quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Lições esquizoanalíticas de alta magia dos subterrâneos: a subjetividade Bruxo



Este texto é um riso de Satã que detalha a vida do Bruxo, um filho, irmão de Satã, melhor, o Bruxo é Satã. O texto pode não parecer, mas é um exercício esquizo analítico, pelos seguintes motivos: a percepção molecular move o texto, como também ela é apresentada; o Bruxo é uma subjetividade não uma identidade, o Bruxo é um intermeio, meio homem, meio demônio, está na terra, mas também no inferno, sua identidade sempre é desconhecida e ele se esforça para criar estranhamento, ele é um ator, é Satã, é um gênio, é um espião, é uma metáfora, é uma ilusão; o Bruxo é monstruoso, se deseja assim, então o texto é uma ode à monstruosidade, a monstruosidade do vampiro, sua hiperssexualização, fome voraz, é parecida à do Bruxo, já que ambos são a mesma entidade; o Bruxo aparece, em muitos momentos, como criador de si mesmo, ele tem o poder da dessubjetivação, de deixar de ser o que impuseram a ele; o conceito de Corpo sem Órgãos, mesmo não referido, é central para pensar a vida sexual e afetiva do Bruxo, o Sexo Bruxo é um meio, não busca um fim como ejacular; o texto sempre tenta criar mapas com linhas de naturezas diferenciadas, ou seja, conjuga termos estranhos entre si: “o Bruxo lidera a Bruxa que o lidera”, “Satã domina o Bruxo, que domina os românticos, mas os românticos são Bruxos e, também, são Satã”, “a espada em seu peito criou seu corpo, mas ele criou a espada, assim, ele se construiu”, “enganava tão bem que enganava a si mesmo”, “era um assassino amoroso”, “o Bruxo não é tolo, ele não acredita em bruxaria”, “ele vive em extremos, sempre, é um perverso, mas amoroso, um viciado saudável, um louco que reconhece a loucura e, assim, a domina”; o texto todo é uma ficção, mas parece ser um relato que não é fictício, apenas religioso; a mentira aparece como potência frente à verdade, filosófica, cristã, científica; o esquizoanalista – que se chama na verdade Legião, mas é um Bruxo   escreveu o texto como uma linha de fuga, aumento de território, rizoma, busca de diferenciação, ou seja, o texto é uma experimentação diferente do já produzido pelo Legião. Por fim, a cartografia é a esquizoanálise, e Bruxaria, como tratada aqui, é um conceito que se mistura ao de cartografia, Bruxaria é um tipo de cartografia.
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O Bruxo aqui não é um Bruxo, mas a subjetividade, como disse acima, que atravessa a história, e busco no texto o comum entre Bruxos. Porém, desconfio que os Bruxos presentes em períodos e localidades diferenciadas são sempre a encarnações do mesmo Bruxo. O Texto é uma fábula, uma mentira, uma ficção, uma piada, mas também é rigorosamente talhado a partir de relatos sobre a figura do Bruxo, atualizados em inúmeros textos de Alta Magia; estes, apresentados aqui em recuo e referenciados, os encontrei no “Fórum BetaDemo” presente na camada mais profunda da Deep Web. Os relatos, os textos são traduções de traduções e não há como confiar totalmente em sua origem; como estavam desconstruídos e pareciam ter sido traduzidos por ferramentas digitais, eu fiz uma tradução final em português. Decidi também padronizar o estilo textual para facilitar na leitura do que segue. Escrevi o texto me pensando como um Artaud personificando um Nietzsche; sim, o mais humilde fazendo o papel do mais orgulhoso, ou seja, o Gênio Menor. Gênio Menor é um conceito advindo dos perdigotos de Satã no momento em que ele ri. Gênio Menor: não um menor que se pensa gênio, o pequeno egocêntrico, o pequeno Hitler, o pequeno que tem um certo dom e se banha nele para conseguir ser grande; o Gênio Menor é um gênio que não quer ser gênio, ele odeia o que chamam de genialidade, nega a si como pessoa especial, ele quer ser qualquer um, ele é uma puta mexicana barata, e sua genialidade está aí, no seu desejo de menoridade. Toda a tradição romântica é feita de gênios menores; sim, vivem na sarjeta, pois ela é o lugar deles. “Eu piso na rua, sempre, me sinto em casa, na sarjeta, os ratos são meus amigos e as baratas me cuidam, meu nome é rua, rua qualquer, eu sou a rua, o caos... Quer pisar na rua, quer pisar em mim, pisa em mim, tá afim?”. “Se me derem uma garrafa de vinho chileno, já que sou chique e gosto de vinhos chilenos, podem até cuspir em mim, sou um michê gourmet.... Cospe em mim! Tá afim?”. “Se você disser que gosta da minha obra, se você me puxar o saco na rua, eu quebro a sua cara”. Sim, personifiquei (rindo, da piada), para escrever o texto, uma grande mente, que traz a verdade sobre o mais profundo da vida, como seu eu fosse um oráculo, ou mesmo como se eu fosse o Bruxo contando sua própria história. Sim, um Bruxo, alguém com poderes, alguém muito mais forte que o mais forte dos mortais. Fiquei um dia inteiro me olhando no espelho e berrando: eu sou o caos! Passei então a acreditar, me sentei no teclado e escrevi a “importantíssima” obra que segue. Depois que finalizei, fiquei três dias consecutivos rindo (da piada), rindo de mim mesmo, da obra, risada de Satã. O texto como sempre é escrito por Legião (demônio que aparece na parábola do Saraceno), e Legião é UM demônio, porém ele é uma legião de demônios, por isso, o texto parece ter uma organicidade, mas pensar dessa forma é um engano, é não ver a Legião. A aparência do texto, assim como a imagem do demônio, é apenas aparência, e os olhos nunca poderão contemplar a verdadeira imagem de um demônio. Penso no indivíduo, o Bruxo, e na sua vida privada em relação à vida de outros, já que a maior parte dos textos que encontrei apresenta o Bruxo como alguém radicalmente individualista, e a radicalidade individualista é marca do satanismo. O Bruxo se centra na sua existência, não pensa no social, não se importa com o destino da humanidade. Quando acreditam que o Bruxo é O Bruxo ele se torna realmente Bruxo, e, a partir daí, tem total controle dos espaços e dos sujeitos que neles vivem; é como o vampiro que precisa da permissão dos outros, formal, para que eles passem a ser atormentados. Sim, o Bruxo necessita da moral dos outros, de seus medos, de suas paranoias para ter forças.
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O Bruxo não age por ódio, não se vinga, não tem ciúmes, nem inveja, ele é frio, e não é cruel, mas é cruel em sua frieza. O Bruxo gosta de contemplar as paixões tristes e a impossibilidade de controle das pessoas comuns. Muitas vezes, se coloca como um objeto a ser agredido, para que fiquem devendo a ele eternamente, já que ele não se vinga, e sim: elas se culpam, têm vergonha do que fazem, agem sem controle. O Bruxo age por intuição e ele sempre ganha, nunca perde. O Bruxo espirra e cai do céu uma chuva de vinte uns. Perguntam sempre: “por qual motivo o Bruxo é chamado de Bruxo, já que ele é mais forte que muitos demônios?”, e o Bruxo mesmo responde: é minha piada, me chamo, me chamam como eu quiser. O Bruxo não é um Bruxo, mas as pessoas acreditam que ele é, e ele, como é, às vezes, uma pessoa, acredita também, não nas pessoas, mas em si mesmo. O Bruxo engana tão bem que engana até a si mesmo. Quando o Bruxo chega na taverna, todos os que estão presentes tremem, mas como não conhecem o Bruxo, pensam que é o frio; só que foi o Bruxo quem trouxe o frio. O Bruxo a cada estação está em um vilarejo novo, às vezes, sai do país, de trem, ou de barco, viaja sem rumo e acha seu lugar, sempre. Ele faz isso para recolher dívidas em nome de Satã. O Bruxo joga uma moeda para o ar, e é a moeda e o ar que escolhem seu novo destino. O Bruxo é uma casca, sem nada dentro, uma bela casca que não esconde nada, sim, ele não é nada por dentro. O Bruxo mostra que não tem vida a partir do seu olhar; quando está em um duelo, ou numa batalha, quando está fazendo sexo, sempre, ele apresenta um olhar de indiferença a si e aos outros. O Bruxo pode estar rindo histericamente, pode estar declamando apaixonadamente, mas seu olhar demonstra que não há a vida em seu corpo. Sim, o Bruxo é Satã, mas o Bruxo sabe que Satã não existe. O Bruxo não acredita em bruxaria, ele é bobo, mas não tanto; o Bruxo se alimenta da moral dominante. O Bruxo não usa métodos, mas pessoas que acreditam nos métodos; manipula elas a partir dos métodos que elas conhecem, ele não necessita de métodos: falar três vezes, duas vezes diz a verdade e três vezes cria a verdade; sexo a luz de velas de sétimo dia para invocar sucubus e incubus; pentagramas, sangue... O ritual não pode ser metódico e tem que se despir dos símbolos dominantes, o ritual não pode ser uma cópia, já que a potência está na criação e a cópia e só cópia. Como diz o Manifesto Bruxo na seção que trata do Vampiro:   

Buscam a vida eterna e a figura do vampiro é desejada... O Bruxo Aerseth peregrinou por estações sem rumo, era um Bruxo do movimento, amante do nomadismo. Decidiu ficar um tempo em um vilarejo, sabia que deveria ficar ali. Alguns moradores do vilarejo lhe apresentaram uma droga potente, que não conhecia, a droga era extraída de uma planta local. Ele a usou continuamente, estava maravilhado com seu efeito. Um dia entrou em uma igreja, exatamente, no momento de um ato fúnebre; Aerseth ainda estava consumindo a poderosa droga. A embriaguez da droga misturada com a pompa fúnebre lhe causou um estranhamento, e então sabia exatamente o que deveria fazer: negar Deus completamente, negar em si o que ainda restava (se é que restava) de crença na divindade cristã. Após isso ficou dias vendo seres demoníacos; moradores do vilarejo que já conhecia pareciam zumbis ou mortos vivos. Aerseth era novo, tinha vinte anos, saiu do vilarejo e continuou sua peregrinação. Aos 45 anos ninguém acreditava que ele tinha essa idade, parecia ter vinte anos, todos diziam; então, um dia, se olhou no espelho e entendeu o que havia acontecido: o fato de ter negado Deus em um ato fúnebre, fez com que ele negasse a parte fundamental do ciclo da vida, a morte. Ele não mais iria morrer, nem mesmo envelhecer. Essa história passou por muitas gerações, muitos tentaram repetir o ato de Aersteh como se fosse um método eficaz, porém, nunca funcionou com outros.

O Bruxo sempre se afetou com a barbárie e odiou a violência dos romanos e sua guerra racionalizada, a guerra por poder; ele admirava os bárbaros, os que lutam por lutar, lutam não por ódio, mas por amor, amor à guerra. O demônio Ferreiro e o Bruxo passaram algumas temporadas juntos, ambos amavam o Aço, a primeira espada foi criada pela parceria entre eles. Os nômades em movimento, amantes do movimento.... o Bruxo os movia. O Bruxo também era o pônei ensanguentado, que alimentava os coletivos do Grande Kahn. A flecha quando está no ar dança, e depois ela é cravada, se o movimento foi bem-sucedido, em qualquer um. Alguém lança a flecha que atinge alguém... mas o Bruxo sempre gostou de ver ela dançando no ar, com seu olhar molecular. O movimento da dança das mulheres loucas na floresta é de natureza parecida com o da flecha; vaginas queimando, ensanguentadas, desejando todo o poder dos elementais, que são bruxos, amigos do Bruxo. As Naves dos Loucos levavam o germe da bruxaria para inúmeros lugares; o Bruxo comandava o destino das Naves. Eurípedes era irmão do Bruxo, e as Bacantes também eram suas irmãs. A Inquisição cristalizou a luta contra a bruxaria. Giordano Bruno (tirando o N e colocando um X, o nome Bruno vira Bruxo) era uma das múltiplas personalidades do Bruxo. A arte da memória de Bruno era tão poderosa quanto a sua arte da respiração: sentir a respiração presente em tudo na vida, nas nuvens, no solo, no subterrâneo, “devemos aprender a respirar”, dizia o Bruxo Bruno. Belial e Dantalion queimaram o coração do Bruxo antes dele se tornar Bruxo. Sem coração, apenas com o cérebro pulsando, o Bruxo se tornou realmente Bruxo, mas ele sempre foi um, não “um” e sim “O”. O Bruxo fala nas costas dos seres comuns, diz a eles que o futuro já aconteceu, que apenas eles não reconhecem isso, já que são cegos. O olho demoníaco já viu tudo, só fica esperando para que “o tudo” seja atualizado. Os olhos divinos negam o olho demoníaco, que está na fronte. Satã está sempre nas costas do Bruxo, mas o Bruxo está nas costas dos artistas, dos escritores quando estes estão produzindo suas obras. Os fogos fátuos e os miasmas aparecem quando o Bruxo quer. O Bruxo matou toda sua família, não queria que seres com genética parecida vivessem, isso poderia abalar seu poder. O Bruxo não caminha, ele dança no ar. O Bruxo olha sempre para todos os lados quando caminha; sua genialidade, bruxaria, não o deixou paranoico, mas ele quer que todos pensem que ele é um fraco, um paranoico. O Bruxo é um portal, Govinda Negro, ele atrai pessoas, coletivos, demônios, animais; o Bruxo atrai até mesmo o sol, o arco íris, a tempestade, o vento, a chuva. Se o Bruxo quiser, uma tempestade devasta o vilarejo. Amy, conhecido nas “Escrituras Bélicas” como Assaz e no “Terceiro livro de Danstorn” como Hanar, rege os estudiosos do tempo. O Bruxo é um estudioso do tempo, tão profundo que consegue até mesmo controlá-lo. Como o Bruxo vive o tempo, seu poder de ação não é localizado, um espirro seu pode matar uma criança dormindo em uma parte distante do planeta. O Bruxo louva o caos, cria o caos, sim, ele é o caos, ele gerou Nix e Érebo, que geraram a legião romântica, e o Bruxo, como disse, é um romântico, aliás, todos os românticos são Bruxos e eles produzem o caos. Satã criou o baralho, mas quem comanda o jogo é o Bruxo, ele dá as cartas, ele joga, ele blefa e sempre ganha. O Bruxo jogava cartas com seres comuns e alguém disse que o mundo iria acabar, todos queriam sair correndo, ver os familiares, tomar o último porre, dar uma trepada, mas o Bruxo disse: vamos acabar o jogo! O sujeito soberano, que pode tudo, é uma interpretação tola do satanismo. O “poder tudo” deve significar não aceitar a moralidade cristã, que torna praticamente “tudo” pecado. O Bruxo mata por amor, nunca por ódio, e obviamente matar por amor não se refere à neurose da vida conjugal; “assassino amoroso”, a dubiedade, a obscuridade, o impedimento da significação dominante. Quando alguém morre, já que tentou ferir o Bruxo, não foi culpa do Bruxo; todos sabem que quando tentam ferir o Bruxo se auto punirão. Os Gárgulas cuidam as catedrais, e foi o Bruxo quem esculpiu o primeiro Gárgula. Samael é pai de Caim e Caim é pai do Bruxo. Kroni, Hades, Lúcifer comandam o Inferno e convidam sempre o Bruxo para temporadas no inferno. O Bruxo é um traficante, ele vende o fungo do centeio, a secreção do Sapo Bufo, as fezes do rinoceronte, a carne negra da Centopeia Gigante, a Sagrada Gandja, o veneno do Peixe Sapo, o Sopro da Flor do Dragão, o sangue da Serpente Javanesa, o sumo do Cogumelo de Chiapas, o pólen da Flor AgriDoce. O texto considerado primeiro sobre o Bruxo, presente na antologia NekroMantia, expõe o momento em que o Bruxo descobre quem ele realmente sempre foi:

Ele era fascinado pelos olhos, pelo olhar das mulheres, ele dominava a arte do olhar, conseguia as capturar pelo olhar. Ele tinha facilidade em ler as linhas das mãos das mulheres; ele lia as linhas mesmo sem as ver, lia apenas pelo toque. Sim, ele dominava também a arte do toque. As mulheres não conseguiam ler as linhas de suas mãos, e quando tentavam eram bloqueadas. Ele sempre conseguia perceber as conjunções astrais, sabia a partir dos números o que estava regendo certas estações. Para ele, tudo isso sempre foi natural. Apenas descobriu ser Bruxo ao se ver no espelho... um dia percebeu uma mancha no peito com a forma perfeita de espada. Em toda a sua vida fora um guerreiro, tinha cicatrizes em todo o corpo, e quando viu a mancha, a espada, entendeu que havia sido a espada a construtora do seu corpo e que ele havia criado a espada – ou seja, ele se construiu.  

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O Bruxo necessita da Bruxa para se empoderar. A Bruxa não é sua versão feminina, é uma mulher com poderes, porém, o Bruxo sempre domina as Bruxas. O Bruxo sabe muito bem os lugares em que deve pisar, e raramente se engana se as pretendentes são Bruxas ou não; e sim, muitas Bruxas só reconhecem que são Bruxas a partir do encontro com o Bruxo.  O Bruxo possui escravas, que são quase Bruxas ou Bruxas de uma ordem inferior; elas variam de estação a estação, só que há escravas que permanecem por muito mais tempo. O amor do Bruxo é realmente expresso na relação com a Bruxa, mas as escravas também são paixões e amores do Bruxo. O Bruxo e as escravas não têm necessariamente uma relação direta – as escravas habitam muito mais o plano dos espíritos, e mesmo quando uma escrava copula com o Bruxo, é uma cópula sem importância, ou seja, algo inteiramente diferente do sexo entre o Bruxo e a Bruxa. Não há motivo para dizer que o amor do Bruxo pela Bruxa é maior que o amor pelas escravas... são amores, mas diferentes. As escravas fazem tudo por ele, o adoram, e têm um certo grau de poder sobre ele – ele dá esse grau a elas para potencializar a relação. Algumas escravas desconhecem que são escravas, pelo menos conscientemente. As escravas são escolhidas por afetos, elas surgem com o vento. A primeira parte do Contra Evangelho, traz uma passagem que mostra o poder das escravas, mas também como esse poder é perigoso para elas. O Bruxo é o termo dominante da relação, exatamente, por não ter ódio e reconhecer a fraqueza das mulheres:  

O Bruxo Djim Morgattzen criou para si uma personalidade de Satã palhaço. A partir dessa personalidade ele criou mais duas, a de gênio e a de idiota, e radicalizou: um dia era Satã palhaço, no outro gênio e no outro idiota. Ele radicalizou tanto que acabou entrando em uma área de descontrole, não tinha mais controle das personalidades. Na mesma época, ele estava com sua Bruxa da estação, e um dia, depois de exagerar com drogas, acabou a agredindo. As escravas decidiram que o Bruxo iria pagar, seria jogado em uma vala de lobos famintos. O Bruxo entendeu a situação, isso o fez voltar para sua margem de controle, mas disse a elas: eu não vou me desculpar. Ele ficou meses ouvindo das escravas que ele seria destroçado e não fez nada, apenas continuou com sua vida. Como sua vida era encantadora para as escravas, o ódio delas foi se dissipando. Ao mesmo tempo, um aspirante a bruxo, pretensioso, se aproximou de Djim. O aspirante queria ser tão forte quanto ele e, por isso, o imitava; porém, errou totalmente ao repetir o o ato do Bruxo, agrediu uma escrava, e as outras escravas o jogaram aos lobos; ou seja, ele pagou pelo erro do Bruxo, e elas, também, tiveram que pagar pelo seu ato.

O Bruxo sempre é tentado pelas escravas, pelas parceiras das escravas, por mulheres que querem ser escravas, ele as atrai. Mas o Bruxo se contém, apenas dedica relação carnal às Bruxas. As Bruxas lideram o Bruxo que as lidera. As escravas ajudam o Bruxo na escolha das Bruxas, e as Bruxas sabem que podem contar com as escravas. A relação entre Bruxas e escravas é bonita, é feminina, diferente da relação do Bruxo com todas elas. A Bruxa nunca tem ciúmes das escravas, e quando as escravas têm ciúmes das Bruxas, sabem que têm que se conter, pois esse sentimento pode destruí-las. O Bruxo escolhe uma Bruxa por estação, não mais do que isso; se a relação é muito rápida, após seu término, o Bruxo se obriga a ficar um bom tempo solitário; é central para ele, para sua potência, a contenção sexual e afetiva. O Bruxo, às vezes, pode ser levado pelos impulsos e copular com mulheres que não são Bruxas nem escravas, e isso o enfraquece. Quando a Bruxa é escolhida, na hora o Bruxo diz a ela: eu sou teu pai, você é minha. A Bruxa muitas vezes não entende, tenta se afastar, mas logo depois de escolhida não há volta. O Bruxo dedica sua vida sexual a Bruxa; foca na Bruxa o sexo para não se dispersar e, assim, se empoderar.  O sexo com a Bruxa acontece apenas em certos dias da semana; as relações mais importantes são aquelas contínuas, em dois dias seguidos, principalmente de sexta até sábado, ou de sábado até domingo. O Sabath é importantíssimo, marca o fim e o início da semana; aliás, o intermeio é central na prática sexual, além do sábado, são importantes a meia noite e o nascer do sol, mas nunca o pôr do sol, já que este é admirado por devotos de religiões contrárias à do Bruxo. O Bruxo nunca ejacula no sexo com a Bruxa, o Bruxo ejacula solitário uma vez por semana, no dia mais distante da última e da próxima transa. Faz isso para que as transas com a Bruxa sejam terrivelmente intensas. O Bruxo contém a ejaculação, já que ela é uma descarga violenta de potência vital. Cada ejaculação precede algo de morte, enfraquece o corpo do Bruxo e seu terceiro olho fica borrado, quase fechado. Quando se percebe que a ejaculação diz respeito à morte, ela se torna algo não prazeroso. O homem comum transa para ejacular, ou seja, busca um fim, o sexo para ele tem um início, meio e fim. Mas transar sem desejar ejacular é criar um meio, que se estende, meio apenas, sem fim; então, o meio se torna o mais importante, e nesse meio coisas impensáveis para o homem comum acontecem. Se não há ejaculação, só meio, então não há porque individualizar uma transa; o Bruxo e a Bruxa podem ir para cama em vários momentos nos dois dias, e como não finalizam com a ejaculação, então, é sempre a mesma transa. Se o Bruxo nunca ejacular (finalizar) durante uma estação com a Bruxa, todas as transas foram uma transa; como mostra o livro A Bruxaria é um tipo de Sexualidade, escrito por Saint Diavo:

Durante a estação transaram apenas uma vez, mas essa transa durou toda a estação; às vezes, eles paravam para descansar uma hora, às vezes duas, às vezes um dia, às vezes uma semana; eles tinham que descansar para continuar transando mais e mais e mais, e assim a transa durou meses. Eles não competiam entre si e muito menos com os outros, os outros não importavam, o que importava era a necessidade de estarem juntos, mas sim, a transa deles foi a mais longa da história.

Sua ejaculação semanal é também uma oferenda às escravas, para conter a necessidade delas de relação sexual com o Bruxo. O falo do Bruxo é naturalmente viril, tem uma força extrema e quando está com a Bruxa sempre está ereto. O pós sado masoquismo foi inventado antes do sado masoquismo. Pós sado masoquismo é o sado masoquismo com amor, é o ato sexual do Bruxo com a Bruxa. O Bruxo tem autocontrole: regra a alimentação, tem vida esportiva ativa, medita com frequência. Porém, o Bruxo abusa de substâncias viciantes que agridem seu organismo; por isso, há um grau de descontrole na vida do Bruxo, mas ele tem poder frente ao descontrole, ao caos – sim, o Bruxo controla o caos, produz o caos, o segundo nome do Bruxo é Caos. Ele mescla os excessos narcóticos com uma vida radicalmente saudável, já que precisa sempre dos extremos dentro de si. O Bruxo necessita da borda, estar na borda em sua vida, e o sexo nasce da borda, da força do corpo sadio, da violência do corpo narcotizado, da potência da mente genial do Bruxo, que é um gênio, da loucura do Bruxo causada pelos abusos da narcose. Os extremos dos hábitos do Bruxo se cristalizam no sexo com a Bruxa. O sexo entre o Bruxo e a Bruxa marca a força dos dois e mostra que a relação é transcendente – Amor Bruxo, não o amor das pessoas comuns. O sexo é o ritual mais potente dos dois, ocupa a maior parte da relação. O empoderamento do Bruxo produz o sexo empoderado que produz mais empoderamento. O sexo, por ser Sexo Bruxo, como disse, não concerne ao sexo das pessoas comuns, mas certas práticas comuns são usadas pelo Bruxo, porém, sempre com grandes margens de desvio. O Bruxo sabe que mil posições podem ser experimentadas em uma posição apenas. A posição mais comum pode tomar formas caóticas. O sexo com proximidade extrema, também física, a vontade de que o falo atinja a partir da vagina o ventre da Bruxa, indica um desejo de transformar o Dois em Um (21), eliminar todo o resto, fundir os dois corpos em um novo corpo; esse novo corpo teria dois terceiros olhos, ou seja, o corpo mais poderoso já concebido. Os poros da pele do Bruxo são bocas que querem beijar outros poros, ou seja, outras bocas, são línguas que querem sentir outras línguas (poros), são olhos que choram e piscam e veem outros olhos (poros), são narizes que cheiram a pele dela. Ou seja, apenas o toque, a pele com a pele, a negação da penetração comum, pode permitir uma experiência sexual única. Como obra do Bruxo, o Sexo Bruxo é só um meio, ele não busca um fim, o corpo da Bruxa para ele é algo a ser mapeado. Ele pode ficar dias tocando os pés, as mãos, a ossatura de todo corpo, o rosto, os seios, o sulco vaginal (que sempre revela algo singular), o cabelo, o pescoço da Bruxa... perceber suas pequenas imperfeições também, já que são lindas. Sim, o Bruxo pode passar dias apenas tocando sem pensar em penetração, e quando tem ereções fortes, simplesmente, respira, relaxa e controla. O Sexo Bruxo pode se realizar também apenas pelo olhar. O Bruxo pode ter uma relação com uma Bruxa (que muitas vezes não sabe que é uma Bruxa) sem ao menos tocá-la; ele pode apenas estar presente com ela, a olhando, contemplando seu corpo, seu sorriso, sua fala, como ela se comunica com os outros – essa é a radicalidade do Sexo Bruxo, o sexo sem contato físico originado da potência do terceiro olho. O Bruxo é sempre guiado pelo amor, mas o Amor Bruxo, não o amor dos seres comum; ele tem uma relação profunda com as mulheres, encanta elas, já que nunca se considerou um homem, mas sim um Bruxo. Os sentimentos femininos, a feminilidades, são visíveis no Bruxo: nos seus olhos, na fala, na forma como caminha, como beija, toca, nas suas lágrimas. Elas sabem o respeito e apreço dele pelas mulheres. Porém, o Bruxo continua sendo homem, e como homem ama a guerra, o jogo, a batalha, ama a morte em si e nos outros, ele é violento; ou seja, como disse, um assassino amoroso, um assassino que ama o amor. Essa dubiedade – amar o amor, amar a violência – pode ser experimentada sem muitas contradições; mas o Bruxo pode ser destruído como Bruxo se desejar uma Bruxa como único amor. Ahhe Krimynem, na Antologia dos Últimos Textos Profanos, relata uma história que exemplifica isso: 

Experimentou estações de amor com três bruxas, amou elas, uma a uma. A sequente sempre era o amor de sua vida. Disse para a última: nunca amei alguém como amei você, você é meu último amor, depois de você não quero mais amar ninguém e, por isso, finalizo aqui minha história. Ele foge dela, já que não queria um sentimento tão forte, um sentimento que o aprisionaria; se flanasse no sentimento deixaria de ser Bruxo e viraria um esposo, e o Bruxo por sua natureza deve amar continuamente Bruxas por estações. Ele se desliga do jogo contínuo com as Bruxas, não fica com a verdadeira amada, e se torna um guerreiro. Ou seja, passa a amar apenas a guerra.  

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O Bruxo só se torna Bruxo tendo uma relação profunda com a morte: desejar ela, ter vivido algum acontecimento arrebatador... o Bruxo está numa tensão constante com a morte. Ele sempre está em batalha, provoca duelos, arrisca seu corpo. O Manifesto Memento Mori detalha as relações do Bruxos com a morte.


Dormia em baixo de uma espada, grande e afiada, pendurada no teto com uma corda. Ele banhava a corda com gordura de porco e colocava no aposento ratos. Os ratos mastigavam a corda banhada. A espada nunca caiu no corpo do Bruxo, porém, esse contato com a morte, ainda mais na hora do sono, o tornou radicalmente potente.  
                   [...]
O oráculo diz ao Bruxo que ele vai morrer em batalha, mas que sua história atravessará os tempos. Ele fica feliz, se tornaria um dos Bruxos mais conhecidos, um Bruxo Herói; assim, decide viver sempre em batalha, persegue guerras, se alista, consegue postos importantes em muitos exércitos; o contato com a morte sempre lhe dá poder, e ele realmente se torna herói; porém, acaba contraindo uma doença terminal. Ao saber que iria morrer na cama de um hospital, se assusta, já que tinha se tornado um grande herói, mas não tinha morrido em batalha.
[...]
Uma fenda numa parede; depois da fenda há uma corda, essa corda sustenta um quadrado de madeira cheio de objetos cortantes. O quadrado fica no teto, uns metros à frente da parede com a fenda. O Bruxo fica embaixo do quadrado e brinca: joga um machete, tentando o fazer passar pela fenda e cortar a corda; se conseguir, o quadrado cai em cima dele e, então, pode morrer. O Bruxo faz isso uma vez por semana; ele sabe que é muito difícil de acertar, mas com prática, ou por sorte, pode conseguir ganhar o jogo, ou seja, perder. O Bruxo friamente tenta ganhar o jogo, sabendo que se ganhar vai perder. Após meses de prática, o Bruxo fica cada vez mais forte, pelo contato com a morte. Porém, mesmo que deseje jogar todos os dias, ele sabe que a potência depende da contenção, e ele se contém. Ele quer acertar, mas pode morrer e tem que desejar morrer, mas não pode morrer.
[...]
O Bruxo aprendeu a respirar profundamente com os Sadhus A respiração funda é exatamente liberar o máximo de ar e inspirar o mínimo possível; com isso, o Bruxo conseguia atingir níveis elevadíssimos de inconsciência. Porém, na prática contínua, sabia que inspirar, por certo tempo, pouco ar poderia causar uma paralisia cerebral. A prática para o Bruxo era uma forma de contato com a morte muito prazerosa. [...] Há um tipo de serpente desértica, parente da Naja, que libera um veneno, mas cada picada tem uma quantidade diferente. Ser picado por ela pode não fazer efeito nenhum ou pode levar a morte súbita. O Bruxo, uma vez por ano, durante toda sua vida, atacava sua serpente a fazendo o picar. Em todo esse ciclo as doses de veneno sempre foram muito amenas.  [...] O Lobo Branco Nórdico é dócil, mas pode não reconhecer o dono em determinados momentos; nesses momentos, o Lobo pode o atacar mortalmente. O Bruxo durante toda sua vida teve Lobos Brancos como seus animais domésticos, mas nunca foi atacado.

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O Bruxo tem pelo menos quatro personalidades, personagens, que atuam em certos blocos de tempo, e em cada bloco de tempo, o Bruxo finca moradia em uma localidade diferente. As personalidades são criadas a partir da percepção das pessoas comuns em relação ao Bruxo. Quando ele chega em um novo lugar, apresenta uma personalidade escolhida por si e, ao mesmo tempo, cria uma aura de mistério sobre ele. Os moradores começam a fazer indagações sobre a presença e identidade do Bruxo, a partir daí os personagens vão sendo desenvolvidos, e o Bruxo tenta afirmá-los e escondê-los ao mesmo: um dia age de uma forma, no outro de outra, às vezes, conta histórias estranhas sobre si; porém, a primeira personalidade se mantém como a dominante. Isso causa um grau enorme de estranhamento nos moradores. Muitas vezes, os moradores podem acreditar que ele é realmente todas as personalidades que ele insinua, mas o Bruxo faz o máximo possível para que as dúvidas em torno dele não sejam conscientemente expressas. O Bruxo faz isso, já que o medo a partir da dúvida lhe dá forças. Muitas vezes o Bruxo encarna tão bem seus papéis, que ele mesmo passa a acreditar que é seus personagens; e se ele conseguir acreditar em todos papéis, mesmo que seja apenas por certos momentos, ele pode se perder neles e não voltar ou realmente se empoderar. Drek Niuwtloverd, nas Fábulas Amaldiçoadas, conta a história de um dos personagens criado e vivido pelo Bruxo Carlfautz:

Carlfautz chegou no vilarejo e disse a todos que ele era Amón. Amón estava desaparecido por anos, já que tinha sido morto na guerra. Todos acreditaram que era Amón quem havia retornado, até mesmo a sua esposa. A esposa amava Amón e só não tinha se suicidado, pois acreditava que ele voltaria. O amor da esposa, que era uma Bruxa e não sabia, trouxe o Bruxo ao vilarejo. Ele sabia da história, sonhava constantemente com o vilarejo, com Amón e sua esposa; o Bruxo estava enamorado por ela. Ao viver a identidade do marido, acabou se apaixonando pela esposa e, mais, passou a acreditar que era Amón e, assim, esqueceu de sua identidade verdadeira. Porém, a Bruxa começou a perceber que era Bruxa, e assim ficou empoderada, entendeu que Amón havia morrido e que o Bruxo era um Bruxo. Ela se apaixona pelo Bruxo, diz a ele que não é Amón e que ela nunca havia amado Amón, mas sim o Bruxo. Ficaram juntos uma estação completa e depois se separaram, já que é da natureza dos Bruxos a efemeridade extremamente intensa.

No mesmo livro aparece a história do Bruxo Ohlinve que reinventou sua história para ter mais poder.

Passou a dizer a todos que era fruto de um estupro e todos acreditaram. Após um tempo, ele mesmo acreditou na história. Fez isso, pois os estupros são ações de uma classe específica de demônios, os Iritas. Quem é gerado a partir do estupro se torna um tipo de demônio de força extrema. Para ter essa força, Ohlinve aceitou a ideia de que seu pai não era seu pai e que sua mãe havia sido violentada. 

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O Bruxo sente uma forte atração pela espionagem, ele pode realizar trabalhos como espião para o aparelho de Estado. Ele age para o aparelho, mas busca exatamente a despersonalização própria à identidade de espião. Ele, assim, age por si mesmo, já que gosta de contemplar a mentira, a falsidade, o engano. O teatro é sua forma de existência, e ele acredita no teatro, ele não tem vida, tem muitas vidas e se perde nelas. A questão do jogo inerente ao Bruxo é exposta no Manifesto do Vigésimo Primeiro Minuto da hora Final do Bruxo:

Ele era um ótimo ator, amava a crueldade em si mesmo. Ele se colocava como objeto a ser destruído: com corpo belo andava nu em tabernas e homens o atacavam sexualmente, andava como um bobo pelos vilarejos e todos o apedrejavam; ele fazia o possível para sofrer a paixão triste dos outros, mas como não era Cristo, ele fazia isso para ter uma desculpa para destruir os outros.
[...]
A Bruxa Suntka encantava homens para o seu Bruxo os destruir. Ele dizia a todos: não toquem nela, nós nos amamos, mas ela jogava olhares sedutores aos homens que desejavam o que o Bruxo tinha. Após consumado o desejo dos homens, o Bruxo os destruía, já que isso faz parte da lei, e ambos, ela e ele, se deliciavam.  
[...]
O Bruxo Demis Rokano peregrinou por estações sem rumo. Um dia parou numa estalagem em um pequeno vilarejo. Ficou na estalagem, sentia que deveria ficar ali. No sexto dia chegou no local um senhor distinto, estranho para o ambiente. O Bruxo e o senhor logo começaram a se relacionar; as pessoas ao redor olhavam admiradas para o contato entre os dois, o que falavam, como falavam, como ao conversar se relacionavam com o entorno. Um dia, Demis disse ao senhor que, na verdade, era Satã e que estava ali para decidir sobre a vida dos moradores da região; falou isso e pediu que não fosse contado; ao mesmo tempo, o senhor revelou que era um sacerdote, que tinha peregrinado por anos para encontrar Satã. Demis perguntou se haveria guerra, o sacerdote afirmou que apenas queria aprender com ele, com Satã, mesmo que fosse radicalmente contrário ao que Satã representava. Demis disse que o respeitava também, e que poderiam manter o diálogo. Os dois ficaram muito tempo juntos na estalagem se relacionando. As pessoas do entorno se sentiam mal com a presença deles, mas também impotentes; não sabiam a verdade sobre os dois, mas intuíam que eram seres mágicos... um dia Demis, ainda se nomeando de Satã, disse ao sacerdote que, na verdade, buscava exatamente ele, o sacerdote. Este não era bom, era sim mau, e deveria ser punido. O sacerdote enlouquece na hora, sai correndo e se joga em um penhasco. E sim, Demis era um Bruxo, sabia que o sacerdote era mau, e apenas iluminou-o, mostrando a verdade, e o sacerdote não suportou a verdade sobre si mesmo.

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Qualquer um, ao abusar de drogas por um longo tempo, fica com a percepção eternamente modificada, o terceiro olho aparece, e quando aparece isso pode levar ao reconhecimento de que se é um Bruxo. Uma obra não referida a Bruxos, O Último Livro Sobre a Flora Profana, mas importante para a bruxaria, apresenta drogas potentes pouco conhecidas.

Uma droga criada pelos Idilista, a partir de um fungo raro, permite longos períodos de ereção, mas com controle ejaculatório. [...] A Munova faz com que o corpo não se definhe após períodos frequentes de narcose. [...] A Saitka permite com que o usuário esteja sempre em transe mesmo sem aparentar. [...] O pólen da Flor Latah cria viagens ao inferno na hora do sono e não causa nenhum sintoma de vicio ou de ressaca. O efeito mais surpreendente do pólen: as pessoas que estão dormindo próximas de quem usou a droga são acometidas por alucinações.

As Bruxas ajudam o Bruxo na escolha das drogas, já que elas são as conhecedoras e manipuladoras da alma dos elementos da flora; com seu poder, elas dão poder ao Bruxo.
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Como disse, o Bruxo pode ser criado por si mesmo, tendo intuição e reconhecendo a falibilidade dos métodos. O texto buscou registrar então as atividades bruxas que atravessam as eras. As polis avançadas impõem a amizade e respeito aos cidadãos. Os Bruxos aparecem na polis como uma forma de resistência a falsa harmonia. Bruxos são criados em batalhas, prisões, nas naus dos loucos, na alcova com as Bruxas. Termino o texto com uma passagem do Livro Sete da Possessão:

Sethtre, vivendo na polis e sabendo da impossibilidade de uma existência singular, ao encontrar o livro sagrado decide ser um Bruxo. Ele comete um crime, de propósito, e é condenado a viver em um vilarejo no qual estão os seres mais perversos possíveis. Ele fez isso – cometeu o crime para ser condenado –, pois sabia que para ser um Bruxo teria que passar por uma provação de dor. Ele fica ali, no vilarejo, durante anos, sofrendo; porém, depois de um tempo, passa a ter liderança no espaço, constrói um exército e luta contra a polis. Sethre, logo após, desaparece, mas ressurge como Bruxo em inúmeros cantos do planeta ao longo da história.

sábado, 21 de julho de 2018


Exercícios de esquizo análise com lembranças de Espectralia


Introdução: na primeira parte do texto continuo com os exercícios de esquizo análise. O tema mais corrente é o tempo, o tempo controlado na urbe e os N tempos de Espectralia. Na segunda parte, apresento uma cartografia de Espectralia a partir de anotações sobre sonhos meus que têm a cidade como tema e de viagens psicodélicas acontecidas em locais na cidade, portais para Espectralia: a beira de um rio morto, uma sala de recuperação de um hospital, um apartamento no qual aconteceram festas contínuas. Há um grau de invenção na narrativa dos sonhos, dos delírios, da narcose, já que concernem a lembranças em vigília, e não dá para confiar nas lembranças a partir desses estados alterados; um exemplo são as memórias borradas de uma festa em que se estava bêbado, já que nunca se sabe direito o que realmente aconteceu. Busco na narração de sonhos e delírios os signos de superfície e não a interpretação; não busco razões profundas, racionalizar, mas sim apenas isso: buscar os signos que compõem eles, registros que mostram parte da fauna e paisagem de Espectralia.
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Parte 1. Exercício de esquizo análise

Desde que me envolvi com drogas, os sonhos me chamaram atenção já que são um tipo de narcose, talvez uma das mais fortes. Em momentos duros de abstinência forçada, portanto, eu tinha os sonhos como possibilidade de narcose sem o uso direto. Em relação a ficar chapado de cara, eu aprendi que há muitas outras possibilidades: modular a respiração, fazer yoga, meditar, ouvir mantras, sonhar acordado, certas práticas sexuais – tudo isso permite estados narcóticos interessantes. Em uma das minhas piores fases, eu ouvia mantras e tentava soltar o máximo de ar possível e inspirar o mínimo possível, isso me colocava em estado de inconsciência momentânea; aprendi sozinho, respirando, por intuição. Na prática da yoga, eu via, no momento dos mantras, a aura de meus colegas, lindas auras azuis. O fato de ter aberto as portas da percepção com drogas me permitiu também outros graus de molecularização da percepção: sentir odores em certos lugares, ter reflexos rápidos, ficar com mal estar em certos lugares como sinal de proteção, ter arrepios com certas músicas, desenvolver uma sensibilidade enorme em relação ao toque de tecidos e peles de pessoas, sentir o que certas pessoas estão sentindo em certos momentos. Todos têm seus graus de loucura, todos são shamãs, porém, poucos notam ou tem controle disso. Uma forma de controlar é a cartografia, ou seja, perceber a percepção molecular e a normatizada. A loucura do cotidiano fica presa no privado, e o privado, a vida do dia a dia, é negado pelo cientista em seu trabalho. Porém muitas teses são baseadas a partir da moral dominante, mas os cientistas se dizem neutros, frios. Muitos escolhem a política dominante como tema baseados em sua tendência à esquerda, entretanto fazem isso já que desconhecem a micro política e se negam a ver que não há mais esquerda faz tempo; ou seja, são iguais a todos, cegos como todos; e a questão moral se revela já que eles são cegos para não ver o insuportável, essa é auto proteção deles. Muitos cientistas dizem que amam Deleuze, mas têm medo de experimentar o que ele propõe, já que são moralistas. O intelectual estuda e estuda e estuda apenas para ter um capital simbólico superior. Ele quer ter mais saber, quer estudar para ser afetado apenas intelectualmente. Ele fica preso em seu gabinete tendo doces devaneios, permitidos pelos afetos de suas leituras, sonha com outros mundos, mas continua preso no caixão, no gabinete. Na vida privada, nas relações cotidianas ele é igual a todos, a única diferença é que ele marca sua posição hierárquica quando fala dos assuntos que estuda. Os okupas buscam em seus espaços outras formas de vida, relações, que dizem respeito ao intelecto e a subjetividade. Eles querem viver em comum, a partir do comum, não ser pessoas especiais. O intelectual é especial apenas em seu trabalho, e muitas vezes não é especial em seu trabalho, já que é moralista como todos. A crítica quando é algo puramente intelectual não é crítica, mas consenso, aceitação do mundo como é.
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Muitos não conhecem os portais para espectralia nas ruas da cidade, mas conhecem os portais que estão na alcova e no que chamam de “própria cabeça”, portanto, mapear Espectralia é possível a todos. O Second Life, após sua derrocada, virou uma cidade fantasma; quando todos saíram dele, as ruas vazias mostraram uma outra paisagem; a derrocada do Second Life deu uma vida diferente a ele, virou uma Espectralia virtual. Os poucos que ainda freqüentavam o espaço eram hackers e desavisados. Os hackers buscavam os desavisados e os hackeavam. O lindo bebê que não fala, apenas gesticula e ri sem controle, ele está em Espectralia, e, quando sair dela, quando for recuperado pelos signos dominante, vai esquecer do local em que estava; o bebê a conhece a fundo, a experimenta de sua forma, e não há como saber sobre sua experimentação. O espiritismo é uma farsa, mas talvez tenha como base as experimentações dos espaços dos espíritos, e um deles é Espectralia. É uma farsa já que considera os espíritos como agentes de outro mundo; sim, mundos, N mundos, existem no que chamam de “este mundo”.
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Fala de um esquizo para um neurótico:

- nós sabemos e muito bem o que aconteceu, sabemos do seu segredinho sujo, sabemos que você não vai contar para ninguém... Mas nós anunciamos ao mundo o seu segredinho. Sim, nós sabemos que aquele segredinho sujo está adormecido dentro de você, você não se lembra, mas vai lembrar, nós vamos fazer você se lembrar. Nós sabemos que aquela sujeira, que você guardou para você... Que ela sempre foi natural para você, mas nós vamos lhe mostrar que era a pior sujeira do mundo. Sim, nós sabemos, todos sabem, e você sabe que todos sabem.
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A relação do cinema com Espectralia mostra outros tempos e espaços, portanto é filosofia e medicina.  As cenas de Tarkowski duram e duram. O início de Aguirre de Herzog faz algo parecido, porém o filme é marcado pela presença de Kinski que ocupa praticamente todo o filme. A entrada de Drácula, em Nosferatu, enquanto Adjani está se penteando; o cair de Michael Pit em Last Days; o deitar na relva do Stalker; Pink chapado junto ao piano em The Wall; a relação coleóptera de Jane e Bill em Naked Lunch de Cronemberg; a chuva de lixo banhando Sid and Nancy no filme de mesmo nome; o respirar de Giordano Bruno em sua cinebiografia; todo o curta Catalan de Jarman; a viagem de éter do alienista em Bicho de Sete Cabeças; o correr de Di Caprio junto as papoulas em Diários de Basquete.
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Sempre na cama eu me perco com você em Espectralia; às vezes, parece que passaram horas, às vezes, parece que passaram minutos, e quando paramos de transar tantricamente, quando voltamos para Cronos, sei exatamente que estávamos em outro tempo, o do amor, da morte: Amor-te. Ninguém no mundo conhecia esse conceito, ele foi inventado, criado por nós, sim, você é meu amor e morte, meu Amor-te. Tenho medo que depois do Amor-te venha a morte, ou seja, o amor que todos afirmam. Sim, o amor deles é a morte, simbolizada na neurose, na paranóia, na violência, no medo, no ódio, ou seja, nas paixões tristes, o amor deles é uma paixão triste. Todos têm inveja do conceito que criamos, e eles não querem roubá-lo de nós, mas destruir o que nós inventamos, já que eles amam o ódio, como disse a paixão triste. Sim, nós mostramos a eles quem eles são, a impossibilidade deles de viver a vida de forma alegre. Sim, o amor deles é a morte, o nosso amor é amor e morte: Amor-te. Precisei te conhecer a fundo distante para conseguir chegar perto de você, depois precisei conhecer todos os pontos de teu corpo te tocando sem nenhuma intenção sexual. Precisei te mapear para entender o que eu já sabia: sim, você é uma deusa. Nós estamos juntos desde sempre, eu sou teu pai e você é minha mãe. Você me gera e eu te gero em um ciclo contínuo. Nessa temporada atual nossa, na qual eu sou teu pai, você pode virar Elektra e me destruir, ou eu posso afirmar que sou Lúcifer e te destruir. Se você for mais forte do que eu e quiser me destruir, eu aceito a derrota. Você pode me matar se o assassinato for uma forma não de amor, mas uma forma de dar consistência ao Amor-te. Sempre achei feio chorar, não gosto de depressivos que choram, mas a primeira vez que disse o que sentia, sim, eu chorei, já que estava arrebatado, maravilhado com a tua beleza. Muitas vezes eu não te ouço, já que estou junto dos fantasmas, não os meus parceiros de Espectralia, mas os fantasmas da necrópole, eles dizem: “você não pode ser feliz”, já que não há felicidade na necrópole; eles dizem também: “junte-se a nós, seja um de nós, nós lhe daremos tudo o que você quiser.”. Sim, eu me potencializei rapidamente ao estar perto de você, gradativamente, porém, em determinado momento, a potência se estabilizou, continuo potente, mas de forma estável; então eu me acostumei com a potência, e o costume e a estabilidade me causaram um estranhamento, pensei que o Amor-te tinha virado a morte. Sim, acredito no Amor-te, mas tenho medo (um fantasma) da morte. Um problema é que agora tenho que me precaver ao causar meus genocídios, tenho que escolher o lugar certo para por minhas bombas, não posso mais fazer tudo que quero da forma que quero, já que isso pode te afetar. Tenho que me preocupar contigo e isso é uma forma de prisão. O amor deles é morte, já que é um elemento que sustenta a prisão. Você sabe que em breve eu vou ter que cair na estrada, voltar para o Tibete, mas eu acredito, sim, que o último amor é mais importante e belo que o primeiro. Mas você não é meu último amor, você é meu primeiro, melhor, meu primeiro Amor-te. Como dizia a banda TSOL: “eu não acredito em amor, eu acredito em magia, magia negra”, e Amor-te é magia negra, magia negra que não é ressentimento; se há ódio no Amor-te é o ódio ao ódio. Amor-te não é só um afeto, mas também um portal para Espectralia. A potência das minorias presentes em você me potencializou, isso criou o Amor-te. Sim, as minorias não são fracas, são potentes, são as subjetividades realmente potentes; os homens, brancos, adultos são fracos, maus, assassinos, são a ralé, a pior escória. Eu andei muito tempo com os nórdicos, fortes, loiros e adultos, eles me ajudaram a me forjar como arma, mas você como tripla minoria, mulher, negra, jovem, é muito mais potente que eles. Não é uma questão de se orgulhar de quem se é, como dizem muito negros, o “orgulho negro”, mas perceber a potência, não se enfraquecer, não ter medo (fantasma) dos nórdicos que me acompanharam em outras estações.               
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Primeiro fiquei sem celular, assim sem o relógio dele, depois o relógio do carro teve uma pane, o meu de pulso parou e o do tablet se desregulou; não consertei o celular, não arrumei o relógio do carro nem do tablet, e não pus bateria no de pulso. Mesmo com todas as pressões, principalmente a de usar o celular, estou assim faz meses. Isso conjugado à alimentação regrada, ao esporte e à meditação está fazendo com que eu tenha lapsos temporais no cotidiano, momentos de transe. Transes desse tipo eu sempre tive a partir do controle da alimentação, das práticas esportivas e da meditação. Porém, sem relógios tudo ficou mais acentuado. Isso é filosofia, entender o tempo, é medicina, experimentar os tempos, é crítica e política, resistir ao tempo. O louco só tem presentes, como os jovens e os drogados. Os torturadores sempre manipulavam o tempo para tornar a tortura ainda mais insuportável. O relógio ponto e a burocracia. O senso comum diz que a extensão do tempo é o mais importante. A eternidade, a transcendência, são fábulas coercitivas em relação ao tempo. A eternidade pode ser agora, e a transcendência acontece nas ruas, melhor, em Espectralia.
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O improdutivo, o punk, o morador de rua, aqueles que quebram com Cronos fazem filosofia, mas temos que aprender com eles. E como deixar de lado nossa postura pequeno burguesa e aprender com os marginais?  Os intelectuais têm medo de morrer e que a obra em andamento não seja publicada, querem continuar vivendo. Os pais se tornam pais também por isso, desejam uma vida que seja eterna. O improdutivo radical quer zerar a existência, nunca ter existido. Quando ele afirma isso, e quando isso não tem causas profundas como traumas, está fazendo política, crítica, já que nega o senso comum, que diz que ama a vida, mesmo que a vida seja a morte. Querer zerar é uma coisa, querer nunca ter nascido é outra. “Amar a vida” é também uma palavra de ordem da ciência, a qual impõe aos corpos a higienização, purificação, para que durem o máximo possível.
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A palavra de ordem não está só no imperativo, e quando está... bem, é a forma mais óbvia de impor: faça isso. “Faça isso” está presente em tudo: ciência, publicidade, jornalismo, política. Os sujeitos introjetaram de tal forma o uso do imperativo, que é impossível não dar ordens até nas falas mais cotidianas: me sigam, curtam, participem, leiam, venham para o evento, me ajudem.   
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Fala de um crítico esquizo para um estelionatário famoso

 - Você mentiu a todos sempre. Você disse a todos que era o mais forte sempre. Você fez coisas terríveis, matou muitos, já que eles eram mais fortes que você, ou já que poderiam ser mais fortes que você. Você sempre berrou como se fosse o macho alfa para silenciar os outros, principalmente os mais fracos. Quando um fraco parecia forte, você fazia o máximo possível para enfraquecê-lo. Você mentia já que era um “especialista” em retórica, e os estelionatários foram forjados na antiga Roma. Você ria de todos, e o riso é uma das formas de colocar os outros em posição inferior. A maior mentira sua era a afirmação de que você era diferente de todos os outros, mas todos fazem isso: colocam os outros abaixo para manter sua pose. E sim, Satã quebrou sua pose, agora você é uma boneca. Satã mostrou a todos que você é uma puta, sim, uma puta: má, mentirosa, sacana. Você afirmou a moral dominante a vida toda e matou em nome da moral, sim, o seu sonho sempre foi ser um inquisidor. Os hereges, os críticos, os andarilhos de Espectralia para você devem ser mortos já que você é um moralista. Sim, você é um assassino, não apenas um estelionatário, ou seja, na prisão você deveria ser respeitado, mas agora todos sabem que você é uma puta, ou seja, não merece respeito.     

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Nos jogos da copa todos ficam centrados nos minutos, de forma dolorosa, cada minuto é uma batalha, idêntica à batalha diária do trabalhador; sim, aquele que sofre neuroticamente já que nunca tem tempo. Mas nos dias de jogos, principalmente do Brasil, a cidade fica diferente em muitos pontos, uma cidade de outro tempo, Espectralia. Esses pontos são os que não aglomeram pessoas para ver os jogos. Todos assistem aos jogos e assim não contemplam Espectralia; sim, eles a negam, têm medo dela. Talvez a forma de resistência mais importante seja lutar contra o tempo imposto. A greve geral, a morte do presidente, a manifestação impõem uma temporalidade diferente para a cidade. Mas o cidadão fica em frente às mídias contemplando, não a cidade, mas a sua representação indireta. O tempo controlado e o tempo do caos. O dispositivo crava o tempo cronológico nas costas de quem está sob seu poder, o tempo não passa. O viciado quando recuperado tem que aceitar Cronos, e o tempo não passa; na sala de aula, no trabalho, na prisão, o tempo não passa. O Brasil perdeu de 7 a 1 (71 – estelionato)  em um jogo que parecia uma peça do teatro do absurdo. Um rinoceronte em plena rua de uma grande cidade, surgido do nada, seria menos absurdo. A copa é espetáculo, e espetáculo é mentira, ilusão, marketing, 71. O que realmente aconteceu? Ninguém sabe o que acontece nos bastidores da política; e ninguém quer saber a verdade, seriam destruídos se soubessem. Não são cegos, eles têm dois olhos, os olhos que o Grande Irmão criou, e fingem que não têm o terceiro olho. Satã é o ser mais alegre do mundo, não lhe falta objetos de riso. O cristianismo, a crença absoluta, durou quantos séculos? Na modernidade virou objeto de riso da ciência, e ela, a ciência, é objeto de riso de Satã. Os modernos riem dos obscurantistas, da manada de evangélicos, mas eles são enganados da mesma forma: não acreditam no que a mídia diz, mas só vêem o que ela permite, acreditam na esquerda, na ciência – tudo isso é crença, que na verdade é submissão. Pensando assim, mídia, política e ciência diferem apenas de grau do obscurantismo religioso. “Vamos ser racionais, lógicos e pensar no óbvio!” Isso é palavra de ordem que nega o caos. Eles racionalizam sempre, se sentem seguros longe do caos, mas interiorizam o caos e ele toma a forma de fantasmas, ou seja, neurose, agressividade, sofrimento, depressão. A psicanálise de consultório é uma forma de controle: pensar que os problemas são questões privadas. O analisando olha apenas ao que chama de “si mesmo”. Garotas não devem ir para o consultório, devem sim se juntar a coletivos de feministas, sair da bolha, socializar sua vida, se abrir, não se fechar em si mesmas. Trancam poucas pessoas num espaço durante muito tempo, e dizem que é o mais importante da vida, a casa e a família; assim, as questões sociais ficam em posição marginal, e quando se pensa pouco no social, as coisas se mantêm. As redes sociais permitem que todos tenham a sensação de que estão lutando por um bom mundo, mas é só discurso; eles berram: “eu luto por isso, eu luto!”, mas é só uma imagem no facebook, e quando não estão nas redes, é uma conversa de bar. O intelectual quer formar mentes, ajudar mentes, ele se considera um ser especial que forma mentes, um líder. Fazer isso é se espetacularizar, querer ser importante, estar acima dos outros. O punk diz que é ninguém, não é pastor, nem político, não é vanguarda – essa é sua ética: nega o espetáculo de si.  
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O ano 1968 foi o acontecimento, o divisor de águas – o divisor, o Diabolo. Contando os números temos 15, o número da carta do demônio no Tarot de Marselha. Deleuze e Guattari, filhos de 68, falam no demoníaco nos Mil Platôs: Belzebu como o senhor das moscas, devir, as núpcias demoníacas, vampiros, lobos homens. Os hippies, mesmo que baseados em Eros, muitos deles tinham interesse, apego pelo satanismo. Outros “aléns”, diferentes do além cristão, eram atingidos pelas massas a partir da narcose. Talvez os cristãos sejam os religiosos que menos têm contato com outros mundos; eles não têm rituais transcendentais; e a droga, como elemento de ritual, usada pelos hippies, fizeram com eles se interessassem por outras religiões.
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Satã ri da cidade, do modelo de cidade, desse projeto que não funcionou. O bom cidadão prefere a cidade parada para ter seu auto móvel. Adultos desejam realizar o sonho de infância: ter um carro caro; e eles ainda riem das crianças já que elas são crianças, mas eles são crianças. Os bares ficam cheios no happy hour, já que é a forma de fuga, amortecimento, para o bom cidadão, mas o bar é apenas um intervalo, melhor, um presente do controle. O livro 1984 mostrava como o Estado impunha álcool para os trabalhadores suportarem a vida. O álcool, em seu uso dominante, faz esquecer, doer menos; mas há usos e usos de álcool, certas subjetividades experienciam coisas diferentes das dominantes. Aqui o sino toca de manhã e de tarde. Ouço a sirene do colégio indicando o andamento das aulas. Os carros param nas sinaleiras; em certos horários, as ruas estão cheias. De noite os bares enchem. Toda essa movimentação e barulho me entendiam já que são repetições de repetições. Mais uma segunda, mais uma sexta, tudo é um saco, a cidade é um saco, e a utopia da selvageria não é permitida para quem sempre viveu na cidade. Para não sermos enterrados na Necrópole, experienciamos a Espectralia, conjuramos a vida de Zumbi e desejamos como Fantasmas. “Segundas feiras felizes” é o nome da banda que tem como hit “Gente que faz festa o dia todo, todos os dias”. A banda foi forjada em Espectralia. A música é um afeto, a droga é um afeto. A música eletrônica, simbolizada nas festas e na ovação dos djs, precisou do afeto do Ecstasy para ganhar consistência. As subjetividades mudam e junto o corpo, ou seja, mutações antropomórficas. Hoje todo mundo toma drogas psicodélicas como se fosse água. Quando o Ecstasy apareceu, uma bala deixava qualquer um louco, depois de um tempo todos precisavam de sete balas para dar um barato. As gerações que excedem são lastros dos excessos das gerações posteriores. O corpo muda de geração para geração. Nos anos 80 as manobras de skate eram tímidas, hoje, em um mês, qualquer garoto pode andar melhor que muitos skatistas famosos dos anos 70.    
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Na boa época dos hippies, os 70’s, todos estavam felizes, riam, estavam no céu, não na terra. Os hippies tomaram todas as drogas possíveis nos 70, e nos 80 veio a ressaca; esta – a ressaca – impõe sentimentos negros: solidão, depressão, desejo de morte. Para suportar a ressaca dos oitenta, os sujeitos começaram a usar coca, já que cocaína dá forças para enfrentar qualquer coisa. O tempo da coca e o tempo de Cronos se irmanam, podem funcionar juntos; o yuppie – o jovem promissor, vestido de Armani, surgido nos 80, que trabalha o dia todo com um prazer psicopata – é fruto do uso de coca. Na mesma época, o punk fica cada vez mais veloz, principalmente com o hard core, e este permitiu o thrash metal, um ápice de som pesado e rápido. Os vídeos clipes com seus cortes rápidos, apresentando um afeto cocaínico, marcaram a cultura pop nos 80.   
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Kerouac diz em On The Road que não quer parar, não quer dormir, quer curtir ao máximo; além disso, ele escreveu o livro em poucas semanas usando benzedrina. Ele queria que o dia tivesse 72 horas para aproveitar tudo ao máximo. A felicidade impõe isso, querer mais e mais e mais, querer tudo ao mesmo tempo agora. Deus fez o mundo em sete dias, e o demônio não inventou o fim de semana, mas o dia de 72 horas, já que ele é Eros. O dia de 72 horas se refere ao afeto do viciado em estimulantes; ele fica três dias acordado, então esses três dias são na verdade um dia de 72 horas; e 72 invertido, a inversão satânica, se torna 27, o número da morte na cultura pop. A vontade de “mais” de Kerouac é diferente da necessidade de “mais” dos yuppies, há uma diferença de natureza entre elas. Kerouac queria “mais poesia na sua existência”, os yuppies queriam “mais dinheiro”.     
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Os sons do primeiro Pink são ondulações sonoras. O relógio em Dark Side of the Moon. Os sinos de igrejas do Sabbath – os sinos que simbolizam certas horas do dia. O som industrial, mostrando a batida, o tempo das fábricas. Jesus Built my Hotrod, a velocidade máxima do som e da voz se assemelhando com a dos Hotrods. Os rappers tentam cantar o mais rápido possível. A desaceleração do Black Metal cria o Black Metal Depressivo. A poesia de Cooper Clarke era punk e por isso rápida. A bateria de Morris é hipnótica. Tremolo picking presente na Surf Music e no Black Metal. Alguém caminhando na rua atrás do ônibus, alguém caminhando chapado na rua. Skip diz que jovens não devem usar relógios. A velocidade mecânica dos virtuoses da guitarra. Picasso tenta pintar o mais rápido. Pollock dança junto à tela, com velocidade. A dança, o ritmo, o afeto, dos shoegazers, tudo muito lento em contraponto à velocidade dos punks.  
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“Cada um tem seu próprio tempo”, isso é palavra de ordem que esconde que o tempo é controlado. O pet aprende na força os momentos de mijar e cagar, nas certas horas do dia que o dono tem vontade de sair com ele. A criança: hora de comer, de dormir, de brincar. Ficam felizes em viajar, mesmo sabendo que dez horas em um avião é uma das piores experiências. Vender seu tempo, sua vida, seu corpo, sua subjetividade. O calendário cristão, o calendário falível da Revolução Francesa; voltar no tempo, se encontrar.
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As artes românticas louvam o excesso, a vida em excesso, os prazeres diferenciais, os sonhos, delírios, os contatos com o inferno, com o sublime, com Espectralia. Na literatura, posso citar alguns autores espectrais sem pensar muito: Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Poe, Blake, os Beats, Bukowski, o Gonzo, Piva, Huxley, Artaud, Castañeda, Pepe Escobar, Breton, Bukowski, Fausto Fawcett. Há muitos filmes que homenageiam, biografam os românticos, e não apenas os românticos que produzem, mas também os que apenas vivem. Também há muitos filmes com imagens e narrativas que são claramente baseadas no uso de drogas. Listo abaixo alguns filmes que atualizam o que disse acima:

Cinebiografias de artistas viciados: Pollock. The Doors, Basquiat, Medo e Delírio em Las Vegas, Almoço Nu, Last Days, Stooned, Diário de Adolescente, On the Road, Get Him to the Greek, The Wall, Não Estou Lá, Factory Girl, Bicho de Sete Cabeças, Sid Nancy, Total Eclipse, 24 hour Party People, Party Monster, Bird, Velvet Goldmine, os filmes sobre o Bukowski.

Filmes, vídeos, desenhos sobre uso de drogas, com uso de drogas ou com imagens delirantes: A Concepção, Vício Frenético, Laranja Mecânica, Scarface, Blow, Trainspotting, Born to be Wilde, Paraísos Artificiais, Gêmeos Mórbida Semelhança. Spun, Kids, Bully, Catalan de Jarman, Asas do Desejo, Stalker, Simpsons, American Dad e Family Guy, Garotos de Programa, Pulp Fiction, Canos Fumegantes, Drácula de Bram Stoker, Ódiquê, Dead Man, Performance, In to the Wild: Zabriskie Point, IF, Natural Born Killers. Garoto da Motocicleta, Romeu e Julieta do Baz Luhrmann.    
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Essa letra, do Pere Ubu, é muito curiosa, mostra os afetos permitidos pelo contato com Espectralia. O narrador não sabe o que aconteceu, se foi sonho ou realidade, já que estava em Espectralia, era um Espectro. Esse afeto é comum no uso de drogas mais pesadas, ou no uso contínuo de qualquer droga. Como diz a máxima de Woodstock: “se você se lembra é por que não foi”, já que todos que estavam lá estavam chapados; sim, quem estava lá não sabe ao certo o que aconteceu. Woodstock era uma Espectralia repleta de fantasmas maravilhosos.   


414 Seconds

That day that I say I woke up to find a heap of mist
I wake up that day with a shark
Not knowing if I’ve been asleep for moments, minutes or millennia 

I look around, all plants have lived it and died
Did you spiral in the sink?
They are livid and dried
Even in the glass, he looked at me
He says weaver can’t be flied
And I care about dream
The terrible thing that I did in that dream
The thing that woke me up

I ask myself, did I do that terrible thing only in my dream?
Or is the dream simply a hard brink bit of self-deception
When in I dream that I only did the terrible thing that I did
In a dream

What part of the dream is true?
What part of the truth is a dream?

I throw out the coffee to drink the soup
But there are wonders I have to know
I run this happening
I launch myself like a jet pilot jerkin himself from the doom in the far earth below
I throw myself through the door
I fall down the hall
I turn up through the steps
Turn up through the steps

Round the corner, stumbling and flailing
Fumes and exhaust, blackened fluid smoke below it
Running for the bus I cry
Oh God bless love
I have been on that non-stop
Happiness

In that terrible dream
The terrible thing I did in that dream
The thing that woke me up
I ask myself, did I do that terrible thing only in my dream?
Or is the dream simply a hard brink bit of self-deception
When in I dream that I only did the terrible thing that I did
In a dream
In a dream
In a dream

What part of the dream is true?
What part of the truth is a dream?
What part of the dream is true?
What part of the truth is a dream?
What part of the dream is true?
What part of the truth is a dream?

What part of the truth is a dream?
What part of the truth is a dream?
What part of the truth is a dream?

Round the corner, stumbling and flailing
Fumes and exhaust, blackened fluid smoke below it
Running for the bus I cry
Oh God bless love
I have been on this all night non-stop
I have been on this all night non-stop
Happiness
Happiness

Happiness
Happiness

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Parte 2. Registros de sonhos e narcoses em Espectralia

Uma estação de metrô em Roma, localizada em uma parte pobre da cidade, que parece o objeto de uma foto antiga, muito antiga. No sonho, Roma, na verdade é Lisboa em época de chuva, que não é Lisboa, mas talvez Paris.

Uma parte de uma cidade grega é idêntica a imagem da capa de um livro sobre arte fantástica.

Santa Maria não está localizada no Rio Grande do Sul, mas sim em Santa Catarina. Em Santa Maria há um clube esportivo que freqüento; para chegar nele subo os morros da cidade. Em uma parte dos morros há um penhasco que leva para o mundo dos sonhos; quando entro nesse mundo minha memória fica totalmente borrada.

Vindo de Espírito Santo de carro chego em Florianópolis. Lá há um shopping que tem uma piscina enorme, sempre cheia de gente. E Florianópolis é na verdade Passo Fundo.

Santa Maria, em seu norte, tem uma estrada que leva a um morro. Às vezes, a estrada vira conjuntos de casas divididas em linha horizontais, que são casas de praia.

Um lugar que morei na Cidade Baixa tem o pior elevador do mundo. Na rua do prédio, a Lima e Silva, acontecem festas e parece que sempre é feriado. Às vezes, parece que a Lima e Silva continua na parte alta da tristeza.

Em Belém Velho há uma casa que visito. Às vezes, saio de lá a partir de uma estrada na Serraria, que quase nunca passa ônibus. Moram na casa um velho e suas filhas e filhos. Eu tenho um caso com todas as filhas. Mas eu sempre me pergunto: quem são essas pessoas?     

Em Barcelona estou passando a temporada numa estranha casa de repouso. Eu durmo num quarto cheio de pessoas de idade. A casa de repouso fica quase na divisa da cidade, porém na frente dela há uma estátua enorme; essa estátua, na “vida real”, melhor, na vida da necrópole Barcelona, se localiza numa parte central para o turismo. 

Entre Porto Alegre e Canoas há um conjunto habitacional muito bonito, situado de frente a um rio, e eu moro nele – sempre estou em busca dele. Ali é tipo uma mina de algum mineral estranho, e o rio é um rio de iodo.

Me mudei para um prédio mais barato, e é realmente mais barato. No prédio moram garotas da Fémem. Eu tenho um caso com uma delas e é gostoso estar com ela. Porto Alegre está uma confusão por causa do dia da independência da Catalunha. Alguém diz pra eu não ir de bike até a Cidade Baixa já que eu estou na zona sul.  

Porto Alegre é Barcelona; sou inquilino de dois apartamentos situados no mesmo bairro. No bairro há uma piscina de ondas com água de rio, o fundo é só barro; eu nado nela e faço surf.  Em uma rua perto de um calçadão fica um ponto de prostituição. Eu gastei milhares de reais ou euros ali. Para andar no calçadão sempre é um problema, ele está dominado por gangues de ladrões baratos. Um taxista me leva para inúmeros lugares e eu estou bêbado. Eu me perco na cidade e tenho medo. Depois de um rio há um deserto predominado por um tom de laranja estranho. O lugar é como se fosse a lua, tem uma paisagem lunar, mas pintada de laranja. Eu não tenho moradia, mas tenho móveis e eles estão na rua, eu vivo na rua. Durmo na rua, mas em certo momento uma limusine me leva para um lugar que não me lembro. De carro vou para uma cidade da fronteira; ali há um precipício, depois dele há algo lindo, um mundo lindo, e quando eu chego nele... bem, não mais me lembro. Eu ando de skate em estradas da serra gaúcha. Gramado fica ao lado de um bairro londrino.

Entre o Brasil e os Estados Unidos ou Canadá se situa o leste europeu, o leste europeu de algum filme. As cidades desse leste têm gente estranha, feia e barulhenta.

Um vale pequeno, com um rio sujo, uma favela, isso em Roma.  

Ando de skate em uma lomba no bairro Tristeza. Chego na rodoviária de Porto Alegre, mas é na verdade um mercado de Lisboa. A Praça da Alfândega sempre cheia de gangues de rua. De noite essa zona vira a Oswaldo Aranha que é menos perigosa, mas quando saio de manhã dela, vou por ruas menos movimentadas, para não encarar as gangues. No alto do centro tem um mercado com boas comidas, como nele e depois desço uma rua principal que dá no Parque do Marinha. Entre a parte alta e o parque fica uma praça de Barcelona. Na praça estão meus amigos okupas, na verdade, tem uma okupa ali, e eu vivo nela. Sempre pego um taxi nesse ponto, mas os taxistas sempre me roubam. Uma parte de Porto Alegre, a mais pobre, eu chamo de Viamão. Ali tudo é velho e decadente; tem um parque de diversões em Viamão.

Sempre sonho com um local que morei na Cidade Baixa; no outro lado da rua há uma casa chique, que é um albergue para jovens ricos. Eu sempre uso o albergue sem pagar, ele fica de lado da UFRGS. Muito perto fica um bairro elegante, no qual amigos moram, que conta com casas enormes; nos jardins das casas todo mundo toma banho de sol.  

Estou em Gramado, hospedado em um hotel caro; porém, os quartos são coletivos; durmo em um deles com várias outras pessoas. 

Passo noites tomando bola dentro de um bar que é uma farmácia. Todo mundo está deitado no chão, emboletado, abraçado, tudo bem quentinho. 

No bairro Cristal há um ginásio de esportes. Nas escadarias do ginásio traficantes vendem cocaína.  

Do lado de um clube na zona sul, tem a casa de um traficante. Compro coca ruim com ele. Tenho medo de ir ali porque a polícia sempre está por perto.

Passo os sinais vermelhos, não consigo diminuir a velocidade.

A casa dos meus sonhos ficava na parte norte da zona sul. Era uma casa enorme, uma mansão; mas ela era um local amaldiçoado.  

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Eu tinha uns 14 anos, tava com meu beque e fui até um terreno baldio junto ao Rio. O terreno era ladeado por mansões, comuns no Bairro Tristeza. Eu sempre fumava ali com minha turma. Nesse dia, tava sozinho, gostava também de ficar sozinho com meu beque. Queimei o beque e fiquei curtindo o pico: a praia deteriorada, um clube náutico, algumas fábricas mais longe no horizonte, o céu. Era um dia quente, com céu azul. Fiquei curtindo o céu, as nuvens, e fiquei intrigado com uma nuvem enorme bem na minha frente. Ela tinha o formato da cabeça, do perfil de Cristo. Era ele, de perfil, com barba, cabelos compridos. Eu tava na praia e ele tava lá no céu. A nuvem de longe parecia também uma montanha, mas com o formato da cabeça de cristo. A imagem era tão perfeita que pensei: podia chamar o pessoal pra dar uma olhada, mas não quero perder isso. Interessante que eu não era crente, até era um ateu radical. Sentia que em certos momentos, com o movimento da nuvem, a imagem continuava a ser do mesmo Cristo, mas de ângulos diferente. Devo ter ficado horas ali parado olhando, ou posso ter ficado minutos, não sei. Mas num momento, a nuvem começou a se dispersar, e isso foi brochante, fiquei puto; daí eu fui embora. Eu tava ainda chapado e bem chapado, tanto que, na minha viagem que continuava, eu pensava: porra, a nuvem mais legal e perfeita que já vi e ela desaparece?! Na minha loucura não conseguia entender que nenhuma nuvem poderia ser tão perfeita, que isso era parte do barato; mas como o barato era contínuo, eu estava sempre de barato... bem, o que era real ou ilusão? Naquela época o real “na real” era uma grande ilusão, e a vida chapada era também uma ilusão só que muito mais divertida.
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Eu nunca tinha tomado morfina injetável; mas sabia que era algo realmente forte. Tinha uma ideia na prática do efeito de opiáceos. Só que daí quebrei o braço, tive que fazer uma operação; quebrei o braço fazendo uma manobrinha numa garagem de bûs na Azenha. Eu sempre mandei bem ali no espaço, tirava umas manobras aéreas legais. Só que fiquei um tempo sem andar, e tentei fazer uma manobra que não devia ter tentado. Voei alto e caí no chão, com todo o peso no meu pulso esquerdo. Quando caí, na hora pensei: merda, me quebrei.  Segundos depois, quando o corpo produziu a sua química e a dor aliviou, pensei: deu nada, só que olhei pro meu braço e ele tava torto, e a dor bateu. Daí me levaram prum hospital de pronto socorro. Eu não conseguia pensar direito, doía demais. Quando me atenderam, expliquei o que tinha rolado, e fiz umas piadas, não ia perder a oportunidade de rir da situação. Depois disso, fiquei mais de uma hora esperando para ser atendido e ia ter uma festa na mesma noite; pensei: tá, eles metem um gesso no braço, tomo um analgésico e já era. Daí sou atendido e o doutor diz: foi uma fratura séria, você terá que fazer uma cirurgia. Daí fiquei puto, odeio cirurgia, mesa de operação e sala de recuperação. Daí eu tava lá na sala de recuperação, depois da cirurgia, e disse pra enfermeira, isso tá doendo muito, não vou aguentar. Daí, ela me deu um pico e senti um gosto amargo na garganta, ela tinha me dado morfina. Daí pensei: melhor, eu relaxar... só que foi uma noite horrível, eu dormia, acordava, dormia e acordava. Eu tinha umas alucinações estranhas, mas muito vivas, como sonhar com imagens duplas. O que são imagens duplas? Eu não sei, mas me baseio no que estava sentindo e percebendo, nunca havia passado por isso e nem li relatos do tipo. Mas as imagens duplas: digamos que uma imagem de sonho seja exposta em uma tela, como num filme. Na minha viagem eram duas telas, não uma tela do lado da outra, mas duas telas apenas, uma na frente da outra, e eu podia ver, sentir, perceber as duas ao mesmo tempo – isso é impossível de explicar, e por isso que é legal. A noite foi péssima, principalmente, por estar numa cama de hospital, numa sala cheia de gente doente em volta, muitas desesperadas; eu não podia sair da cama, não podia fumar meu crivo e nem sabia se a operação tinha ficado legal.  
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Eu li numa revista que um músico, o Manson, tinha triturado ossos humanos e fumado. Cinco anos depois conheci um cara que colecionava ossos humanos. Não era nada demais, mas ele ia no cemitério, nas valas de indigentes, e sempre encontrava ossos. Ele limpava e guardava. Era um cara novo, que tinha depressão, namorava uma mina feia, mas era bem criança, na dele. Eu conversava com ele, já que ele morava perto do lugar que eu morava. Ele era pobre, o pai era zelador em um cortiço. Esse mano curtia rock, lia sobre rock, então eu tinha um certo interesse nele. Era um cara querido, uma ou outra vez eu fui na casa dele, e num desses dias ele disse: cara, você é legal, vou te dar um presente; e ele me deu uma rótula de um joelho humano, esteticamente bonita, com linhas regulares. Daí um dia eu tava no meu ap de frente pra João Alfredo, essa rua que hoje em dia é central em Porto Alegre... é, eu tava na janela, vendo a rua e lembrei da história do Manson, que ele tinha fumado ossos humanos. Na mesma hora, um mano meu tava comendo uma mina no quarto. Daí eu pego a rótula, trituro uma parte até virar pó e fumo. Só que quando dormi, depois de ter fumado, tive um sonho muito louco, eu me vi num cemitério, junto com esse mano e essa mina que ele tava comendo; a gente fazendo a festa no cemitério. Na real, não sei se foi sonho, ou se foi um delírio acordado ou se foi coisa de outros mundos, ou tudo junto, já que na época tava tomando muita coisa.    


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