sexta-feira, 1 de junho de 2018

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Esse texto não é um diário de notas, não são anotações sobre o que está acontecendo, mas é uma experimentação sobre o que está acontecendo, e, como é uma experimentação, não posso nomear a partir dos rótulos tradicionais. Não são palavras jogadas a esmo, não há espontaneísmo, como não há método. O fortalecimento, a consistência de um estilo, de uma ética - estética concernem a uma preparação calcada na cartografia. Experimentar territórios, criar linhas de fuga, perceber isso, projetar, projetar o caos.
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Há uma exigência de organização nos ppgs e muitos se orgulham, lutam por isso. Para o senso comum o método, o texto bem construído e não dispersivo, as regras duras são um bem, o fim último a ser atingido. Para o senso comum, o cidadão comum é desorganizado, infantil, espontâneo, e nos ppgs os pesquisadores buscam o máximo possível de organização; ou seja, uma lógica dicotômica: organização e desorganização. Porém, estando no ambiente acadêmico é extremamente fácil ser organizado, já que é um espaço controlado pelos olhos do grande irmão. A estrutura de um artigo, de uma tese, as regras próprias aos campos, as lógicas cientificas, mesmo estar em sala de aula, respeitar horários, tudo isso é fácil já que está dado, é da natureza do dispositivo. Agora produzir um caos projetado é muito difícil já que é pouco atualizado, trabalhado, experimentado na academia.
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Valorizar o trabalho, e valorizar ainda mais dizendo que é um trabalho sério, organizado e bem feito, isso é palavra de ordem, senso comum e todos afirmam isso. Difícil é largar tudo, ser um punk de rua, ser um okupa, ser um marginal, é tão difícil que pouquíssimos consegue ser. Deleuze e Guattari diziam que o corpo estratificado e organizado, o organismo, como percebemos o corpo é uma imposição do controle. Eles afrontavam essa imposição pensando no Corpo sem Órgãos; este não pertencente a um sujeito, um corpo criado, inventado a partir da cartografia. Contra a organização a criação de agenciamentos, experimentações, ou seja, o caos projetado. A cartografia é o caos projetado, afrontar o grande irmão a partir do terceiro olho. 
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Para mim, é impossível escrever um texto espontâneo já que a ética - estética que me alio guia minha existência e, portanto, minha escrita. Esta ética - estética diz respeito ao confronto com o controle, os seus olhos, ou seja, o grande irmão; ela se atualiza na minha existência: na forma como eu vivo, me relaciono, penso, sonho, desejo, enlouqueço, percebo, sinto, produzo, ou seja, nas linhas próprias à subjetividade. A experimentação é tentativa e erro, e o erro faz parte do processo, é a linha de fuga frustrada ou friável que leva a outras linhas de fuga. O olhar do grande irmão, um dos efeitos do controle, é afrontado de inúmeras formas, mas o controle é afrontado de mais e mais formas. Os olhos são uma das formas de controle: câmeras por toda a parte, olhos de todos sobre todos, os próprios olhos que se olham, o controle mesmo nas visões do terceiro olho, como nos sonhos e delírios visuais. Sim, identificar, capturar pelo olhar é a forma mais fácil, mas visibilidade é uma das linhas dos dispositivos, o controle não se reduz obviamente aos olhos do grande irmão.  
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Produzi um texto para o pós doc. Tinha como objetivo continuar o texto, porém senti uma necessidade de cair fora, pelo menos por um tempo. Não me preocupo mais com o lattes, não estou pensando em fechar meu livro, que já tem mais de trezentas páginas. Não ter um note book me ajuda a não estender o trabalho. Esses tipos de preocupações, objetivos, sentidos, trajetos delineados servem apenas para controlar.  Preciso cair fora das lógicas dominantes para ter contatos com o fora, e ele que me permite produzir. Um assassino, um Killa, um suicida, um presidiário, se produzem no campo de saber, podem criar coisas maravilhosas, já que são subjetividades diferenciais. Os loucos, os drogados, os do terceiro olho, sabemos que eles fazem isso e muito bem, a história da filosofia e da arte nos mostram isso.
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Terminei o livro, decidi não finalizar. Entrei no pos doc decidido em finalizar o livro, daí meu note book pegou fogo. Parei de escrever, mas continuei produzindo. Como tenho um tablet passei a criar falas gravadas no aparelho. As falas são atualizações em áudio da minha escrita, têm o mesmo estilo, posicionamento, porém apresentam conteúdos novos em relação ao que já foi escrito. Eu simplesmente penso em um tema, faço uma narração mental e depois gravo direto, sem cortes. Algumas, poucas, eu tenho que regravar por perder o andamento ou por, após ouvir, não estar satisfeito. As gravo, posto no youtube e depois as deleto do tablet. Gosto da efemeridade, do caráter friável do dispositivo, da impossibilidade dessa produção ser capturada pela lógica do lattes. Voltei a escrever após conseguir um note book de mais de dez anos. Não queria mais escrever já que as falas são muito mais prazerosas de trabalhar. Porém, ao voltar, entendi a importância, a especificidade da escrita.
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No pos doc queriam me dar uma sala para eu trabalhar. Eu disse que não queria, que eu poderia usar os corredores como todos os alunos do ppg. Agora estou propondo ter a sala, mas como um espaço auto gestionado, trazer a sabedoria das ruas, das manifestações e das okupas para dentro do espaço institucional. Não digo que estou fazendo o pós doc, não quis a sala, não digo que sou um escritor, tudo isso cria uma menorização minha, me coloca em uma posição menor; isso concerne a um grau de diferença – a negação de si como sujeito pertencente a uma casta socialmente importante, a intelectual – que permite o contato com o fora. A autogestão do espaço se iniciaria pela minha experiência e seria um objeto com um problema: como pessoas que não têm conhecimento de autogestão se relacionariam com o espaço? Será que a autogestão não faz parte das subjetividades? Será que as revoluções face book centradas na horizontalidade e na produção em rede não atingiram mesmo aqueles que não se interessaram por elas? A macro política é fácil de ser percebida já que é mostrada pelo grande irmão. Pensam que a potência dos movimentos é a transformação da macro política, não entendem que é riqueza em si mesma. Os movimentos podem não mudar o poder e nem devem, mas atingem a todos de forma sub reptícia, molecularmente; outras subjetividades são criadas, outros devires. E como perceber isso se não está atualizado nos meios do grande irmão? Pensar apenas no atualizado, no óbvio, no visível, no que os olhos do grande irmão permitem ver, é fotografar o caos, reduzir o mundo. A ciência com suas lógicas recorta o real a partir do objeto, controla a partir das regras e métodos, organiza com a estrutura textual, busca uma verdade com o trabalho rigoroso, neurótico em cima de um pequeno pedaço do mundo; a ciência pensa em processos, mas a partir desse pedaço, ela busca algo que está dado, atualizado no objeto. A ciência olha a partir dos olhos do grande irmão, e a cartografia a partir do terceiro olho não busca a verdade, cria algo muito mais próximo da ficção do que dá ciência. Imitadores, de métodos, regras, leis, são os seres mais rasteiros do campo do saber, mas os poetas, os cartógrafos são os experimentadores, os mais próximos daquilo que chamam de criação. 
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Não ter a produção capturada, ter uma produção que foge é principalmente uma forma de viver, de não morrer em vida. Um poeta que não publica, um músico punk que não se encaixa no mercado, qualquer mercado, produtores imateriais nas ruas que não vendem sua produção, eles têm sua ética e são dignos. O objetivo mais comum de artistas é se encaixar na lógica mercantil, ou seja, eles são iguais a todos, querem fama e dinheiro. A questão ética, contra dominante, é não é se tornar alguém especial, mas sim criar existências singulares. O que é singularidade? Lógicas diferenciais. O pária vive uma existência que pode ser singular, mas ele não é especial, e se não quer ser então ele tem sua ética. O drogado e o vagabundo não produzem, isso diz respeito a sua ética. A criança não produz; as mulheres, os gays e os negros entraram como agentes produtivos a partir da inclusão e isso é recente. Quando o controle tenta capturar uma subjetividade, impondo o trabalho, e esta diz: não! isso é resistência.
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O pacto com o poder é sempre tendente as necessidades do poder, pactuar com ele é aceitar suas lógicas. Por isso, as demandas não devem existir, mas sim produzir para viver. A negação radical frente ao poder é a afirmação radical da vida. A história mostra que o poder dá migalhas para continuar sendo poder. O pacto que criou o Estado de bem estar, a inclusão das minorias, o esmaecimento das dicotomias, a criação da sociedade de parceiros, tudo isso aconteceu para termos a sensação de mais empoderamento, que mascara um endurecimento muito mais forte do poder. As mídias são um exemplo: as de massa ajudaram a educar o povo, trazer o não visto para o espaço público; as mídias digitais tiraram os sujeitos da posição passiva, de recepção. Para Levy a internet permitiria uma real democracia. Porém, as mídias intensificaram o controle exatamente naquilo que sempre foi considerado intocável, a subjetividade. O trabalho possível nas redes digitais, percebido como horizonte nos anos 90, seria o fim do trabalho explorado, seria o ápice do trabalho imaterial, intelectual e afetivo, criativo e prazeroso. Porém, o mercado sucumbiu na virada do século e levou a falência jovens promissores. Isso produziu uma depressão generalizada. Como disse no texto sobre Afro Killa: o empoderamento leva a uma compressão do mundo, e isso pode levar ao sentimento de insuportabilidade, já que o mundo é compreendido e os sujeitos sabem que ele vai continuar igual. O Prozac surgiu logo após o boom do trabalho imaterial. Não seria a depressão reflexo do empoderamento e da impotência frente ao controle? E o Prozac não foi a forma que o controle encontrou para domesticar ainda mais as massas, deixá-las felizes como consumidores e produtores, sujeitos passivos?
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Para os românticos a arte é o remédio, a medicina, para que não morram. Zeus quase mata, sonha em ser um Killa, por isso Afro Killa. A impotência pode levar a abolição, ao suicídio, ao assasinato. Se Zeus não enlouquecesse em sua arte estaria nas ruas matando – a loucura é uma das suas marcas, vista nos olhos injetados no vídeo. Para amenizar ainda mais ele precisou do amor, da musa, precisou da parceria, que é o amor entre os manos, de Pig, sempre ao seu lado impondo respeito. Zeus não luta sozinho, é Aquiles e sua turma, seu bando, sua legião, e Zeus já é uma legião infernal. O rap foi escolhido por ser violento, direto, por ser discurso critico. Tyson apenas arrancou com os dentes a orelha do adversário, se não lutasse boxe poderia ser um serial killa. Zeus é um possível homem bomba, nos seus olhos vemos que ele está explodindo. Os torturadores na época da ditadura precisavam torturar para se acalmar; assassinos matam para se acalmar; é o remédio deles. Os românticos têm a arte, mas precisam de outros remédios, como as drogas, o sexo livre, os desvios. A musa acalma também, já que o amor é uma forma de medicina. O amor Wertheriano era o amor abolicionista ou o sentido de uma vida? Depois de amar daquela forma nada mais era necessário. O “eu morro por você” dito pelos amantes é acreditar no amor, e se matar é exatamente sair da crença e provar, a prova de amor. As meninas sempre servem como mediadoras nas brigas dos meninos nas ruas, elas acalmam os ânimos muitas vezes apenas pela sua presença. E a musa está ali para isso. Zeus nos encara, quer briga, nós não brigamos com Zeus, já que a musa está ali, mediando, suavizando a vibe violenta dos Killa. A questão existencial é o mais importante do rap de Zeus, seu rap existencial. Zeus fala do que conhece, fala a partir do empoderamento sobre a vida insuportável. Zeus ensina o que fazer para não morrer, como todos se sentem, mostra a vida dos afetos, ilumina, já que Zeus é Lúcifer; e essa luz não mostra outro mundo, ilusório, isso é feito pela luz do cristianismo, é a luz que permite a visão do terceiro olho, luz vinda do fogo, fogo que incinera os signos dominantes. Lúcifer mostra o que não queríamos ver ou fingíamos não ver; não é o esclarecimento iluminista, mas desvelamento, o tirar da máscara do bom cidadão. Zeus mostra a angústia da juventude, a prisão, mostra aos adultos a vida que eles viveram e esqueceram e que hoje é experimentada pelos seus filhos. Se fossem mostradas, tornadas visíveis as angústias das crianças os adultos seriam destruídos; a iluminação e destruição Luciferiana. “Se as portas da percepção fossem abertas” como dizia Blake, o grande irmão seria destruído. Zeus dá uma grande importância ao uso de drogas em sua música, é uma das suas armas. Quando uma criança vira adolescente a partir das drogas, os pais obviamente ficam preocupados, isso é o óbvio, porém, eles ficam com medo de perder o trono, o poder, já que os filhos ficam mais fortes que eles ao usarem substâncias que a maioria dos pais tem medo de usar.  
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O controle deixou todos paranóicos, mais e mais, tanto que sentimos como se todos soubessem o que pensamos. O controle é a onisciência divina, vê e sabe de tudo, não há como fugir do controle, não há fora; e a punição é exatamente o controle, a vida impedida, e quando a saída é o suicídio o senso comum impede, como a lógica cristã fazia. A vida descontrolada é a resistência, sim, exatamente aquilo que chamavam de pecado.  
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Alex, o fora da lei, sem lei, o A-Lex, nos brinda com seu olhar chapado já na primeira cena de Laranja Mecânica. O plano é longo, dura, e mostra Alex e sua trupe sentados, chapados com sua droga favorita: leite com facas. De início a câmera fecha nesses olhos claros, com cílios postiços, com uma forma de olhar hipnótica. Depois a câmera vai abrindo, aos poucos, e mostra os membros da gangue todos chapados também com olhares em narcose. Quando a câmera mostra os corpos inteiros, vemos que eles não se movem, nem mesmo piscam, estão paralisados, seres hipnotizados que hipnotizam a partir de nosso olhar da cena. Mas não é só a droga que cria o olhar, mas também a ultra violência de Alex e sua trupe presente em seus olhares já que eles são Killas. A cena me arrebatou quando com 14 anos a vi chapado de maconha. Meu olhar chapado se conectou com tudo isso, e talvez eu tenha entendido que aquele olhar, o de Alex, era também o meu. Talvez eu tenha me afetado pelo olhar da musa já que ela é loira e de olhos claros como Alex. O mais interessante é que Alex é destruído exatamente a partir do olhar. Ele é condicionado a se tornar um bom cidadão, passivo, a partir de um tratamento que concerne em obrigá-lo a ver imagens violentas narcotizado por uma droga que o faz se sentir doente. Ele associa a violência, atualizada nas imagens, com a dor causada pela droga e a partir daí o seu desejo por violência lhe causa repulsa, o deixa terrivelmente nauseado. O grande irmão doma Alex pelo olhar, faz ele ver as coisas de forma diferente, e diferente para ele era ser o bom cidadão. O Cura no filme se revolta e diz a todos que ele não tinha mais escolha, o livre arbítrio. Essa é a natureza do controle, não temos escolha, e quando escolhemos somos muitas vezes presos, internados ou mortos.
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A minha resistência existencial está sempre em jogo com o controle. Não posso muito já que não quero ser preso ou internado. O que posso fazer aprendo a partir da experimentação, da minha preparação. Traço linhas de fuga, me perco em inter meios, me sinto afetado, depois sou re territorializado de alguma forma e fujo de novo. Dentro e fora, momentos de fora, e se o fora não virar depois um dentro daí a linha de fuga se torna uma de abolição. Parece uma fórmula, uma imitação da máxima de Deleuze e Guattari, mas não é uma fórmula, eles entendiam muito bem a vida, aprenderam com os da tradição romântica.
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As subjetividades são formatadas a partir de longos períodos de coerção. Hoje comunicamos nas redes o tempo todo já que a modernidade foi a época das mídias; as mídias sempre comunicaram pelo máximo de tempo possível de qualquer forma: falas vazias contínuas, redundâncias, como a mulher histérica que não se cala, fala qualquer coisa. Nos acostumamos com isso, esse tipo de comunicação contínua e vazia se tornou naturalizado. Nas redes a conspiração é impedida pela visibilidade e ninguém quer ser visto como um conspirador, um pária, um marginal. As redes são o espaço da fala hiper vigiada. A web era um espaço nômade que se tornou totalmente estriado. O facebook atrai de tal forma que não há como sair dele. O Google impõe os caminhos; youtube, net flix são redundantes. As ferramentas de busca tradicionais levam sempre para os mesmos caminhos; uma palavra postada qualquer leva para inúmeros sites de venda de produtos. A deep web aparece como opção.  A conspiração de Benjamim dizia respeito a outro paradigma, época que Foucault também tratava. Nessa época as tavernas eram o fora dos espaços vigiados; porém no controle a conspiração toma outras características já que parece que não há fora.
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Falar de mim não é um ato vaidoso já que não falo de mim, mas de linhas de fuga, uso um empírico que me ajuda a pensar os processos. Falar de si diz respeito ao mais raso, empírico, ao cotidiano; crianças escrevem seus diários, cronistas, os escritores mais baixos, falam de sua existência. Ou seja, falar de mim é uma menorização do trabalho, e isso é importante já que se choca com os olhos do grande irmão, esses olhos que impõem a todos a espetacularização de si: dizer-se orgulhoso de sua vida, de sua carreira, de suas produções. Ninguém diz que é um sujeito baixo, vil e rasteiro, mesmo que saiba que é, e todos são, o capitalismo impõe a podridão das relações, então todos são maus. O homem não é mau, mas o sujeito do capitalismo é mau. Ele passa por cima de todos para manter sua pose, seu espetáculo particular. As redes sociais, os avatares, os perfis particulares são exemplo disso. Se não são ricos, se são feios, se são intelectualmente débeis, se são fracassados, mesmo assim nunca dirão que são, já que têm que se sobrepor aos outros, mesmo que seja a partir de uma ilusão. Falsear sua imagem para bem vendê-la, essa é a lógica do capitalismo, mentir, roubar para conseguir algo, nem que seja apenas auto estima. E todos fazem isso e mascaram, ou fecham os olhos para não perceber. Chamam de jogada de marketing mentir para vender um produto, e isso é uma forma de mascarar a sujeira do capitalismo.   
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Moro em um prédio de classe media e sou o único do prédio que freqüenta a parte marginal da rua, estou sempre na rua. Na rua, na minha rua, há traficantes, ladrões, mendigos, michês, prostitutas, rappers, skatistas, maconheiros, viciados em muita coisa, e estou sempre com eles. O que faço nesse espaço é diferente do que faço em outros. As ruas são os espaços controlados, trajetos delimitados. Espaços têm sua especificidade, mas conjugados compõem o dispositivo cidade. Em certos espaços são permitidas certas experimentações, cada espaço possui suas linhas de fuga. Como a cidade é pequena, às vezes vou até a zona mais rica, falo com amigas que trabalham numa loja, e depois vou para um bar aqui do lado repleto da marginália. Me sinto bem com isso, com esse choque de fauna e paisagens. E a Cidade Baixa é isso, já que Porto Alegre é assim, essa contradição interna, desigualdades sociais no mesmo espaço. Os hipsters, os de bom gosto, comem suas comidinhas nas mesas postas nas calçadas ao lado do esgoto na bela rua arborizada, a República. Famílias de classe média, com seus caros utilitários, esperam na fila, no sábado e domingo, junto também ao esgoto e seu mau cheiro, para almoçar no Tudo pelo Social; algo parecido acontece no Geovanaz. Essa mistura não é harmônica, não gera uma paz entre os diferentes, não os aproxima, aliás, talvez até os distancie mais. A classe média necessita da pobreza para se sentir orgulhosa de si. Eles mostram os pobres para os filhos pequenos e dizem: não somos como esses animais. E os pobres necessitam deles para admirá-los. Necessidade de domínio e de ser dominado.  
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A contradição interna mais forte da sociedade de controle concerne às minorias que amam o padrão dominante de vida, que almejam ser a classe média, ter dinheiro seja como for. Os gays fizeram um pacto silencioso com o poder para terem dinheiro, assim, uma subjetividade de resistência se tornou incluída, o mesmo com mulheres, negros, etc. O pós-moderno é a era da potência dos monstros, mas a monstruosidade pode ter virado norma já que não há mais fora: feministas fascistas, anarquistas estadistas, esquerda fascista, gays capitalistas, budistas capitalistas. O Rap, e Zeus, não estão de fora do jogo. Zeus, possivelmente, quer ser alguém bem sucedido, como todos os músicos. O Rap, em certos segmentos do rap, há a ostentação. Essa é uma marca dos musicistas negros. Os blueseiros ou jazzistas negros quando ganhavam um pouco de dinheiro investiam na vestimenta, que é a forma de se mostrar ao mundo. Mas em um mundo em que há, como disse, feministas fascistas, esquerdistas fascistas, gays capitalistas, budistas capitalistas... ao reconhecer a loucura da sociedade, não há motivo para julgar os rappers. Todos os sujeitos do capitalismo são maus.
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Acabar o doutorado fez com que eu sentisse algo de liberdade. A clausura foi dura por mais de quatro anos. Depois da prisão, fiz a festa e ela não terminou. Hoje me penso não como intelectual, mas como poeta, e não como poeta, mas como comediante. A minha comédia não se atualiza apenas na escrita, mas na fala, e também nas falas e gestualidades na rua. Os olhos do grande irmão, o controle, são meus objetos de resistência e são atualizados nos olhares de todos e também nos meus; sei que quando sonho o controle está ali, ou seja, em mim, por isso a experimentação, tentativa e erro. Tenho quarenta e dois anos e todos pensam que tenho 33 já que falo mole, me movimento de forma mole, sou esportista e me visto como quero, além de ser um mentiroso compulsivo, o que permite que eu invente histórias absurdas sobre minha vida. Aprendi que não tem como eu não ser notado pelo meu estilo, pelas minhas cicatrizes, meu porte, e uso isso exatamente para criar graus de estranheza nos ambientes que estou. Me visto de forma estranha, caminho de forma estranha, me relaciono com as pessoas de uma forma que ninguém se relaciona. Isso não é espontâneo, é o projeto, sei o que estou fazendo, aprendi experimentando, percebendo os outros, o que os outros pensam, como pensam, o que percebem, como percebem. As pessoas quando notam os outros os identificam e, se podem, os rebaixam. A lógica capitalista é a de ser o vencedor, o melhor, e se é vencedor não vencendo, mas estando acima dos outros. Assim, com 1 metro e 80 de altura, cheio de cicatrizes na cara, com tatuagens feias, sei que serei notado e intensifico isso exatamente para contemplar, curtir, me divertir com a percepção de todos. As formas de identificação são sempre as mais clássicas: gay, pobre, vagabundo, louco. Esses são os personagens que causam risos nos programas humorísticos: a bicha louca, o louco idiota, o pobre desletrado. Pareço um punk ou uma bicha, eu sei disso, e essa é minha menorização, me ajuda na dessubjetivação. Poderia usar la martina e nike shox nos sábados e domingos nos passeios familiares, como já fiz, e assim ser incluído, pelo menos mais incluído; eu sei me vestir como um pequeno burguês, ou como um hipster, todos sabem, mas me desmonto propositadamente. Acho interessante como as pessoas se assustam com qualquer tipo de diferença, com aquilo que chamam de diferença, como a imagem é importante para elas. Sim, são os olhos do grande irmão vendo, identificando. Comecei a usar algo simples, muito, que são mangas avulsas, mangas separadas da peça. Comprei em lojas de artigos para bike e comecei a usar no verão para não queimar a pele dos braços quando dirijo. Também quando está frio eu as uso, se não quero por uma camiseta de manga comprida, aliás, é muito mais barato ter elas do que comprar camisetas de manga comprida. Todos me perguntam maravilhados o que elas são e dizem que sou excêntrico. Uma simples manga lhes causa estranheza, como se fosse uma falha na matrix. As pessoas têm a necessidade extrema de segurança, e o que foge, o inseguro as coloca próximas ao caos, e elas têm medo do caos. Mangas, sim mangas, podem fazer revoluções, pelo menos em uma cidade do interior do Brasil. Outra coisa que faço com freqüência é ir em restaurantes veganos vestindo jaqueta de couro natural. Causo um mal estar, eu sei disso, mas as vezes acontecem coisas interessantes. Um dia um casal falou para eu ir no burger king, que ali não era meu lugar. Era um casal classe media, de bom gosto, que estava de carro, um carro caro, vestiam roupas da moda e usavam smart phones; eram os veganos incluídos, ecologistas de boutique. Ouvi muitas vezes no doutorado que eu não estava no meu lugar, por agir, me vestir, falar da forma que falo. Ou seja, me coloco como objeto, um chamariz, algo a ser notado, para eu ver as reações, entender o moralismo, os efeitos do controle.  Às vezes me sinto como se estivesse na parede sendo agredido por pedras, mas como é teatro, praticamente não me incomoda, incomoda e dói é perceber os olhos do grande irmão e a impossibilidade de não ser visto por ele, nem na frente do espelho. Eu sou igual a todos, tão mau quanto todos, sacana como todos, a diferença é que eu reconheço isso, não me mascaro dizendo que sou bom.
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O punk causava insegurança, caos, desordem por sua existência. Uma de suas marcas era o visual, aliás, no rock o visual, às vezes, muitas vezes, se sobrepõe ao musical: os olhos de Bowie, os de Joan Jett, a cara louca de Barret, a maquiagem e as roupas do glam, a beleza de Nico, a loucura no olhar de J Calle, o visual como o mais importante para Genesis P Orridge. Sid Vicious não sabia tocar, mas sabia criar cenas, espetáculos para serem vistos a partir da auto agressão, das brigas. GG Allin era um péssimo músico, mas criava espetáculos ultra violentos para serem vividos e vistos. O punk rapidamente virou moda nos 70, foi mercantilizado, já que o capitalismo recupera todas as produções, as torna produto. Warhol fez o inverso, tornou o produto um objeto artístico. Já como é fruto do grande irmão, o olhar, e ele é a primeira percepção a ser usada, então se usa ele contra ele. De dentro se produz as linhas de fuga, que são relações com o fora. O punk brasileiro, o punk dos países pobres, são, eram os verdadeiros punks, os punks do ABC talvez tenham sido os punks mais puristas. O punk não se monta, ele se desmonta principalmente no visual; ele pega uma calça velha e a rasga e coloca patches, compra um coturno e uma jaqueta de couro usados, mete alfinetes na cara. Daí depois disso, o punk se torna algo como um mendigo com estilo e choca a sociedade, que tem o olhar como percepção principal e o moralismo como base do seu pensamento. Baudelaire causava máxima estranheza com cabelos verdes, falas loucas, e tinha prazer em fazer isso. Wilde era um dandi gay, ou seja, duplamente ator do choque. Rimbaud aterrorizou Paris ao lado de Verlaine. Carvalho, os situacionistas, os filhos da contra cultura todos experimentaram o choque. Chocar é pouco, mas importante criar esse grau de diferença local, e a partir disso ver as relações construídas e perceber o moralismo, os olhos do grande irmão, a paixão pelo controle.  
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Incrivelmente nos últimos anos o uso de cigarros aumentou também entre os jovens. As pessoas estão mais saudáveis, senhoras de cinqüenta anos parecem meninas se não olhamos para os seus rostos que mostram a idade. Como todos estão mais saudáveis, pelo menos nas grandes cidades, locais com melhor qualidade de vida, as pessoas não têm mais medo de fumar. As imagens de alerta de enfermidades das carteiras de cigarros tiveram três momentos, de forma crescente, um mais chocante que o outro. No segundo momento já estava óbvio que eram imagens espetacularizadas. Essa tentativa de enganar os sujeitos pela área da saúde e pelo Estado pode ter gerado uma raiva generalizada, que se atualizou no uso. O Estado disse “não” e todos disseram: a vida é minha, não sou criança, não sou um idiota, faço o que quero. O Estado que tenta ser o grande irmão, a área da saúde uma das miradas do grande irmão, que fazem o controle da vida. Fugir disso é perceber de forma diferente, aquilo que chamam de autonomia, e diz respeito ao terceiro olho.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Se você não aceitasse o assassinato teria o suicídio como solução


Em Mil Platôs o devir mulher é sempre considerado o mais importante. A subjetividade feminina diferencial em relação à subjetividade dominante é importante por ser molecularizada por excelência. Porém, as mulheres talvez tenham sido a primeira subjetividade minoritária a ser incluída. Há resistência, diferença, na subjetividade feminina ainda? A inclusão foi total? As mulheres e homens no pós-moderno não formam uma massa indiferenciada? Mas a inclusão, mesmo que signifique um tipo de normatização, ela é importante; na inclusão feminina há algo de feminilidade que desterritorializa a subjetividade dominante, então, o social é atingido e modificado. Há algo da subjetividade feminina como resistência no social, em todo ele. A molecularidade feminina, assim, faz parte da subjetividade masculina. E isso – a desterritorialização e reterritorialização – se refere também às outras minorias, gays, negros, etc. O capitalismo busca a homogeneidade, a indiferenciação; e a indiferenciação é a morte, e essas linhas de fuga concernentes às minorias são a vida. As drogas psicodélicas foram tão “importantes” para esse momento extremamente “importante” para a vida global – a “contracultura” – que afetaram a subjetividade das massas. Produtos “culturais” após a “contracultura” são influenciados e muito, e às vezes diretamente, pelas viagens psicodélicas; estas desterritorializam as massas e depois disso, somos todos loucos, viajantes, subjetividades monstruosas:

E eles tinham medo de que seus filhos fossem destruídos por monstros, mas eles não sabiam que eles já eram monstros e seus filhos eram mais monstros ainda.

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A função da terapia em clínica de reabilitação é incluir, socializar o drogado. A ideia da lei seca impera, droga zero. A terapia tenta incluir e não importa se o cara vai virar um fascista, um chato, um careta, alguém infeliz; importa isso: que ele se torne mais um. Como não se importam com o molecular – os psis – não conseguem ajudar a entender a molecularização da percepção; se tivessem interesse pelo molecular, poderiam mostrar que dá para ficar chapado de cara, já que a narcose faz parte da percepção de todos. Mas em nome da vida, tentam capturar a vida, bloquear os fluxos em nome da boa cidadania; e a vida para eles é a boa cidadania, a gorda saúde dominante. “Vamos salvá-los, curá-los! Vocês não têm a opção de ser doentes, vocês têm a obrigação de ser saudáveis”. Contra esse discurso, a crítica: eu me nego a ser sadio, eu me nego a aceitar a saúde dominante.
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A luta contra o controle é a luta mais ampla. O controle é o impedimento da diferença nos corpos, nas existências, subjetividades. O controle é a prisão, a morte. O machismo é uma expressão do controle, como é o racismo, a homofobia, o fascismo, a política dominante, a proibição, a comunicação, o moralismo, a desvalorização da produção, o consumismo, o antropocentrismo, a saúde gorda dominante; as leis são formas de controle, como são as relações entre castas, pessoas, as relações consigo mesmo. O controle é a prisão, e há pouca vida em uma prisão, é o mais próximo que alguém pode chegar da morte, aliás, é pior que a morte, a prisão é o inferno.  A vida capturada, a existência padronizada imposta não é a vida em fuga, a vida que vive; a morte como forma dominante de vida coexiste com a potência da vida.  A vida é só o caminho de um corpo individuado? Ser posto no mundo, ser ensinado, disciplinado e vigiado; ter prazeres, comer, beber, fazer sexo; economizar e gastar, economizar e gastar; ter cada vez mais posses; respeitar os que estão acima: pai, professor, patrão, políticos; se sobrepor aos outros, principalmente os mais fracos, empregados, filhos, as minorias que ainda existem; lutar para não adoecer, nem morrer; usar as redes sociais, comunicar, falar e falar e falar, falas desligadas do significado, puro som, sempre o mesmo som, melhor, sons diferentes, mas com apenas um significado: viva o controle!; aceitar as coisas como elas são sem fazer muito barulho, quando se é contra as coisas como elas são; viver na cidade, não se importar com a estrutura urbana; ser perseguido “sempre” pelos mesmo fantasmas, a neurose, o estrese, a paranoia e ter “sempre” a percepção de que tudo está perdido, mas berrar ao mundo: ano que vem vai melhorar!  
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A vida pulsa, biopotência, potência da vida. Há vida e muito quando corpos singulares se misturam e criam corpos mais singulares, corpos por vir. A vida pulsa quando a criança, diz “não” aos pais. Há vida quando quebram as hierarquias, as regras, as leis. O comum é a vida pulsando, e o comum não são regras nem leis e sim ação em comum entre termos heterogêneos. A primeira acampada foi o sinal de uma vida que transbordava de vida. Marcos e a EZLN encheram de vida o Ocidente numa época dominada pela a morte. Kerouac só na banheira, cheio de vida escrevendo On The Road, livro atualizado nas massas da contracultura. No fim dos 60 a vida estava explodindo, os corações e mentes, e isso ainda está aqui em muitas coisas. Deleuze se matou em nome da vida. Sexo tântrico, arte, situações no cotidiano, isso é vida. Manifestações de coletivos são expressões da vida. Manifestações são formadas por coletivos, coletivos reúnem pessoas, pessoas são compostas de muitas pessoas, pessoas são coletivos. Sou legião, SOMOS LEGIÃO – a legião é um agente cheio de vida. A sabedoria das ruas que tem um crakeiro, ou um morador de rua.... Como atingir essa sabedoria? Capturar a riqueza deles em nome da ciência? A sabedoria deles é vida; capturar sua sabedoria em nome da burocracia, isso é a morte. Quando um artista se nega a aceitar as diretrizes dos financiadores para tornar vendável seu trabalho, isso é vida. O cara que larga tudo, a “vida” pequena burguesa, não aceita ser rico, deseja a pobreza é alguém cheio de vida. Odiar, não aceitar as hierarquias, o consumo, não como uma forma de purificação, mas de crítica radical: a crítica é um elogio à vida. Eles, os realmente vivos, os amantes da vida, dizem: prefiro a morte já que me nego a ser um zumbi que aceita qualquer coisa. 
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Os pais geram filhos não por amor, mas por ódio; precisam ter alguém abaixo deles. A maior felicidade da mãe – ter um filho – é a paixão triste; como mulher, filha, esposa sempre esteve abaixo, daí deseja ter um filho para dominar alguém. Juntar os “belos” genes com os “belos” da esposa e construir alguém.... eles se acham lindos e por isso têm filhos. Os pais não entendem a riqueza dos signos das crianças, as consideram seres inferiores. A única relação que têm com as crianças, menos danosa, é o ensinamento. A criança tem que deixar de ser criança e virar adulto. É uma vergonha ser criança, alguém fraco, extremamente fraco, não consegue nem limpar a própria merda, depende deles para tudo. E os pais odeiam isso, a fraqueza, a impotência, odeiam suas crianças por serem crianças. O filho não tem o que fazer, é fraco fisicamente, está legalmente nas mãos dos pais, se ele não tem força para morar na rua ou para se matar, deve aceitar. Então, aceita e para doer menos, para manter o orgulho, um pouco de dignidade, diz: eu os amo. Ele diz: eu amo meus pais, por isso, os respeito, não fujo de casa.  
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A cidade é um caos, todos odeiam o trânsito, mas preferem que as coisas sejam assim para poder ter carros caros e manter seu estatus. Amam a morte, a vida morta, a cidade como necrópole para serem admirados andando com seus belos carros.
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O humilde não usa ternos Armani, mas Armani casual. O humilde luta contra a pobreza, luta em favor dos fracos, despossuídos, bestializados, desde que ganhe 15 mil por mês. “Se me derem 10 mil por mês beijo até cachorro de rua”, isso diz qualquer fascista de direita que tem um emprego mal remunerado.
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O controle exige o máximo de desempenho, esforço nos estudos, no trabalho; o controle diz: isso é a forma mais eficaz de produzir algo com qualidade. O controle diz que a qualidade está na extensão, principalmente do tempo, e todos acreditam. Isso é feito para gerar a aceitação da massa, a aceitação do controle por toda a vida e sempre. Mais trabalho por toda a vida é o controle por toda a vida, trabalho é uma forma de controle; e, portanto, o controle é confundido com valor, com produção. As exigências, os horários, a rotina produzem uma massa cansada, quase morta, uma massa de zumbis. Zumbis – que para fantasiar um sentido na vida – que dizem com orgulho: trabalho tantas horas por dia, sou rigoroso, sério, sou um batalhador. “Amo o meu trabalho”, os zumbis dizem, mas isso é apenas uma máscara para esconder a verdade: amam o controle.    
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Ele tem sete anos, é um menino e vive com os pais; ele sonha com aranhas, não uma aranha, mas um ninho de aranhas. Essas aranhas são mulheres, uma mistura de mulher com aranha. No sonho ele se sente radicalmente bem, quer ficar com as aranhas, deseja as aranhas. Futuramente vão dizer que ele estava sonhando com a mãe, que ele a viu nua e sonhou com ela, ou seja, a edipinização do seu sonho, do seu delírio. Mas não era uma aranha, eram aranhas, uma multiplicidade. O sonho era o desejo do menino de não mais estar preso a dona aranha, mamãe, e sim de estar com as mulheres, viver, sair da prisão; como criança a liberdade só era possível dessa forma.   
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As disciplinas no campo do saber impedem as linhas de fuga, aprisionam as multiplicidades a partir da setorização. Uma disciplina é um território fechado, ordenado, organizado, com suas regras e leis. A disciplina reduz a vida. O campo da arte é uma disciplina que se refere a esse conceito vago, que não diz nada: arte. Expressões, relações, ações, acontecimentos, objetos, produtos, grupos, coletivos, sujeitos, inúmeras coisas heterogêneas e singulares são unidas nessa denominação: arte.  
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Muitas formas de arte se centram em apresentar formas de vida não normatizadas e ajudam a mudar as subjetividades; isso fez Mapplethorpe e seu elogio a homossexualidade. Ele mostrava que um pênis é só um pênis, um braço no cú é uma brincadeira, é só o corpo, e todos têm corpo. Assim, sua obra estava vinculada com as lutas dos gays nos EUA na época da contracultura. Era arte, mas não só, era uma das linhas das lutas dos gays, que eram radicais. Genesis P Orridge, o artista Queer mais importante, é um ativista, ele se centra em mostrar a opressão do corpo normatizado. Se punks, nas manifestações de 2013, colocaram um crucifixo no cú em plena rua, fizeram isso a partir das experimentações de Mapplethorpe e dos situacionistas. Provavelmente, não sabiam da fonte de inspiração para o ato, e isso mostra a importância desses artistas e teóricos, como eles modificaram, potencializaram as subjetividades. Mulheres nuas, lutando nas ruas, a Femen e as Pussy Riot devem e muito as garotas punks dos setenta. Blake escreveu uma máxima que influenciou coletivos, subculturas, músicos, artistas, pessoas comuns a viverem de forma desregrada, colocando o corpo e a sanidade em risco. A arte interessante é aquela que não é só arte, mas também política, crítica social, crítica existencial, filosofia; a arte como linha da revolução molecular conceituada por Guattari. A arte revoluciona o social, muda as subjetividades. Apenas os de bom gosto, a classe média, tratam a arte como um bem puramente estético, sem vinculação com a política, a vida, melhor, como algo cosmético. Também, para esses, e curiosamente para os intelectuais, a vida é como a vida de todos. Eles têm a vida do trabalho, da dita militância, e a vida cotidiana totalmente des estetizada. No máximo, têm relações de gêneros, com filhos, com as hierarquias um pouco diferentes dos que chamam de fascistas, mas sem diferenças de natureza.
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Militância diz respeito à macro política, é molar, quase sempre se refere a alguém especial, um político, etc, que luta por uma causa. Militância e vida do militante estão sempre em desacordo, ele afirma o dualismo: produção e reprodução. A militância busca sempre um fim; o militante pensa grande, no bom futuro, sendo, portanto, alguém importante. O ativismo é molecular; o ativista vive as dinâmicas de coletivos sem buscar um fim. O ativista não tem grandes preocupações com o futuro, mas sim com o que está acontecendo; ele reconhece a importância – não de si – do seu coletivo e principalmente do movimento que o coletivo faz parte. O militante diz: “eu luto por alguma coisa”. O ativista diz: SOMOS LEGIÃO.
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O suicídio como questão política, quando se pensa no social, é completamente diferente do suicídio como questão pessoal. Claro que muito está sempre envolvido, mas é colado no suicida uma razão profunda, presente em sua história familiar; o suicida, para esses, é alguém radicalmente individualista, já que todos são radicalmente individualistas. A questão fica política quando o suicida diz: não quero fazer parte, vou me matar já que não quero continuar matando, eu como ser humano civilizado. E ele faz isso já que não tem com cair fora, ele não vai conseguir se animalizar numa floresta, ele é um sujeito urbano.      
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Método? Método do bom transar? Isso dão as revistinhas baratas para as minas neuróticas lerem e testar, o método, com seus noivinhos, chatos, aguados e machos. Sexo é acontecimento, deve – sim deve! – ser singular “sempre”; e “sempre” é “mesmo” que esteja presente visualmente o “mesmo” casal. E não são “sempre” as mesmas pessoas: é ela em outro dia, ele em outro dia; melhor, ele como legião, ela como legião, legiões “sempre” em metamorfoses; e não são outros dias, são outras conjunções moleculares e astrais. É um erro tentar repetir uma transa maravilhosa, a partir do método, ela não se repete, mas a próxima transa pode vir a ser uma transa maravilhosa, tanto quanto aquela:

sabe aquela: a necessidade de dizer eu te amo, quando beijava, e eu nem acreditava em amor, mas naquele momento, na conjunção das moléculas, era a única coisa a ser dita, me sentia bem em dizer, e eu acredito no meu sentimento quando brincamos em nossa sagrada satânica yoga psicodélica... e na outra semana algo tão maravilhoso aconteceu, eu não sabia que poderia acontecer de novo, para mim, a transa anterior era o sentido, a obra de uma vida; mas rolou de novo aquele afeto tão diferente e tão bom, melhor, e daí eu entendi o que era amor e para ser amor eu não podia te ver de dia, de tarde, no parque, na rotina...  nenhuma rotina, ou foda rotineira faria com que eu.... bem, a gente é muito mais do que isso. Você viu, eu estava completamente louco, mas sabia – sei – exatamente o que estava fazendo, o que faço... a loucura estava ali, mas rolava o reconhecimento da loucura, entende? Duas coisas completamente diferentes sendo experimentadas por mim... e era eu? Eu estava louco, era nitidamente um duplo, uma fratura em associação; é difícil perceber, impossível de ver a legião, mas o duplo estava descarado; e isso, essa loucura só foi permitida por você.  

E as pessoas tentam se fechar no que chamam de dois, quatro ou nos obrigatórios três, e não percebem todo o resto. 

E sim, você chama de mentira com essa boca, esses lábios que não necessitam de nada mais, apenas deles, e eu passo o fim de semana com os seus lábios; eu passo o fim de semana com os seus pés, com a cor da sua pele; e ela, a pele, não precisa de nenhuma maquiagem, nada falta na sua pele e sobra meu desejo dela, da sua pele, isso transborda nos meus poros todos os dias só de imaginar... meu amor e morte... e se você acha que isso é loucura, sim, é loucura, o amor é uma loucura. O meu por você.

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O louco, o idiota, o jovem, eles dizem: mundo de merda, quero só um barato. Daí o jovem cresce na força, vira um profissional de alguma coisa, alguém maduro e chega a conclusão: que merda, só quero um barato. Caminho idiota para chegar a lugar nenhum. A sabedoria do jovem, do louco, do idiota não é reconhecida, mas quando ele se torna adulto, alguém autônomo, daí ouvem ele.  
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Os criativos e suas metáforas rasas, associações fracas; fazem pequenas variações óbvias para criar uma aura de mistério e expor sua criatividade; tipo: “Ela é uma vadia” no lugar de “Você é um puto”. Uma inversão direta, óbvia para uma criança. Se é tudo tão óbvio, já que não podem, não conseguem ser criativos, por que não dizem na cara? Não vão conseguir ser criativos de qualquer forma, pelo menos podem ser corajosos.
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Comem o cú da mulher para ela virar duplamente alguém inferior: além de mulher, ela se torna o viadinho dos sonhos do macho. Ela já foi castrada e rasgada, castrada ao nascer e depois quando cresceu, daí vem o marido e rasga também o cú. Uma mulher é só um buraco? Não, uma mulher é muito mais do que isso: três buracos a serem destruídos. São obrigadas a chupar, dar o cú, e fingem que gostam de receber um pau na vagina. Fingem para dar prazer aos machos, aos escrotos, já que elas têm que se submeter.
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Os chatos moralistas odeiam o suicídio, querem salvar todos os que querem se matar; para os cristãos é pecado mortal, quem se mata vai para o inferno, mas mesmo os que se dizem ateus compartilham de um sentimento parecido, tão moralista quanto, apenas exclui o supra real. Se matar pode ser uma forma de não querer mais morrer, de não querer viver como um zumbi; zumbi em caixões de lata (automóveis, ônibus, metrôs), em caixões de concreto (casas, apartamentos, prédios comerciais...) entre outros zumbis. A área da saúde (controle) impõe um discurso moralista, naturalizado no social sobre a vida; alguém sofre um acidente, está inconsciente e sem perguntarem para ele o levam para um hospital, fazem uma cirurgia e ele fica um tempo internado. Mas e se o cara não quisesse de forma alguma fazer uma cirurgia, ser internado? Fazem isso em nome da vida? Mas isso é uma imposição, e imposição é prisão, e prisão não é vida. Um saco esses moralistas, eles dizem: “nós os gays não somos doentes” ou “eles os gays não são doentes”. Qual o problema em ser doente? Há uma beleza nos glutões (dão sua vida para poder comer o que querem), nos alcoólatras e drogados (dão a vida para abusar de drogas), nos anoréxicos (desejam o corpo fraco e deteriorado), nos viciados em adrenalina (praticam esportes extremos que podem levar a morte, pelo prazer). E isso, essas relações de presença da morte, a necessidade de pôr o corpo em risco, o saber da possibilidade de morte a partir de certos atos, isso é vida, já que viver é construir um plano existencial diferente da existência imposta e afirmada pelos zumbis.
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Em 2011, ele já estava pronto para se matar, um senhor de idade, morador antigo de um bairro tradicional de Barcelona. Ele ia ser despejado do apartamento, devia muito dinheiro para o banco; a dívida era decorrente da crise econômica, e estava esperando o dia certo para pular da janela, de forma alguma iria viver na rua. Algumas pessoas, na mesma situação, do bairro haviam feito o mesmo – pularam da janela – pelo mesmo motivo; e esse ato – o suicídio – acompanhou os anos duros da crise em todo o país. Incrivelmente, o senhor de idade recebeu uma grande quantia de dinheiro antes de ser despejado, e então, poderia pagar a dívida e não precisava se matar. Porém, ele passou meses experimentando os sentimentos de um pré suicida, pensou muito na vida e na morte e a ideia da morte se tornou interessante. Como disse, com o dinheiro não precisava mais se matar, mas ele se apaixonou pela ideia de suicídio e se matou.
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A insegurança pós-moderna, o medo do futuro, todos sabem que a crise sempre estará presente. Não se fazem mais futuros como antigamente, como dizia Melamed. Vivemos com medo e quem tem medo deseja o Estado, ama o capitalista, ama qualquer um que lhe der um mínimo de segurança.
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O presidiário não tem mais nada a perder, pode morrer quando for e que se foda, ele não tem medo. A importância da prisão é permitir essa outra relação com a vida. Como dizia Bukowski: conheci mais homens na prisão com estilo do que fora dela.
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Incrivelmente, os pobres são fascistas, amam os ricos como os ricos se amam. Não desejam outra vida – sem pobreza – querem a mesma vida na qual há poucos ricos e muitos pobres, no máximo buscam ter um pouco mais de dinheiro do que eles próprios – os pobres – têm, mas, mesmo se não tiverem, não aceitam uma vida com igualdade econômica. Enriquecer é o objetivo de vida, objetivo de uma nação, de empresas, de pessoas. Ter um pouco a mais é o sentido da vida para a maioria. As pessoas ficam felizes quando conseguem comprar um carro melhor, elas têm esse afeto, paixão pelos objetos de consumo, sentem esse tesão ao fazer compras no shopping, no supermercado, famílias passam tardes em shopping centers, mesmo sem comprar, olhando vitrines. Os ecologistas vão em via contrária, exigem o decrescimento, já que é a única forma de salvar a vida (VIDA) do planeta. Senhoras de classe média se sentem ofendidas já que limpeza doméstica se tornou um artigo de luxo; com o enriquecimento da nação, trabalhos mais “degradantes” se tornaram mais bem remunerados. Essas senhoras desejam o empobrecimento da nação para que pessoas sejam obrigadas a trabalhar nessas funções “degradantes”, assim, elas, as senhoras, não têm que limpar a própria casa. A classe média se regozija quando tem um pouco a mais do que afirma ser status. Se a ditadura cubana tem algo de importante é a igualdade econômica, todos têm pouco, mas o suficiente; e o que é o suficiente? Como disse: o playboy sonha com carros caros desde criança e passa por cima de todos para ter. Ter dinheiro, sucesso, fama, seguidores... odiar os fracos e a fraqueza em si. Para todos, os sujeitos do capitalismo, alguém morrer, uma comunidade morrer não significa nada desde que gere lucro para si ou para o seu país. Amar carros, apples, nikes, mais do que a terra, animais e outros humanos. Um viciado mata a si apenas e com consciência, um consumista mata muitos, muitas formas de vida (VIDA) e finge não ter consciência.
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Um dia a gente entrou no Mac Donalds, a gente tava fazendo um tipo de performance. A gente entrou, comprou lanches e coca cola; a gente sentou, todos vestidos normalmente, e a gente, 10 pessoas, começou a falar em voz alta, que a gente não ia comer lixo, de jeito nenhum, que a gente se negava a comer o Mc Lixo Feliz e beber coca cola, a gente falou dos assassinatos, das mentiras das grandes corporações, dos monopólios. Daí uma mãe começou a berrar: “eu não quero saber disso, não quero saber disso, eu não quero saber”, e todos os outros clientes começaram a dizer pra gente cair fora. É, não querem saber se os seus filhos comem lixo, não querem ter a consciência de que sua família sustenta a morte e morre ao mesmo tempo; eles querem apenas viver da forma que lhes é imposta, ou seja, morrer.  
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Eu tinha doze anos. Cheguei em aula de manhã e tava todo mundo nos corredores, agitados. Eu chego e pergunto: qual é? Dizem: o cara tal levou um tiro na cabeça. O cara tal era da mesma série que eu, mas mais velho. Era um cara bonito, rockeiro, estiloso, tinha sua turma e as meninas gostavam dele. Eu sempre o via pela cidade – do interior – e o admirava. Um dia eu tava no fliper e tava lá ele com uma bermuda rasgada, camiseta de banda e sandálias de gladiador feitas com um tecido orgânico, sandálias de hippie. Fiquei anos desejando ter aquele estilo. A história da morte: de manhã, antes da aula, ele e seus amigos brincaram de roleta russa, era um costume deles. Tem gente que come sucrilhos de manhã, outro fumam um beque, ele fazia roleta russa.
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O escritório do intelectual, asséptico, com uma poltrona, mesa, quadros com imagens dos bons políticos; um espaço com um silêncio mortal no qual jaz uma coleção de milhares de livros, intocados. A criança encara o espaço, o escritório, assustada, como se estivesse em um templo sagrado, um local de pessoas sagradas. O apartamento do hippie, com cheiro de incenso, sem luz elétrica, só velas, uma carteira azul – de um amigo e dentro dela folhinhas de papel, pequenas, um papel delicado, com belo formato –, uma calça rasgada e suja no chão; no apartamento do hippie qualquer um entra e sai, o som é alto sempre, e ali tem uns livros, mas o mais importante, tem aquilo que chamavam de bolachas (os vinis), todas elas, a coleção mais completa. A criança entra ali – no apartamento do hippie – e se sente bem, sabe que está em seu lugar, mesmo que seja pouco seguro, já que vírus estranhos dançam junto da música e do incenso, mas mesmo com todos os perigos, a criança passa a viver no apartamento do hippie e se nega a voltar ao escritório do intelectual. 


domingo, 29 de outubro de 2017

viver é consumir e consumir é enriquecer ainda mais os ricos

O conceito de Multidão de Negri se refere ao desejo de um mundo-espaço liso, ou seja, sem barreiras geográficas. A multidão: as cores do mundo – negro com branco com amarelo; n cores, misturas de cores, a hibridização é a cor da multidão. A multidão: os sexos, os gêneros, todos eles e sempre em relação, o que importa é a relação. A multidão: os pobres, os que desejam a pobreza. Não há segmentos duros na multidão, classes, castas; não há hierarquias, comando central, a multidão é o rizoma. Os anarquistas são internacionalistas e lutam contra todo tipo de opressão; os anarquistas fazem parte da multidão, talvez sejam sua linha mais ativa na luta contra o controle. O corpo anarquista é um corpo em luta constante.
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O povo – a ideia de povo, a afirmação do povo – é um tipo de individualismo. Desejam o bem-estar de seu país, só se interessam por seu país e por seu povo. Só pensam como o seu Estado-nação deve ser reformado. Dizem que pensam no mundo, mas, em primeiro lugar, está sempre o seu país. “Eu, minha família, meus amigos, meu país...”, as preocupações se centram nisso. Os sindicatos fazem parte da mesma lógica: lutas setorizadas, com suas demandas, cada um cuidando do que é seu. O feminismo é, muitas vezes, localizado, não se relaciona com as outras lutas; certos movimentos étnicos fazem o mesmo. Isso é a lógica do “eu e os meus”. A necessidade de posse. “Meu carro, minha casa, meu corpo, minha mulher, minhas ideias”; e quando é dito: “nosso”, esse “nós” já exclui muita coisa e é um sinal de individualismo, um individualismo "inclusivo". “Minha cidade, ou nossa cidade, nosso país, nossa identidade”.... é estranho alguém dizer isso. Sua cidade, seu país? Mas qual poder tem em relação à estrutura urbana, em relação às leis, à administração, à política, a economia? E não há nação soberana, elas dependem das diretrizes do Império. A cidade, as grandes cidades são moldadas existindo poucas diferenças de natureza entre elas, são indiferenciadas, não é a "sua, nossa" cidade, é "qualquer" cidade. Que poder tem sobre a identidade do povo, identidade que compartilha com os outros e diz que é sua, “nossa”? A identidade é aceita naturalmente e desejada.
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“Meu corpo? ”. O corpo, o simbólico em relação ao corpo, isso é imposto desde cima; a máquina abstrata produz, comanda a ideia de corpo e, portanto, também, o dito dono do corpo. Isso é aceito naturalmente e desejado. O corpo humano é o mesmo desde sempre? A tecnologia, o ambiente, as ciências, as formas de trabalho, de sujeição, muitas coisas produzem diferenças no corpo humano. Os corpos dos antigos, dos medievais, dos modernos, dos pós-modernos são iguais? O corpo de um trabalhador braçal é o mesmo de um trabalhador intelectual? O corpo pós-moderno é talhado pelo bem viver da publicidade e da área da saúde, ele é moldado por novos esportes, novas drogas, novos medicamentos, pelas mudanças no tecido urbano, o corpo pós-moderno é esculpido por novas doenças, vírus, tipos de alimentação; mas a beleza do corpo pós-moderno é a hibridização que anuncia o fim das barreiras geográficas, é o corpo com n sexos, sem identidade, o corpo-monstro criado a partir das micro revoluções Queers. O corpo que ouve em um i pod é um corpo diferente do que ouve em um walk man. O cavalo de corrida e o cavalo de arado, o jogador de futebol e o skatista, a vagina que faz pompoarismo e a vagina passiva – cada corpo tem suas especificidades. As diferenças físicas dizem respeito à relação com a vida; e os corpos estão sempre em relação, não se limitam a um organismo, organizado, estratificado, hierarquizado. Dizem que são diferenças corporais pequenas, infinitesimais; talvez sim, mas esse discurso revela que não dão importância exatamente ao mais importante: o capilar, o molecular.
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A luta setorizada. “Vamos todos juntos lutar, mas cada um por seus direitos; se todos lutam por seus direitos, nos encaminhamos para um bom mundo. ” Cada profissão luta por si, cada classe por si, cada sexo, gênero, cada raça .... Mas por qual motivo todos não lutam realmente juntos pelo fim de todo tipo de opressão? Isso fizeram as lutas da virada do século, isso fazem os anarquistas. Uma okupa em Porto Alegre está muito mais próxima de uma okupa em Barcelona do que do sindicato dos municipários de Porto Alegre. Um coletivo musical auto gestionado, que atua no centro de Porto Alegre, está muito mais próximo de um coletivo do mesmo tipo de Barcelona do que do showmício que acontece no mesmo local que atua. A questão geográfica, a necessidade do solo, do que dá para tocar, do visível, do que parece próximo – “meu corpo, não uma linha de um corpo sem órgãos. O que é meu está próximo, posso ver e tocar, tenho poder sobre. Meu corpo, minhas regras, gosto de regrar o corpo. ” O macho diz: “homem nenhum toca a mão em mim”; a feminista também. O corpo sem órgãos não tem regras, só relações, a hibridização. O corpo como posse pessoal é o corpo exclusivista, moralista, apartado, raro, para poucos. A burguesia cultua exatamente isso: ficar apartada, estar entre poucos, pessoas raras, ditas especiais, únicas. Unicidade, raridade são características da arte burguesa. Na casa noturna a menina pequena burguesa diz isso: meu corpo é para poucos, é raro, exclusivo, artigo de luxo, caro. É uma ilusão achar que manda no seu corpo; o controle manda no corpo, impõe a ideia de corpo. Tem medo de um pênis dentro do seu corpo, mas não tem medo de ingerir o lixo das indústrias farmacêuticas e alimentícias; não está nem aí com a poluição das cidades que mata aos poucos o corpo; não acha as modas algo a ser criticado, e as modas padronizam os corpos. “Meu corpo, minhas regras”? O CSO não tem regras, apenas programas, experimentações, relações entre termos diferente, núpcias demoníacas.
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Viver é consumir e consumir é enriquecer ainda mais os ricos; ele sabe disso, mas não pensa sobre, não quer ficar estressado, só quer viver sua vidinha na boa. Ele acorda as sete horas da manhã num dia da semana. Dormiu com medicações (das marcas tais) vestido de cueca e camiseta (marcas tais) em uma cama (marca tal) no quarto do apartamento alugado – apartamento de propriedade de um engenheiro que é dono de todo o prédio. Sai da cama (comprada em um shopping), vai até a cozinha, abre a geladeira (marca tal) e pega uma garrafinha de iogurte (tal). Depois de beber o iogurte, fuma um cigarro (marca tal) na frente do PC (marca tal); ao seu lado uma janela mostra um parque da cidade – uma cidade metropolitana que está se encaminhando para se tornar modelo. As contas estão pagas: luz, internet, telefonia móvel. Está tentando faz tempo trocar de plano de internet e não consegue. Escova os dentes com a pasta de dente tal e a escova tal; toma banho se ensaboando com o sabonete tal, usa o shampoo tal e se seca com a toalha tal. Veste tênis tal, calça tal, camiseta tal e sai de casa. Pega o seu carro popular tal, que está com metade do tanque cheio de gasolina comprada num posto tal. Nas ruas muitos carros: 8 horas e 15 min. Os carros são todos novos e muitos são caros. Há um fluxo nas ciclovias – hipsters que se dizem alternativos. As pessoas que estão nas ruas vestem roupas tais, compradas em lojas tais, e todos têm smart phones. Prédios enormes estão por todos os lados, muitos são novos, frutos do empreendedorismo de grandes construtoras, que conseguiram financiamento de grandes bancos. Ele demora 45 minutos até chegar no trabalho, mas se fosse em outro horário, demoraria metade do tempo. Chega no prédio da empresa, micro, na qual trabalha. A sala é situada em um prédio de médio porte, propriedade de um único sujeito. Ele entra em seu nicho, pega seu notebook marca tal e começa a trabalhar. Os outros cinco colegas que estão na sala vivem uma vida praticamente igual a dele; há uma diferença pequena entre salários. O trabalho diário dura mais ou menos 8 horas. A empresa funciona como outras empresas: hierarquias, horários, tarefas, relações entre os funcionários... porém, as hierarquias não são duras, já que o dono tenta ser o mais amigável com seus funcionários; ele sabe que isso ajuda otimizar o trabalho. Ela, a micro empresa, foi montada a partir de uma herança recebida pelo dono. Ele, o familiar que deixou a herança, teve como objetivo de vida acumular o suficiente para ajudar os seus. O dono da empresa era funcionário público, já fazia mais de uma década, mas com o dinheiro resolveu realizar seu sonho, ser o seu próprio chefe. Quis recomeçar a vida com 40 e poucos anos. A empresa não dá muitos lucros, mas como ele tem ainda um bom dinheiro guardado, não se preocupa com isso. Na hora do almoço, os funcionários vão até um mercado próximo, que faz parte de um monopólio da região, e compram sanduiches e coca cola; eles almoçam isso em uma praça. Depois de comer, eles fumam um baseado e conversam sobre as viagens que querem fazer; sonham com Londres, curtir os pubs, tomar boas drogas. As ambições deles são: acumular grana, ter ou trocar de carro, viajar, ter dinheiro para ir em bons restaurantes e casas noturna da moda, comprar roupas de tais e tais grifes, trocar de smartphone, de note book. Todos se dizem chateados já que não dá para comprar produtos em pequenos mercados, a rede que monopoliza a cidade tem preços mais baixos. Mas comentam felizes que na rede há promoções de tais e tais produtos. Eles se sentem bem de certa forma com a vida; são jovens, o trabalho é criativo, todos são meio que parceiros. Eles voltam para o trabalho, e quando termina todos vão para um bar tomar cerveja. Como é dia de semana, escolhem um bar com cervejas baratas. O bar fica em um bairro boêmio e dá certo lucro para o proprietário. Ele vende bebidas de tais e tais marcas, mas está pensando em montar um acervo de cervejas artesanais. Os poucos pratos do bar são feitos na casa com produtos comprados nessa rede que monopoliza a região. O dono pensa se deve ou não pedir um empréstimo para um banco e assim reformular o espaço. Todos, o pessoal da microempresa, sabem que devem economizar – é a regra. Quem quer pôr dinheiro fora? Eles não são loucos. Não se interessam muito por política, votam já que são obrigados. Não veem como algo negativo fumar maconha, mas depois de velhos passaram a gostar de policiais.
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Quem comanda uma subjetividade? “Eu penso”? “Minhas ideias”? As pautas e agendas das conversas, das discussões são impostas pela mídia, e isso é o mais visível, já que a máquina abstrata, o controle, comanda tudo. Todos aceitam a linguagem, o posicionamento das mídias, isso é naturalizado.
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Os pós-modernos são pós humanos, são monstros, são estranhos para os outros e para si. As mudanças constantes impostas pela máquina os coloca em uma posição de estranhamento, não sabem quem são e muito menos o que serão. Ninguém se reconhece, tudo é estranho, até as modas são entranhas. Um reflexo disso é a tentativa de reviver identidades, a busca de identidades duras, fascistas.
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O espião, o estelionatário, o policial corrupto, os que praticam golpes, são geniais. Sabem mentir, inventar, criar ficções. Criar uma verdade é criar, ou seja, é ficção, algo diferente de encontrar uma verdade; se não é verdade então é uma mentira: viva os cientistas mentirosos! Alguns pesquisadores em campo na cidade não sabem direito quem são, não reconhecem a si mesmos... quem são? São cidadãos sofrendo com a opressão da cidade ou pesquisadores da opressão da cidade. Quando atua em um movimento social, o que é? Um ativista ou um pesquisador. Um amigo meu está aplicando um golpe. Ele está sem grana, saiu da prisão, tá na ruim. Ele pede nos semáforos dinheiro para comprar leite especial para a filha – mas é um golpe. Ele é alto, bonito, ele sabe sorrir, olhar da forma certa para quem está nos carros; quando ele mostra o cartaz pedindo leite, ele faz uma cara de esperançoso, de um pai de família em crise financeira, que é obrigado a se sujeitar – ele faz tudo isso muito bem. Mas ele não tem filha, é um golpe, e ele é bom nisso. Outro amigo meu é um pesquisador. Ele montou uma barraca de cervejas artesanais. Ele vende as cervejas, usa uma caminhonete velha, se apresenta a todos como um comerciante pequeno, de poucos recursos. Mas os recursos para montar a barraca, tirar a licença, para ficar no ponto foram pagos pelo financiamento do grupo de pesquisa dele. Ele está dando um golpe, é um cientista fazendo seu experimento. Em Barcelona me intimaram uma vez já que eu estava sempre em uma okupa e ninguém sabia quem eu era. Um dia me encararam e eu encarei eles, e tive que dizer que era um cientista. Nas festas eu minto, digo que sou artista, nenhuma gatinha de vinte e poucos anos vai estar interessada em um doutor. Os adolescentes mentem. Em pesquisas, os entrevistados mentem. Mentir envolve uma criação, é mais difícil do que dizer a verdade. É feio mentir para conseguir algo, mas mentir para ser criativo, isso é poesia. E não é tão feio assim, mentir pode ser uma questão de vida ou morte. O adolescente mente para os pais, para os policiais, para o professor. O capitalista, o político, eles mentem, mas daí a coisa é diferente; mentem para conseguir poder, mentem e muitas vezes acabam matando muitos. Pequenos golpes são louváveis, mas não os grandes golpes daqueles que querem mais e mais: carne podre, trabalho escravo, guerras...
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Eu posso dizer: eu não lhe traí, eu comi ela sim, mas você estava junto, e você gostou, mas nem sabe, não se tocou que estava junto. Mas quando a sua vagina mente, quando seus olhos mentem, quando mente que está bem a meu lado, tudo isso dói. Você nunca vai me trair, estamos juntos mesmo separados, e juntos com o mundo quando juntos. O exclusivismo: “a vagina que é minha, a boca que só me chupa, o pau que é só dela”... Desejos individuais, machismo por toda a parte – e as feministas repetem isso. Tentativa e erro, experimentação. Não há modelos, “somos” todos monstros e “a gente” tenta e erra, tenta e erra. Erra comigo, não me acerta! O feminismo por vir está aqui em algumas coisas, o machismo ainda está aqui em muita coisa, entre homens e mulheres, machos e feministas. Não há agenciamento puro, sempre há o erro, mas há aqueles agenciamentos em que os processos mostram um mundo atual especial. Eu chorei quando você me mostrou seus dons, que eram técnicas milenares, eu fui comido por você, deusa mágica, e pelos meus amigos do oriente, fui comido pelas belas meninas-meninos das okupas, fui comido, mas no meu pau, e meu pau era apenas uma linha cósmica, ou seja, não um pau, mas um canal. Estavam por perto ratos, chatos, caretas, mas “nós” todos somos chatos e caretas, “a gente” é isso, só que em boa parte do tempo “a gente” tenta ser zen-budistas em narcose; tentativa e erro. Amo errar com você. Eu te amo. E o que mais amo é isso: os momentos em que eu não sou mais eu, um corpo individuado, e você não é mais você, e “nós” não somos mais dois, somos apenas moléculas entre o céu e a terra em dança, trepada cósmica, amor transcendente que acontece no cotidiano.
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Tem coisas, muitas, que grudam nas subjetividades de tal forma que parecem naturais. Ainda falam em natureza, mesmo que o projeto da modernidade tenha sido acabar com a natureza. Nada contra a tecnologia, a técnica sempre acompanhou o homem; ela aparece e daí muda os homens, muda o mundo. A tecnologia está a serviço do Império, mas também é uma potência da multidão. A máquina vai destruir o homem? Não, o homem destrói o homem. A natureza é vista como um bem, um objeto, depois que destruíram ela. A destruição da natureza já aconteceu; mas o medo em relação da tecnologia é o que? Remorso humano... tipo quando a gente sacaneia alguém e depois sabe que vai ter volta. Mataram a natureza, matamos, e agora a tecnologia vai nos matar! Vai ter volta!
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Odeiam a todos, se juntam para lutar contra os outros, quando sozinhos lutam entre si. O ódio mantém o capitalismo; passar por cima de todos para ter mais e mais; mentir, manipular, matar para ter mais e mais e é isso: mais e mais. Quantos morrem para alguém ter um apple, um nike, compras no shopping? Que se foda a natureza; a modernidade venceu. Quem está dentro do sistema mata outros, mata formas de vida. E ninguém está fora do sistema, todos “somos” assassinos.
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