sábado, 21 de julho de 2018


Exercícios de esquizo análise com lembranças de Espectralia


Introdução: na primeira parte do texto continuo com os exercícios de esquizo análise. O tema mais corrente é o tempo, o tempo controlado na urbe e os N tempos de Espectralia. Na segunda parte, apresento uma cartografia de Espectralia a partir de anotações sobre sonhos meus que têm a cidade como tema e de viagens psicodélicas acontecidas em locais na cidade, portais para Espectralia: a beira de um rio morto, uma sala de recuperação de um hospital, um apartamento no qual aconteceram festas contínuas. Há um grau de invenção na narrativa dos sonhos, dos delírios, da narcose, já que concernem a lembranças em vigília, e não dá para confiar nas lembranças a partir desses estados alterados; um exemplo são as memórias borradas de uma festa em que se estava bêbado, já que nunca se sabe direito o que realmente aconteceu. Busco na narração de sonhos e delírios os signos de superfície e não a interpretação; não busco razões profundas, racionalizar, mas sim apenas isso: buscar os signos que compõem eles, registros que mostram parte da fauna e paisagem de Espectralia.
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Parte 1. Exercício de esquizo análise

Desde que me envolvi com drogas, os sonhos me chamaram atenção já que são um tipo de narcose, talvez uma das mais fortes. Em momentos duros de abstinência forçada, portanto, eu tinha os sonhos como possibilidade de narcose sem o uso direto. Em relação a ficar chapado de cara, eu aprendi que há muitas outras possibilidades: modular a respiração, fazer yoga, meditar, ouvir mantras, sonhar acordado, certas práticas sexuais – tudo isso permite estados narcóticos interessantes. Em uma das minhas piores fases, eu ouvia mantras e tentava soltar o máximo de ar possível e inspirar o mínimo possível, isso me colocava em estado de inconsciência momentânea; aprendi sozinho, respirando, por intuição. Na prática da yoga, eu via, no momento dos mantras, a aura de meus colegas, lindas auras azuis. O fato de ter aberto as portas da percepção com drogas me permitiu também outros graus de molecularização da percepção: sentir odores em certos lugares, ter reflexos rápidos, ficar com mal estar em certos lugares como sinal de proteção, ter arrepios com certas músicas, desenvolver uma sensibilidade enorme em relação ao toque de tecidos e peles de pessoas, sentir o que certas pessoas estão sentindo em certos momentos. Todos têm seus graus de loucura, todos são shamãs, porém, poucos notam ou tem controle disso. Uma forma de controlar é a cartografia, ou seja, perceber a percepção molecular e a normatizada. A loucura do cotidiano fica presa no privado, e o privado, a vida do dia a dia, é negado pelo cientista em seu trabalho. Porém muitas teses são baseadas a partir da moral dominante, mas os cientistas se dizem neutros, frios. Muitos escolhem a política dominante como tema baseados em sua tendência à esquerda, entretanto fazem isso já que desconhecem a micro política e se negam a ver que não há mais esquerda faz tempo; ou seja, são iguais a todos, cegos como todos; e a questão moral se revela já que eles são cegos para não ver o insuportável, essa é auto proteção deles. Muitos cientistas dizem que amam Deleuze, mas têm medo de experimentar o que ele propõe, já que são moralistas. O intelectual estuda e estuda e estuda apenas para ter um capital simbólico superior. Ele quer ter mais saber, quer estudar para ser afetado apenas intelectualmente. Ele fica preso em seu gabinete tendo doces devaneios, permitidos pelos afetos de suas leituras, sonha com outros mundos, mas continua preso no caixão, no gabinete. Na vida privada, nas relações cotidianas ele é igual a todos, a única diferença é que ele marca sua posição hierárquica quando fala dos assuntos que estuda. Os okupas buscam em seus espaços outras formas de vida, relações, que dizem respeito ao intelecto e a subjetividade. Eles querem viver em comum, a partir do comum, não ser pessoas especiais. O intelectual é especial apenas em seu trabalho, e muitas vezes não é especial em seu trabalho, já que é moralista como todos. A crítica quando é algo puramente intelectual não é crítica, mas consenso, aceitação do mundo como é.
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Muitos não conhecem os portais para espectralia nas ruas da cidade, mas conhecem os portais que estão na alcova e no que chamam de “própria cabeça”, portanto, mapear Espectralia é possível a todos. O Second Life, após sua derrocada, virou uma cidade fantasma; quando todos saíram dele, as ruas vazias mostraram uma outra paisagem; a derrocada do Second Life deu uma vida diferente a ele, virou uma Espectralia virtual. Os poucos que ainda freqüentavam o espaço eram hackers e desavisados. Os hackers buscavam os desavisados e os hackeavam. O lindo bebê que não fala, apenas gesticula e ri sem controle, ele está em Espectralia, e, quando sair dela, quando for recuperado pelos signos dominante, vai esquecer do local em que estava; o bebê a conhece a fundo, a experimenta de sua forma, e não há como saber sobre sua experimentação. O espiritismo é uma farsa, mas talvez tenha como base as experimentações dos espaços dos espíritos, e um deles é Espectralia. É uma farsa já que considera os espíritos como agentes de outro mundo; sim, mundos, N mundos, existem no que chamam de “este mundo”.
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Fala de um esquizo para um neurótico:

- nós sabemos e muito bem o que aconteceu, sabemos do seu segredinho sujo, sabemos que você não vai contar para ninguém... Mas nós anunciamos ao mundo o seu segredinho. Sim, nós sabemos que aquele segredinho sujo está adormecido dentro de você, você não se lembra, mas vai lembrar, nós vamos fazer você se lembrar. Nós sabemos que aquela sujeira, que você guardou para você... Que ela sempre foi natural para você, mas nós vamos lhe mostrar que era a pior sujeira do mundo. Sim, nós sabemos, todos sabem, e você sabe que todos sabem.
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A relação do cinema com Espectralia mostra outros tempos e espaços, portanto é filosofia e medicina.  As cenas de Tarkowski duram e duram. O início de Aguirre de Herzog faz algo parecido, porém o filme é marcado pela presença de Kinski que ocupa praticamente todo o filme. A entrada de Drácula, em Nosferatu, enquanto Adjani está se penteando; o cair de Michael Pit em Last Days; o deitar na relva do Stalker; Pink chapado junto ao piano em The Wall; a relação coleóptera de Jane e Bill em Naked Lunch de Cronemberg; a chuva de lixo banhando Sid and Nancy no filme de mesmo nome; o respirar de Giordano Bruno em sua cinebiografia; todo o curta Catalan de Jarman; a viagem de éter do alienista em Bicho de Sete Cabeças; o correr de Di Caprio junto as papoulas em Diários de Basquete.
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Sempre na cama eu me perco com você em Espectralia; às vezes, parece que passaram horas, às vezes, parece que passaram minutos, e quando paramos de transar tantricamente, quando voltamos para Cronos, sei exatamente que estávamos em outro tempo, o do amor, da morte: Amor-te. Ninguém no mundo conhecia esse conceito, ele foi inventado, criado por nós, sim, você é meu amor e morte, meu Amor-te. Tenho medo que depois do Amor-te venha a morte, ou seja, o amor que todos afirmam. Sim, o amor deles é a morte, simbolizada na neurose, na paranóia, na violência, no medo, no ódio, ou seja, nas paixões tristes, o amor deles é uma paixão triste. Todos têm inveja do conceito que criamos, e eles não querem roubá-lo de nós, mas destruir o que nós inventamos, já que eles amam o ódio, como disse a paixão triste. Sim, nós mostramos a eles quem eles são, a impossibilidade deles de viver a vida de forma alegre. Sim, o amor deles é a morte, o nosso amor é amor e morte: Amor-te. Precisei te conhecer a fundo distante para conseguir chegar perto de você, depois precisei conhecer todos os pontos de teu corpo te tocando sem nenhuma intenção sexual. Precisei te mapear para entender o que eu já sabia: sim, você é uma deusa. Nós estamos juntos desde sempre, eu sou teu pai e você é minha mãe. Você me gera e eu te gero em um ciclo contínuo. Nessa temporada atual nossa, na qual eu sou teu pai, você pode virar Elektra e me destruir, ou eu posso afirmar que sou Lúcifer e te destruir. Se você for mais forte do que eu e quiser me destruir, eu aceito a derrota. Você pode me matar se o assassinato for uma forma não de amor, mas uma forma de dar consistência ao Amor-te. Sempre achei feio chorar, não gosto de depressivos que choram, mas a primeira vez que disse o que sentia, sim, eu chorei, já que estava arrebatado, maravilhado com a tua beleza. Muitas vezes eu não te ouço, já que estou junto dos fantasmas, não os meus parceiros de Espectralia, mas os fantasmas da necrópole, eles dizem: “você não pode ser feliz”, já que não há felicidade na necrópole; eles dizem também: “junte-se a nós, seja um de nós, nós lhe daremos tudo o que você quiser.”. Sim, eu me potencializei rapidamente ao estar perto de você, gradativamente, porém, em determinado momento, a potência se estabilizou, continuo potente, mas de forma estável; então eu me acostumei com a potência, e o costume e a estabilidade me causaram um estranhamento, pensei que o Amor-te tinha virado a morte. Sim, acredito no Amor-te, mas tenho medo (um fantasma) da morte. Um problema é que agora tenho que me precaver ao causar meus genocídios, tenho que escolher o lugar certo para por minhas bombas, não posso mais fazer tudo que quero da forma que quero, já que isso pode te afetar. Tenho que me preocupar contigo e isso é uma forma de prisão. O amor deles é morte, já que é um elemento que sustenta a prisão. Você sabe que em breve eu vou ter que cair na estrada, voltar para o Tibete, mas eu acredito, sim, que o último amor é mais importante e belo que o primeiro. Mas você não é meu último amor, você é meu primeiro, melhor, meu primeiro Amor-te. Como dizia a banda TSOL: “eu não acredito em amor, eu acredito em magia, magia negra”, e Amor-te é magia negra, magia negra que não é ressentimento; se há ódio no Amor-te é o ódio ao ódio. Amor-te não é só um afeto, mas também um portal para Espectralia. A potência das minorias presentes em você me potencializou, isso criou o Amor-te. Sim, as minorias não são fracas, são potentes, são as subjetividades realmente potentes; os homens, brancos, adultos são fracos, maus, assassinos, são a ralé, a pior escória. Eu andei muito tempo com os nórdicos, fortes, loiros e adultos, eles me ajudaram a me forjar como arma, mas você como tripla minoria, mulher, negra, jovem, é muito mais potente que eles. Não é uma questão de se orgulhar de quem se é, como dizem muito negros, o “orgulho negro”, mas perceber a potência, não se enfraquecer, não ter medo (fantasma) dos nórdicos que me acompanharam em outras estações.               
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Primeiro fiquei sem celular, assim sem o relógio dele, depois o relógio do carro teve uma pane, o meu de pulso parou e o do tablet se desregulou; não consertei o celular, não arrumei o relógio do carro nem do tablet, e não pus bateria no de pulso. Mesmo com todas as pressões, principalmente a de usar o celular, estou assim faz meses. Isso conjugado à alimentação regrada, ao esporte e à meditação está fazendo com que eu tenha lapsos temporais no cotidiano, momentos de transe. Transes desse tipo eu sempre tive a partir do controle da alimentação, das práticas esportivas e da meditação. Porém, sem relógios tudo ficou mais acentuado. Isso é filosofia, entender o tempo, é medicina, experimentar os tempos, é crítica e política, resistir ao tempo. O louco só tem presentes, como os jovens e os drogados. Os torturadores sempre manipulavam o tempo para tornar a tortura ainda mais insuportável. O relógio ponto e a burocracia. O senso comum diz que a extensão do tempo é o mais importante. A eternidade, a transcendência, são fábulas coercitivas em relação ao tempo. A eternidade pode ser agora, e a transcendência acontece nas ruas, melhor, em Espectralia.
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O improdutivo, o punk, o morador de rua, aqueles que quebram com Cronos fazem filosofia, mas temos que aprender com eles. E como deixar de lado nossa postura pequeno burguesa e aprender com os marginais?  Os intelectuais têm medo de morrer e que a obra em andamento não seja publicada, querem continuar vivendo. Os pais se tornam pais também por isso, desejam uma vida que seja eterna. O improdutivo radical quer zerar a existência, nunca ter existido. Quando ele afirma isso, e quando isso não tem causas profundas como traumas, está fazendo política, crítica, já que nega o senso comum, que diz que ama a vida, mesmo que a vida seja a morte. Querer zerar é uma coisa, querer nunca ter nascido é outra. “Amar a vida” é também uma palavra de ordem da ciência, a qual impõe aos corpos a higienização, purificação, para que durem o máximo possível.
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A palavra de ordem não está só no imperativo, e quando está... bem, é a forma mais óbvia de impor: faça isso. “Faça isso” está presente em tudo: ciência, publicidade, jornalismo, política. Os sujeitos introjetaram de tal forma o uso do imperativo, que é impossível não dar ordens até nas falas mais cotidianas: me sigam, curtam, participem, leiam, venham para o evento, me ajudem.   
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Fala de um crítico esquizo para um estelionatário famoso

 - Você mentiu a todos sempre. Você disse a todos que era o mais forte sempre. Você fez coisas terríveis, matou muitos, já que eles eram mais fortes que você, ou já que poderiam ser mais fortes que você. Você sempre berrou como se fosse o macho alfa para silenciar os outros, principalmente os mais fracos. Quando um fraco parecia forte, você fazia o máximo possível para enfraquecê-lo. Você mentia já que era um “especialista” em retórica, e os estelionatários foram forjados na antiga Roma. Você ria de todos, e o riso é uma das formas de colocar os outros em posição inferior. A maior mentira sua era a afirmação de que você era diferente de todos os outros, mas todos fazem isso: colocam os outros abaixo para manter sua pose. E sim, Satã quebrou sua pose, agora você é uma boneca. Satã mostrou a todos que você é uma puta, sim, uma puta: má, mentirosa, sacana. Você afirmou a moral dominante a vida toda e matou em nome da moral, sim, o seu sonho sempre foi ser um inquisidor. Os hereges, os críticos, os andarilhos de Espectralia para você devem ser mortos já que você é um moralista. Sim, você é um assassino, não apenas um estelionatário, ou seja, na prisão você deveria ser respeitado, mas agora todos sabem que você é uma puta, ou seja, não merece respeito.     

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Nos jogos da copa todos ficam centrados nos minutos, de forma dolorosa, cada minuto é uma batalha, idêntica à batalha diária do trabalhador; sim, aquele que sofre neuroticamente já que nunca tem tempo. Mas nos dias de jogos, principalmente do Brasil, a cidade fica diferente em muitos pontos, uma cidade de outro tempo, Espectralia. Esses pontos são os que não aglomeram pessoas para ver os jogos. Todos assistem aos jogos e assim não contemplam Espectralia; sim, eles a negam, têm medo dela. Talvez a forma de resistência mais importante seja lutar contra o tempo imposto. A greve geral, a morte do presidente, a manifestação impõem uma temporalidade diferente para a cidade. Mas o cidadão fica em frente às mídias contemplando, não a cidade, mas a sua representação indireta. O tempo controlado e o tempo do caos. O dispositivo crava o tempo cronológico nas costas de quem está sob seu poder, o tempo não passa. O viciado quando recuperado tem que aceitar Cronos, e o tempo não passa; na sala de aula, no trabalho, na prisão, o tempo não passa. O Brasil perdeu de 7 a 1 (71 – estelionato)  em um jogo que parecia uma peça do teatro do absurdo. Um rinoceronte em plena rua de uma grande cidade, surgido do nada, seria menos absurdo. A copa é espetáculo, e espetáculo é mentira, ilusão, marketing, 71. O que realmente aconteceu? Ninguém sabe o que acontece nos bastidores da política; e ninguém quer saber a verdade, seriam destruídos se soubessem. Não são cegos, eles têm dois olhos, os olhos que o Grande Irmão criou, e fingem que não têm o terceiro olho. Satã é o ser mais alegre do mundo, não lhe falta objetos de riso. O cristianismo, a crença absoluta, durou quantos séculos? Na modernidade virou objeto de riso da ciência, e ela, a ciência, é objeto de riso de Satã. Os modernos riem dos obscurantistas, da manada de evangélicos, mas eles são enganados da mesma forma: não acreditam no que a mídia diz, mas só vêem o que ela permite, acreditam na esquerda, na ciência – tudo isso é crença, que na verdade é submissão. Pensando assim, mídia, política e ciência diferem apenas de grau do obscurantismo religioso. “Vamos ser racionais, lógicos e pensar no óbvio!” Isso é palavra de ordem que nega o caos. Eles racionalizam sempre, se sentem seguros longe do caos, mas interiorizam o caos e ele toma a forma de fantasmas, ou seja, neurose, agressividade, sofrimento, depressão. A psicanálise de consultório é uma forma de controle: pensar que os problemas são questões privadas. O analisando olha apenas ao que chama de “si mesmo”. Garotas não devem ir para o consultório, devem sim se juntar a coletivos de feministas, sair da bolha, socializar sua vida, se abrir, não se fechar em si mesmas. Trancam poucas pessoas num espaço durante muito tempo, e dizem que é o mais importante da vida, a casa e a família; assim, as questões sociais ficam em posição marginal, e quando se pensa pouco no social, as coisas se mantêm. As redes sociais permitem que todos tenham a sensação de que estão lutando por um bom mundo, mas é só discurso; eles berram: “eu luto por isso, eu luto!”, mas é só uma imagem no facebook, e quando não estão nas redes, é uma conversa de bar. O intelectual quer formar mentes, ajudar mentes, ele se considera um ser especial que forma mentes, um líder. Fazer isso é se espetacularizar, querer ser importante, estar acima dos outros. O punk diz que é ninguém, não é pastor, nem político, não é vanguarda – essa é sua ética: nega o espetáculo de si.  
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O ano 1968 foi o acontecimento, o divisor de águas – o divisor, o Diabolo. Contando os números temos 15, o número da carta do demônio no Tarot de Marselha. Deleuze e Guattari, filhos de 68, falam no demoníaco nos Mil Platôs: Belzebu como o senhor das moscas, devir, as núpcias demoníacas, vampiros, lobos homens. Os hippies, mesmo que baseados em Eros, muitos deles tinham interesse, apego pelo satanismo. Outros “aléns”, diferentes do além cristão, eram atingidos pelas massas a partir da narcose. Talvez os cristãos sejam os religiosos que menos têm contato com outros mundos; eles não têm rituais transcendentais; e a droga, como elemento de ritual, usada pelos hippies, fizeram com eles se interessassem por outras religiões.
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Satã ri da cidade, do modelo de cidade, desse projeto que não funcionou. O bom cidadão prefere a cidade parada para ter seu auto móvel. Adultos desejam realizar o sonho de infância: ter um carro caro; e eles ainda riem das crianças já que elas são crianças, mas eles são crianças. Os bares ficam cheios no happy hour, já que é a forma de fuga, amortecimento, para o bom cidadão, mas o bar é apenas um intervalo, melhor, um presente do controle. O livro 1984 mostrava como o Estado impunha álcool para os trabalhadores suportarem a vida. O álcool, em seu uso dominante, faz esquecer, doer menos; mas há usos e usos de álcool, certas subjetividades experienciam coisas diferentes das dominantes. Aqui o sino toca de manhã e de tarde. Ouço a sirene do colégio indicando o andamento das aulas. Os carros param nas sinaleiras; em certos horários, as ruas estão cheias. De noite os bares enchem. Toda essa movimentação e barulho me entendiam já que são repetições de repetições. Mais uma segunda, mais uma sexta, tudo é um saco, a cidade é um saco, e a utopia da selvageria não é permitida para quem sempre viveu na cidade. Para não sermos enterrados na Necrópole, experienciamos a Espectralia, conjuramos a vida de Zumbi e desejamos como Fantasmas. “Segundas feiras felizes” é o nome da banda que tem como hit “Gente que faz festa o dia todo, todos os dias”. A banda foi forjada em Espectralia. A música é um afeto, a droga é um afeto. A música eletrônica, simbolizada nas festas e na ovação dos djs, precisou do afeto do Ecstasy para ganhar consistência. As subjetividades mudam e junto o corpo, ou seja, mutações antropomórficas. Hoje todo mundo toma drogas psicodélicas como se fosse água. Quando o Ecstasy apareceu, uma bala deixava qualquer um louco, depois de um tempo todos precisavam de sete balas para dar um barato. As gerações que excedem são lastros dos excessos das gerações posteriores. O corpo muda de geração para geração. Nos anos 80 as manobras de skate eram tímidas, hoje, em um mês, qualquer garoto pode andar melhor que muitos skatistas famosos dos anos 70.    
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Na boa época dos hippies, os 70’s, todos estavam felizes, riam, estavam no céu, não na terra. Os hippies tomaram todas as drogas possíveis nos 70, e nos 80 veio a ressaca; esta – a ressaca – impõe sentimentos negros: solidão, depressão, desejo de morte. Para suportar a ressaca dos oitenta, os sujeitos começaram a usar coca, já que cocaína dá forças para enfrentar qualquer coisa. O tempo da coca e o tempo de Cronos se irmanam, podem funcionar juntos; o yuppie – o jovem promissor, vestido de Armani, surgido nos 80, que trabalha o dia todo com um prazer psicopata – é fruto do uso de coca. Na mesma época, o punk fica cada vez mais veloz, principalmente com o hard core, e este permitiu o thrash metal, um ápice de som pesado e rápido. Os vídeos clipes com seus cortes rápidos, apresentando um afeto cocaínico, marcaram a cultura pop nos 80.   
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Kerouac diz em On The Road que não quer parar, não quer dormir, quer curtir ao máximo; além disso, ele escreveu o livro em poucas semanas usando benzedrina. Ele queria que o dia tivesse 72 horas para aproveitar tudo ao máximo. A felicidade impõe isso, querer mais e mais e mais, querer tudo ao mesmo tempo agora. Deus fez o mundo em sete dias, e o demônio não inventou o fim de semana, mas o dia de 72 horas, já que ele é Eros. O dia de 72 horas se refere ao afeto do viciado em estimulantes; ele fica três dias acordado, então esses três dias são na verdade um dia de 72 horas; e 72 invertido, a inversão satânica, se torna 27, o número da morte na cultura pop. A vontade de “mais” de Kerouac é diferente da necessidade de “mais” dos yuppies, há uma diferença de natureza entre elas. Kerouac queria “mais poesia na sua existência”, os yuppies queriam “mais dinheiro”.     
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Os sons do primeiro Pink são ondulações sonoras. O relógio em Dark Side of the Moon. Os sinos de igrejas do Sabbath – os sinos que simbolizam certas horas do dia. O som industrial, mostrando a batida, o tempo das fábricas. Jesus Built my Hotrod, a velocidade máxima do som e da voz se assemelhando com a dos Hotrods. Os rappers tentam cantar o mais rápido possível. A desaceleração do Black Metal cria o Black Metal Depressivo. A poesia de Cooper Clarke era punk e por isso rápida. A bateria de Morris é hipnótica. Tremolo picking presente na Surf Music e no Black Metal. Alguém caminhando na rua atrás do ônibus, alguém caminhando chapado na rua. Skip diz que jovens não devem usar relógios. A velocidade mecânica dos virtuoses da guitarra. Picasso tenta pintar o mais rápido. Pollock dança junto à tela, com velocidade. A dança, o ritmo, o afeto, dos shoegazers, tudo muito lento em contraponto à velocidade dos punks.  
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“Cada um tem seu próprio tempo”, isso é palavra de ordem que esconde que o tempo é controlado. O pet aprende na força os momentos de mijar e cagar, nas certas horas do dia que o dono tem vontade de sair com ele. A criança: hora de comer, de dormir, de brincar. Ficam felizes em viajar, mesmo sabendo que dez horas em um avião é uma das piores experiências. Vender seu tempo, sua vida, seu corpo, sua subjetividade. O calendário cristão, o calendário falível da Revolução Francesa; voltar no tempo, se encontrar.
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As artes românticas louvam o excesso, a vida em excesso, os prazeres diferenciais, os sonhos, delírios, os contatos com o inferno, com o sublime, com Espectralia. Na literatura, posso citar alguns autores espectrais sem pensar muito: Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Poe, Blake, os Beats, Bukowski, o Gonzo, Piva, Huxley, Artaud, Castañeda, Pepe Escobar, Breton, Bukowski, Fausto Fawcett. Há muitos filmes que homenageiam, biografam os românticos, e não apenas os românticos que produzem, mas também os que apenas vivem. Também há muitos filmes com imagens e narrativas que são claramente baseadas no uso de drogas. Listo abaixo alguns filmes que atualizam o que disse acima:

Cinebiografias de artistas viciados: Pollock. The Doors, Basquiat, Medo e Delírio em Las Vegas, Almoço Nu, Last Days, Stooned, Diário de Adolescente, On the Road, Get Him to the Greek, The Wall, Não Estou Lá, Factory Girl, Bicho de Sete Cabeças, Sid Nancy, Total Eclipse, 24 hour Party People, Party Monster, Bird, Velvet Goldmine, os filmes sobre o Bukowski.

Filmes, vídeos, desenhos sobre uso de drogas, com uso de drogas ou com imagens delirantes: A Concepção, Vício Frenético, Laranja Mecânica, Scarface, Blow, Trainspotting, Born to be Wilde, Paraísos Artificiais, Gêmeos Mórbida Semelhança. Spun, Kids, Bully, Catalan de Jarman, Asas do Desejo, Stalker, Simpsons, American Dad e Family Guy, Garotos de Programa, Pulp Fiction, Canos Fumegantes, Drácula de Bram Stoker, Ódiquê, Dead Man, Performance, In to the Wild: Zabriskie Point, IF, Natural Born Killers. Garoto da Motocicleta, Romeu e Julieta do Baz Luhrmann.    
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Essa letra, do Pere Ubu, é muito curiosa, mostra os afetos permitidos pelo contato com Espectralia. O narrador não sabe o que aconteceu, se foi sonho ou realidade, já que estava em Espectralia, era um Espectro. Esse afeto é comum no uso de drogas mais pesadas, ou no uso contínuo de qualquer droga. Como diz a máxima de Woodstock: “se você se lembra é por que não foi”, já que todos que estavam lá estavam chapados; sim, quem estava lá não sabe ao certo o que aconteceu. Woodstock era uma Espectralia repleta de fantasmas maravilhosos.   


414 Seconds

That day that I say I woke up to find a heap of mist
I wake up that day with a shark
Not knowing if I’ve been asleep for moments, minutes or millennia 

I look around, all plants have lived it and died
Did you spiral in the sink?
They are livid and dried
Even in the glass, he looked at me
He says weaver can’t be flied
And I care about dream
The terrible thing that I did in that dream
The thing that woke me up

I ask myself, did I do that terrible thing only in my dream?
Or is the dream simply a hard brink bit of self-deception
When in I dream that I only did the terrible thing that I did
In a dream

What part of the dream is true?
What part of the truth is a dream?

I throw out the coffee to drink the soup
But there are wonders I have to know
I run this happening
I launch myself like a jet pilot jerkin himself from the doom in the far earth below
I throw myself through the door
I fall down the hall
I turn up through the steps
Turn up through the steps

Round the corner, stumbling and flailing
Fumes and exhaust, blackened fluid smoke below it
Running for the bus I cry
Oh God bless love
I have been on that non-stop
Happiness

In that terrible dream
The terrible thing I did in that dream
The thing that woke me up
I ask myself, did I do that terrible thing only in my dream?
Or is the dream simply a hard brink bit of self-deception
When in I dream that I only did the terrible thing that I did
In a dream
In a dream
In a dream

What part of the dream is true?
What part of the truth is a dream?
What part of the dream is true?
What part of the truth is a dream?
What part of the dream is true?
What part of the truth is a dream?

What part of the truth is a dream?
What part of the truth is a dream?
What part of the truth is a dream?

Round the corner, stumbling and flailing
Fumes and exhaust, blackened fluid smoke below it
Running for the bus I cry
Oh God bless love
I have been on this all night non-stop
I have been on this all night non-stop
Happiness
Happiness

Happiness
Happiness

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Parte 2. Registros de sonhos e narcoses em Espectralia

Uma estação de metrô em Roma, localizada em uma parte pobre da cidade, que parece o objeto de uma foto antiga, muito antiga. No sonho, Roma, na verdade é Lisboa em época de chuva, que não é Lisboa, mas talvez Paris.

Uma parte de uma cidade grega é idêntica a imagem da capa de um livro sobre arte fantástica.

Santa Maria não está localizada no Rio Grande do Sul, mas sim em Santa Catarina. Em Santa Maria há um clube esportivo que freqüento; para chegar nele subo os morros da cidade. Em uma parte dos morros há um penhasco que leva para o mundo dos sonhos; quando entro nesse mundo minha memória fica totalmente borrada.

Vindo de Espírito Santo de carro chego em Florianópolis. Lá há um shopping que tem uma piscina enorme, sempre cheia de gente. E Florianópolis é na verdade Passo Fundo.

Santa Maria, em seu norte, tem uma estrada que leva a um morro. Às vezes, a estrada vira conjuntos de casas divididas em linha horizontais, que são casas de praia.

Um lugar que morei na Cidade Baixa tem o pior elevador do mundo. Na rua do prédio, a Lima e Silva, acontecem festas e parece que sempre é feriado. Às vezes, parece que a Lima e Silva continua na parte alta da tristeza.

Em Belém Velho há uma casa que visito. Às vezes, saio de lá a partir de uma estrada na Serraria, que quase nunca passa ônibus. Moram na casa um velho e suas filhas e filhos. Eu tenho um caso com todas as filhas. Mas eu sempre me pergunto: quem são essas pessoas?     

Em Barcelona estou passando a temporada numa estranha casa de repouso. Eu durmo num quarto cheio de pessoas de idade. A casa de repouso fica quase na divisa da cidade, porém na frente dela há uma estátua enorme; essa estátua, na “vida real”, melhor, na vida da necrópole Barcelona, se localiza numa parte central para o turismo. 

Entre Porto Alegre e Canoas há um conjunto habitacional muito bonito, situado de frente a um rio, e eu moro nele – sempre estou em busca dele. Ali é tipo uma mina de algum mineral estranho, e o rio é um rio de iodo.

Me mudei para um prédio mais barato, e é realmente mais barato. No prédio moram garotas da Fémem. Eu tenho um caso com uma delas e é gostoso estar com ela. Porto Alegre está uma confusão por causa do dia da independência da Catalunha. Alguém diz pra eu não ir de bike até a Cidade Baixa já que eu estou na zona sul.  

Porto Alegre é Barcelona; sou inquilino de dois apartamentos situados no mesmo bairro. No bairro há uma piscina de ondas com água de rio, o fundo é só barro; eu nado nela e faço surf.  Em uma rua perto de um calçadão fica um ponto de prostituição. Eu gastei milhares de reais ou euros ali. Para andar no calçadão sempre é um problema, ele está dominado por gangues de ladrões baratos. Um taxista me leva para inúmeros lugares e eu estou bêbado. Eu me perco na cidade e tenho medo. Depois de um rio há um deserto predominado por um tom de laranja estranho. O lugar é como se fosse a lua, tem uma paisagem lunar, mas pintada de laranja. Eu não tenho moradia, mas tenho móveis e eles estão na rua, eu vivo na rua. Durmo na rua, mas em certo momento uma limusine me leva para um lugar que não me lembro. De carro vou para uma cidade da fronteira; ali há um precipício, depois dele há algo lindo, um mundo lindo, e quando eu chego nele... bem, não mais me lembro. Eu ando de skate em estradas da serra gaúcha. Gramado fica ao lado de um bairro londrino.

Entre o Brasil e os Estados Unidos ou Canadá se situa o leste europeu, o leste europeu de algum filme. As cidades desse leste têm gente estranha, feia e barulhenta.

Um vale pequeno, com um rio sujo, uma favela, isso em Roma.  

Ando de skate em uma lomba no bairro Tristeza. Chego na rodoviária de Porto Alegre, mas é na verdade um mercado de Lisboa. A Praça da Alfândega sempre cheia de gangues de rua. De noite essa zona vira a Oswaldo Aranha que é menos perigosa, mas quando saio de manhã dela, vou por ruas menos movimentadas, para não encarar as gangues. No alto do centro tem um mercado com boas comidas, como nele e depois desço uma rua principal que dá no Parque do Marinha. Entre a parte alta e o parque fica uma praça de Barcelona. Na praça estão meus amigos okupas, na verdade, tem uma okupa ali, e eu vivo nela. Sempre pego um taxi nesse ponto, mas os taxistas sempre me roubam. Uma parte de Porto Alegre, a mais pobre, eu chamo de Viamão. Ali tudo é velho e decadente; tem um parque de diversões em Viamão.

Sempre sonho com um local que morei na Cidade Baixa; no outro lado da rua há uma casa chique, que é um albergue para jovens ricos. Eu sempre uso o albergue sem pagar, ele fica de lado da UFRGS. Muito perto fica um bairro elegante, no qual amigos moram, que conta com casas enormes; nos jardins das casas todo mundo toma banho de sol.  

Estou em Gramado, hospedado em um hotel caro; porém, os quartos são coletivos; durmo em um deles com várias outras pessoas. 

Passo noites tomando bola dentro de um bar que é uma farmácia. Todo mundo está deitado no chão, emboletado, abraçado, tudo bem quentinho. 

No bairro Cristal há um ginásio de esportes. Nas escadarias do ginásio traficantes vendem cocaína.  

Do lado de um clube na zona sul, tem a casa de um traficante. Compro coca ruim com ele. Tenho medo de ir ali porque a polícia sempre está por perto.

Passo os sinais vermelhos, não consigo diminuir a velocidade.

A casa dos meus sonhos ficava na parte norte da zona sul. Era uma casa enorme, uma mansão; mas ela era um local amaldiçoado.  

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Eu tinha uns 14 anos, tava com meu beque e fui até um terreno baldio junto ao Rio. O terreno era ladeado por mansões, comuns no Bairro Tristeza. Eu sempre fumava ali com minha turma. Nesse dia, tava sozinho, gostava também de ficar sozinho com meu beque. Queimei o beque e fiquei curtindo o pico: a praia deteriorada, um clube náutico, algumas fábricas mais longe no horizonte, o céu. Era um dia quente, com céu azul. Fiquei curtindo o céu, as nuvens, e fiquei intrigado com uma nuvem enorme bem na minha frente. Ela tinha o formato da cabeça, do perfil de Cristo. Era ele, de perfil, com barba, cabelos compridos. Eu tava na praia e ele tava lá no céu. A nuvem de longe parecia também uma montanha, mas com o formato da cabeça de cristo. A imagem era tão perfeita que pensei: podia chamar o pessoal pra dar uma olhada, mas não quero perder isso. Interessante que eu não era crente, até era um ateu radical. Sentia que em certos momentos, com o movimento da nuvem, a imagem continuava a ser do mesmo Cristo, mas de ângulos diferente. Devo ter ficado horas ali parado olhando, ou posso ter ficado minutos, não sei. Mas num momento, a nuvem começou a se dispersar, e isso foi brochante, fiquei puto; daí eu fui embora. Eu tava ainda chapado e bem chapado, tanto que, na minha viagem que continuava, eu pensava: porra, a nuvem mais legal e perfeita que já vi e ela desaparece?! Na minha loucura não conseguia entender que nenhuma nuvem poderia ser tão perfeita, que isso era parte do barato; mas como o barato era contínuo, eu estava sempre de barato... bem, o que era real ou ilusão? Naquela época o real “na real” era uma grande ilusão, e a vida chapada era também uma ilusão só que muito mais divertida.
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Eu nunca tinha tomado morfina injetável; mas sabia que era algo realmente forte. Tinha uma ideia na prática do efeito de opiáceos. Só que daí quebrei o braço, tive que fazer uma operação; quebrei o braço fazendo uma manobrinha numa garagem de bûs na Azenha. Eu sempre mandei bem ali no espaço, tirava umas manobras aéreas legais. Só que fiquei um tempo sem andar, e tentei fazer uma manobra que não devia ter tentado. Voei alto e caí no chão, com todo o peso no meu pulso esquerdo. Quando caí, na hora pensei: merda, me quebrei.  Segundos depois, quando o corpo produziu a sua química e a dor aliviou, pensei: deu nada, só que olhei pro meu braço e ele tava torto, e a dor bateu. Daí me levaram prum hospital de pronto socorro. Eu não conseguia pensar direito, doía demais. Quando me atenderam, expliquei o que tinha rolado, e fiz umas piadas, não ia perder a oportunidade de rir da situação. Depois disso, fiquei mais de uma hora esperando para ser atendido e ia ter uma festa na mesma noite; pensei: tá, eles metem um gesso no braço, tomo um analgésico e já era. Daí sou atendido e o doutor diz: foi uma fratura séria, você terá que fazer uma cirurgia. Daí fiquei puto, odeio cirurgia, mesa de operação e sala de recuperação. Daí eu tava lá na sala de recuperação, depois da cirurgia, e disse pra enfermeira, isso tá doendo muito, não vou aguentar. Daí, ela me deu um pico e senti um gosto amargo na garganta, ela tinha me dado morfina. Daí pensei: melhor, eu relaxar... só que foi uma noite horrível, eu dormia, acordava, dormia e acordava. Eu tinha umas alucinações estranhas, mas muito vivas, como sonhar com imagens duplas. O que são imagens duplas? Eu não sei, mas me baseio no que estava sentindo e percebendo, nunca havia passado por isso e nem li relatos do tipo. Mas as imagens duplas: digamos que uma imagem de sonho seja exposta em uma tela, como num filme. Na minha viagem eram duas telas, não uma tela do lado da outra, mas duas telas apenas, uma na frente da outra, e eu podia ver, sentir, perceber as duas ao mesmo tempo – isso é impossível de explicar, e por isso que é legal. A noite foi péssima, principalmente, por estar numa cama de hospital, numa sala cheia de gente doente em volta, muitas desesperadas; eu não podia sair da cama, não podia fumar meu crivo e nem sabia se a operação tinha ficado legal.  
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Eu li numa revista que um músico, o Manson, tinha triturado ossos humanos e fumado. Cinco anos depois conheci um cara que colecionava ossos humanos. Não era nada demais, mas ele ia no cemitério, nas valas de indigentes, e sempre encontrava ossos. Ele limpava e guardava. Era um cara novo, que tinha depressão, namorava uma mina feia, mas era bem criança, na dele. Eu conversava com ele, já que ele morava perto do lugar que eu morava. Ele era pobre, o pai era zelador em um cortiço. Esse mano curtia rock, lia sobre rock, então eu tinha um certo interesse nele. Era um cara querido, uma ou outra vez eu fui na casa dele, e num desses dias ele disse: cara, você é legal, vou te dar um presente; e ele me deu uma rótula de um joelho humano, esteticamente bonita, com linhas regulares. Daí um dia eu tava no meu ap de frente pra João Alfredo, essa rua que hoje em dia é central em Porto Alegre... é, eu tava na janela, vendo a rua e lembrei da história do Manson, que ele tinha fumado ossos humanos. Na mesma hora, um mano meu tava comendo uma mina no quarto. Daí eu pego a rótula, trituro uma parte até virar pó e fumo. Só que quando dormi, depois de ter fumado, tive um sonho muito louco, eu me vi num cemitério, junto com esse mano e essa mina que ele tava comendo; a gente fazendo a festa no cemitério. Na real, não sei se foi sonho, ou se foi um delírio acordado ou se foi coisa de outros mundos, ou tudo junto, já que na época tava tomando muita coisa.    


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sexta-feira, 29 de junho de 2018

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O texto é um exercício de esquizoanálise, ou seja, cartografia, transversalidade. O atravessamento não está só nos temas, mas também na narrativa, que é filosófica, científica, literária. Na verdade, não é filosofia nem ciência, é arte, e não é arte é comedicidade, riso de satã. Ficaria feliz se fosse lido como uma ficção, uma mentira, algo diabólico, enganador. O texto pensa em N mundos, N tempos-espaços, devires, a partir da percepção molecular e critica o bom senso que se centra em um único mundo, sustenta a ciência, insiste que Deus não morreu, cria uma narrativa negativa referente ao satanismo. Os temas e conceitos presentes são: acontecimento, maio de 68, anarquismo, guerrilha, drogas, sonhos, delírio, família, gêneros, sexualidade, corpo, queer, cultura pop, arte, mitologia grega, guerra, Estado, orientalismo, ecologia, história, humanismo, psicanálise, minorias, palavras de ordem, cidade, juventude, satanismo, cristianismo, bruxaria, shamanismo. Ele não foi pensado previamente, não sabia o que ia acontecer, ele foi se criando e tomando forma; mas como digo: não é espontâneo e talvez tenha de certa forma se criado sozinho, melhor, pelas legiões que pertenço. Os símbolos e a narrativa cristãos presentes se referem à comedicidade que acompanha meu trabalho. Falar em Deus, Cristo, em demônios é uma piada, que não tem como objetivo ferir a aqueles que ainda acreditam em Deus, já que são poucos. Uso esses símbolos para compor a narrativa, a fábula, a história. Porém, busco dar novos delineamentos para o conceito de demônio. O demoníaco se apresenta como crítica ao senso comum e o bom senso. O demônio no texto não é um ser de outro mundo, não se dicotomiza com o Deus de outro mundo, ele é um agente, um devir, materialista, ou seja, deste mundo.  


O acontecimento. A impossibilidade de se entender o acontecimento quando está acontecendo. Os sentidos do acontecimento necessitam de tempo, por isso a arqueologia e a genealogia são mais fáceis que a cartografia. Além disso, quando se dá o sentido pode não ser realmente entendido, já que é difícil notar o molecular. A pergunta: “o que realmente aconteceu?” pode dar medo já que sabemos, de uma forma ou outra, que forças subterrâneas estão presentes no acontecimento e, mais, que elas podem criar o acontecimento. O devir, monstruoso, demoníaco assusta, ele mostra o caos, o qual rege o mundo, e por segurança nos prendemos no obscurantismo religioso cristão ou na ciência. O satanismo é obscuro, mas outro tipo de obscuridade. O cristianismo é baseado nas paixões tristes, ninguém pode ser feliz, todos devem purgar seus pecados e punir os pecados dos outros, tudo é pecado. O satanismo é erótico, é Eros, erotiza até mesmo a morte, Thanatos. Para os satânicos Eros e Thanatos estão sempre em núpcias, núpcias demoníacas; os devires são as núpcias demoníaca, não a filiação, o pai e o filho, Deus e Cristo. Satã é o filho rebelde, não há um Deus do inferno, e ele não é três, não é o pai, o espírito santo e o filho abandonado. Satã é o filho rebelado. Quando a criança coloca o dedo dentro do nariz na mesa na hora da oração, é a atualização do demoníaco que sempre esteve presente nela. O que realmente aconteceu em 68? O que aconteceu em 2001, o que aconteceu em 2011 e 2013. Deleuze, Negri e o coletivo da Uni Nômade viveram os acontecimentos e os atualizaram no campo do saber. O acontecimento necessita da vivência dele, de uma subjetividade molecularizada a partir do contato com o caos, de uma percepção demoníaca, da vitória do terceiro olho frente ao grande irmão. A longa preparação a partir da vivência dos acontecimentos, do contato com o caos possibilita então rastrear, tatear o que não é visto; e a ficção, quando se ficciona o acontecimento, depois de atualizada pelo saber pode muito bem se tornar mais interessante que a dita “narrativa do real”. Não era ficção, era o registro da temporada no inferno, a escrita de Satã; a ficção assim se revela como a outra face, a outra cabeça, já que somos monstros, temos duas cabeças que não se dicotomizam. Duas cabeças que são N cabeças, dragões de múltiplas cabeças; múltiplas cabeças e uma só é a cabeça de Deus, da ciência ou do bom cidadão. Temos múltiplas cabeças, mas pensamos que só temos uma. Vivemos em muitos mundos, mas só percebemos um. Nesse mundo há o material, o céu e o inferno. Mas o mundo de Satã são N mundos, os N mundos, a morada de Satã, e ele, como disse, não é um, mas bandos de bandos, legiões de legiões, multiplicidades que não se esgotam nunca; e a multiplicidade, o devir, a soma, a conjunção, tudo isso é reduzido pelo bom senso. Dizem sempre: eu sou eu, eu sou aquele, eu sou um organismo, um sujeito individuado – palavras de ordem daqueles que não entendem uma frase simples: somos legião! Klaus Kinski entrava no personagem e demorava muito tempo para sair dele. Ficou um ano agindo como se fosse Cristo. Se Cristo fosse Kinski, não teríamos entrado na era cristã, teríamos ficado no nosso tempo-espaço de origem, o caos, a anarquia, o inferno. As forças da vida são primeiras como diz Negri, e o único universal é o devir como diz Deleuze. O inferno, o caos, é o início, a era imposta pelos cristãos é a fotografia, o impedimento do caos. A guerra santa, a inquisição, o nazismo, a guerra que atravessa a história, os Estados Unidos de Bush, não são demoníacos, são cristãos, são demoníacos apenas a partir da dicotomização cristã. Vlad Tepesh se torna potente quando larga a violência cristã, e vive (morto) pelo amor. O algo de demoníaco na paixão triste, na violência cristã, é o riso sarcástico frente a ela. Satã pode até influenciar na guerra, ajudar que ela seja realizada, pode estar nas costas dos reis, papas, imperadores, inquisidores, das massas os condicionando para a guerra, mas ele faz isso para mostrar ao mundo a sujeira cristã e humana. Mostra que o homem é sujo, que mata os seus, mata qualquer um por poder, por matar. Os avanços científicos, a ciência, o campo do saber, a tecnologia – tão cultuados, o que nos ajudou a sair da escuridão do medievo – só aconteceram já que necessitávamos de instrumentos para destruir reinados e nações. A ciência nasce como paixão triste e se desenvolve como paixão triste. A tecnologia digital e a internet foram criadas pelas mentes maravilhosas de cientistas do Estado, e o Estado faz a guerra. A Guerra Fria criou a internet. A negação da tecnologia remete a um estado natural, de “boa” selvageria, e chamam-na de apocalíptica. Sim, é, mas nos termos cristãos, é o apocalipse de João, a danação, os sete anos de luta que nos levará de volta ao manto do nazareno – porém, o manto do nazareno na ótica satânica é o objeto de vitória de Satã. O ludismo não é a boa selvageria, nem o desejo de retorno a terra sagrada, não é arcaísmo, mas desejo de cair fora, de menos, menos consumo, menos guerra, não é a simplicidade, mas a complexidade de vidas que negam a morte e lutam pela vida. Alex SuperTramp tenta sozinho e morre. Os Sadhus lutam em bandos e estão vivos, mesmo que o Kumbh Mela seja espetáculo. Punks estão nas ruas vivendo como ratos. A tecnologia é usada pelos hakers contra os Estados. Os grandes criadores da tecnologia digital eram filhos da Era de Aquários, aqueles que amavam a natureza, a qual foi morta; eles choravam pela morte de Pachamama. Não há retorno à natureza, ela está aqui em nós, já que somos animais. Amar a natureza é amar uma das cabeças presentes em todos. Os índios morreram já que não queriam a morte cristã e muito menos a civilização. Morreram, mas estão em nós, por isso todos somos shamãs. Todos somos Legião, e ela é composta por animais, tecnologia, homens, em ambiente múltiplos, e o tempo dessa legião, são N tempos, ou seja, corpos sem órgãos habitando a virtualidade temporal. O terceiro olho é a tecnologia que possibilita vislumbrar tudo isso, e após a percepção...bem, isso permite que vivamos mais facilmente em outro, outros mundos, sempre presentes. Quando ele, o terceiro olho, é aberto, sabemos que a palavra de ordem: “eu sou alguém que vive em determinado espaço e tempo”, é uma piada. Satã estava presente quando essa frase foi criada, ele não só ri dos humanos apegados ao senso comum, ele o cria, cria o senso comum para contemplar depois esse apego. Os humanos, como eles vivem, suas crenças são o objeto de riso de Satã. A guerra como disse é objeto de riso de Satã. Sim, eles se matam, matam a si mesmos, e dizem que se amam. “Amai-vos uns aos outros se odiando”, Satã não escreveu essa frase, mas a revelou, tornou-a visível. A loucura de Nero, por ser loucura, não era apenas um reflexo do satanismo cristão, ela era erótica, Roma queimava e ele tocava violino. A loucura de Calígula também era erótica. O desejo de poder pode ser algo demoníaco, desejar estar acima de todos e destruir todos já que todos são assassinos. O humanismo é falso e tem que ser re conceituado. Lutar pela vida de todos é uma falácia. Matar para punir, matar em nome da lei, da lei natural e da lei dos homens, isso é parte da sujeira do cristianismo. Mas matar por matar, sabendo que quem é morto é alguém já morto, alguém que ama a morte, não matar para punir nem por vingança, mas usar esse corpo para produzir um acontecimento... isso é a morte como uma bela arte. Os conspiradores, em nome de boas causas, eram obrigados a matar em nome da vida, e esse tipo de assassinato é diferente do assassinato do Estado. Não há diferenças de natureza entre os dois tipos de assassinato, mas extensivamente há uma diferença, de grau, que torna louvável o assassinato pela causa. É impossível não usar as armas do inimigo, já que o homem é o inimigo, e todos somos homens. O suicídio é considerado como algo negativo, já que todos são mentirosos, falsos, sabem que matam, que cometem a morte baseada na paixão triste; e o suicídio é uma morte, um assassinato honrável, o suicida mata a si mesmo não os outros – sim, os homens odeiam coisas simples como dignidade e honra. O homem bomba mata os outros para voltar ao bom mundo, nega esse mundo e os que vivem nele. O cristão comete sua sujeira em vida, se arrepende e volta para o bom mundo. Isso permite com que o mundo seja o que é: a naturalização da guerra constante, do ódio; eles podem fazer de tudo já que se arrependem depois. Satã não é ódio, mas o riso a partir da contemplação do ódio. O cientista não ri, ele não é satânico, a arte ri, ela é satânica, a ficção é um tipo de piada, piada satânica. A ficção é a mentira, a falsidade, mas não como paixões tristes, não existem para enganar e matar, isso faz a ciência, que cria a guerra. Usam Deleuze como base da ciência, mas negam o mais importante em sua obra: o riso de satã. Cristianizam Deleuze, já que eles não dançam, os cientistas nunca dançam, eles tem o cú de ferro, estão sempre sentados. Deleuze era uma bailarina, fazia um balé sem palco italiano, sem a dor da estratificação do corpo, a destruição do corpo para manter a posição rígida, isso faz o cientista sentado, vendo um foco mínimo de luz. Os nazistas estratificavam o corpo ariano, criaram a postura perfeita, a acentuação do corpo dos sujeitos das legiões romanas. O balé estratifica o corpo feminino da mesma forma que a militarização estratifica o corpo do homem. O homem da ciência foi quem criou esses corpos, e os românticos, sendo Deleuze um deles, dançam um tipo de dança diferente, a dança de Pan, de Dionísio e sua Bacantes, das bruxas nuas na floresta. Nero estava dançando ou tocando violino quando Roma queimava? A dança de Calígula fazia os legionários rirem, já que eles desejavam outra relação com o corpo. Estratificar Deleuze, crer que Negri é um filósofo do Estado... Os anarquistas acreditam em Negri e Deleuze, e eles os sensualizam já que acreditam na vida. Os anarquistas percebem exatamente a vida em Negri e Deleuze. A percepção anarquista é mais importante que a obra dos dois. Em termos cristãos é uma blasfêmia, uma heresia o que os acadêmicos fazem com Deleuze e Guattari. Eles não ouvem a música de Mil Platôs já que não dançam. Como criar para si um Corpo sem Órgãos, des estratificar o corpo, abrir o terceiro olho, fugir do grande irmão? Como sentir as moléculas do corpo, sentir a superfície da pele a considerando como o mais profundo? A pele dele ou dela não como parte de um objeto, o sexo objetificado, que imita o copular dos pets, mas uma das linhas mais importantes do corpo amoroso. O Corpo sem Órgãos é amor, é o amor, e quando ele se resume a dois, isso é uma palavra de ordem do grande irmão, que odeia o amor. As legiões, os possíveis, que nos habitam e se tocam em um gesto simples: colocar as mãos dela em meu coração, sabendo que o coração é só uma metáfora. Baudelaire assassinou o próprio pai inúmeras vezes em mesas de restaurantes para rir de todos. Sim, eu sou um parricida ele dizia, e todos ficavam horrorizados. Ele fazia isso para Satã rir, e Baudelaire já era Satã. Os ovários são laicos, mas o cú é satânico. Rimbaud amava o cú de Verlaine, e a poesia sobre o cú de Verlaine era uma piada satânica; piada matadora é o nome de uma banda inglesa, filha de satã. Palhaços assassinos, como os vocalistas das bandas Alien Sex Fiend e Cinema Strange; os dois personagens mais engraçados do humor atual, um bebê e um alienígena são assassinos. O riso e o assassinato conjugados compõem uma núpcia demoníaca: palhaço assassino, aquele que faz a Killing Joke. O homem da guerra não ri já que não caga, ele é sério já que tem o cú de ferro, dama de ferro, como o cientista. O cientista bebe tanto, não por que é um romântico, mas exatamente para poder cagar e rir. Quando ele bebe, ele consegue, mas seu alcoolismo se origina da paixão triste, só consegue ser feliz na tristeza. Bukowski não bebia, o estado alcoolizado era seu estado natural. O vinho como sangue de Cristo é a imposição cristã, o vinho como sangue de qualquer um diz respeito ao assassinato satânico que é uma piada: matar um zumbi, um morto, alguém que ama a morte. Mac Beth foi iludido pelas bruxas, elas que fizeram ele se destruir; ele amava tanto a si mesmo, o poder, merecia ser destruído. As bruxas são os canais, os portais dos súcubos. As bruxas estão sempre grávidas trazendo ao mundo seres satânicos. Os românticos são filhos das bruxas, que são filhas de Satã. O homem comum é filho da puta, é Édipo. Jocasta se mata já que todos iriam saber quem ela realmente era, uma puta. E o bom cidadão deseja isso, uma casa, um território mínimo, no qual ele e ela são os reis sempre. O teatro de Édipo é uma piada satânica, satã ri de Édipo, Deleuze como um demônio nos presenteou com esse riso, o riso do complexo de Édipo. Mas quando se tira as razões pessoais de Édipo e ele vira um agente político percebemos a potência da vida: não desposar a mãe, mas simplesmente matar o pai. Aliás, matar também a mãe, matar o rei e a rainha, destruir o estado e fazer a anarquia, o projeto da anarquia. “Anarquia como projeto, caos projetado”, conjunção de linhas de naturezas diferentes, núpcias demoníacas, frutos do riso de Satã. Para Baudelaire suas paixões eram as prostitutas já que elas são dignas. Indigna é aquela que dá o corpo ao homem para ser respeitada pela sociedade e nega que é uma puta. A puta deixa claro que é uma puta, a esposa esconde de todos que é uma puta. A puta satânica, aquela que ri da sociedade, a puta cristã, aquela que peca e chora ao se ver no espelho. No mundo infernal não há putas, já que todos que o habitam não tem corpo, não possuem corpos, são linhas de Corpos sem Órgãos e ninguém é dono de um Corpo sem Órgãos. O presidiário é uma puta, o corpo dele não é mais dele após a primeira noite na prisão. As leis, a moral, colam a culpa e a vergonha no presidiário, mas se ele não é moralista é alguém louvável. O sexo livre era uma das marcas da era de Eros, e o sexo livre é algo satânico: a importância do comunismo do corpo contra o individualismo capitalista. Por isso, que os Estados comunistas (mesmo os apenas desejados) não entenderam nada do comunismo, o tornar comum, pensavam que a vida se reduzia a economia e política. O comunismo do corpo é micro político. Negri radicalizou o conceito de comum; o nosso comum se realiza quando somos legião; na era de Eros o sexo livre era feito por legiões em leitos que eram Corpos sem Órgãos. A – Quem é você? B – Eu sou Ninguém. A – Não eu perguntei como você se chama. B – Eu me chamo Ninguém, sou Ninguém. A nobreza punk, ser um punk um, qualquer um, ser Ninguém. Punks eram assim chamados os que eram currados na prisão. A dignidade dos punks. Eu sou uma puta mexicana barata. A despersonalização é demoníaca, e nesse caso, no caso do punk, é uma piada. Talvez por isso que o punk tenha sido principalmente inglês, já que eles têm esse humor peculiar, riem facilmente de si mesmos. Saber que se é uma piada, que a vida de bom cidadão é uma piada: nobreza dos punks. Lars Von Trier fez isso em Idiotern, rindo da boa democracia escandinava que não garantia muita coisa. Os Black Metals escandinavos queimavam igrejas, eram violentos, não conseguiam rir, muitos eram fascistas. Eles desempenhavam bem o papel de cristãos. O bom senso diz que uma meia é uma boceta, mas o louco diz que uma meia é uma rede de bocetas – isso é uma piada satânica. O cú da mulher para o bom senso é o cú do melhor amigo, ou do filho, mas para o presidente Schreber o cú é o sol iluminado. O terceiro olho para ele é o cú. Glorificado cú, cú sagrado, consagrado, cú satânico. A virgem Maria tinha um cú. Sim, ela o dava sempre, mas como só dava o cú permaneceu virgem; depois ela virou Maria Madalena, mas no inter meio ela gerou Cristo. Cristo foi crucificado pela própria vontade ao saber que mamãe dava o cú. O filho ouve a mãe dando o cú e pensa que ela está orando, então ele começa a orar e passa a ter doces sonhos com um cú. “Deus nasceu da cloaca do homem” como diz Artaud. O ciclo anal dos queers é o ciclo que rege a lua. O queer não tem mãe nem pai, tem apenas um cú. O cú para os queers, para o monstro, obviamente não é edipinizado. A mulher, o índio, o oriental, o gay sempre foram vistos como agentes perigosos, demoníacos. Shamãs da América latina, do oriente, religiosos negros, mulheres bruxas, para a mentalidade dominante, deveriam ser destruídos por serem diferentes, ou seja, demoníacos. Chamam a mulher possuída de neurótica, mas ela não é neurótica está sim possuída, ela é demoníaca. O demônio não é homem nem mulher, mas algo presente em certos seres. O demônio é devir, ele pode ser uma tempestade, uma bruxa, um artista. O queer é o que de mais demoníaco existia até que queer virasse moda, como virou a cartografia, a transversalidade, as cores do mundo. A mulher se torna homem e deixa de ser bruxa, mas algo de sua bruxaria está presente nos homens, em todos. Quando um fora é capturado, é tornado dentro, o fora nos habita, é o fora em nós. Esquizo análise (ANALlise) é a louca análise, análise dos loucos, que são videntes, sobre a sociedade. Psico análise analisa os loucos, tentando os tornar racionais. O poder vê o caos e tenta o destruir, mas não sabe que a destruição é filha do caos, assim age em nome do caos. A ciência tenta regrar o caos, ou seja, tem uma relação com o caos, e na relação com o caos, ele, o caos, fica presente na ciência. Não há como fugir do caos. O caos da mente de um bebê, da mente de um primata, da mente de uma serpente. A máquina criada pelo homem que é caótico é caótica, tem algo de caos nela. Por isso, todos temem que a máquina irá destruir o homem. A fuga do caos criou a sociedade moderna por uma paixão triste, um ódio de algo em si mesmo, o caos. O homem se olha no espelho, e odeia algo que vê: o caos. O homem acentuou o poder da máquina para fugir da parte que odiava em si mesmo, o caos, a natureza, mas a máquina por desejo, já que era fruto do homem, então algo desejante, mostra ao homem que ele vai ser destruído pela destruição que sempre gerou. O corpo é sujo para todos, odeiam seu corpo e o corpo dos outros, odeiam o que chamam de organismo. O corpo queer odeia o organismo e não ama seu corpo, mas o deseja como ele é: sujo e impuro. Os palavrões são palavras de ordem, que mostram o ódio ao corpo: que merda. Cuzão. Vai se foder. Te fode. Bundão. Boceta. Caralho. Mijão. Vai tomar no cú. Porra. Merda. Boceta cabeluda. Escroto. Chupa aqui. Punheteiro. Tudo isso mostra como o corpo, o sexo são base de fantasmas, de ódio, de repulsa. Um cú é objeto de ódio. A mulher não consegue transar, se sente mal, nem se masturba; as menininhas se sentem putas por beijar mais de um cara. Fazem a festa e depois a ressaca. A esposa que é puta na cama, mas no espaço público é a santa. Os fanáticos religiosos que trepam, fazem 69, mas se dizem puros. Se soubéssemos o que nossas mães fazem na cama nunca as beijaríamos no rosto. E fazem tudo isso e nem notam, não notam a si mesmos, já que acham que não sabem o que fazem, não pensam no que fazem, não tem controle do que fazem. Sublimam seres puros como crianças, vovozinhas, unicórnios, amam a pureza de filmes puros, mas fazem sujeiras na cama e demonizam os seus por fazerem sujeiras na cama; eles não se notam. “Minha mãe é uma santa, um anjo”, diz um personagem de Sin City; mas a mãe dele era uma prostituta na vida real; e qual o problema em ser uma? Elas são dignas, indignos são os que vendem o corpo por segurança, para manter as coisas como são. Espectralia. É a cidade dos espectros que co existe com a urbe. Não é a rede digital, não é o campo, a natureza, nem a metrópole, muito menos a necrópole. A espectralia é a cidade dos afetos, dos delírios, do desejo, dos sonhos. É o subterrâneo, talvez Hades, talvez o que chamam de inferno, ou mesmo de céu, é um ambiente em que a morte está presente, considerando “vida” um outro tipo de morte, a vida de zumbis, que negam quem são. A espectralia não tem prefeitos, nem gestores, nem cidadãos. O “cidadão” da revolução francesa apenas a contemplou após conhecer a máquina do senhor Guilhotin. A espectralia não tem trajetos determinados, já que, como disse, não é dominada por comando superior. Ela reúne inúmeros corpos sem órgãos, não todos, mas os possíveis na cidade. Há espaços na cidade que são portais prontos para levar qualquer um para ela. Uma cama, uma praça, uma mesa de bar, melhor um banheiro de bar, um buraco na rua, uma tenda na rua, o carrinho de um morador de rua, são portais para espectralia. Todos sonham, não podem fugir dos sonhos, e os sonhos são parte da espectralia. Às vezes isso fica óbvio quando sonhamos com a cidade. Pensar nos sonhos como uma mancha negra a ser limpa para entender a si mesmo, se encontrar, ou seja, interpretar os sonhos, é negar a potência deles. A interpretação leva a outras interpretações, e, no fim da vida, o idiota não quer morrer já que nunca vai ter alta do divã. Ele precisa continuar interpretando, esse é seu vicio; mas os sonhos como superfície, perceber suas imagens, sons, afetos, como eles são diferentes dos normatizados, entender que é uma realidade em si mesma, é aceitar, amar sua potência. Para o homem dominante, o morador das cidades, os sonhos habitam espectralia. Para um monge em retiro, para o eremita do campo, povos aborígenes não civilizados, para eles os sonhos provavelmente levam a outras ambiências e não para espectralia. Certas tribos indígenas narram os sonhos para os seus, já que não os consideram como algo pertencente a um sujeito e seu buraco negro. Espectralia não é a cidade perdida, não é origem nem destino, é devir. A cidade, a cidade como modelo, é a cidade dos mortos, dos zumbis, é a necrópole. A cidade dos espíritos é mais próxima da vida do que a necrópole. Não há vida na necrópole, e quando há vida nela, essa vida diz respeito à espectralia. Espectralia não é a utopia, o bom futuro, é a vida atual que agencia tanto a potência da vida quanto o esgotamento dela, a morte. Suicidas, seres violentos, serial killas, loucos, também habitam espectralia, como os amantes da vida, os dãndis, os apaixonados, os iluminados, os artistas, e eles, os amantes da vida, podem ser também amantes da morte, da violência, do suicídio. A cartografia mostra a impureza da vida, a necrópole e a espectralia em conflito. A música, a arte sem materialidade, vive em espectralia. Alguns filmes habitam espectralia; algumas pessoas só conhecem espectralia já que nunca viveram a vida de todos na urbe; outras são apaixonadas por seu ambiente, então chamam Dionísio, os xamãs, os curandeiros negros para que eles as levem até ela. O barqueiro do Estige é um curandeiro, um xamã, mas quem atravessa o rio tem que pagar um preço. Poucos entendem o número vinte sete: dois sete é quase três sete, e três sete é vinte um. Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin (um triplo J, o J tem o som de I em muitas línguas, e I é a nona letra, 9 é 2 sete) morreram com dois sete, e depois do dois sete veio o três sete: a morte. O 21 é o fim do jogo, a cartada final. Sim, a morte é o ambiente no qual espectralia é mais uma das suas linhas; e estar em espectralia é estar morto, mas vivo, ser um undead, um vampiro, como cantava o Bauhaus. Os góticos amam espectralia, encontram nela Thanatos, o spleen; os hippies foram os primeiro em massa a conhecer a fundo espectralia; já os punks atuam nela com um afeto não místico, eles são materialistas ao extremo, mas sim violento; todos eles, a partir de seus afetos, o amor, o desejo da morte, o ódio, foram forjados em espectralia. Sim, forjados como arma, já que eles são armas contra o bom senso. O punk, o hippie e o gótico, quando surgiram, caminhavam pela necrópole, mas estavam em espectralia. Eles permitiam para os bons cidadãos ver algo possível apenas pelo terceiro olho, já que eram monstros, fantasmas na rua, e por isso também portais para a cidade dos fantasmas. O bom cidadão tinha medo não do que via diretamente, um monstro, mas exatamente medo de ter esse contato direto com a outra cidade. Se drogar, fazer uma bela festa e depois sentir a ressaca é estar em contato com a morte por se estar dentro de espectralia. Morrer não significa se mudar para espectralia, mas sim apenas morrer, e ninguém sabe ao certo o que é a morte, mas muitos sabem muito bem o que é espectralia, que é um ambiente também da morte. Os garotos tomam ácido em plena rua e logo após estão em espectralia; continuam tomando e tomando, muitos viram cães de rua, outros viram cães famosos, como Júpiter Maçã, Arnaldo e Sid Barret. Kurt Cobain, que morreu com 27... sua representação em Last Days o mostra como alguém em outro mundo; no filme, em determinado momento, ele está de pé, parado, e vai caindo lentamente, essa cena dura e dura radicalmente. Jimmy Page, na sua fase mais pesada, às vezes demorava uma hora para ir da cama até a porta do quarto de hotel. Os olhos vermelhos de Pink em The Wall é a representação mais real de alguém completamente chapado, nunca foi visto olhos tão vermelhos na história da cultura pop. Pink estava em espectralia, como o Kurt de Last Days e Jimmy Page. Ozyy Osbourne simplesmente desapareceu em uma turnê, todos pensavam que ele estava morto, mas estava desmaiado no quarto de hotel, adormecido em espectralia. Os viciados em heroína adormecem em qualquer canto: Stiv Bators apaga em cima do prato de sopa; Iggy Pop, ao lado de Bebe Buel, pela cidade, letárgico; Jim Carroll sonhando em plena sala de aula. A heroína, a narcose dela é espectralia, mas não só ela, o álcool também: viva o coma alcoólico! No início dos 90, em Porto Alegre, de manhã cedo, no fim de semana podiam ser contemplados jovens e mais jovens dormindo na frente dos bares do Bom Fim. Casper, o fantasma camarada, personagem de Kids, bebe, usa drogas, transa com uma amiga adormecida e acorda nu depois sem saber o que tinha acontecido. Burroughs, como personagem em Naked Lunch filme de Cronemberg, nunca se recorda no que aconteceu no dia anterior. Burroughs, na vida real, encontrava seus textos e não sabia se ele quem realmente tinha escrito, possivelmente talvez tenha sido algum fantasma de espectralia. A narcolepsia do personagem principal de Private Idaho... ele simplesmente apaga e dorme em qualquer lugar na cidade, melhor, de espectralia. Sonho é irmão da morte, sonho e morte são duas temporalidades sempre conectadas. A heroína é a droga preferida pelos punks realmente punks, e talvez sua narcose revele de forma mais clara espectralia. Demora pelo menos duas semanas de uso contínuo para ficar viciado, e depois de ficar viciado, nunca mais se deixa de ser um. Duas semanas de uso, de contato extremo com espectralia, faz com que se fique preso nela, até a morte. O som punk, violento e sujo, parece mostrar melhor a vibe, o vício em heroína; heroína é chamada de lixo, e o punk é um lixo; mas é estranho uma banda tão para cima como o Happy Mondays ter um vocalista viciado em heroína. O hospício e a prisão estão na cidade e são portais para espectralia. A cidade da peste de Herzog, a cidade da peste de Da Vinci, a cidade da peste dos crakeiros, não são espectralia, mas também são. A cidade limpa, dos corpos limpos, das pessoas de bom gosto é a negação da cidade dos espectros. Mas sim, o hipster também enlouquece, toma suas drogas que não são apenas maconhas gourmets, ele sonha, delira, ele faz isso pra fugir da cidade dominante. Estar em espectralia é sair da mediatização da vida, é viver a vida. Muitos conhecem a vida apenas de forma midiatizada; para eles a vida é espetáculo. Viajam para conhecer espetáculos que já conhecem, o modelo de cidade. Os smart phones talvez tenham trazido a massa para as ruas, o que não era permitido pela televisão e o PC, porém a massa nas ruas, não as contempla, mas sim seus smart phones. Muitos cientistas negam ver as ruas, viver elas, então escolhem como objetos o que está atualizado em livros, documentos, mídias, etc; mesmo certos etnógrafos urbanos criam um bloqueio entre vida e pesquisa, eles estão nas ruas, mas não como pessoas comuns e sim como pesquisadores. Passaram a vida toda pensando que sexo são tarinhas de almanaque, que política é voto, que arte é qualquer coisa em um museu. A bunda queima, deve queimar, é algo simples, mas para muitos a bunda queima já que leram nos almanaques sobre os métodos para apimentar a relação. Em espectralia não há vagina nem pênis, apenas múltiplos cús, o Deus Cú, que é o comum sexual de todos. O machista pensava que não tinha um cú, as mulheres e as crianças riam dele, ele era a única pessoa do mundo que só via o cú dos outros. As mulheres e as crianças quando falam não rosnam, nem enchem o saco, elas podem falar e muito bem de espectralia, mesmo que muitas vezes rosnem e encham o saco. Elas se forjaram ali, sempre falaram da bela cidade, mas o macho sem cú não ouve, nem sabe que sua merda faz barulho quando chega em qualquer lugar. Ele só sabe fazer merda, mas é tão cego, tão insensível que não percebe. O padre mentiu também que não tinha cú e um cú satânico. Mentiu, mas todos sabiam que se tornou padre pra comer e dar o cú, sua vida de vergonha. O assassinato é a imposição, o poder que se quer como poder mata quem não quer morrer. Na espectralia o assassinato é consenso entre os pares, nunca uma forma de vendetta. V de Vingança é a espetacularização dos anonymous, dos espectros. O noise, a visão borrada, o gemido, o tiro sem dono e alvo, a drag queen, o queer, o anormal, os anômalos, o punk, o trovão causado por um bocejo, o bater de asas da borboleta que causa a excitação da massa, tudo isso concerne à espectralia, a cria. Talvez espectralia seja a real cidade que vivemos, nunca saímos dela, sempre estivemos nela mesmo quando não existiam cidades. Alguns têm que correr atrás da cidade dos espectros já que só vêem o coelho negro correndo, outros ficam parados, estáticos, mas explodindo de vida já que entram na cidade fantasma a partir do tédio e do bocejo. Românticos. Classe de demônios, filhos de Dionísio. Os românticos são os marginais que tem como foco de produção a arte. Eles não separam vida de obra, e assim criam obras que chocam com a moral dominante. Podem ser considerados Diablos, porém são mais especificamente um tipo de Diablo. Muitos deles atuam em um campo com visibilidade exatamente para atrair, capturar subjetividades, ou aquilo que chamam de alma. O romântico pode ser pensado não apenas como sujeito, amoral e não sujeitado, mas como devir; então romântico se refere a existências diferenciais que habitam espectralia. Há algo de romântico em todos, e romântico não é romance, mas também é. Os anarquistas pós-modernos. São demônios radicalmente materialistas, são atualizações do demônio Legião. Ganharam visibilidade no pós moderno por suas atuações em rede. Sua ação tática nasce com os românticos modernos. Eles atuam na cidade, são meio punks, meio hippies, meio guerrilheiros urbanos. Sua produção desterritorializa a cidade, ou seja, produzem focos de espectralia, vistos nas ações dos blac blocs, nas ações lúdicas, nas okupas, nas manifestações. É um agente político, não romântico, mas há algo de romântico no anarquista.  O policial corrupto. Ele é um dos instrumentos do grande irmão, porém possui algo de diabólico, já que age na borda entre legalidade e ilegalidade. O guerrilheiro urbano fazia o mesmo, atuava legalmente nos movimentos estudantis, trabalhava, mas tinha uma outra vida, lutando contra a ditadura. A questão é que o policial tem elementos satânicos, mas do satanismo criado pela moral cristã: é mau, odiento, odeia os fracos, os preceitos da teologia da libertação, quer poder, dinheiro. O guerrilheiro é satânico já que busca a destruição de símbolos dominantes. Queer. É filho de Baphomet como apresentado por Eliphas Levy. É um dos monstros mais potentes do pós moderno e pode ser confundido com o anarquista. O improdutivo. Seu desejo radical é zerar a sua existência. Diferente do niilista satânico cristão que deseja a destruição total. O punk purista é um dos improdutivos. Os cínicos, os hippies. Classes de demônios que buscaram viver com o mínimo possível. Aprenderam com Cristo, porém não são humildes, são orgulhosos de sua potência.  Grande irmão. Ele é o que resta da deidade cristã. Milênios da cultura cristã fizeram com que todos se submetessem a um olho que tudo vê. Por isso as mídias foram facilmente assimiláveis. Hoje todos estão visíveis o tempo todo, todos se olham, a si mesmo e aos outros, naturalmente. O romântico é visto pelos olhos e sua potência é impedida. O grande irmão impede a conspiração. O grande irmão sustenta o modelo de cidade, o endurecimento da cidade, o estriamento da cidade. Sociedade de parceiros. As lutas de subjetividades que atuam em espectralia, como os anarquistas, os queers (considerando queer como a subjetividade sexual que reúne todas as minorias sujeitadas ao patriarcado), os guerrilheiros, que são precursores dos anarquistas pós modernos, os românticos atualizados nas subculturas, na arte (motor de lutas de minorias, que permite aos jovens um papel privilegiado, já que mostra seus desejos), essas lutas, na vitória parcial e no pacto com o poder, pacto silencioso, criaram uma inclusão generalizada da diferença, uma horizontalização entre minorias e focos do poder. O pai, o patrão, o professor, o marido, viraram parceiros dos sujeitos submetidos a eles, e isso é o que chamo de sociedade de amigos. Esta é a relação dúbia, de choque e aceitação, entre o terceiro olho e os olhos do grande irmão. O símbolo maior da inclusão da diferença na cidade do espetáculo, na necrópole é o hipster. Ele é andrógeno, é qualquer um, é todos; ninguém sabe se ele é gay ou hétero, se é rico ou pobre, se é alternativo ou moda, ele é politizado, mas faz parte de uma esquerda que é simulacro, ele é ecologista, mas de boutique, ele tem traços de anti capitalista, mas é capitalista, ele usa drogas, está nos portais que leva a espectralia, mas a cidade moldada para o hipster é a necrópole, é o bom cidadão que vai as ruas, está nas mídias sociais falando de cultura e política. A denominação hipster já é uma apropriação, uma captura pelo grande irmão. O hipster nos Estados Unidos nos anos 40 era o cara das grandes cidades que andava entre a marginalia; era um branco negro, White Negro, um sujeito dúbio, intelectual entre a marginalia, era um anômalo, um conspirador. Hippies, os filhos dos hipsters, eram os jovens que queriam largar tudo, viver outra vida, que chocavam com suas roupas multi coloridas, seus pés descalços e cabelos compridos. Eram monstros, talvez os primeiros da era dos monstros, o pós moderno. Neal Cassady era o Pantagruel do sexo, tinha um apetite sexual monstruoso. Burroughs era um Pantagruel das drogas, Bukowski do álcool. “Os caminhos do excesso levam ao palácio da sabedoria”, e a sabedoria é loucura, e a loucura é o terceiro olho, por isso Blake também dizia que “as portas da percepção devem ser abertas”. Após a contra cultura os símbolos sonoros e visuais dos produtos culturais devem e muito aos símbolos da psicodelia – o efeito da droga marca dos hippies, o ácido. Mario Bross, um jogo para crianças, mostra um Mario completamente louco, com olhos que brilham pelo ácido e alguma droga estimulante, correndo pela cidade. Em momentos, ele sai da cidade, da necrópole e entra em outros mundos, esses outros mundos são parte da espectralia. Os Smurfs são bichinhos azuis que vivem em cogumelos na floresta. Cogumelos são uma fonte de psicodelia, e quando se toma ácido são vistos bichinhos. Os Smurfs são uma viagem psicodélica, de alguém que entrou em espectralia. Gargamel, aquele que quer acabar com os bichinhos, os Smurfs, mostra que a viagem pode não ser prazerosa, pode ser uma bad trip. A cidade mágica de Harry Potter coexiste com a necrópole. Alice é precursora de Harry Potter. Matrix mostra dois mundos, e Neo só entra no outro mundo quando persegue o Coelho Branco. O Show de Truman faz algo diferente, mostra uma mini necrópole, mostra a necrópole para os que vivem nela, e eles, os habitantes da necrópole, se regozijam com ela, com a morte. As bandas de Black Metal fantasiam mundos diferentes em shows e clipes, mundos habitados por seres de negro, semi mortos, demônios, mundos em que os símbolos do cristianismo são destroçados. Louvam a morte, desejam a destruição, e eles não negam isso, reconhecem a morte e querem ela; são amantes conscientes da necrópole, já que os inconscientes dizem que a necrópole é o espaço da vida, dizem que ela é “meu espaço de espetáculo pessoal, o local em que tenho 15 minutos de fama já que sou hipster, um sujeito espetacularizado”. Os olhos do grande irmão na mídia. O sujeito midiatizado vive uma vida privada possivelmente não mediada e uma vida pública midiatizada. As mídias não se reduzem aos media das grandes corporações: há mídias de resistência, que mostram algo concernente ao terceiro, e há as outras que são parte dos olhos do Grande Irmão. Os sujeitos dominados, os que moram na necrópole, os zumbis, insistem em apenas ver o que o Grande Irmão permite. Os media falam e falam, e eles ouvem. Essa é a sua necessidade de segurança, aceitar o mundo como dizem que é. A negação do mundo, que não é reativa, mas afirmação da vida, é feita pelos românticos. Todos dizem que a mídia mente, desde sempre se falou na alienação da TV, a esquerda sempre afirmou isso, mas os sujeitos não conseguem não consumir as mídias, e, por isso, aceitam o que ela diz, esse é o mundo para eles. O mesmo com a área da saúde que constantemente se desmente. A área da saúde como espetáculo faz isso o tempo todo, já que desmentir suas mentiras, dizer que suas verdades não são mais verdades, vende, ou seja, é espetáculo. Mesmo assim, com as contradições da área, suas variabilidades, suas deficiências, todos seguem o que é dito por elas, sabem que são ilusões, mas por segurança se apegam às ilusões. Precisam de segurança, então aceitam. A esquerda é um simulacro, é algo que existiu faz muito tempo e que não mais existe. Como a política dominante é centrada no dualismo, todos aceitam o que é vendido como esquerda. Viver para o cidadão da necrópole é aceitar, se submeter, ou seja, como disse, viver para eles é estar morto, sem vida, ser um Zumbi. Traumas, auto punição. Os sonhos e delírios de espectralia não dizem respeito a um indivíduo, não são os traumas do buraco negro do neurótico, psicanalizado. Os traumas não habitam espectralia, habitam os sujeitos que vivem a necrópole. Ser perseguido pelos traumas, se auto punir, buscar salvação são formas de morrer, de negar a vida; estão sempre no passado, choram, se deprimem, ficam neuróticos, e violentos, amam suas dores, seus sofrimentos, são auto indulgentes.