sábado, 5 de agosto de 2017

Esboço sobre transversalidade; mapeamento inicial do conceito de "sujeira"


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Perceber a transversalidade é criar um mapa, uma cartografia, dos elementos heterogêneos que agem em comum, como os inúmeros campos do saber e suportes diferenciados de arte agenciando com a política dos movimentos em rede. Tenho como uma das hipóteses, que esses campos têm em comum a impureza, que é uma das características da transversalidade. São impuros já que não têm barreiras definidas, agenciam entre si e com outros campos. Obviamente essa é uma das formas de pensá-los, já que os mesmos podem se apresentar como campos puros, definidos, bem organizados, ou mesmo, pode haver o desejo de que eles se purifiquem.
O apagamento da ideia de autor pode ser um tipo de transversalidade, quando não há centralismos de um sujeito pensante, mas os discursos de inúmeros sujeitos e coletivos. Estilos diferenciados de escrita em uma mesma obra é um tipo de transversalidade. O corpo queer é um corpo transversal, uma soma de sexos e gêneros. Porém, o mapa, a cartografia, também pensa os centralismos e suas linhas de fuga, a linha transversal entre as dicotomias, ou seja, poder e potência.  O devir é a minorização de um termo maior – como o que acontece quando teorias de campos consolidados tratam da comunicação, um devir comunicacional desses campos; “nesse caso” o devir e a transversalidade entram em uma área de indiscernibilidade, são conceitos com suas especificidades, mas, portanto, irmanados. O conceito de monstruosidade se refere à transformação de corpos modernos, tradicionais – família, cidade, corpo humano, etc – e pode ser usado para pensar as conjunções de campos de saber. A transversalidade é monstruosa, pode ser, o devir é, o mapa busca a monstruosidade. O conceito de sujeira, impureza, que é uma crítica à assepsia, não é a monstruosidade, mas uma linha dela. 
Esses conceitos se conectam e podem se embaralhar de tal forma que não haja distinção aparente entre eles; o mapa vai sendo montado, ele pode mudar de forma, de elementos, está em devir. Aquilo que se percebia como potência, linha de fuga, pode se mostrar de forma diferente. O mapa é complicado, às vezes funciona, às vezes não; pode funcionar por uma tarde, uma estação; é uma experimentação aberta ao erro, à sujeira, ele é impuro.  
Há um tipo de percepção, que creio ser fundamental para pensar a transversalidade: a percepção molecular. Esta ajuda a perceber aquilo que é impensável para o senso comum, possibilita sair das simplificações do mundo, como dicotomias, dualismos, modelos – além das dicotomias, entre elas, acontece muita coisa. Essa percepção é o que permite a cartografia, faz parte da cartografia. A cartografia pode ser chamada de crítica também, a crítica radical, de Deleuze e de Negri. Cartografia, porém, não é método, é uma forma de existência que afirma o vitalismo, diz respeito a alianças, a um grau de loucura desejada, a cartografia é a experimentação de fluxos não normatizados.
Para Deleuze, o corpo, os gêneros, a sexualidade, a língua, a comunicação, os cidadãos sedentários e suas cidades, a base da psicanálise, a arborescência, a busca da raiz, a sanidade, os segmentos duros como casa, escola, empresa, são instrumentos de controle. Então ele cria conceitos que são linhas de fuga em relação a tudo isso. Negri faz algo parecido, mostra que a ideia de Estado nação, de povo, a noção de união, a política dominante, as barreiras geográficas, são imposições do poder – o Império – para impedir uma real democracia global; e contra o Império está a Multidão, um de seus principais conceitos, talvez o que tenha sido mais apropriado nos últimos anos.  
  Como disse, a crítica deve ser radical, deve-se mapear as construções do poder, do controle, e suas linhas de fuga. A sujeira é um conceito anti identitário, contra o controle, fora de controle. O controle, conceito que trabalho desde o doutorado, é a circunscrição, a limpeza, a higienização, é a criação de um mundo simples que nega o devir. Os discursos da área da saúde e do urbanismo ganham destaque na pós-modernidade na busca de cidades e corpos higienizados. Um dos discursos contra os okupas é sobre a insalubridade dos seus espaços, já que estes podem não ter acesso a certos serviços como recolhimento de lixo. Também, as pessoas que fazem parte das okupas têm um visual estranho, sujo: cabelos compridos, mulheres que não se depilam, visual punk, neo hippie.
Há uma assepsia acadêmica, não é qualquer um que entra em uma universidade. O texto acadêmico é isso: pouca coisa é permitida. Porém, cheguei à conclusão de que certos processos são expostos de forma mais eficaz, interessante, especial, a partir da arte; muitas vezes as ciências congelam os processos de tal forma, que eles perdem sua potência. E o mapa é exatamente uma linha de fuga da fotografia dos processos.  
O ensaio, a crônica, são gêneros menores, pouco delimitados, sem definições precisas, são inclusivos, muito mais que o texto acadêmico. Uma linguagem inexata expõe muito mais o descontrole, certas linhas de fuga na cidade do que um estudo de caso. Não vejo problema em se produzir ciência como se produz ficção, já que é uma ficção, se torna ficção quando despida do fetiche de se atingir as verdades. Ou seja, a sujeira, a impureza, a transversalidade são as misturas, as hibridizações, os agenciamentos, as relações de inclusão entre termos diferentes contra a exclusão, a união a partir de identidades.
O que entra, quem entra, o papel de cada um, sempre a partir de lógicas hierárquicas, atravessam dispositivos, como a cidade, mas essa mesma cidade é atravessada por linhas de fuga. As okupas não são casas de casais, não são escolas, não são empresas, mas há pessoas que vivem nelas, produzem saber nelas, produzem nelas outras alianças entre pessoas, outras formas de vida.
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Após o contato direto com os movimentos em rede e a leitura constante da filosofia da diferença são criados outros valores, outras formas de vida, de existências, mesmo a percepção e a afecção se modificam – isso é um exemplo de dessubjetivação; portanto, há uma questão existencial na pesquisa. A academia forma pesquisadores, mas certas pesquisas, principalmente as críticas, permitem linhas de fuga dos padrões dominantes. Essas linhas de fuga quando atingem o pesquisador criam uma radical dessubjetivação.
Mas aconteceram mudanças que atingiram a multidão global, sua subjetividade, nos últimos anos (e obviamente me atingiram). A partir das lutas de 2011 – dos indignados espanhóis e do Occupy Wall Street – ficou radicalmente fácil produzir em redes descentradas e o processo assembleário se tornou unânime. As redes de assembleias, que funcionam e muito bem, apresentam uma opção para a hierarquia política. Muitos mudaram, os movimentos, pessoas, teóricos, e eu estava no meio disso tudo; e mesmo assim, o discurso dominante parece negar essas mudanças já que dá valor apenas para a macro política. A cartografia, o pensamento sobre a transversalidade, é essencial para perceber que já não somos mais os mesmos.
Jovens de 15 anos nas ocupas-escolas têm uma compreensão fina de redes; facilmente os okupas – também jovens – produzem sem hierarquias; o punk – alguém presente em okupas, mas que muitas vezes se nega a fazer parte de qualquer tipo de organização, mesmo que seja auto-organização – é radicalmente contra toda forma de opressão. Estes conhecem e praticam uma outra vida, impensável para a subjetividade dominante. Ou seja, eu como pesquisador aprendo com eles essas relações diferenciais, e isso afeta minha existência. Perceber isso é cartografia; isso também é a transversalidade, quando meu papel fica borrado, quando saio da minha posição de doutor, quando ela significa pouco, já que estou com eles para aprender e viver, aprender a viver.   
Fugir de transcendências, hierarquizações é uma questão política, ética, estética, existencial. Traçar linhas de fuga é construir mapas. Não há problema em errar, sempre se erra; a assepsia vê o erro como algo negativo, mas o erro é o meio, estar no meio, experimentando. Resolver um problema é chegar a um fim, mas importa o meio, os problemas. Okupam um espaço e depois são desalojados, mas depois okupam um novo; uma okupa não busca uma finalidade, é um meio para se estar. Uma manifestação busca um fim, mas há os processos, as experimentações.
No momento que se nota que a crônica ajuda e muito na produção pelo seu estilo, isso não é uma questão estética, mas sim ética. A arte permite coisas impossíveis para a escrita, pesquisa científica; já falei isso e insisto que deve ser mapeado. Uma tese é uma tese, um poema é um poema; cada um tem uma potência própria. E criar dicotomias do tipo: arte ou ciência, realidade ou ficção é criar ilusões. Há artes, formas de arte, e há teses, tipo de teses. Teses podem se aproximar de tipos de artes mais do que outros tipos de arte. Artes ainda se aproximam da racionalidade moderna, outras já na modernidade anunciavam a pós modernidade.  
Não aceitar as coisas como elas são, buscar a diferença, isso é também cartografia. E não estou dizendo de forma alguma: façamos a transversalidade. Apresento essas linhas atuais na pós-modernidade; o que eu faço é ver valor e expor isso textualmente, o que já é feito por teóricos e movimentos. Negri não fazia a proposta de que a multidão fosse formada, apenas atualizava em seu trabalho a produção da multidão.  
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Deleuze e Negri não são autores bem vistos pelo campo do saber. São poucos que se afetam com suas obras ao ponto de quererem estudar seus conceitos. Primeiro talvez por certo romantismo que atravessa suas obras, como perceber a pobreza como uma potência e a riqueza como algo negativo, já que os países ricos sustentam falsas democracias.
Eu já fui chamado de romântico por esse mesmo tipo de posicionamento. Para mim, as lutas dos movimentos em rede são um valor em si mesmas, como muitos afirmam. Se o Brasil entrou em uma crise política, que anuncia um novo fascismo, após as lutas de 2013 – e algo parecido aconteceu na Espanha a partir das lutas de 2011 – ao mesmo tempo, os coletivos em rede se fortaleceram. Ocupas foram criadas em escolas e universidades no Brasil; jovens, mesmo com 15 anos, reproduziram a forma da rede, a transversalidade, para se organizar, ou seja, isso ficou comum, é um comum entre os coletivos.
Deleuze apresentava uma descrença em relação ao futuro da revolução, se interessava, sim, pelo devir revolucionário das pessoas; ou seja: as formas de resistência frente às imposições do controle, o devir. Em relação à comunicação, ele pensava que ela estava podre, daí a necessidade do silêncio. Deleuze nunca disse que o Estado era necessário e também nunca afirmou o contrário. Já Negri, um autor que viveu as lutas dos movimentos por outra globalização na virada do século, que se interessou pela nova esquerda na América Latina, tem um posicionamento mais romântico. Para ele, a revolução é possível, a comunicação pode ser contra comunicação, e o poder – o Império, sua forma social, o controle – está sendo posto em jogo pelos movimentos de multidão. Essa tríade talvez seja a que mais acompanha meu trabalho: comunicação (como disciplina, como senso comum, como contra comunicação ou seja crítica), poder (o controle) e resistência (movimentos em rede, de multidão); essa tríade é a transversalidade, uma conjugação de campos; e a transversalidade já é uma forma de resistência, contra controle, que diz respeito ao campo da comunicação e aos movimentos. 
Na virada do século, com os movimentos globais em rede, fortemente dependentes das novas tecnologias de comunicação e informação, um novo paradigma de lutas tomou força, permitindo, então, uma visão mais romântica do futuro, como a de Negri. Porém, o trabalho negriano é fortemente dependente do trabalho de Deleuze, o que ele fez e bem foi atualizar o trabalho de Deleuze considerando as formas atuais do poder e das resistências.
Mas as considerações de Deleuze sobre a necessidade de silêncio, a podridão da comunicação  podem ser utilizadas para pensar certos processos sociais, que não dizem respeito aos movimentos. A comunicação podre de Deleuze e a contra comunicação de Negri são duas linhas atuais de uma sociedade da informação: a comunicação como controle e a comunicação como contra o controle. Para a epistemologia da comunicação essa é uma questão chave, define a comunicação como um agenciamento formado por duas linhas de naturezas diferentes, não dicotômicas.
Deleuze e Negri ajudam a pensar outra questão epistemológica central, no meu trabalho, a autoria. Deleuze diz que não há sujeito de um livro, e sim uma multiplicidade que o produz. Negri utiliza o conceito de legião para pensar essa multiplicidade, sempre está envolvido um coletivo, mesmo na escrita. Em relação aos campos da arte, saber e da política, pensados como linhas de um agenciamento, isso diz respeito ao paradigma rizomático de Deleuze: sistema a-centrado composto por elementos heterogêneos. A multidão é um rizoma, a comunicação faz parte do rizoma, um livro pode e deve ser um rizoma como o que eu proponho. Para Deleuze não basta dizer “viva o múltiplo”, mas sim ele deve ser produzido. Isso para mim não é uma palavra de ordem, a natureza dos objetos de minhas pesquisas exige isso, produzir uma multiplicidade, a transversalidade. Os movimentos em rede, a cidade, a comunicação, exigem a conjugação de uma multiplicidade de campos, fazer rizoma. Isso é necessário para evitar a reprodução, a fotografia, o congelamento de processos que estão em devir, acontecendo. Importante é pensar “com”, perceber o comum, fazer parte desse comum, ser a linha de uma multiplicidade, fazer a transversalidade.


sexta-feira, 28 de julho de 2017

manifesto pelo estupro corretivo de machos


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Os antidepressivos talvez sejam uma forma de controle, criar uma manada feliz; é, os trabalhadores 10 horas por dia na empresa, sorrindo, felizes, a utopia do capitalista. O álcool devia ser o antidepressivo da época em que a fábrica era o centro da produção. Trabalhavam tantas horas e depois iam pra casa e bebiam, o público e o privado separados. Agora, como não há mais separação, dão antidepressivos pra todo mundo ficar felizinho o dia todo, mesmo se fodendo. E o mapa está pra ser montado, as linhas traçadas. A hipocondria pode ser uma neurose presenteada pela área da saúde, uma forma de controle, como pode ser um devir. Como devir, na hipocondria, pela percepção molecular, dá pra viver uma relação com o corpo especial; dá pra ter afecções e percepções que dizem respeito à doença. O hipocondríaco delira, se sente como estivesse sofrendo das piores doenças possíveis. Ele não tem a enfermidade, mas se sente mal como se tivesse. E não falo nos sintomas manifestos, mas na afecção que acompanha quem está doente. Quando ele delira que tem aids, ele não manifesta os sintomas da doença (mesmo que as vezes manifeste), mas se sente mal por pensar que a tem. Isso é importante, sentir algo impossível pra si, só possível no delírio. Algo parecido com os sonhos, melhor ainda, os pesadelos. Ele sonhava que ia ser enviado pra prisão. Ele sabia no sonho muito bem o que o esperava: ia virar a menina da turma no presidio e não tinha o que fazer. Toda essa situação, no sonho, lhe impunha um afeto muito forte, muito real, cruel. Ele nunca foi nem vai ser preso em vigília, mas a partir do sonho... o sonho lhe permite entender como um preso se sente. Não é essa a importância da arte? Ter percepções e afecções impossíveis pra certas subjetividades, formas de vida. A arte ajuda a conhecer o mundo, também das afecções. O delírio da droga, sua importância, é exatamente essa.
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Sim, há formas de vida, vitalismos, formas especiais de vida por toda a parte, mas mesmo assim.... todos se sujeitam o tempo todo pra manter um mínimo de dignidade, têm que aceitar muita coisa pra continuar vivendo: trânsito opressor, trabalhos mal remunerados, dinheiro vindo de pessoas asquerosas, lutar por certos direitos contra pessoas asquerosas como político, cumprir com os deveres, acreditar em direitos. Mesmo coisas que parecem banais podem ser frutos do controle: escovar os dentes, limpar a bunda, ter uma conta em banco, receber ligações estranhas, dizer: “bom dia”, “olá”, “parabéns pra você”, “eu pago mês que vem”, alugar um apartamento, comprar um carro, ganhar uma bolsa, comprar um seguro de saúde, ir no supermercado, cumprir horários, mentir que está sendo fiel, ficar paranoico ao subir o morro, filas, filas e filas, comer bem, foder bem.
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É interessante que esse é exatamente o discurso que sempre ouvi dos punks, os punks nas revistas, nos documentários, nos shows, os punks nas ruas, meus parceiros. João Gordo se tornou o maior punk do Brasil já que era o punk mais letrado, ele terminou parte do segundo grau. E esses punks da rua, com 20 anos e só quinta série, meus amigos, eles sempre falavam isso; diziam: é cara, a gente tá dentro do sistema, a gente arruma grana... é, a gente às vezes tem grana, e vai no super, naquele grande ali na Rua Riachuelo, e a gente escolhe uma massa e entra na fila; é, não tem como estar fora do sistema. É interessante que depois de ter terminado o doutorado, de ter escritos muitos livros, de ter um conhecimento de certa forma bom de alguns caras difíceis de ler, depois disso tudo.... Bem, tudo isso me fez entender a importância do posicionamento punk, me fez entender os punks, me aproximar deles. Eles dizem: você está completamente fodido por dentro e por fora; não há muita diferença entre ser currado e pagar a conta num restaurante. Você luta... não, você não luta, você mendiga, chafurda o tempo todo pra conseguir quase nada. Um pouco melhor, um pouco mais de dinheiro, de direitos, sonha com outra vida, mas é a mesma vida, não consegue pensar em uma vida realmente diferente. O Punk desletrado entende a vida, entende a outra vida, a enxerga como poucos.
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Sim, você sacraliza o cú, que não difere muito da boca, do dedão do pé, é só parte do corpo. Ser currado por trás não é nada, e pode e deve ser gostoso. Se a tua mãe dá o cú, se a tua mulher dá o cú, se a tua amante dá o cú, se a tua filha dá o cú.... o que tem de feio em dar o cú? Melhor um pau, um dedo, um braço no cú – um pau limpo, um dedo limpo, um braço limpo – do que um pedaço enorme de merda. Você não chupa dedos? Você não mete a mão no pau e depois passa no rosto? Não limpa a testa com o braço? Mas você não faz isso com merda; não vê problema em sair merda do cú e acha o fim do mundo um pau no cú. Você não dá o cú, já que acha que dói e é imoral, mas aceita numa boa entrar numa fila no banco, abrir uma conta no banco, pagar contas, se foder todo o mês, odiar a sua vida e só conseguir se sentir bem com uma garrafa de uísque, sabendo que vai se foder no outro dia com a ressaca, que é só moral.  Ah, você não dá o cú, já que vão te chamar de viado; vão rir de você. Só que a tua esposa ri de você, os teus filhos, os teus amigos, o cara que te atende no bar, todos riem de você e você ri deles; todos são uma piada pra você e você sabe que é uma piada pra todos. Você não dá o cú pra não se sentir humilhado, pra não se sentir menos homem, pra não sentir vergonha. Mas o que o Punk diz? Você não é homem na relação com o patrão e os que estão acima de você no trabalho, você é um escravo; você abaixa a cabeça facilmente pra manter o emprego, e tudo isso não é diferente de ficar de quatro. Você se submete ao gerente do banco, ao policial, aos políticos que vota, você é sim um submisso, um fraco, você é a ralé; a única diferença é que você tem um carro e uma casa, ou seja, você é um submisso, alguém da ralé, mas com adereços. Você tem um pouquinho a mais, e esse pouquinho a mais faz você pensar que não está levando no cú; só que isso é ilusão: “caminhe na faixa” não é diferente de “se ajoelhe no altar”, que não é diferente de “se sente na mesa de jantar” ou “se sente como uma pedra por mais de oito horas por dia na mesa de trabalho”, e tudo isso não é diferente de: “se abaixe que vou te currar”. Só que tem gente que dá o cu com prazer; parabéns a eles, são dos meus; mas ninguém se submete no trabalho a vida toda sentindo isso como algo prazeroso.   
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Deveria rolar estupros corretivos de machos, por gays, mulheres e lésbicas. Melhor, sem violência, eles deveriam ser fodidos por trás como um gesto de amor, com carinho, de uma forma que eles gostem. O machismo em parte seria abalado; e mais, o território da sexualidade, dos prazeres seria aumentado, o cú estaria em jogo. Preto só se fode, mulher se fode, gays se fodem, todos se fodem só por serem quem são; e não é metáfora, é ser fodido sim, dá no mesmo; e é pior já que são fodidos por serem minorias. Na cadeia você leva no cú uma vez por noite, digamos, depois de um tempo lá dentro; um preto sofre 24 horas por dia a vida toda, suas moléculas são fodidas sempre, desde o nascimento. Um homem fode a esposa, os filhos, quem está abaixo na hierarquia social, por trás com dor, mas diz que é um gesto de amor. 
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O primeiro gesto paterno e materno – e não importa qual pai for, qual mãe for, enquanto existirem pais esse gesto se mantém – é obrigar alguém a nascer, em determinada família, com seus valores, em determinado país, neste mundo, ainda mais como ser humano. Não vejo motivo de alguém ficar feliz por ser humano. A luta pela vida, o amor pela vida, como conceitos do senso comum, são palavras de ordem. Claro que amor e vida são conceitos reinventados por muitos coletivos, artistas, teóricos, por muita gente comum em banheiros públicos de casas noturnas. “Eu queria ter apenas um buraco, e não uma boca e um cú”, disse o pai dos Punks, Bill Burroughs. Mas o corpo humano é essa coisa organizada, estratificada, e isso vão te dizer a vida toda, que o corpo é isso o que todo mundo vê, o bom senso. O corpo é reinventado, em bares, ruas, okupas, na arte, na teoria. Há uma luta contínua pra produzir diferença, a linha de fuga não é fácil de ser traçada, e mesmo traçada, pode falhar. Mas e aqueles que não querem lutar, mas não querem também se submeter, os que nem queriam ter nascido?
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Dar o cú é um afeto, uma sensação; o problema é quando dar o cú se torna uma questão moral, que atinge os machos, os machistas. Pra eles dar o cú é se submeter a um homem, é se tornar uma mulher. Sim, “como eu sendo um homem permitirei que me vejam como um ser baixo, vil, fraco, de segunda categoria, como uma mulher? ” Dar o cú não mata, não põe na prisão, mas agora se o cara decide parar de se submeter ao chefe, ao político, ao policial, às leis desumanas, o que vai acontecer? Vai se foder e a foda vai ser pior do que ser currado por trás. Mas então parece que ele gosta disso, de ser fodido por quem está acima dele, tanto que não faz nada contra, nada. Na prisão é isso: você tem que se submeter, na boa, dar o cú na boa, ficar na sua, aceitar as regras, daí você continua vivo e de repente arranja um namorado, daí não tem mais que dar o cú pra todo mundo. Isso não é a vida na sociedade, se foder caladinho, calmo, pra não doer tanto? Você vai se foder o ano todo, mas vai ter quinze dias de férias; daí no fim da primeira semana diz: não aguento, tenho que voltar pra prisão. Sim, a praia é tipo o pátio da prisão, mas você gosta na verdade do endurecimento máximo. Quando a criança se apaixona pelos pais, é exatamente isso, se apaixona pelo mais forte, a quem vai ter que obedecer. É como o currado que se apaixona pelo currador. Se você é fodido por todo mundo na cela e aparece alguém que diz: “eu vou cuidar de você, se você for minha gatinha”, como não se apaixonar por ele?
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Eu sou fodido, então vou foder. Busque o mais fraco, sempre aparece alguém mais fraco. Dá no mesmo, é como se tornar alguém mau como os curradores da prisão; não é essa a grande função da prisão, criar caras maus, que encaram todas? Após anos em casa a gente aprende como se tornar um bom cidadão, a casa é um espaço de formação, a prisão também. O controle em todo lugar, sempre, em tudo e todos. Os olhos dos outros, meu olhar pra mim mesmo. Talvez as regras dos bandidos sejam menos duras, apenas mais violentas.
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O okupa é alguém que se quer pobre, cria valores diferentes. Odeia, não suporta a classe média. A classe média se acha letrada já que conhece todos os termos, jargões, conceitos impostos desde cima; acha normal a espetacularização da política, do Estado. O capitalismo nunca é contestado. Os okupas não existem pra classe média já que contestam os valores médios, e a classe média não quer ser contestada. Não houve mudanças nas lutas desde 2011, dizem, já que se interessam só pelo Estado, e como esse Estado lhes deixa com mais conforto moral e financeiro. Não estão nem aí se os ânimos, as subjetividades dos coletivos mudaram, se novas formas de luta apareceram. Querem o Estado, sempre Estado, e quem não quer Estado é louco. Feliz com sua segurança, a segurança da prisão, o classe média é tipo alguém com dinheiro na prisão, não vai ser morto nem currado desde que pague, tenha dinheiro pra pagar sua segurança; mas continua a ser um preso, tem que aceitar as regras, senão vai virar uma mulher. 
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Os hippies ainda acreditavam que dava pra cair fora, tentaram criar suas comunidades. Os okupas mostram que não tem como sair fora, então experimentam desde dentro. Viver com suas próprias regras, na cidade? Impossível. Se animalizar numa floresta? Suicídio? Como a morte ainda é vista como algo negativo, sobram as linhas de fuga, que é o sentido da vida, é a vida, a linha de fuga é a vida. A submissão é a morte em vida, as linhas de fuga são traçadas pra que a gente não morra.     
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Os presídios são um tipo de espaço, mais um tipo, dentro de uma prisão enorme, a sociedade. O presidiário não está nem aí se vai voltar pra prisão, já que a prisão é a vida, e ele sabe bem disso. Ele que sabe, é sua sabedoria: se socializar, viver em sociedade, é se sujeitar e sempre, com muita dor. A criança ama seu cercadinho e depois seu quarto e depois sua casa e depois se sente naturalmente bem na classe, no cercado do recreio e depois conhece as ruas e sabe caminhar na faixa e depois entra facilmente no jogo adulto, do trabalho. Tudo igual e sempre: úteros, cercadinhos, quartos, salas, casas, ruas, escolas, cidades, empresas, o leito de morte no hospital, o carro, o supermercado, o banco, a loja, o shopping, o restaurante, o hotel, o motel, a cidade de turismo, a praia, o posto de gasolina, a loja de conveniência, o sexo, as relações entre gêneros, entre idades, classes, raças; tudo tão igual, e sempre.... Isso é assim já que encontraram a forma certa, eficaz, perfeita pra bem viver? Ou é uma coisa simples e fácil, mais simples e fácil de controlar todos? Simplificam a vida ao máximo já que é a forma mais fácil de submeter. Ratos na gaiola são mais fáceis de serem controlados do que inúmeras espécies na floresta. Quem controla uma floresta? O tempo, as árvores, certos grupos mais fortes? Há grupos mais fortes na floresta?  
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E ainda somos modernos, radicalmente modernos? Há algo além, e nomeado, além das velhas dicotomias? Esquerda e direita, mais esquerda e mais direita, há algo além disso? Prazer e dor? Sonho, vigília? Loucura, sanidade? Idiotias e inteligência? Esse algo além, existe? É nomeado, afirmado, buscado? O controle é criação de um mundo rígido, mas simples, tipo arquitetura moderna funcional.
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A arte é caótica, todos sabem disso, mas ela na verdade é um elemento de bom gosto, que diz respeito à subjetividade burguesa; é um caos a ser vendido como espetáculo. O gay era caótico, barulhento, esteticamente estranho; hoje os gays são alvo de consumo, o mesmo com os negros, mulheres e outras minorias. O capitalismo quer consumidores e produtores, importante é a grana, que todos se submetam e consumam. O capitalismo reúne todos, todas as subjetividades diferenciais, e cria uma identidade única: o consumidor.  Dar o cú vai ser a próxima moda.

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sábado, 15 de julho de 2017

belas vidas; vidas especiais

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Eu tive amigos com belas vidas. Não eram bons alunos, mas sempre passavam de ano; eram mais calmos, namoravam firme meninas. Sim, se drogavam mas sabiam a hora de parar. Se pintava muita cocaína na banda arranjavam desculpa e iam pro interior visitar os avós. Como não queimavam o filme, os pais davam dinheiro, e isso ajudava em tudo, principalmente em conseguir as minas que não eram caídas. Uma mina, que não tava estudando, que bebia vodka na rua, de dezesseis anos – que podia ser a paixão do garoto skatista que toma todas –, esses amigos de belas vidas nem olhavam. Eles – os da bela vida – tavam nos mesmos ambientes que os malucos: Oswaldo, Lider, Porto de Elis, Araújo Viana, CB. Não era difícil de ver eles com o nariz sangrando, de ver eles com os olhos injetados, de ver eles sorrindo muito loucos; mas só que na segunda de manhã, bem, eles tavam na sala de aula. Entraram cedo na universidade e a partir daí viraram adultos, pessoas estudiosas e sérias, a carreira deles começou aí. Sim, ainda, faziam merdas, mas não se afundavam nelas. Belas vidas, de experimentações, loucuras, mulheradas, mas também de estudos, estudos sérios, que levaram eles pra carreira bem sucedida. Uma vida com belas histórias pra contar pros filhos, mas também com histórias especiais pra lembrar com os amigos no sábado de noite. Belas vidas, mas não necessariamente especiais. As vidas especiais são aquelas que se atualizam de alguma forma na arte. Muitos que escrevem sobre elas, viveram essas vidas. E isso não é algo positivo, de forma alguma; quem gostaria de levar uma vida especial como: a de Jean Genet, o prisioneiro gay? Ou a de Bukowski, o pobre alcoólatra? Ou a de De Quincey, o viciado em morfina, paupérrimo? Ou uma vida como a de Dean Moriarty, o viciadão, morto muito novo? Ou a de Carl Solomom, gay, louco, interno de manicômios? Ou uma vida como a de Dee Dee Ramone, quinze anos, viciado em morfina, michê? Ou como a de Edie Sedgwick, viciada, morta muito nova? Ou a vida da trupe de Miguel Piñero, gays, michês, prostitutas, viciados, mortos por overdose, cirrose, aids? E sim, todos esses foram imortalizados por fazerem arte; mas e aqueles que levam vidas parecidas mas não produzem obra? Os caras da ralé, exatamente os ídolos desses que viraram ídolos que citei acima. Quem gostaria de ser como eles, ser a ralé? Talvez apenas eles mesmos, aqueles que vivem essa vida já que é a única forma possível de vida antes do suicídio.
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Na adolescência, ficava puto já que nunca ganhava nos jogos tipo General, Poker, War. Meus amigos sempre ganhavam já que eu era o mais novo, eles tinham cinco anos a mais do que eu. Saquei que não tinha como vencer, como disse, eles eram bem mais velhos, e, então, vi que a vitória em um jogo não significa nada; é só um jogo. Daí comecei a fazer jogadas especiais, jogadas malucas, ousadas. O skate é isso, pra quem não compete; o cara só busca uma manobra legal. Pular mais alto do palco num show, isso é legal, ousado; como outras coisas idiotas, mas perigosas: beber de uma vez um quarto de uísque; fumar de uma vez um baseado enorme, em um pega; tomar elixir paregórico e vomitar, tomar de novo e vomitar, tomar de novo e vomitar; engolir caixas de estimulantes mesmo que dois comprimidos fossem mais do que suficientes; ter a infeliz ideia de meter uma quantidade enorme de pó embaixo da língua e depois fritar na cama. E tudo isso.... bem, são jogos, brincadeiras de garotos. Só que o cara vai ficando mais velho e tudo fica mais perigoso; pouquíssimos seguem na vida. O gênio do som de Manchester, um idiota, com muito estilo, ele diz: é, me deram uma grana pra gravar um grande disco, mas pra que fazer isso? Daí ele pega toda a grana e compra em crack. E o importante é isso, a loucura e não uma carreira de sucessos. Se faz arte não pra ser alguém de sucesso – apenas uma pessoa boba pensaria que se daria bem por fazer arte, poucos conseguem. Legal é não tentar ser um artista bem-sucedido, mas, sim, ser louco como muitos artistas, e isso já é arte. E quando se faz esse tipo de arte... bem, o cara faz já que não dá pra fazer mais nada. “Eu vou tomar um jeito na vida a partir de agora”, essa deve ser a máxima dos perdedores que se negam a ser perdedores. Em o Homem do Ano, o filme, o personagem principal entra num jogo que o leva cada vez mais pra baixo, exatamente quando decide se tornar um cidadão de bem. Renton em Trainspotting diz ao longo do filme que queria ter uma vida de bom cidadão. Dean Moriarty tentou muitas vezes ser um bom pai. Burroughs largava a morfina, mas continuava na loucura, tomando todas as outras drogas; ele era mais inteligente, entendia como as coisas funcionam. Um amigo meu de cinquenta anos tava em uma clínica e o pessoal dizia pra ele, os enfermeiros, eu mesmo dizia pra ele: cara, você tá velho, a gente sabe que você não vai parar, mas faz a loucura sem queimar o filme, e ele não conseguia não queimar o filme. Muitos pararam sim... Mas quantos morreram? E era isso, é isso: a droga ou a morte. E na real, quando a morte chegar, que chegue. Um dos músicos dos Dolls sai da clínica e compra na hora uma garrafa de uísque. O tio, meu vizinho aqui da banda, na Cidade Baixa, ele é alcoólatra, passa o dia sozinho, quieto, na dele, bebendo sua garrafa de canha com refri. Ele vai pra clínica com frequência, vai e volta. No dia que ele sai da clínica, compra garrafas de Sete Campos e mistura com refri. Bukowski quase morreu já que teve uma séria hemorragia no estômago; e daí o médico disse pra ele: mais um gole e você já era. Um mês depois tava bebendo como gente grande.

domingo, 9 de julho de 2017

idiotices perigosas, mas com estilo


Coisas idiotas sempre rolam, mas coisas idiotas feitas por jovens mini machos são muitas vezes perigosas. Fazer uma coisa idiota e perigosa mas com certo estilo é o que chamo de sarcasmo:

O maninho tenta subir no capô de um carro em movimento e quebra a clavícula. O mesmo maninho manda um segurança se foder e todos os seguranças quebram ele.  

Um idiota coloca o dedo no nariz pra ver se tem pedrinhas de coca dentro; ele também mijava na mão pra tirar o cheiro de maconha.

Cheirou tanto que morreu, mas foi ressuscitado pelos paramédicos.

O carinha que quebra o para brisa do carro com a testa em um acidente, quase morre, mas só se preocupa em esconder o pó já que a polícia ia chegar logo.

Ficou cinco dias acordado, mas dormiu quando tava dirigindo e bateu o carro numa árvore. Acorda com a mão de uma mina afagando o seu pescoço; ela perguntava, a mina: você está bem? Também tinha um monte de gente em volta já que ele bateu na frente de uma loja de conveniência. Ele saca o que aconteceu; não pensa duas vezes: pega a máquina fotográfica que tava no banco do carona e tira fotos do carro; ele faz isso na boa e nem notou que tinha quebrado o nariz.  

Sete guris dentro de um carro em alta velocidade, o motorista freia de forma brusca no sinal vermelho e quase rola um acidente, e mais, conseguiu fazer isso ao lado de um carro policial; daí rola uma batida. A polícia diz pra galerinha acompanhar eles, tavam presos; um deles pensa: legal, a gente vai ser preso!

Subiram terça de madrugada o morro.

O carinha toma chá de cogumelo e resolve ir pra casa. Chega lá e tem visita, os amigos dos pais. Ele se direciona pra dar “oi” pra todo mundo, mas fica olhando o teto, já que o teto tava derretendo. Percebe o que tá rolando e sai correndo.

No alto da Duque, naquele bar só de traficante, os maninhos cheirados dão 200 gramas de fumo prum cara, pra ele vender. Esse cara vai vender na rua abaixo, mas quando volta, diz que assaltaram ele. Os maninhos ficam com cara de idiota.

Sete horas da manhã numa vila da Zona Sul, a gente fuma um baseado com os trafis e um deles nos aponta uma arma; a gente sorri e diz: legal cara, uma arma! A gente pode ver ela? O trafi deve ter pensado: eles são idiotas.

Ficou sabendo que Manson, o vocalista, tinha fumado ossos humanos. Foi numa vala de indigentes no cemitério, achou ossos; quando chegou em casa, triturou e fumou. 

Depois de três overdoses, ele sacou que podia tomar qualquer coisa, tinha corpo fechado.

Bêbado e muito louco deu um cavalo de pau numa ruela qualquer e quebrou uma roda; continuou, deu outro cavalo de pau, quebrou outra roda. O carro não andava mais. Acordou em casa, lembrou dessa história, mas não sabia se era real; olhou o carro e tava tudo na boa. Quando foi pegar o carro, viu que as rodas eram diferentes das antigas. Ligou pro mano, que disse: você trocou as rodas originais por velhas com uns caras duma oficina.

Agarra uma mina feia na casa noturna; tava tão louco que abraça ela, diz que a ama, leva pra casa e a come.

Comia a traficante pra ter pó de graça.

Entra no banheiro feminino e uma mina tava fazendo xixi; ela diz: não toca em mim; ele fica olhando. Depois dela mijar, ele a agarra e pede pra ela chupar ele; ela começa a abaixar a calça dele, que diz: gata, não faça isso, não chupe o pau de qualquer um num banheiro público.

Comeu a mina dum traficante. Dias depois tá na Osvaldo, tava lá bebendo em uma roda com uns manos, e ele sente uma explosão na cara e cai no chão atordoado; o trafi quebrou uma garrafa na cara dele.

Tava caminhando na rua de noite, vê uma mina e a agarra a força, ela deixa, mas depois sai correndo.

Bebe canha numa praça na frente do colégio Julinho junto com moradores de rua. 

Os gays velhos iam na pista de skate pra pegar os garotos. Uns da turma só davam uma banda com os gays, que ofereciam maconha, bira, pó; mas outros, faziam um programa completo. Com um programa já dava pra comprar rodas novas pro skate.

Não sabia em que bairro tava, não sabia quem era, e não tava nem aí.
                                             
Na casa de alguém, numa festa, entra no banheiro com duas minas, e eles ficam se curtindo. Uns caras que tavam na festa batem na porta e dizem: meu, você pode ficar com uma mina no banheiro, mas só uma. Vinte anos depois, o mesmo cara tava na fila do banheiro dum bar na Cidade Baixa; tinha essas duas minas na frente dele, e elas entram no banheiro, ele entra junto. O banheiro era grande, com bastante luz. A mais bonitinha se abaixa e faz xixi daquele jeito que elas fazem pra não tocar a bundinha no acento. Ele olha ela e ri, ela olha ele e ri. A outra fica mais de canto, mas tavam os três ali. Ele que era meio bobo beija a bonitinha. Ela diz de forma sacana: ai, o gatinho quer carinho. Ele diz: olha só, tá no início da festa, quero curtir mais um pouco, depois a gente faz o que deve ser feito.

Arrebentou a porta do ap já que tinha deixado a chave do lado de dentro. É, teve que arrebentar já que tava com duas amigas prostitutas e queria fazer a festa. Na mesma noite elas disseram: cara, a gente podia trampar juntos, a gente faz programas no teu ap, você cuida também da segurança, metade da grana pra nós, metade pra você. Ele não achou uma má ideia, mas era muito novo pra pensar em grana. 

Tava em uma festa, Cidade Baixa de novo, conversando com uma mina bem bonita. Ela diz: quero te comer agora; ele diz: aqui não rola. Ela diz: vamos pra tua ou pra minha casa. Ele diz: vamos sim, e vai ser demais, só quero resolver antes uns assuntos com um pessoal. Ela pergunta: você é viado? Ele diz: não aluga, a noite é longa na minha casa. Ela diz: não gosto de viados. Ele diz: ok, mas eu gosto. Depois disso voltou bravo pra casa sozinho, se perguntava: como uma mina tão bonita pode ser tão idiota?

Esfaqueou a namorada. Depois disso ela mostrava a cicatriz pra todo mundo e dizia com orgulho: isso foi uma prova de amor.


Naquele bar na parte alta do Centro, ele ia com a mina, eles tomavam umas. Como o bar era cheio de gente, os dois simplesmente saiam sem pagar. Só que um dia, nesse bar, ele cheirou uma paranga que tinha comprado ali no Mercado Público; ele cheirou no banheiro e desmaiou, acordou e caiu fora. Não sabia que veneno de rato era a nova onda.  


sábado, 24 de junho de 2017

por uma teoria suja

                                                       
                                    Cartinha de Amor para Maceduss 

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Pintou sujeira, rolou sujeira, o sujeira tá na banda, seu sujo, seu imundo, seu porco. Um texto científico deve ser limpo, o mais possível. A cidade tem que ser limpa, a casa limpa, o corpo limpo, perfumes, pratos especiais. Da Vinci odiava a sujeira da peste. Acabaram com as Passagens de Paris. Prefiro bombas de efeito moral desde que saia do cú de um porco. O Rio Sujo é nosso cenário de fim de tarde; sujo, podre, com urubus e peixes mutantes que apenas os urubus comem. Um urubu come carniça já que tem estômago forte; gosto mais de um bom fígado. Mijam na rua, no Centro, o cheiro é delicioso. Os crakeiros são nossos vizinhos. Os moradores de rua, sujos, os guardadores de carros, sujos, são nossos amigos. Os pombos, ratos com asas, a gente tira foto com eles, ali na frente da Prefeitura.   
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João Gordo não tomava banho e os caras do Sepultura, na boa fase, eram moleques podres. Johnny Rotten. GG Allin o grande sujo. Dirty Harry. Os Skrotinhos. Fresh Fruits for Rotting Vegetables. Porcos em decomposição nos shows de bandas de Black. O viciado em morfina não toma banho. Dar o cú é algo sujo, suja o lençol. A gente lambe elas e elas nos lambem sem que a gente e elas, sem que todo mundo tome banho. Catarro tá ali dentro, pronto pra ser jogado na calçada. Merda tá ali dentro, mijo, suor, uma hora saem de dentro, mas ficam a maior parte do tempo dentro. O ciclo de merda de um filme do Pasolini. Feios sujos e malvados. A gente ficou uma semana sem tomar banho já que tava rolando a festa. Porcos, galinhas no galinheiro. Santa Bosta de Vaca; Deus Cogumelo. Maconha fungada. Chocolate com pelos de rato, gosma de barata, larvas. O maninho que trampa no McDonald's cospe no Mac Lixo Feliz; viva Bob Cuspe!
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O Mano chega com uns lances vermelhos na boca, lambeu uma bocetinha da onda vermelha. Chuva vermelha, porra perolada, chuva negra; cospe em mim! Minha namorada trabalha na rua e chega em casa com aquele cheiro depois de dar pra todo mundo. A estética da fome, a estética daquele que não toma banho já que não tem banheiro público com chuveiro. Se dão o cú no Centro naquele banheiro público, porra os caras podiam meter uns chuveiros ali. O gari que limpa a sujeira é sujo. Toneladas de comida em decomposição. Estamira, a estrela do lixo mais famosa do Brasil. Pau no cú do Joãozinho Trinta, lixo não é espetáculo seu Trinta. É, nazismo que era limpinho, asséptico, com aqueles cabelos ridículos. O presidente faz plástica pra ficar com visual mais limpo. O museu, a galeria são hospitais? Pelo menos no hospital a gente pega infecção hospitalar. Menos pior. O mauricinho lava o carro. O hipster tem a barba mais limpa. Aromaterapia. Cheiro de café quentinho, cheiro de infância; infância, sua puta! A gente prefere Iggy Pop, que tirava meio quilo de ranho do nariz e comia, e a mulherada adorava. Gostava dos abcessos no braço do Dee Dee Ramone. Queria dar um beijo no rosto do Lemmy quando ele tinha furúnculo na cara. Queria beijar a boca dela: meu herpes com o dela. 
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Maceduss só fala palavra de ordem, repete os mesmos clichês faz anos. Ele era amigo daquele que Te Meteu o Pinto. Maceduss queima filme, Maceduss é nóia, Maceduss é lixo; saco de lixo na cara suja, pra esconder a cara suja. Maceduss chama atenção da polícia, daí a gurizada não gosta do Maceduss. Maceduss passa a mão na bunda de todo mundo. Maceduss nunca será Marcos, nem Anonymous. Maceduss é viadinho, não dança nem pega mulher. Maceduss é um tipo de paródia de merda de Debord; sub situacionista. Maceduss é tão ruim que toca menos que Sid Vicious. Maceduss é a nossa vadia. Todos somos vadias, dizem as minas da marcha; é, todas são Maceduss. Mas quando não resta mais nada, a música morreu, eis que surge: Maceduss.
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O noise existe pra que a gente não morra... de tédio. A voz da Madonna, ela podia calar a boca quando eu meto nela. Fazer barulho com estilo é o que chamo de noise. Noise pixa a música. Noise é sujeira não é música. Pra que a gente precisa de música se tem o noise? Black Metal Lo Fi, pedal de distorção virou coisa de criança, som industrial, britadeira no ouvido, gutural de pulmão sujo. 
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Pureza, coca pura, anfetamina pura, codeína pura, corpo podre e sujo, e quanto mais, melhor. Nariz sangrando, veias que já eram, fígado que já foi. Matar células, acabar com a saúde, é melhor que parque de diversões. Mete o pó, mete o noise, faz a mão e FIM.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

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Já tentei inúmeros tipos de estilos desde quando comecei a escrever. Meu primeiro trabalho era de contos sobre realidades delirantes. Em determinado momento escrevi um livrinho de poemas conceitual, com linguagem de rua, mas que não funcionou e ficou esquecido. Amadureci meu trabalho com um livro de crônicas, também conceitual, que se centra em minhas experiências principalmente na adolescência. [........] O estilo deste livro difere do estilo das crônicas do terceiro capítulo do livro anterior publicado neste volume, mas há proximidades. Como já disse na primeira parte do outro livro, este é uma linha de fuga, um aumento de território, a tentativa de produzir o descontrole, de enlouquecer pelo menos na língua. Deleuze fala em gagueira, estrangeirismo na própria língua [.....] Aqui fujo da língua dominante dentro dela; e gírias, expressões de rua mostram a sua maleabilidade. Certas turmas em certas estações, certos guetos em certas estações, os jovens, os marginais, os drogados criam expressões que só têm sentido para eles nesses momentos, e o que eles fazem, é poesia, considerando poesia como um devir menor da língua. Eu uso aqui muitas expressões dos inúmeros guetos que pertenci, e aliás, mesmo sendo doutor, eu não consigo fugir de certos vícios de linguagem de rua, quando falo, seja em aula, palestra, o que for e que se foda. [........] E não só em relação às expressões, alguém chapado de maconha, morfina tem um ritmo de fala diferente, mais lento, pausado, baixo, calmo. Alguém louco de cocaína ou anfetamina tem uma fala rápida, dura, sem respiração, direta [...] Quem está louco de coca não quer parar de falar, por isso, conta histórias em detalhes, os mínimos detalhes para prolongar ao máximo a fala [....] Ele, o cheirado, não quer contar uma história quer apenas falar. [...] Membros da trupe de Andy Warhol gravavam conversas presenciais ou por telefone loucos de anfetamina.  [................] A ideia do texto que segue surgiu quando eu com frequência comecei a pensar em frases sem sentido. Me perguntei se seria possível escrever algumas páginas com frases do tipo. Fiquei espantado que escrevi de forma fluida o que será apresentado posteriormente. [........] Há um ritmo em todo o texto, variações, mas todas as frases foram escritas e editadas para serem lidas, apresentadas em voz alta. A linguagem da rua é a fala, dificilmente é atualizada na escrita, por isso a importância da poesia, registrar esses fluxos linguísticos. [...............] As frases absurdas que compõem o texto, mesmo as mais absurdas, que talvez sejam impossíveis de serem lidas, foram escritas de tal forma que posso declamá-las. No trabalho de revisão, e foram muitas revisões, manter o ritmo foi central. Ou seja, as frases não foram simplesmente jogadas no texto, elas passaram por um tratamento rigoroso. [........] Todas as frases são curtas. Frases curtas permeiam meu trabalho literário. As frases curtas ajudam no ritmo; é mais fácil de narrar, ler, uma frase curta; e como as frases são absurdas ou se conectam com outras de forma absurda, quanto mais longas, mais difícil seria de manter esse ritmo. Sempre achei pequeno burguês frases longas, escritas por aqueles que têm total domínio textual, que se permitem escrever frases de muitas linhas para mostrar seu domínio. Textos escritos para pequenos burgueses, os que que conseguem manter a leitura de frases que nunca acabam. [.....] O carinha de rua, o jovem, o marginalzinho, ele fala rápido e muitas vezes essa fala é composta apenas de gírias, expressões de rua [......] No texto há graduações de absurdidade, de falta de sentido, essas graduações se referem às experimentações, ao mapa que fui montando, pequenas diferenças internas, as quais busquei, mas sem sair do conceito do texto. Me perguntava: quanto posso enlouquecer, quais novas linhas traçar, mantendo o conceito?  [........................] O texto é dividido em blocos, os blocos não narram histórias, há muitas frases isoladas, que não se ligam a outras, porém, algumas frases se conectam a partir de um possível sentido. Há um narrador, alguém, uma primeira pessoa que fala para outros. Há sujeitos, algo como personagens, mas eles não agem, não tem história, são citados a partir de um humor peculiar. Há humor, e muito, pelo menos para mim. Também estão presentes alguns elementos de cultura pop, cultura drogada. Palavras de baixo calão estão em todos os blocos, além de gírias e expressões de certos guetos de jovens e drogados – aliás, se histórias forem buscadas em certas partes podem ser encontradas, pelo menos por mim, e são histórias referente à sexualidade livre e ao uso de drogas. O texto pode ser recortado, como se quiser, pode ser lido de qualquer forma: é um caos, mas organizado... Ele foi finalizado quando atingiu o tamanho mínimo de um livro de literatura já que talvez nem tenha sido feito para ser lido. [....] Mas como disse:  o texto não é espontâneo, não são palavras jogadas na tela. Escrevi com calma, li e reli, reescrevi, tirei muita coisa, coloquei coisas novas. É necessária uma tal rigorosidade para se criar um trabalho absurdo e caótico, considerando que quem escreveu “Diego este que fala” é um bom cidadão, criado na academia, doutor. E mais, considerando que tenho experiência na escrita, que não sou naif sempre estudei literatura e artes, sei que tentar enlouquecer na arte pode se transformar em qualquer coisa. Esse tipo de exercício é importante, já que se realiza em um meio em que posso enlouquecer sem ser preso: a literatura; ou seja, é quase medicina. [....] E isso já permite um grau de loucura para o leitor. Se alguém enlouquece na rua, na sala de aula, em casa, no trabalho, pode ser preso, mal visto ou internado. Gosto de ser mal visto. Enlouquecer é buscar linhas de fuga dos padrões – a prisão – dominantes. Enlouquecer na escrita; um pouco de ar, vida – louca vida.   

sábado, 13 de maio de 2017

curtições


Dia de semana, fim da tarde; notei alguns caras – o que me pareciam guardadores – em volta de dois carros. Notei que eles olhavam para dentro dos carros. Voltei a escrever e no cigarro seguinte fui para sacada, e tive a sorte de ver os dois carros, grandes, caros, serem abertos no mesmo momento; e mais, saíram no mesmo momento. Obviamente, foram roubados por aqueles que estavam em volta deles. Mas o mais importante, me perguntei se eu delataria uma ação desse tipo. Carros caros, comprados por cidadãos de bem, gente próxima a mim, roubados por ladrões de rua. Eu não tenho nenhum apreço por ladrões profissionais, que desejam ser ricos, como não tenho por banqueiros, políticos. E quanto ao cidadão de bem, que compra seu carro com esforço, um dos grandes bens de sua vida? Tenho algum apreço por ele? O defenderia daqueles que precisam, ou mesmo querem, ir às ruas para roubar? Deleuze e Guattari eram ladrões profissionais, e os admiro. Eu sou um ladrão pé de chinelo, e não estou procurando ser admirado. Sempre quando ouvia a palavra “doutor”, ficava com medo, pensava: alguém muito importante está próximo. Hoje, ser doutor para mim significa muito pouco. É interessante como o empresário cheirador de pó, yuppie, o pesquisador alcoólatra, a dona de casa que toma valium, como esses são tão bem aceitos socialmente; o que não acontece com o ladrãozinho pobre que rouba para manter seu vício. O empresário se orgulha de si, se sente feliz por não ser um ladrãozinho. O intelectual se considera especial, por pensar o mundo, como se pensar fosse algo restrito a poucos. E eu estou no meio disso, não estou livre, sou mais um; melhor, menos um. Rimbaud dizia que era um negro. O Beatnik era negro, melhor, white negro. Os White Phanters queriam ser negros armados. Negri foi um presidiário. Deleuze foi um fraco, suicida; Hemingway e Thompson também. Bukowski, o vagabundo; os ladrões, viciados, gays como Burroughs, Jim Carrol. Vagabundos, presidiários, michês, suicidas, ladrões, me sinto bem com eles. [.......................] Há toda essa tradição, na literatura, no cinema, na música, nas artes em geral que tratam do excesso, da vida em excesso, dos prazeres diferenciais. Na literatura para citar alguns: Baudelaire, os Beats, Bukowski, o Gonzo, Piva, Huxley, Artaud, Pepe Escobar, Breton, Blake. Os Beats são centrais pelo contado deles direto, físico com a contracultura norte americana. Burroughs, o Beat com mais idade, é considerado pai da arte pós-moderna. Sua escrita era tão radical quanto seus excessos.  Kerouac, o escritor desse livro tão importante para a geração da contra cultura, On the Road, produziu uma escrita que está na borda entre realidade e ficção. A vida dele era tão rica que se negou a escrever algo além dela. Kerouac ajuda na escrita etnográfica, já que ele fez seu trabalho de campo pelos Estados Unidos e o narrou em seus livros. Bukowski se irmana a Kerouac, já que ambos mostram realidades duras, da estrada, da pobreza, da narcose, do alcoolismo.  Se os escritores apresentavam eles mesmo suas loucuras em suas obras, as vidas de muitos músicos, tão loucos quanto, são expostas principalmente pelo jornalismo alternativo e cultural. Documentos sobre os músicos que surgem a partir do sessenta – talvez o início de uma tradição de suicidas, drogados, sexualmente perversos – são muitos, em formato de vídeo e texto.  São tantos, que afirmam o fascínio por essas vidas singulares. No rock é muito comum a criação de guetos, micro fascismos; muitos fãs se apegam a um estilo e rechaçam todos que destoem desse estilo escolhido. Porém, no que diz respeito ao excesso, estilos diferentes se ligam, há esse comum entre a psicodelia, o pré punk, o punk. O pop vende a imagem do artista belo, jovem, saudável, o pop é uma música para o bom cidadão. Entretanto, são muitos os artistas vendidos dessa forma, mas que têm vidas desregradas. No rock, marginal, o estilo de vida desregrado é mostrado de forma descarada.  E como já me perguntei no livro algumas vezes: por qual motivo valorizam essas vidas que parecem não ter valor? Vício, abstinência, prisão, temporadas em manicômios, ressacas longas e duras. O que todos eles mostram é que a vida cotidiana é insuportável, por isso, preferem os excessos mesmo que sejam extremamente dolorosos. É melhor o risco da morte do que a vida das pessoas comuns. E não fazem isso para se ser uma pessoa especial, já que um viciado não é alguém especial é um pária; e mesmo se é glorificado pelo que faz, ninguém ficaria feliz em ser um. É comum dizerem que as drogas ajudam na criação. Talvez em certo momento, antes da prisão do vício. Fascina muito mais quem está de fora, o fã, do quem está por dentro, o viciado pesado. 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

tomações


No fim da tarde, quando começa a escurecer, a vista fica mais bonita, com as luzes dos prédios. Agora, pessoas se reúnem em grupos pequenos no Largo; alguns fumam maconha. Depois da hora de pico os carros passam com mais velocidade. Como estou sem internet, a vista é minha tela. Fiquei dez anos no ap. antigo. Fiz as contas e o que gastei de aluguel – nesses dez anos – daria para comprá-lo. O mais curioso é que eu estava para locar um outro apartamento, que coincidentemente era da mesma proprietária desse ap. antigo. Talvez ela tenha comprado o imóvel com o meu dinheiro; e eu continuaria sendo sugado por ela. Aprendi na prática como o inquilino está à mercê do proprietário. Porém, há uma liberdade em alugar, não ter um imóvel, ter pouco, não ter laços fortes, isso para mim é importante. Ter pouco a perder, essa é a alegria do vagabundo. Ele tem seu corpo, sua linguagem, seu carrinho, seus desejos. [.................] A Cidade Baixa é um dos bairros de Porto Alegre com maior número de moradores de rua. Aqui na frente, numa praça junto ao Largo, se reúnem muitos deles. No bairro, uma mulher que pede esmolas volta e meia desaparece e reaparece. Em 15 anos vi ela grávida inúmeras vezes. Na República, uma das ruas mais bonitas da Cidade Baixa, há um outro morador de rua, com idade avançada, que está ali faz uns seis anos. Também o bairro tem muitos guardadores de carros, jovens, que possivelmente não têm moradia. Além disso, junto a um conjunto habitacional, faz alguns anos, um grupo grande passa o dia junto a colchões e colchas velhas. O bairro também conta com um albergue popular e seu entorno (do albergue) reúne essas pessoas que possuem apenas o que podem carregar com as mãos. E mais, o cartão postal da cidade, nos últimos tempos, aglomera tendas em toda sua extensão, se tornou espaço dos que não têm casa – é o Viaduto da Borges, que fica a três quadras daqui e o veria se não existissem alguns prédios que tapam a vista. A prefeitura volta e meia desaloja o pessoal, mas eles sempre voltam. Interessante é o fato de que o Viaduto já foi palco de batalha entre manifestantes e polícia, principalmente em 2013. [.......................]
Em 2013 jovens saíram do Centro e vieram até o Largo. Ali, lutaram contra a polícia, depredaram carros e edifícios. Nessa época, eu e um amigo, numa segunda feira, estávamos no local, em um encontro de um coletivo libertário. Meu amigo queria tomar uma cerveja; eu disse: vamos, mas depois voltamos. Atravessamos a Perimetral e vimos junto a uma praça um bloco policial, todos policiais armados e em posição de ataque. Passamos por eles. Os policiais, por fim, não agiram contra o coletivo, mas como a cidade estava “muito quente” na época, eles faziam o controle. As brechas na cidade não são poucas. O controle não é absoluto na cidade pela própria estrutura dela. O poder quer que as linhas de fuga não existam, mas existem. [........................] O nojo dos cidadãos para com os moradores de rua mostra quem eles – os cidadãos – são; odeiam qualquer coisa que macule a cidade que deve ser higienizada, modelada – é, eles desejam o controle.  Os moradores de rua, são os sujeitos da vida nua, despida de bens, eles praticamente não consomem, não tem moradia, são feios e sujos, vivem do lixo. Mas são uma das diversidades do tecido urbano. Não é uma pobreza voluntária e esse é o problema. Porém, a riqueza deles é algo que deve ser mapeado.    
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Essa minha relação afetiva com a cidade é muito antiga. Quando comecei a usar maconha – diariamente, três, quatro, cinco, mais baseados, isso com treze anos – gostava de fumar principalmente, antes da aula, de manhã, e enfrentar a rua; era o primeiro “beque” do dia e assim fazia efeito. Eu gostava de contemplar, sentir o início do dia chapado. Eu pegava ônibus, ficava na janela e olhava para a rua como se estivesse vendo um filme. Curtia, também, quando ia fumar com meus amigos mais velhos de carro. Era a mesma sensação, o para-brisas como tela. Quando estava sentado do lado do motorista, ficava olhando o espelho retrovisor que parecia uma pequena televisão. [..........................] Minha primeira crônica foi sobre o trecho de uma estrada que vai de Porto Alegre até uma cidade vizinha; minha primeira reportagem foi sobre a noite na cidade. Na monografia trabalhei com a vagabundagem urbana. Parte da tese dediquei à cidade de Barcelona. [............] A questão afetiva sempre moveu meus trabalhos, por isso, não me encaixo na identidade ideal de pesquisador, de cientista. O que move meu trabalho, sempre, é o afeto. Considero que é impossível pensar o mundo, a sociedade em que vivemos, sem sentir dor, medo, frustração e, até mesmo, um sentimento perigoso como o de insuportabilidade.  Mas, como as linhas de fuga estão sempre agindo, como a multidão produz, resiste, deseja, pensar nisso permite afetos nobres, como paixão, alegria. E como ou por qual motivo abstrair isso – o afeto – se está sempre presente? Falar de forma aberta, franca, demonstrar os sentimentos, não se perder em uma assepsia própria a ciência é uma falha, um erro? Sim, é um erro, mas eu gosto de errar. Quando falo “eu” (e isso é frequente aqui) afirmo minha posição afetiva, tento fugir da fala impessoal acadêmica; mas obviamente ‘eu’ não diz muito. Dizer “EU” é rotular, criar uma fotografia que nega os fluxos, as conexões, os agenciamentos. O livro está cheio de memórias pessoais que dizem respeito a esse “eu”, mas foi a forma que encontrei para pensar certos coletivos e os processos que passam as cidades. Como já disse, há contradições no meu trabalho, claro, pois é uma experimentação.  
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[....................] Como havia pessoas no pátio dessa ocupação aqui perto – que eu estava rondando faz um tempo – eu abordei o pessoal e disse: olha, eu pesquiso okupas, eu passei aqui na frente inúmeras vezes, vocês devem ter me notado, estava com vergonha de me aproximar de vocês, já que eu sei que o pessoal antissistema não gosta de pesquisadores, mas gostaria de falar com um de vocês, fazer perguntas sobre o funcionamento do espaço, como ele está sendo gerido [..............] O coletivo, no momento, era formado por garotas, já tinha notado que a maior parte dos membros eram mulheres. As garotas me interrogaram e muito, disseram que eu deveria saber que eles não são abertos ao diálogo, pelo menos com gente como eu, um pesquisador. Notei que elas estavam incomodadas com a situação. Quando vi que não haveria realmente diálogo eu disse: peço desculpas por ter vindo aqui, não vou mais passar na frente do espaço, admiro vocês, que vocês fiquem bem e que dê tudo certo.
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[...................] As pessoas pensam sempre no futuro, desejam um bom mundo, mas que sempre está além e, por isso, não dão importância para o que está acontecendo, agora no presente. E o que é o presente? Tempos diversos sempre estão interagindo. O tempo do drogado não é o tempo do bom cidadão. O tempo em uma okupa funciona de forma diferente do tempo em uma empresa ou escola. Qual presente? [.....................] A revolução Contra Cultural aconteceu faz quanto tempo? E não foi apenas cultural, uma revolução de costumes – não há como separar cultura de política –, foi uma luta contra o poder reticular, as disciplinas, os dispositivos de poder atualizados: no chão da fábrica, na universidade, nas relações parentais, na família como destino obrigatório, no Estado de Bem Estar que estancava as lutas mais radicais, no patriarcado, nos gêneros e na sexualidade, no racismo, na guerra as drogas.................. [........................]  As lutas moleculares de 68 atingiram as malhas do poder e o mundo não foi mais o mesmo; direitos foram conquistados; porém o poder, tomou outras formas, mais capilares. A empresa modulada, desterritorializada, impediu a luta dos trabalhadores. As minorias se tornaram consumidores e produtores. O poder transcendente, mais localizado, os termos dominantes que se sobrepunham a termos menores, ficaram mais fluidos, imanentes. A sociedade de controle abarcou todo o social. Se na sociedade disciplinar ainda existiam buracos, brechas de subversão, na sociedade de controle o poder começou a aparecer em todo o lugar. Os cidadãos, todos, viraram policiais, de si e dos outros. Formas novas de opressão surgiram. [.............................] Uma das formas de opressão é exatamente a negação de que estamos em outro paradigma, faz muito tempo. Qual presente? Ainda usam conceitos de outros paradigmas para pensar o presente. As dicotomias correm soltas, como se o mundo fosse uma coisa simples, uma luta de opostos que leva para um bom futuro. As dicotomias ainda correm soltas: homem x mulher, inteligência x idiotia, loucura x sanidade, riqueza x pobreza, trabalho x vagabundagem, norte x sul, ciência x empiria, público x privado, frieza científica x paixão artística, indivíduo x massa, eu x o outro, direita x esquerda. Isso é o óbvio, o que todos veem, muitos só enxergam isso. Só que eles não entenderam as lutas de 68 e desconhecem as lutas em rede que começaram com os Zapatistas. Eles desconsideram as análises de poder de Foucault (o velho, mas sempre presente Foucault), não entendem o trabalho de Deleuze, nunca leram Negri. E não por falta de inteligência; eles não suportam a insegurança que o trabalho do pensamento da diferença produz, já que este mostra um mundo caótico, deliciosamente caótico. Usam bases intelectuais de um paradigma para pensar outro. Ou seja, se loucura é estar fora da realidade, isso é loucura. Qual presente? [.....................................................] O idiota não é alguém com menos saber, não há problema em ter menos saber. Idiotia é amar a segurança ao ponto de não querer enxergar o caos, e o caos é o mundo. O pensador privado em sua sala, aquele que pensa, se vê como um indivíduo, que gosta de ser visto como um sujeito pensante, dono de suas ideias, autor, ou seja, o gênio moderno, se ainda existe, não consegue ler Deleuze, já que ama sua segurança, sua vidinha pequeno burguesa. Ele, o que faz é apenas dar certa consistência para o que pensa, pensamento que na verdade é só reflexo do senso comum. Se acha especial por conseguir falar e escrever o que pensa, mas como disse, ele pensa como todos, é tão moralista, conservador, idiota como todos; só é um idiota com um capital. Como pouquíssimos conseguem fazer isso, ele se acha diferente dos que não escrevem e falam de forma articulada. Ele gosta de pensar e falar muito e sempre, ou seja, extensivamente, não intensivamente, por isso, não há diferenças de natureza entre um idiota que não escreve e um idiota que escreve, só diferenças de grau. [..........] O que pouco veem e o que o “intelectual” não vê é o caos. Para ele, caos é uma expressão pejorativa, idiotia é sua forma de se impor em relação aos outros, loucura é o que ele detesta já que é um moderno, racional. Mas idiotia é o bom senso; caos é a beleza do mundo, que deve ser experimentada com certa cautela; loucura, esquizofrenia são marcas do pós-moderno, são possibilidades de alegria ou expressões do poder. [.................................]. Os movimentos em rede não precisam ler Negri já que sabem muito bem o que Negri pensa. Deleuze e Negri já fizeram o trabalho de leitura e contextualização de Marx, Espinoza, Foucault, Bergson e tantos outros. Apenas o “gênio” moderno – que vive faz décadas na pós-modernidade e não sabe – que tentaria se colocar ao lado de Negri e fazer sua leitura de Marx para pensar o paradigma atual. [..............] Contra a segurança, dura, linha dura da mentalidade velha e cansada, contra isso temos a leveza e a liberdade da criação de conceitos novos. “O velho tem que morrer” é uma palavra de ordem dos setenta, mas faz tempo que morreu; e muitos tentam dar vida ao cadáver. [...........].  
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Em Porto Alegre, nos últimos tempos, a mobilidade ficou mais fácil, a partir de muitas ciclovias criadas. Está na moda se locomover de skate, bike e roller. E me parece que isso faz parte da moda hipster. O hipster difere dos que estão na moda, é alternativo; porém ser hipster é uma moda, mesmo que dita alternativa. Para ser um tem que se estar dentro de certos padrões. O hipster é ligado em arte e cultura de massa cult; tem interesse em gastronomia. Visualmente, a partir de suas roupas, se percebe um sem dificuldades: barbas longas, cabelos alinhados, camisas de manga curta com colarinho apertado e bermudas (ambas com adornos psicodélicos), tênis social, óculos enormes. Durante mais de um ano, ao menos em Porto Alegre, foi usado por homens um tipo peculiar de corte de cabelo: Razor, uma imitação do corte dos samurais. Todos os hipsters o usavam. Da mesma forma que surgiu, o cabelo razor despareceu, de uma hora para outra. A Cidade Baixa é o bairro hipster de Porto Alegre. Aqui há os cafés com bebidas não alcoólicas especiais, os restaurantes-bares com comidas, feitas de forma criativa, e cervejas artesanais. Além disso, o bairro tem inúmeras casas noturnas com som chamado alternativo. O bom gosto gastronômico aliado ao bom gosto musical. Nos últimos meses em Porto Alegre e, claro, na Cidade Baixa, começaram a aparecer centros de moda hipsters. Neles se faz o cabelo, a barba, tatuagens, se toma cerveja e se come. É uma moda tão pegajosa que é difícil não ter certos atributos da identidade hipster, tanto que há hipsters que odeiam ser chamados de hipsters.   Quanto a questão da mobilidade verde, aliada de um certo repúdio a grandes empresas, marcas dos hipsters, isso diz respeito a um tipo de anti-capitalismo, a uma questão ecológica, portanto, desvios de certas normas dominantes. Mas o Hipster se desvia da norma para criar uma nova norma. Ele é o bom cidadão das redes sociais, ele vai às ruas, luta por seus direitos, milita como pode, é o sujeito controlado, mas que vive como se tivesse um grande grau liberdade.  Ele se sente feliz por lutar por um bom mundo, acredita que está construindo um bom mundo possível.  Se sente feliz por ser quem é: politizado, com uma moral elevada, além de ser alguém diferenciado. O barulho que faz é pouco, não abala em nada os códigos dominantes; esse barulho não passa de uma resistência incluída, ou seja, não é resistência. Se o cidadão está feliz, não incomoda. E se ele sente feliz por ter um sentido em sua vida, ele pode dizer: eu vivi, eu lutei, eu busquei um bom mundo, sou uma pessoa especial. 
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