quarta-feira, 30 de março de 2011

os mil platôs e o anti-édipo

Eu tentei experimentar alguns conceitos do Mil Platôs de Deleuze e Guattari na monografia quando estava na graduação. Tentei apenas, não sabia o que fazer com eles. Não entendia nada, mas não conseguia não ler. Parecia uma coisa meio masoquista. Na época eu queria ser escritor de literatura, e pelo menos nela algumas coisas se cristalizavam, mas por via dos afetos.

No mestrado comecei a sentir necessidade de fazer estudos de Deleuze e Guattari pela relação estreita entre eles e Negri e Hardt. Daí fui mais cauteloso, peguei vários livros e foquei em um conceito, o de devir. Fiz uma pesquisa rizomática de Mil Platôs, Cartografias do Desejo, Diálogos, entre outros. Também outros autores que fizeram sua leitura do conceito me ajudaram muito, como Giuseppe Cocco e Lazzarato. No fim consegui fazer uma boa fotografia da noção, e experimentei a criação de conceito de devir, o que chamo de devir-pobre do jornalismo. Mas o trabalho foi duro.

Acho que é duro ler os mil platôs, pois é pouco recuperado. Deleuze dizia que ele era como um filho bastardo e que por isso mesmo gostava tanto dele. Essa não recuperação faz com que o livro pareça absurdo à primeira vista, assustador, e por isso aberto a um campo de possíveis; que merece ser atualizado.

Tô pensando nisso, pois estou dando uma olhada no Anti-Édipo. O livro não vai me ajudar muito por focar na psicanálise, na desconstrução de Freud e Lacan. Me parece que tem uma diferença grande entre ele e os mil platôs.

Lia um texto de um pesquisador do campo da psicanálise que dizia: não dá para ler o Anti-Édipo e não dá para não o ler. Por isso uso um método, leitura rápida, me prendendo em uma passagem aqui outra lá, sem compromisso, leitura de superfície; e não achei ainda um eixo conceitual - que possa usar como ferramenta na pesquisa, que me interesse - para focar.

Recortei uma passagem do livro e colei abaixo. Trata do desejo de repressão, do desejo que produz real. Essa passagem é parecida com a fórmula de La Boétie e remete à inversão de Foucault: submissão voluntária ou insubmissão voluntária. E tem uma relação direta com o trabalho de Negri e Hardt (estes spinozianos): a soberania é uma relação, entre dominantes e dominados. Sobre fascismo e desejo é dito muita coisa nos mil platôs: o fascismo molecular de bando, as linhas de fuga mortíferas. Ser fascista molecular e libertário molar, o que é retomado em Cartografias do Desejo. Molecular e molar são os componentes da cartografia dos autores, os devires (moleculares) atravessam os segmentos molares.


Do Anti-Édipo, lá na página 33 (a leitura do primeiro capítulo valeu a pena só por essa passagem)

É por isso que o problema fundamental da filosofia política é ainda aquele que Spinoza soube formular (e que Reich redescobriu): «Porque é que os homens combatem pela sua servidão como se se tratasse da sua salvação?» Como é possível que se chegue a gritar: mais impostos! menos pão! Como diz Reich, o que surpreende não é que uns roubem e outros façam greve, mas que os explorados e os esfomeados não estejam permanentemente em greve; porque é que há homens que suportam há tanto tempo a exploração, a humilhação, a escravatura, e que chegam ao ponto de as querer não só para os outros, mas também para si próprios? Nunca Reich mostrou ser um tão grande pensador como quando se recusa a invocar o desconhecimento ou a ilusão das massas ao explicar o fascismo, e exige uma explicação pelo desejo, em termos de desejo: não, as massas não foram enganadas, elas desejaram o fascismo num certo momento, em determinadas circunstâncias, e é isto que é necessário explicar, essa perversão do desejo gregário.

terça-feira, 29 de março de 2011

big brother brasil 11

Hoje é o grande dia, quem vence: a putinha encantadora, o patinho encantado ou a rainha engraçada?

os movimentos recentes da multidão na mídia

No primeiro semestre do mestrado produzi um artigo para uma disciplina relacionada ao jornalismo. Pesquisei arquivos da Folha de SP que tratavam dos manifestos em 1999 contra a reunião da OMC em Seattle; aquele acontecimento inaugural das lutas em rede, segundo Negri e Hardt e Lazzarato. Cheguei a uma conclusão pouco original: as mídias simplesmente não entenderam o que aconteceu na batalha de Seattle.


No entanto essa consideração permaneceu em minha pesquisa, hoje tenho mais argumentos para afirmar que a mídia por ser legitimadora do poder, simplesmente nega os movimentos da multidão. Poderia ser dito que com a revolução dos povos árabes e sua exposição massiva que a afirmação é errônea. Acho que não.

O que nós sabemos das lutas árabes redunda no senso comum, o que a mídia nos dá: o povo unido contra a figura carismática do poder. Um contra um, em conflito simétrico. A multidão não é una, mas sim o povo legitimado pela tradição. Um povo tem uma identidade, é fácil de o compreender. A multidão é monstruosa, compreendê-la exige um método, ou uma longa preparação.

Nada sabemos sobre a complexidade de grupos, demandas, lutas que são sobrecodificadas pela mídia na imagem (fotográfica) do povo. E agora a coisa fica ainda mais previsível: a luta do ocidente contra o oriente, a luta dos Estados dominantes contra o Estado autoritário. Mesmo quando o discurso se torna menos sacana, a história parece a mesma de sempre: a tomada de poder do Imperialismo estadunidense.

A mídia é conservadora, todo mundo sabe disso; mas temos que pensar o que significa esse “ser conservador”: ela não é muito inteligente, não entende as coisas? Ou como disse acima, tenta conservar o poder escondendo o jogo, deixando de lado a criatividade da multidão?

No dia 26 de março aconteceram os manifestos em Londres, com 500 mil pessoas. Coisa do tipo só nas manifestações de 2003 contra a guerra do Iraque. A mídia brasileira não tem falado sobre isso. Talvez por estar perto demais.

Talvez o conflito árabe tenha dado impulso para as manifestações. Todo acontecimento abre campos de possíveis, que são atualizados. As revoltas árabes nos dão de presente a prova que o desejo deseja mais que sua repressão, deseja sua potência, uma nova realidade. Mesmo a mídia não pode esconder que o poder mais endurecido pode ser derrubado. Como disse Lazzarato: nós não aceitamos as coisas como aceitávamos antes.

M-26 - marcha dos 500 mil em Londres

Tradução do Indymedia Londrino


300-500000 pessoas marcharam pelo centro de Londres em 26 de março. Os manifestantes protestaram contra as medidas governamentais de austeridade que forçam a maior parte da população, e especialmente os trabalhadores do setor público a pagarem pela crise econômica que eclodiu do setor bancário há dois anos.


A maioria dos manifestantes [...] participaram na manifestação TUC que fez o seu caminho de Embankment ao Hyde Park. Além disso, muitos grupos mostraram a sua vontade de fazer mais do que em março, com ações de protesto sendo organizadas por vários grupos.


Ativistas de ação direta se direcionaram a London's West End, o distrito de compras da classe alta. Eles quebraram janelas e atiraram com armas de paintbomb em edifícios, como gesto simbólico. Outros fizeram açôes não-violentas em alvos empresariais identificados como sonegadores de impostos ou de alguma forma responsáveis ​​pela crise econômica.


Fortnum and Mason foram ocupados por manifestantes em uma ação UKuncut que se seguiu à ocupação de várias lojas e bancos em Oxford Street. 149 pessoas foram detidas na sequência da ocupação.

vídeos da demo



sábado, 2 de outubro de 2010

texto do Michael Hardt


Segue abaixo tradução minha de texto do Michael Hardt sobre a COP 15 (o original está aqui). O texto de Hardt tem como ponto de partida esse acontecimento singular, no entanto possibilita a compreensão de certos conceitos trabalhados por ele e seu parceiro de escrita, Antonio Negri: o conflito entre Império e multidão – o Império, no caso, representado por aqueles com o poder de decisão sobre as questões climáticas, que são afrontados pela multidão que tomou as ruas de Copenhagen. Hardt centra seu texto no conceito de comum: a multidão produz a partir do comum, a produção é feita mediante redes que são comuns e produz mais comum. O comum é a riqueza da multidão, e por isso o capital tenta se apropriar dele.

The Common in Copenhagen

By Michael Hardt

O comum está se tornando rapidamente o terreno primário da luta política na era da globalização. Acabo de regressar de Copenhagen, onde durante as últimas duas semanas, a COP15, a Cúpula do Clima das Nações Unidas, tem sido palco de intensas negociações sobre a gestão do comum.

Principalmente está em jogo como e em que medida nós vamos compartilhar a riqueza comum neste mundo e também como vamos combater as formas destrutivas do comum, que ameaçam as nossas sociedades e as formas de vida na Terra

Quando eu digo que o comum está em jogo no processo de globalização, refiro-me, por um lado à terra, as florestas, o mar, à atmosfera, em suma, algo como o que era tradicionalmente chamado de comum. Por outro lado, o comum também concerne a uma série de resultados da produção e da criatividade humana, tais como idéias, imagens, códigos, saberes, informações e afetos. A questão da mudança climática se situa principalmente no primeiro deles, mas a relação entre essas duas noções do comum foi também um fator importante em Copenhaguen. [...]

Uma vez que concebemos a conferência de Copenhagen como uma luta sobre a gestão do comum, é útil separar esta luta em duas cenas relativamente separados. Uma cena aconteceu dentro das reuniões oficiais no centro de conferências do Bella Center, onde a admissão era estritamente limitada aos representantes do governo, ONGs aprovadas, alguns jornalistas e outros participantes selecionados. Passei a maior parte do meu tempo, no entanto, na segunda cena, fora das reuniões oficiais, entre os movimentos sociais e ativistas, cuja presença representou um importante encontro entre as tradições ativistas focadas no ambientalismo e nos diversos aspectos da globalização.

As reuniões oficiais foram o palco para uma série de intensas negociações sobre a forma e as hierarquias das estruturas emergentes de governança global que Antonio Negri e eu desiganmos como Império. É ainda mais claro hoje que há dez anos, quando começamos a pensar nestes termos, que nenhum Estado-nação, como os Estados Unidos ou a China, pode "ir sozinho" e governar o sistema global. Qualquer tentativa de unilateralismo está fadada ao fracasso. Em vez disso, vimos em Copenhagen um exemplo de como as estruturas emergentes de governança global estão sendo construídas dentro e entre três níveis distintos.

O nivel superior, que recebeu a maior parte da imprensa, é o local dos conflitos e alianças entre os estados-nação. Os Estados Unidos e a China, por vezes, se apresentam como representantes das partes "desenvolvidas" e em "desenvolvimento" do mundo, enquanto as nações européias (por vezes juntas, às vezes separadamente) conquistam uma posição mais matizada.

Algumas das posições mais interessantes, porém, são apresentadas por outros grupos, como o G77, uma ampla coalizão de nações subordinadas representada pelo embaixador sudanês Lumumba Stanislaus Di-Aping. As demandas do G77 e coalizões similares tornam impossível para um pequeno grupo de líderes da elite elaborar qualquer acordo global em particular.

Além disso, um número de nações latino-americanas, [...], bem como uma série de nações Africanas, demandam por reparações da dívida climática cometida pelos países ricos durante seus séculos de dominação industrial. Isso não quer dizer que todas as nações são iguais neste nível (ou, especificamente, no processo da cúpula), mas sim apontar que as hierarquias entre eles constantemente tem que ser negociada..

Um segundo nível do sistema emergente de governança global é o local onde as grandes corporações expressam seu poder. Os líderes corporativos, é claro, não eram oficialmente parte das discussões da ONU em Copenhagen, mas a COP15 foi, entretanto, claramente também um evento corporativo.

Embora grande parte do discurso oficial sobre a mudança climática envolve limitar práticas destrutivas de produção e consumo, "soluções verdes" são concebidas como um enorme campo de oportunidades de negócios. Isto é ilustrado de forma anedótica por uma das campanhas publicitárias mais visível durante a conferência, onde outdoors por toda a cidade tinham o slogan "Vamos fazer de Copenhague, Hopenhagen", em uma campanha patrocinada pela Coca-Cola, SAP e Siemens. Mais importante, porém, é a perspectiva de que a criação de enormes mercados de carbono (um componente provável de qualquer acordo eventual) irá fornecer uma expansão de oportunidades de investimento financeiro e lucro.

Um terceiro nível foi representado em Copenhague por um grupo variado de ONGs, organizações de defesa ambiental, meios de comunicação, e, o mais interessante, as organizações de direitos indígenas. Alguns desses grupos apoiam os esforços dos Estados-nação no primeira nivel e / ou as empresas no segundo, enquanto outros tentam combatê-los.

Em Copenhaguen, então, eu vi como as estruturas emergentes de governança global requerem um processo constante de negociação e colaboração dentro e entre esses três níveis. Este é um processo complexo que envolve uma série de estritas hierarquias internas, assim como a exclusão de uma grande variedade de vozes e populações, mas também abre a possibilidade de recusa e rebeldia de uma variedade de atores. Dentro dessas estruturas de governança global aparecem constantemente forças que podem reorganizar as hierarquias e até, às vezes, criar rupturas no sistema.

Fora da cúpula oficial em Copenhaguen, na verdade, na segunda cena de luta sobre o comum, uma das estratégias mais interessantes dos ativistas e movimentos sociais foi atuar em uma divisão entre os poderes dentro das reuniões. O conceito primário de "Reclaim Power" coordenou ações na quarta-feira, 16 de dezembro, que conectou "walking in" com "walking out”. [...]

Juntos, esses dois grupos, então, organizariam uma "cúpula do povo". A polícia dinamarquesa, através de prisões em massa e outras táticas, deixou claro que os dois lados não se encontravam [...] O significado conceitual do esforço, no entanto, ficou claro para todos os envolvidos, uma vez que "walking in” / “walking out" não só abre o processo decisório, mas também destaca os tipos de alianças que são possíveis dentro e fora das estruturas de governança global, as alianças que têm o potencial de criar alternativas reais

Devemos ter em mente que a base de tais alianças repousa sobre alguns conceitos fundamentais da gestão e da instituição do comum. Por exemplo, os principais mecanismos para enfrentar a mudança climática promovida pelas forças dominantes, como "cap and trade", envolvem transformar o comum em propriedade privada e, especificamente, transformar as emissões de carbono e de direitos de poluição em mercadorias e criar mercados em que podem ser negociado.

Essas estratégias são realmente compatíveis com a ideologia neoliberal e sua convicção de que a privatização sempre leva à eficiência. Os vários grupos de oposição que podem potencialmente formar alianças defendem uma variedade de soluções diferentes, mas todos concordam em sua hostilidade à estratégia neoliberal e a privatização do comum.

Finalmente, o que mais me interessou em Copenhagen foi a evolução dinâmica conceitual que teve lugar entre os diferentes componentes dos movimentos de protesto. Todo mundo estava bem consciente de que esta reunião realizou-se no aniversário de dez anos dos protestos de Seattle da OMC, e parecia natural refletir sobre onde nós estamos. Dentro dos movimentos de protesto, uma linha de divisão ou dinâmica de negociação que parece ser particularmente relevante para mim pode ser expressa em termos das duas formas do comum que eu mencionei anteriormente, o que implica, pelo menos aparentemente, duas diferentes abordagens políticas.

Por um lado, os que se concentram na primeiro forma do comum (incluindo a Terra, as florestas, a água e a atmosfera), tendem a destacar as limitações necessárias de uma política futura porque, na verdade, esta primeira forma do comum é realmente limitado. Um dos cartazes mais inteligente na manifestação de massa na semana passada, por exemplo, declarou: "Não há nenhum planeta B", o que significa que não temos alternativa senão enfrentar os limites dessa terra agora.

Por outro lado, as perspectivas em foco na segunda forma do comum (como idéias, conhecimentos, imagens, códigos, afetos, e assim por diante) concentram-se sobre as formas de acesso aberto que podem realizar o nosso potencial ilimitado para a criatividade e a produção, pois na verdade, essa segunda forma de o comum é ilimitada. O slogan "Nós queremos tudo para todos," um dos favoritos dos movimentos alter-globalização na última década, enfatiza tais possibilidades ilimitadas.

Houve, assim, claramente potencial para o conflito em Copenhagen entre ambientalistas exigindo uma política de limites (argumentando, em essência, "este mundo é ainda possível, talvez") e os activistas alterglobalização defendendo possibilidades ilimitadas (cantando "outro mundo é possível"). Mas tal conflito de fato não aconteceu.

No final, eu suspeito que a dissonância conceitual que reconheço entre os limites e o ilimitado é realmente um falso problema, e que os movimentos vão nos mostrar como essas posições não são contraditórias. Isso me lembra, de fato, de um outro falso problema que parecia carregar os movimentos de protesto, há dez anos, a aparente contradição entre o global e o local

Naquela época, aqueles que se oporam à globalização neoliberal corporativa promovida pelos atores dominantes na OMC foram rapidamente rotulados anti-globalização e, portanto, a favor da manutenção das fronteiras [...]. Levou tempo para os movimentos desenvolverem uma noção substancial de alter-globalização, que revelou que a contradição entre o global e o local era um falso problema. Hoje, meu sentimento é que os movimentos irão desenvolver uma política do comum que tanto reconheça os limites reais da terra e estimule a nossa capacidade ilimitada de criação – construção de mundos ilimitados em nossa terra limitada. Os encontros em Copenhaguen, em qualquer caso, foram um primeiro passo nessa direção.

domingo, 12 de setembro de 2010

biopoder e resistência nas favelas

Na mídia de massa, as políticas que se centram em valores modernos como crescimento econômico, urbanização e erradicação da pobreza são louvadas. Até ai parece que tudo bem, mas essas políticas e o discurso das mídias marginalizam cada vez mais os pobres, reforçando a subjetividade burguesa.

No entanto, os pobres não são agentes sociais negativos, eles têm sua potência; isso é visto em toda uma rede que tenta produzir relatos que mostram a sujeira dessas políticas e de seus representantes, a mídia.

O confronto entre a macropolítica e pobreza pode ser contemplado em notícias referentes às UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadora).

No CMI é dito que a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas em 2016 fazem com que o Rio de Janeiro se prepare “para novos negócios, novos empreendimentos. A cidade dos contrastes precisa de mais máscaras que escondam a miséria, a desigualdade, a injustiça. [...] Várias favelas da zona sul e centro foram escolhidas para serem dominadas pelas UPP's”.

Ainda no CMI, há denúncias de abusos das UPP’s. Estas têm como desculpa a invasão de favelas para erradicar o tráfico, mas a repressão atinge também os moradores. Segundo o pessoal do Complexo do Borel, uma das áreas invadidas “toques de recolher, revistas vexatórias, invasões de residências, saques, agressões, torturas, humilhações e vários outros tipos de abusos vêm sendo cometidos pelos policiais contra os trabalhadores que vivem nas favelas do complexo.”

Até mesmo a cultura das favelas não fica ilesa, como é visto no gerenciamento de bailes funks pela polícia. Segundo texto da Folha de SP, no qual é dado mais atenção ao ponto de vista da policia, sendo seu porta-voz, os bailes “não poderão disseminar conteúdo pornográfico nem os chamados proibidões (funks que fazem apologia ao crime). [...] É a hora do funk de respeito."

“... Foucault definia o ‘biopoder’ como um ‘assalto’ do poder à potência da vida da população considerada como espécie, como principio produtivo...” (Giuseppe Cocco em MundoBraz).

O poder de segurança, a sociedade de controle, é o biopoder. As políticas do Estado e suas UPP's são exemplos desse poder sobre a vida. No entanto, a favela é foco de resistência, e tem suas positividades: nascem da busca por melhores condições de vida; nelas surgem movimentos de moradores que lutam por seus direitos, regularização; também as favelas fazem autoconstrução do ambiente urbano.

“... em lugar de sumir as periferias resistem – e falam cada vez mais alto, produzindo mundos culturais paralelos (...) dentro dos quais passa a viver a maioria da população dos vários países, inclusive do Brasil” (Cocco em MundoBraz).

Mesmo com as favelas invadidas pelas UPP's, o poder da vida resiste. Encontrei no youtube vídeos-clipe de músicas que fazem crítica ao domínio da polícia nas favelas, tendo como pano de fundo imagens de pessoas do tráfico. Mesmo que os vídeos façam apologia ao "crime", eles são gritos de resistência. Posto alguns abaixo.







domingo, 5 de setembro de 2010

Climate Camp

“Ação direta é uma forma de activismo, que usa métodos mais imediatos para produzir mudanças desejáveis ou impedir práticas indesejáveis na sociedade, em oposição a meios indirectos, tais como a eleição de representantes políticos que prometem soluções para uma data posterior... "(WIKIPÉDIA).

Segundo Bruno Andreotti (em sua dissertação, "Poder e resistências: uma cartografia do movimento de movimentos"), “há uma diferença entre a prática anarquista da ação direta como experimentação da liberdade, como prática de liberdade, afirmação de uma resistência que se exerce, e a ação direta como instrumento para alcançar um objetivo, um meio para determinado fim, ou ter determinada reivindicação atendida.”

Um exemplo de ação direta contemporânea, que agencia os dois tipos de práticas expostas por Andreotti, mas que dá mais importância à ação “como experimentação da liberdade”, é o Climate Camp. Este faz acampamentos em lugares inusitados, como o centro de cidades, principalmente no Reino Unido, e tem como foco a insurgência contra as políticas capitalistas do Império que afetam o bem comum da multidão, a vida no planeta. O Climate Camp escolheu as alterações climáticas como símbolo desse poder sobre a vida.

“Os acampamentos começaram em agosto de 2006, quando 600 pessoas reuniram-se na maior fonte do Reino Unido de dióxido de carbono para dez dias de aprendizado e vida sustentável, que culminou em um dia de ação de massas. Em 2007 o Climate Camp fez ações contra a expansão do aeroporto de Heathrow, a poucos metros do local, com mais de 2 mil pessoas. Em abril de 2009 concentrou-se nas causas subjacentes às alterações climáticas, o sistema econômico mundial, montando um acampamento no G 20.” (do About Us do Climate Camp). Ainda em 2009, em dezembro, aconteceu um acampamento em Londres em uma das áreas mais movimentadas do mundo como protesto contra a COP 15. No mês passado a tática ocorreu na Escócia.

“Cada acampamento trabalha com quatro temas fundamentais: educação, ação direta, vida sustentável e a construção de um movimento para combater eficazmente as alterações climáticas. As pessoas que participam são voluntárias; gente como professores, enfermeiras, doutores, jovens trabalhadores, artistas, estudantes, carpinteiros, encanadores.” (do About Us do Climate Camp). O movimento é aberto, descentrado em inúmeros grupos. Como outras resistências atuais não têm líder, não se refere a partidos ou a tipos de organizações tradicionais.

Busquei imagens no youtube sobre os acampamentos, e encontrei algumas coisas. Do famoso Camp realizado conjuntamente a COP 15 na Trafalgar Square, em Londres, tinha pouca coisa. As imagens mais significativas eram de um documentário feito pelos próprios campistas da invasão da área central de Londres, durante o G20 de 2009. Postarei o documentário no fim do texto.

Nas imagens dá para ver um acampamento (literalmente) no meio das ruas, com barracas, gente cantando, palavras de ordem, uma coisa meio hippie. No entanto, encarando-o no vídeo, pela forma de re-apropriação da cidade, dá para perceber uma semelhança com táticas situacionistas, como a psicogeografia e a deriva que eram atualizadas na cidade.

Essas táticas, feitas no tecido urbano, possibilitavam um devir-menor da cidade e um devir-cidade para a trupe de Debord. O devir é uma linha de fuga frente aos modelos dominantes, ao que está estabelecido. Estes duplos devires concerniam a linhas de fuga referentes à subjetividade urbana dominante da época dos situacionistas: o operário assalariado, massificado, consumidor.

Nos acampamentos a cidade entra em devir, se torna minoritária, abre-se para um novo campo de possíveis. A cidade e seus sujeitos, rotinas, necessidades, seu diagrama de poder fogem para todos os lados. No entanto, diferente dos situacionistas, o objetivo dos acampamentos é a insurgência ao capitalismo global, que afeta a todos, afetação simbolizada nas mudanças climáticas, que são gerenciadas pelos países e corporações dominantes.

Também, diferente dos situacionistas, os acampamentos enfrentam uma outra forma de poder, a sociedade de controle, com suas capturas em espaço liso, suas formas de apropriação da subjetividade que se estendem por toda a vida. Por fim, o pessoal de Debord era uma vanguarda, para poucos. Os acampamentos reúnem milhares de pessoas e, mesmo que estejam localizados no Reino Unido, fazem parte de outros movimentos globais como o
Climate Justice Action.



sábado, 28 de agosto de 2010

o Centro de Mídia Independente Brasileiro


O CMI-Brasil faz parte da rede de Centros de Mídia Independente (indymedia) que tem como mecanismos mais visíveis sites de noticias. A rede é mundial, está presente em todos os continentes. Cada centro é autônomo. Mesmo assim, eles colaboram entre si e compartilham elementos: são abertamente anti-estatais, anti-corporativos, prometem fazer coberturas contra-midiáticas, os membros não são profissionais, e mais que comunicadores são ativistas.

O CMI-Brasil é um caso particular. Os temas das matérias dizem respeito principalmente a questões brasileiras, mesmo que haja espaço para a América do Sul e Latina e, em tamanho reduzido, para questões globais. O localismo do CMI-Brasil aponta sua potência; seu foco é os pobres brasileiros, que ou são representados nas notícias ou produzem suas próprias notícias. Esses pobres são os movimentos de luta e resistência.

O que eu realmente gostaria de salientar, é a negação pelo CMI da pauta midiática majoritária brasileira. Não foi publicada nenhuma matéria sobre os presidenciáveis no site nos últimos meses; como também nenhuma pesquisa de opinião ou estatísticas sobre as eleições, e nem será publicado. O CMI abertamente nega esse lado da política: a política dos gabinetes, das instituições, dos poucos que agem sobre os muitos.

A proximidade com o “tema eleições” apenas pode ser contemplada numa matéria do dia 23 de agosto que faz campanha contra a representação do Estado, na qual é dito: "queremos que a responsabilidade do governo não seja exclusiva de um grupo, que não haja dirigentes profissionais.”

No entanto, a negação da pauta midiática majoritária é realizada em parte, pois o CMI é divido em dois tipos de publicação, uma feita por seus membros (ou proposta a partir de textos principalmente de movimentos sociais), e outra por qualquer um mediante sistema de publicação aberta.

Os membros seguem rigorosamente a política editorial do CMI, política mais que razoável, criada a partir de posicionamento ético e que concerne aos temas antes expostos. Já a publicação aberta, que deveria ser o grande trunfo do CMI, por permitir que qualquer um se torne produtor, traz uma multiplicidade de assuntos, e parte, não insignificante, gira em torno das questões eleitorais.

Ou seja, a criatividade do CMI de escapar da pauta midiática, da grande política, é impedida exatamente em seu mecanismo mais importante. Digo criatividade, pois esse discurso sobre as eleições é corrente, faz parte das opiniões, é um discurso dominante, que ao ser rompido produz um contra-discurso poderoso que concerne a uma outra política.

Global Brasil

A revista Global Brasil surgiu a partir dos Fóruns Sociais e busca fazer um apanhado das lutas da multidão, tanto globais, quanto da América Latina e do Brasil. Em suas doze edições (a última é deste ano) estiveram presentes teóricos firmados ligados às resistências, entre eles: Giuseppe Cocco (autor de MundoBraz, companheiro de escrita de Antonio Negri), Suely Rolnik (que escreveu com Félix Guattari, Cartografia do Desejo), Ivana Bentes, Cezar Altamira, Fábio Malini. Também teóricos renomados mundialmente colaboram com a revista como Antonio Negri, Michael Hardt e Paolo Virno.

É interessante notar que são correntes na Global conceitos criados por Antonio Negri, como: multidão e Império, biopoder e biopolitica, produção do comum, projeto de democracia, entre outros. Assim poderíamos dizer que a revista assume para si uma posição Negriana.

Os temas da Global centram-se na luta da multidão, por democracia, fim das desigualdades, por direitos. O grande tema seria pensar nas possibilidades de abertura dos governos, fazendo com que eles expressem a multidão e não a represente.

A expressão da multidão a coloca em um espaço ativo, fazendo com que o Estado, como governo de poucos sobre muitos, se abra em rede a inúmeras singularidades, descentrando o poder. Por compactuar com o projeto Negriano, a revista também discute a possibilidade de governança que produza alternativa à dependência ao mercado global mundial do Império.

A Global percebe na emergência de governos de esquerda na America do Sul uma mudança que poderia abrir um campo de possíveis para a radicalização democrática; mas lúcida não se alia a partidos, ao Estado, máquina representativa, muito menos a corporações e sua falsa representatividade.

O caso do Brasil é central nas discussões. Um tema resume o posicionamento da revista, o Bolsa Família, que é exposto em inúmeras edições. Este, como em projetos parecidos na Europa e América do Norte, garante renda para os pobres. A existência do Bolsa Família significa que todos são produtivos, que a vida é levada a produzir e assim sofre capturas. Essa vida seria valorizada financeiramente.

Também a pobreza como tema se alia a um outro tipo de relação com a pobreza na Global, pois esta não tem os pobres apenas como conteúdo, mas dá espaço para eles se exporem. Na última edição, inúmeros artigos e manifestos de movimentos discutem as condições de vida nas favelas e seu enfrentamento com certas políticas públicas (a maioria); estas veem os "favelados" como vidas que não merecem ser vividas, como estorvo, como resquícios pré-modernos.

A última edição da Global Brasil está disponível aqui. Os outros números podem ser baixados aqui.

domingo, 22 de agosto de 2010

produção e captura nas mídias

É difícil não buscar informações nas grandes mídias, talvez por hábito. Elas fazem seu serviço, nos dão informações sobre o presente, no entanto o presente que elas representam é o das instituições, do mercado, da política dos gabinetes, e quando as mídias olham para as ruas, o que veem é a violência que deve ser controlada pela polícia: o crime ou os movimentos da multidão. O consumo é louvado, o Estado posto em posição de destaque, já os pobres devem ser eliminados, em políticas públicas ou em seu próprio discurso.

É difícil não estar conectado com as grandes mídias, mas cada vez é mais fácil. Segundo Fabio Malini, essas mídias perdem sua hegemonia, pois a multidão sabe, e muito bem, que não dá para confiar nelas. Essa crítica feita pela multidão expõe sua sabedoria. A negação das mídias é clara no desenvolvimento acentuado de canais alternativos. Quem quer informação busca em fóruns, blogs, sites, as grandes mídias são apenas mais um canal possível de informação, que todos têm com desconfiança.

Interessante, pois esse movimento de resistência contra as grandes mídias, essa resistência primária que simboliza um não, é conjunto a outro, pois esses que buscam informações, também criam informações. Esse segundo gesto aponta a positividade da multidão. Um dos aspectos do pós-fordismo é que os tempos de produção e re-produção se confundem: estamos sempre produzindo, a qualquer momento e lugar. Assim sofremos explorações em toda vida, mas também nela resistimos.

Os blogs, os sites, as redes de comunicação, são feitos a partir do desejo de produção que escapa das valorações capitalistas. A internet é o meio para a criação de linguagens, idéias, informação, comunicação, e assim de relações, afetos, sociabilidades, características do trabalho hegemônico do pós-fordismo, o imaterial.

Produzir na internet exige, além do desejo de comunicar, não muito, um computador e uma conexão, e conhecimento mínimo de informática e da língua. O acesso hoje é quase para todos; qualquer um pode pagar alguns reais para uma lan house. O resto só não é possível, mesmo no Brasil, para uma minoria.

Os mecanismos mais importantes da internet são os agenciamentos entre a busca e produção de informação diferencial. Locais em que a dicotomia emissão e recepção é visivelmente esmaecida, como nas publicações abertas. Exemplo é a Wikipédia: projeto colaborativo, sem fins lucrativos, que é centrado em um desejo por conhecimento. Ali a produção é aberta e colaborativa. Aberta, pois qualquer um pode publicar; colaborativa, pois após a publicação ela sofre controle por parte da multidão que complementa, sinaliza, exclui – isso pode ser visto nos comentários que acompanham cada verbete.

Essa é outra característica da produção atual: ela é feita em redes de colaboração e comunicação. Aliás, a multidão conceituada por Negri e Hardt é uma rede de singularidades que agem em comum: rede que deseja outra realidade, inteligente, não centrada em individuo soberano, como o povo.

Interessante que a Wikipédia funciona e muito bem. As informações são mais que eficientes para um tipo de pesquisa rápida e direta. É claro que a Wikipédia é o lado positivo da internet, o lado negativo são os bancos de dados, feitos para poucos, para aqueles que só podem os usar mediante relações financeiras: jornais, revistas, produtos como filmes, softwares, músicas, livros, ou mesmo os grandes portais que têm como fim o lucro: como no caso da TV e do rádio, se tem acesso, pois a publicidade paga.

Assim há dois movimentos: a captura pela lógica do lucro, pelos capitalistas; a fuga para todos os lados da multidão. Um é o poder da vida, a produção, a criação, o desejo, outro o poder sobre a vida, a captura do desejo pelo mercado.

os movimentos por outra globalização hoje

Tenho encontrado cada vez mais trabalhos acadêmicos sobre os movimentos antiglobalização, principalmente aqueles situados entre Seattle 1999 e Gênova 2001. Estes acontecimentos seriam algo como o 1968 contemporâneo, nos quais lutas em rede, a partir de multiplicidades de singularidades agindo em comum, se insurgiram contra o Império (este também em rede) e seu capitalismo mundial.

Essas lutas entraram em crise em Gênova, passando para uma nova fase nos Fóruns Sociais Mundiais. Também em 2003 protestos em todo o globo contra a guerra manifestaram a expressão da multidão. Porém a ressaca pós-11/9 já havia capturado os movimentos: ficou difícil de se locomover pelo mundo atrás de manifestos após a queda das torres gêmeas: um estado policial se impôs contra manifestações, e boa parte dos grupos preferiu dar atenção às questões da guerra, deixando a luta contra o capitalismo na geladeira. Por fim a guerra proclamada por Bush foi um choque para aqueles que desejavam paz, liberdade e democracia imanente absoluta.

Depois disso, acontecimentos de grande impacto não mais seriam realizados. Muitas singularidades simplesmente desapareceram, e o Fórum Social que já representava o fim das práticas de ação direta deixa de ser alternativa. Bem, essa é a história que ficou para trás, e que está sendo contada.

No entanto, ainda há a presença de multidões que resistem em cada encontro de líderes da ordem mundial. Os dois exemplos mais significativos da realidade imediata foram o último G20 no Canadá que permitiu manifestos com mais de vinte mil pessoas, e o acontecimento de maior porte, que fez com que fosse reavivado o imaginário das lutas de Seattle, a COP-15. Nesta, 100 mil pessoas lutaram abaixo da repressão em peso da polícia em Copenhagen, e mais, também aconteceram manifestos globais maciços, principalmente na Inglaterra e na Austrália, ambos com mais ou menos 50 mil pessoas.

Seattle abriu um campo de possíveis que continua a ser atualizado. As formas de luta, de criação de espaço comum, os discursos, a multiplicidade de singularidades, sujeitos, dispositivos, táticas, presentes na COP 15 em boa parte devem à Seattle. Pelo menos se aprendeu muito com aqueles dias de ação global.

Descendo para o empírico, alguns grupos que estiveram presentes em Seattle e Gênova ainda estão ativos nos dias de hoje. Um deles é o Reclaim the Streets (RTS), coletivo inglês que toma as ruas em carnavais contra o capitalismo. Parece que não há mais interesse pelo RTS na luta contra o capitalismo através do choque direto ao Império nas reuniões de seus líderes; mas continua organizando suas festas. O último encontro do RTS foi em Londres em um squat. O papel significativo do RTS nas lutas globais foi exposto no livro Urgência das Ruas.

Outro grupo é o Black Bloc. Este é o lado mais violento dos movimentos de resistência. Destrói propriedade privada ligada a grandes corporações. Entra em conflito com a polícia. Os Black Blocs são abertos, qualquer um pode fazer parte. Não é um grupo específico, mas uma tática de ação direta.

Os Black Blocs causam controvérsia, pois muitos os consideram como deslegitimadores de manifestações, isso aconteceu tanto em Genova quanto na COP-15. Antonio Negri diz que os Black Blocs são facas de dois gumes, pois secciona os movimentos, mas atraem a atenção das mídias.

Seria importante um mapeamento das continuidades de Seattle e das novas linhas de força atuais. Se as características mais importantes de Seattle eram a rede de singularidades que agem em comum, aberta, que busca a atualização de democracia em espaço local, as práticas de ação direta, a luta comum contra o inimigo global, o capitalismo mundial, vemos que a COP-15 foi manifestação de ordem parecida com aqueles movimentos da virada do século. Um grupo se formou em Copenhagen com essas características, o Climate Justice Action.

Este é uma reunião descentrada, com a forma de rede, de inúmeras singularidades de todo o mundo, também do Brasil. Após a COP 15 o Climate Action continua firme fazendo suas ações; já aconteceram diversas esse ano e agora há a preparação para a nova conferência do clima em Cancún.

domingo, 15 de agosto de 2010

ainda sobre as eleições

Saiu mais uma pesquisa de opinião do datafolha que foi estampada na capa do jornal Folha de São Paulo. Dilma está apenas a três pontos de ser vitoriosa no primeiro turno. A Folha de sábado (14 de agosto) dedicou boas páginas sobre a ascensão de Dilma e o PT. As mais interessantes foram as da seção Opinião.

No editorial foi dito: “num momento em que aumenta a sensação de bem-estar provocada pelos bons ventos econômicos, o poder de inércia do continuísmo parece difícil de ser contido.”

Já a Opinião de Cesar Maia teve como título “Chavismo tupiniquim”, na qual ele faz aquela relação que todos bem conhecemos entre Lula, Chaves e Cuba; o Lulismo (que como sabemos terá continuidade com Dilma, pois, como diz o jornal em outra opinião do mesmo dia, ela é “a mulher de Lula”) seria algo entre os regimes “autoritários bolivarianos” e uma “democracia”. Maia ainda faz estranho comentário sobre o PNDH: este seria ataque a valores morais, e assim sinal de autoritarismo (?).

Por fim, as duas últimas opiniões, uma é sobre as FARC e a outra fala sobre Chaves. Lembremos que Serra e seu vice fizeram publicamente declarações de que o PT tem vínculos com a organização colombiana.

O que dá para concluir com tudo isso: a Folha não tem o menor pudor em tentar atacar Lula, o PT e, assim, Dilma. A Folha não tem medo de fazer parte do PIG – o Partido da Imprensa Golpista que se refere principalmente à tentativa de ataque ao governo Lula pela imprensa brasileira. Também o PIG historicamente tentaria deslegitimar qualquer governo mais à esquerda no país.

Segundo Paulo Henrique Amorim “o termo PIG pode ser definido da seguinte forma: Em nenhuma democracia séria do mundo jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político — o PiG, Partido da Imprensa Golpista.” (WIKIPÉDIA)

Esse tipo de jornalismo tem como seus casos mais extremos a Veja, Olavo de carvalho, e aqui no sul Diego Casagrande. Mas jornais como a Folha são talvez mais perigosos, pois não afetam apenas os mais ingênuos (aqueles que são leitores da Veja), pois seu ar de jornalismo sério, imparcial, objetivo, principalmente, elitizado permite a Folha fazer sua guerra mantendo a pose.

No entanto esse poder das grandes corporações de mídia, do PIG, na atualidade é relativo, pois os receptores não são ingênuos, eles reconhecem a guerrilha da informação, fazem sua resistência; e essa resistência é vista na popularização da internet.

Segundo o verbete da Wikipédia sobre o PIG citado acima, Lula teria sido eleito pela sua publicização na internet.

Ou seja, sujeitos e grupos cansados do discurso unilateral produziriam seus próprios discursos, em blogs, fóruns, sites alternativos, ou buscariam canais diferenciados de comunicação. Assim há um jogo de forças: as mídias de massa tentam manter seu monopólio, a multidão foge para todos os lados conectada na rede.

Para finalizar, uma dúvida: por qual razão um governo integrado com o capitalismo mundial, como o de Lula, ainda incomoda? Sabemos que a mente é lenta; é difícil perceber as mudanças, que o PT não é o PT dos anos 80; mas não podemos subestimar a grande mídia, ela dever ter motivos que desconhecemos para tentar fazer o seu golpe (sujo). Possivelmente tenta testar seu poder no país.