Perdido e o DR Jekill.
Não sei se a cidade nessa época era tão diferente dela no início de 1990 quando tinha acabado de entrar na adolescência. Mas para mim aconteceu uma mudança radical ao começar a dirigir e ter mais dinheiro no bolso, passei a experimentar a cidade de outra forma. Sim, os automóveis são um dos grandes problemas urbanos, mas para um jovem, tirar a carteira, ter um carro em mãos, isso cria um tipo de empoderamento. Comentei sobre os pegas de carros, facilitados pelo trânsito não muito controlado. O pega é uma brincadeira na cidade, meio suicida: andar em alta velocidade pelas ruas, passar sinais vermelhos, não respeitar nenhuma sinalização, e isso as vezes em duplas, grupos de carros
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Na virada do século em Porto Alegre, o carro permitia então passar por todos esses espaços, comentados no primeiro parágrafo dessa parte, de uma forma simples e rápida. Um trajeto comum era ir da Oswaldo Aranha até a Farrapos. Dois pontos distantes, pouco comunicáveis, diferentes. Na Oswaldo, o pessoal ficava na rua, não tinha que pagar para entrar nos bares; dava para estacionar o carro curtir o espaço, sair dele e depois voltar. Na Farrapos, o que interessava era a área de prostituição, as meninas que ficavam nas ruas. O pessoal jovem frequentava a Rua não necessariamente para fazer um programa, mas sim para ver as meninas, falar com elas. E sem um carro fazer tudo isso seria impossível.
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Sempre me interessou a área de indiscernibilidade entre a vida diurna e noturna, quando a festa continua, sem parar: passar noites e dias seguidos na curtição da cidade, sem dormir, usando pó, anfetamina, álcool, o que vier pela frente. É dia, meio da semana, tudo funcionando a todo o vapor, gente no trabalho, os estudantes nas escolas, o trânsito lento e monótono, mas alguns poucos estão em outra lógica. Me interessa essa área de indiscernibilidade entre dia e noite já que diz respeito a uma apreensão, percepção, experimentação diferente da cidade. Virar a noite com a cabeça cheia de muita coisa e se chocar com a vida diurna, essa mudança da noite para o dia já é radical. E se a festa está rolando direto, e não importa qual é o dia, é fácil seguir o ritmo em uma cidade grande. [......................] Virar a noite, não dormir, ficar uma, duas, mais noites acordados, e isso não nas férias na praia, mas em uma cidade urbanizada, isso acentua a percepção molecular. Prostitutas, drogados, traficantes, gente maluca, sempre estão nas ruas, são fáceis de serem encontrados a qualquer hora de qualquer dia; claro que é mais difícil as três da tarde de quarta-feira do que as três da manhã de sexta; mas os malucos sempre se encontram.  
O tempo cronológico é um controle, duro, doloroso, e ele é marcado na metrópole. Em Porto Alegre a maioria das ruas estão praticamente paradas em muitos horários. E isso doí, é uma forma horrível de opressão, estando de carro ou de ônibus. Mas na rua pode ter esse pessoal, no mesmo horário, caminhando ao lado dos carros. Esse pessoal pode estar bêbado e chapado indo em direção do Rio para ver o pôr do sol.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

cartografia


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O idiota é o bom cidadão; é o controlado, é aquele que afirma as significações dominantes. Mas o idiota não é alguém, uma pessoa, diz respeito a uma forma de pensar. Não há como não ser idiota, não pensar como todos, não ser bom cidadão. Porém, pode-se traçar linhas de fuga, ficar menos protegido, experimentar. Isso pode ser na arte, na vida, na ciência, na filosofia, na música, no que for.  
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O controle não necessita de um comando central; as pessoas vigiam a si e aos outros. A cartografia não é autovigilância é exatamente a compreensão da vigilância, e o que se pode ou se quer fazer em relação a isso. As pessoas são apegadas a uma certa normalidade e lutam a todo custo para mantê-la. Se sentem seguras aprisionadas, longe do caos. Gostam de suas casas, querem elas bem cuidadas e agradáveis. E quando estão na rua se sentem bem em ver um policial. Seria um mundo perfeito se houvessem policiais em todas as esquinas; mas há policiais tão duros, ou piores, nas ruas, por todos os lados, como disse, vigiando os outros e a si mesmo.
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Não é fácil, principalmente sendo um doutor, branco, classe média, compor a cartografia, já que os devires, as linhas de fuga são mais imperceptíveis para a subjetividade dominante. É interessante que muitos, o bom cidadão, só conseguem pensar em termos de macro política, política do Estado. Desconsideram a micro política, que não é menos expressiva, mas se refere a outras lógicas. Não conseguem enxergar a multidão já que ela não tem rosto e não assina seu próprio nome. Ninguém diz: ‘somos a multidão’; ou: ‘ali está a multidão’. Já um político é facilmente identificado: tem um nome, um partido, fala por si mesmo, se representa. Políticos de qualquer esquerda são um atraso, parece que não viveram a virada do século; se tivessem vivido não seriam políticos, esses “Eus” centrados, personas; eles deveriam estar no meio dos movimentos em rede, ser mais um na multidão. Sim, os indivíduos são importantes e singulares nos movimentos, mas não são egocêntricos ao ponto de ter o desejo de salvar o mundo sendo um político do Estado. As pessoas enxergam apenas o visível: um político, um rosto, um posicionamento ideológico, um discurso. Belzebu é um enxame; Legião (o demônio) é uma multiplicidade; Baphomet é um monstro impuro; isso é a Multidão, não um bom Deus, seu bom filho, alguém acima, em um mundo ideal que dá as leis para que seus filhos vivam. Por isso, Negri trata os políticos, o Estado, como afirmadores de transcendência. Voltamos para a luta primeva? Deus X a Legião Demoníaca? Talvez por isso não se fale em multidão e movimentos em rede e sim apenas na política estatal. O demoníaco não pode nem ser mencionado pelos fanáticos pela transcendência. Isso mostra a necessidade de uma nova percepção para entender um outro mundo vivo, atual e caótico – e só os loucos enxergam o caos.
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O bom cidadão é apaixonado por si e os seus, eles são bons; o vagabundo é o erro da sociedade, como os outros párias. Mas o vagabundo mostra outras realidades, tempos possíveis, e isso dói no bom cidadão já que ele é apaixonado por sua vida. O bom cidadão, o sujeito incluído, de classe média, que vive com mais segurança que os outros, se ama tanto que deseja que todos tenham uma vida igual a sua, essa é sua utopia. Ele não aceita a vida do pária, o pária não pode ser pária, ele não pode ter essa possibilidade de vida. Todos têm que trabalhar, ter casa, ser consumidor, ter seus deveres e cumpri-los. Mais democracia, mas numa falsa democracia, continua sendo falsa democracia; capitalismo mais humano continua sendo capitalismo.  Claro que ‘bom cidadão’ é uma identidade ideal que não abarca uma pessoa, todos fogem, enlouquecem de certa forma, mesmo sem notar. 
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A não aceitação da vida como ela é imposta é a crítica, assim, mesmo sem produzir obra, sem teorizar a sua existência, o drogado é um crítico apenas por ser quem é. É radical, não aceita a percepção e a afecção normatizadas, não aceita o funcionamento do próprio corpo, não aceita o tempo cronológico, as leis, é contra a lógica do trabalho assalariado, mas produz, sim, essas formas de vidas críticas. Pensar assim, no drogadinho como crítico, permite que se fuja da transcendência, de colocar a teoria, o campo do saber, em um local privilegiado. Viva a sabedoria das ruas!
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Método? Se faz o possível em determinado momento a partir de certas condições para produzir, pensar e viver. Não há método para viver. Cartografia não é um método. Percepção molecular não diz respeito a métodos. Ver, ouvir, cheirar, tocar, lamber, perceber o mundo molecularmente não é método, é questão existencial. Cartografia não é um método a ser usado para se pensar determinados tipos de objetos. Não se tem a cartografia em mãos e se usa ela quando em campo. A percepção molecular, por ser um tipo de percepção, está sempre acionada, em alguns momentos fica mais clara, expressiva. É a percepção livre dos freios da normatização. Muitos não a notam, ou se assustam com ela. Como ela faz parte da vida, pensar sobre ela, é pensar sobre a vida.
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Creio que os “meus” cacos de memória, que misturam sonhos, alucinação, drogadição, vida em vigília, lembranças pela metade ou borradas, com buracos negros sempre presentes, são como Cut Ups, recortes prontos e daí…. os uso aqui nesse texto. Burroughs escreveu muitos livros a partir de Cut Ups completamente louco de morfina. Ele mesmo dizia que relia seus escritos e não tinha ideia de como aquilo havia sido escrito. Os Cut Ups, como cacos de lembranças, não se referem a método, os cacos são experiências de vida, que já estavam mais consistentes ou que foram aparecendo na escrita, se atualizando. Assim, em muitas partes o livro toma a forma de um mosaico, os cacos reunidos.
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Perceber valor na vida de um viciado, abobado, desletrado como um punk, pode parecer um romantismo bobo, mas creio que seja importante buscar valor no extremo da pobreza. O discurso corrente diz: “o suicida se matou pela tristeza”, “o mendigo é totalmente infeliz pela pobreza”, “o preso de forma alguma conseguiria sorrir”, “o viciado em crack tem que se regenerar”. Qualquer um, mesmo o bom cidadão tem momentos de tristeza e alegria. Um fumante de crack, um mendigo, um preso tem seus momentos de alegria. Um viciado em crack é tratado como um rato, ou é preso ou morto, mas naquele momento que junta um pouco de dinheiro, quando o tem em mãos, ele se dirige para a boca, pega as pedras e se recolhe feliz em sua tenda imunda; daí ele acende a pedra e se a quantidade for o suficiente para o seu vício, o suficiente para que ele se chape, fique bem chapado, naquele momento ele é mais feliz que um rei, ele é um rei. Claro que depois o barato passa e ele sente a pior dor que pode ser sentida por alguém.
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A poesia, o que ela faz bem é trazer, atualizar, mostrar, todos esses fluxos linguísticos, de fala, do que seja, menores, perdidos por aí: na rua, em certos guetos, em certas estações, cidades. Enlouquecer na língua, enlouquecer a língua, fazer ela delirar, foder a língua, a currar como ela merece. O acadêmico é aquele que fala corretamente; ele fala como poucos já que os da sua casta falam assim. Contra essa prisão, contra a seriedade dos caretas, a fala do louco, daquele que não domina a fala, do ignorante que se quer assim e que se foda, não mais que isso. E o coração do poeta está com estes, os párias.
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Este livro é uma experimentação, nele testo estilos de escrita: crônica, ensaio, caderno de notas, cadernos de notas refinado, texto acadêmico, literatura. A crônica atravessa todos os capítulos, como também insights, sacações que podem ser elementos da crônica. Junto a tudo isso está a cartografia, que não é um método, e se isso transparece em certos momentos se deve as contradições internas do trabalho.
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O grande tema do livro, portanto, é a cidade, pensada como local do controle, o qual é afrontado pelas experimentações dentro dela, contra e fora de controle. O que move o livro é a tentativa de experimentação de uma percepção molecular, essencial para pensar a potência das formas de resistência dentro da cidade.  
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Acentuando o caráter experimental do trabalho, após o fim do livro, publico no mesmo volume um outro livro. Sim, é outro livro, tem um tamanho mínimo de um livro de literatura, e é publicado conjuntamente, pelos seguintes motivos: 1. Foi escrito ao mesmo tempo que o primeiro livro. 2. Ele é continuação das linhas de fuga traçadas. 3. Ele possui uma escrita absurda, é totalmente experimental, não sei se foi feito para ser lido [..........] Esse outro livro é a dessubjetivação em estado mais bruto e ele será apresentado com mais detalhes em uma abertura em seu espaço nesse volume.  


domingo, 30 de abril de 2017

sacações de sacadas


Saí de um bairro mais familiar e vim morar na Cidade Baixa, a parte mais boemia de Porto Alegre. Por sorte, escolhi um apartamento em andar alto com sacadas amplas que tem como vista um Largo, o Zumbi dos Palmares, local com muitas ações de movimentos sociais. Já nos primeiros dias fiquei impressionado com as atividades no Largo e decidi escrever sobre o que estava vendo. Como o texto rendeu bastante em pouco tempo comecei a escrever um livro sobre a cidade como tema, este. Portanto, esta parte trata principalmente de coisas que vi pelas pelas sacadas, mas há muitas sacações sobre o bairro e suas mudanças nas últimas décadas. Não escolhi a vista como ponto de partida por questões metodológicas, mas sim, por uma questão afetiva.
Esse olhar não deixa de ser pequeno burguês; vejo o mundo do alto da minha torre, meu apartamentinho de classe média, minha posição de doutor. E o mundo está lá embaixo, perigoso como sempre. A rua é o lugar de todos, e há tantos desabrigados aqui na frente. Porém, já vivi esse espaço, o bairro, de forma transloucada: madrugadas e madrugadas, bêbado, narcotizado, com turmas de marginais. Sempre vivi a cidade; por isso, que no meu trabalho há sempre um cheiro de rua, vestígios das ruas.
Uma coisa legal da Cidade Baixa é que os donos dos estabelecimentos, quem trabalha neles e os frequentadores, todos se comunicam, se relacionam de uma forma horizontal. É gente praticamente da mesma idade, com um certo interesse em cultura não massiva; e as garotas sempre são bonitas. Quando estou nos espaços, converso com eles, o dono, ou donos, e o pessoal que trabalha para eles. São todos receptivos e comentam a deterioração do bairro nos últimos tempos. Já era violento na virada do século, depois ficou menos pela modelização, mas nos últimos dois anos é uma das partes mais perigosas da cidade.
As mudanças são mais que visíveis na Rua João Alfredo, a segunda mais importante da Cidade Baixa, que se transformou radicalmente: era uma rua meio opulenta, hoje as casas que abrigam bares estão todas pixadas e fumantes de crack estão sempre por todos os lados. Notei isso quando as cinco da manhã, depois de um tempo sem sair de noite, fui na João Alfredo e parecia uma festa dentro de uma favela. É estranho já que o bairro ganha mais comércio, muitas vezes gourmet, e ao mesmo tempo fica mais marginal.  

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Eu – Cara, achei um apartamento bem bom, ótima localização, bom preço. Mas só fiquei nas fotos, não fui lá.
Um parceiro meu – Por que?
Eu – O ap tem duas sacadas grandes, uma no quarto outra na sala. Só que são abertas, os parapeitos são tipo grades baixas de metal. Oitavo andar.
Meu parceiro – É, deve ser legal chegar de madrugada bêbado e tomar a saideira na sacada...
Eu – Estava pensando exatamente nisso.

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Decidi por fim alugar o apartamento; mas a escolha foi demorada já que tenho medo de altura. Porém, foi exatamente a vista que me fez locar o imóvel. Talvez seja uma das mais interessantes de Porto Alegre: oitavo andar, de frente para o Largo Zumbi do Palmares, local que tem atividades constantes.  Não estava interessado em morar na Cidade Baixa; não fazia questão; muito barulho, muita festa. Não queria acordar de madrugada com vontade de sair. Mas agora estou aqui desde sexta; hoje é segunda. Estou aqui escrevendo, faz sol, é de manhã, e quando paro de escrever, olho a vista. Montei a sala de tal forma que posso vê-la, a vista, mesmo quando estou escrevendo e pesquisando no computador.   
Arrumei tudo na sexta de noite, estou bem instalado, porém sem sinal de internet. Meu plano de dados está consumindo muito. Não tenho televisão, faz anos. Por isso, fiquei muito tempo entretido com o que se vê das sacadas. No sábado, fiquei intrigado com um rapaz de pé, de frente a uma janela, uns 300 metros à minha frente, no décimo andar de um edifício, que provavelmente fica na Rua José do Patrocínio. Ele estava de pé e as vezes desaparecia. Como estava distante, não conseguia ver direito. Mas entendi a cena: ele estava, não de pé, mas de joelhos em uma cama transando.  
Daqui vejo vários locais que já frequentei. Descobri no sábado que dá para ver um prédio que morei entre 2005 e 2006. Depois, notei a parte de cima de outro prédio no qual fiquei um bom tempo em 2013, já que ali morava uma namorada na época. Também vejo o edifício de um amigo meu. Aqui na frente tem mais espaços importantes para mim: uma lancheira, o Cavanhas, que era ponto de encontro de minha turma na adolescência; o local que abrigava uma casa noturna, o Dr Jekyll; o bar Ossip, que frequento desde os 20 anos; um teatro no qual assisti inúmeras peças desde a adolescência. Mas o mais importante é o Largo Zumbi. No Largo, participei de manifestações e encontros de movimentos em rede e quando era mais novo ali praticava skate.   

sábado, 29 de abril de 2017

crônicas: poa, na virada do século


As páginas posteriores são sobre cacos de memória, referidos a Porto Alegre na virada do século. Tratam da indiscernibilidade entre dia e noite, sonho e vigília, lucidez e alucinação, realidade e ficção. São coisas que vi, fiz, ouvi, outras que possivelmente são buracos negros, invenções, truques da memória. Como são situações que não tenho certeza se aconteceram, escrever sobre elas é literatura ou autobiografia? Por isso, no caso, o registro artístico é mais importante do que o trabalho cientifico, a arte expõe melhor a loucura e a narcose do que as ciências.  

De madrugada, acabei de sair de um bar, pedi um ácido prumas pessoas, desconhecidas, não sei se me deram, se eu tomei. Estou descendo de carro a rua do Jardim Botânico, os vidros abertos, som alto, alta velocidade, começo a respirar fundo, fundo, mais fundo, de repente cada inspiração é como seu eu estivesse aspirando um gás que sobe direto pro meu cérebro e me dá uma sensação de prazer. A rua fica flat, paro em um sinal, a alucinação acaba de súbito. Penso no que aconteceu: eu tomei o ácido? A turma me deu alguma droga, uma droga nova? Nunca havia sentido isso. Me envenenaram? No chão da parte da frente do carro, várias caixas de vários tipos de medicamentos estupefacientes.  
Estou voltando de carro de Canoas, cidade ao lado de Porto Alegre; tinha virado a noite. Me sinto bem; não sei o que tinha tomado, não que eu não lembre, mas eu não sei, e não sabia. Devia ter tomado muita coisa. Estou na estrada e tenho um acesso de risos. Não consigo parar de rir. Me sinto louco, mas não me importo.
A gangue na frente da NEO de manhã; a luz do dia que quase cega; me sinto meio oprimido pela luz. Poucos carros na avenida, um pouco frio. Um carro passa em alta velocidade e um dos caras do grupo golpeia o carro e quebra o espelho retrovisor. Isso realmente aconteceu? Poderia acontecer algo do tipo? Um carro na rua em alta velocidade pode ser golpeado por alguém que tá a pé? E mais, esse alguém nem se lesionou.
Tomei ácido e codeína no Garagem Hermética. A codeína tinha batido, mesmo que eu precisasse de doses cavalares pra fazer efeito já que eu tomava feito água. O ácido não tava batendo. Chego em casa de manhã nada do ácido ainda, mas sentia um vento gostoso passando sobre mim, um frio agradável. De repente, paro na frente do espelho e me olho. Olho fixamente e quase vejo os ventos. E daí, ouço uma voz: “se despeça de mim”, ela diz. Ouço isso apenas quando olho o espelho. Na semana seguinte uma amiga de infância se mata com um tiro.
Saio de um puteiro na Cidade Baixa de manhã, estou na rua. Devo ter passado a noite junto com as prostitutas. Me direciono pra casa, que ficava na quadra abaixo. Ouço uma prostituta gritar meu nome, não dou bola e continuo caminhando.  Tudo estranho; a estranheza de se encarar o dia depois de ter estado a noite toda em um lugar fechado e escuro. O que se passou? Provavelmente isso aconteceu inúmeras vezes, mas eu não tenho memórias claras.  
Nova York, década de 70, Iggy Pop louco de muita coisa como sempre. Ele passa por um pessoal, diz “oi”, mas não vê uma escada. Ele cai, rola pra baixo. Todo mundo diz: ele morreu. Mas ele se levanta e continua caminhando como se nada tivesse acontecido. Quando li a história pensei: acho que isso aconteceu comigo naquela casa noturna no fim dos 90.  
É de manhã, passo na área administrativa da cidade depois de uma longa noite. Passo um sinal vermelho, a polícia me para, e diz: “cara, é a segunda vez que você faz isso na semana; eu não vou te passar no bafômetro hoje, mas na próxima eu te prendo”.   
Eu tava vidrado nessa mina. A gente se via sempre na NEO e ela virava a cara pra mim. Num domingo na Oswaldo Aranha ela cede e a gente vai pro meu ap na Cidade Baixa. É de noite, madrugada, ela se apoia na janela, nua. Nunca havia visto uma mulher tão bela, gostosa. A gente transa na janela mesmo, olhando pra rua. Depois acho que já é dia, a gente tá na sala, eu estou nu e ela tá com aquele vestido negro mostrando o corpo. Horas mais tarde estou sozinho em casa e vejo que ela tinha escrito em meu diário: “vai a merda, eu te amo”. Na noite posterior a tudo isso, a garota que eu gostava, uma ninfeta dez anos mais nova, permite que eu a beije, não na boca, como rolou no Parque da Redenção horas antes, mas em seus peitos, em seu ventre, em sua vagina. Daí, dias depois, estou fumando um na janela e vejo que ela – a ninfeta – lê meu diário; ela lê aquilo que a outra mina tinha escrito: “vai a merda, eu te amo”. Ela, a ninfeta, foi embora e nunca mais a vi.  
Caminho pela rua, parece que estou caminhando sempre, sem parar, dia e noite. Encontro um amigo e a gente vai tomar uma ceva num bar perto da Redenção. Antes eu tava na Redenção beijando duas EMOS. Sempre encontrava elas e não sei o que mais rolava, não lembro. Eu e o amigo a gente tava bebendo uma cerveja e comentei com ele: acho que eu tava de tarde no centro, perto da Matriz, tinha poucas pessoas na rua, vi uma mina. A gente, eu e a mina se olhou, eu beijei ela, assim do nada. Nunca tinha visto ela e ela gostou. Sim, isso aconteceu, mas eu não me lembro.
Eu, minha amante e minha namorada, a gente foi pro acampamento do Fórum Social Mundial. Isso em 2001 ou 2003 ou 2002. Minha namorada ficou conversando com minha segunda amante e eu fiquei com a minha primeira já que ela tinha várias caixas de Valium e Rohypnol. Então ela foi me dando comprimidos. Eu pedia, ela me dava. Isso era de noite quando o pessoal dançava, bebia e tocava instrumentos rústicos entre fogueiras. De manhã a gente chega em casa, não sei como. Mas lembro bem de tomar tudo que ela tinha em mãos, mas não lembro da overdose, nem quando me levaram pro ambulatório. E tudo isso pode ter sido um sonho.
É uma noite escura, estou na Barros Cassal. Eu encontro aquela mina com sotaque estranho que era atriz de filmes de terror pornô. Em outra noite eu pedi pra fotografar os peitos dela, enquanto o diretor dela tava cheirando cocaína em um grande espelho, isso no Garagem Hermética. Daí eu tava com a mina e a gente deu umas voltas pela cidade de carro. Acho que tava junto aquele cara, o Paulista. Eu digo pra ela que não posso comprar codeína, a única farmácia que tinha não vendia mais pra mim. Ela vai até a farmácia com as receitas e consegue comprar. Daí o Paulista, enquanto ela comprava, disse que iria me dar pelo menos mil reais se a gente roubasse a farmácia. Eu mudo de assunto. A gente tava num posto perto na Farrapos e o Paulista desaparece num carro com um psicopata cheirador. Eu fico com ela como queria. A gente tira umas fotos. Eu peço um beijo e ela me chama de infantil. Deixo ela em algum lugar muito longe, talvez na Avenida Assis Brasil.
O dia nasce e estou caminhando em direção da Farrapos pra ir num puteiro; tinha perdido o carro? 
Eu e minha namorada a gente decide conversar sobre a relação dentro do banheiro de um bar na Lima e Silva. A gente entra e começa a conversar. Ao mesmo tempo uma das atendentes do bar fica batendo na porta dizendo pra gente sair. A gente não sai, ficou lá uma meia hora. Nossa turma de amigos tava lá fora fazendo não sei o que, mas nos esperando. Dez anos antes eu e meus amigos a gente entra em um banheiro minúsculo pra cheirar pó pela primeira vez. A porta começa a bater, e a gente ouve berros pedindo pra que a gente saísse. Isso era meio óbvio já que era o único banheiro masculino de um bar que enchia de caras que bebiam cerveja. Mas lá no bar da Lima e Silva eu e minha namorada a gente ouve uma voz alta e masculina dizendo: é a polícia, se não abrirem a porta, vamos derrubar. A gente abriu e saiu sem problemas; apenas nunca mais deixaram a gente entrar no bar. Mas o mais interessante é que a polícia bate as sete horas da manhã na porta do meu ap na José do Patrocínio. Pensei: me ralei. Eu abro a porta e o policial diz: mas você de novo! Era o policial que me tirou do banheiro em que eu tava com minha namorada. Nesse dia a coisa foi simples, eu só tinha estacionado o carro em frente de um bar o que tava impedindo que o bar fosse aberto. Não sei o quanto de verídico é essa história, já que eu não confio em mim.
Eu saio de manhã da NEO. Uma garota debocha de seu amigo gay. Ela lhe dá um tapa no rosto. Eu fico puto já que ela tava sendo sádica com alguém mais fraco. Eu lhe digo: bate em mim. Ela abaixa a cabeça. Eu lhe digo: venha com minha turma não tem ninguém na rua vocês podem ser assaltados. Ela vem atrás de mim e me beija na boca.
Eu peço cocaína pra alguém, é um segurança e ele me põe pra fora de algum lugar que eu não me lembro.
Eu beijo uma garota dentro de um bar enquanto acontece uma chuva de garrafas, uma briga de gangue.
Eu acordo na rua, e a minha futura namorada aparece e me compra um XIS pra eu comer.
Ela me chupa em seu apartamento depois de anos tentando me comer. Meses depois eu vou na casa dela de madrugada, mas ela mesmo assim me acolhe. Anos antes a gente caminhava de madrugada da Osvaldo até a casa dela na Independência. Ela queria ficar comigo, eu não. Anos depois eu durmo na casa dela e a gente transa. Ela fica brava comigo já que derramei vinho no sofá. Anos depois eu digo a ele que a amo, e ela diz que sabe que é mentira. Não posso falar sobre ela, já que não sei se ela realmente existe ou existiu.
Eu entro em um banheiro de um bar – não sei qual – com duas garotas. O banheiro é o feminino, talvez estivessem lá outras garotas. Eu e as garotas a gente se beija. Não sei como era o rosto delas. Parece que elas tavam tão seguras, livres, quanto eu. A gente não tava nem aí com seguranças, com as pessoas em volta. Sinto que isso aconteceu não uma vez, mas inúmeras vezes, em inúmeros lugares em inúmeras épocas.  
Em uma casa noturna eu começo a caminhar e beijar qualquer garota que passa pela frente. Eu beijo todas, umas dez, talvez tenha beijado rapazes, não sei. Lembro do afeto envolvido, algo que me impulsionou a isso. Depois eu tava transando com uma garota dentro da casa, junto a uma das janelas, de frente pra Redenção, só que daí um dos seguranças saca o que estou fazendo e sou expulso do lugar.  
      Estou caminhando com um amigo e digo: Lucia é uma garota bonita, não? Ele diz: você ficou com ela noite passada. Eu pergunto prum outro amigo: eu tentei agarrar a Maria noite passada? Ele diz: você não devia ter feito isso.
Eu saio de um táxi na frente da casa noturna e vejo uma mina; ela tava conversando com um cara, acho. Não dou atenção pro cara e falo pra ela: vamos pro meu ap? A gente pega o mesmo táxi, vai pra minha casa e transa. Depois disso ela foi embora. Não lembro do seu rosto.