Dia
de semana, fim da tarde; notei alguns caras – o que me pareciam guardadores –
em volta de dois carros. Notei que eles olhavam para dentro dos carros. Voltei
a escrever e no cigarro seguinte fui para sacada, e tive a sorte de ver os dois
carros, grandes, caros, serem abertos no mesmo momento; e mais, saíram no mesmo
momento. Obviamente, foram roubados por aqueles que estavam em volta deles. Mas
o mais importante, me perguntei se eu delataria uma ação desse tipo. Carros
caros, comprados por cidadãos de bem, gente próxima a mim, roubados por ladrões
de rua. Eu não tenho nenhum apreço por ladrões profissionais, que desejam ser
ricos, como não tenho por banqueiros, políticos. E quanto ao cidadão de bem,
que compra seu carro com esforço, um dos grandes bens de sua vida? Tenho algum
apreço por ele? O defenderia daqueles que precisam, ou mesmo querem, ir às ruas
para roubar? Deleuze e Guattari eram ladrões profissionais, e os admiro. Eu sou
um ladrão pé de chinelo, e não estou procurando ser admirado. Sempre quando
ouvia a palavra “doutor”, ficava com medo, pensava: alguém muito importante
está próximo. Hoje, ser doutor para mim significa muito pouco. É interessante
como o empresário cheirador de pó, yuppie, o pesquisador alcoólatra, a dona de
casa que toma valium, como esses são tão bem aceitos socialmente; o que não
acontece com o ladrãozinho pobre que rouba para manter seu vício. O empresário
se orgulha de si, se sente feliz por não ser um ladrãozinho. O intelectual se
considera especial, por pensar o mundo, como se pensar fosse algo restrito a
poucos. E eu estou no meio disso, não estou livre, sou mais um; melhor, menos
um. Rimbaud dizia que era um negro. O Beatnik era negro, melhor, white negro.
Os White Phanters queriam ser negros armados. Negri foi um presidiário. Deleuze
foi um fraco, suicida; Hemingway e Thompson também. Bukowski, o vagabundo; os
ladrões, viciados, gays como Burroughs, Jim Carrol. Vagabundos, presidiários, michês,
suicidas, ladrões, me sinto bem com eles. [.......................] Há toda
essa tradição, na literatura, no cinema, na música, nas artes em geral que
tratam do excesso, da vida em excesso, dos prazeres diferenciais. Na literatura
para citar alguns: Baudelaire, os Beats, Bukowski, o Gonzo, Piva, Huxley,
Artaud, Pepe Escobar, Breton, Blake. Os Beats são centrais pelo contado deles
direto, físico com a contracultura norte americana. Burroughs, o Beat com mais
idade, é considerado pai da arte pós-moderna. Sua escrita era tão radical
quanto seus excessos. Kerouac, o
escritor desse livro tão importante para a geração da contra cultura, On the Road,
produziu uma escrita que está na borda entre realidade e ficção. A vida dele
era tão rica que se negou a escrever algo além dela. Kerouac ajuda na escrita
etnográfica, já que ele fez seu trabalho de campo pelos Estados Unidos e o
narrou em seus livros. Bukowski se irmana a Kerouac, já que ambos mostram
realidades duras, da estrada, da pobreza, da narcose, do alcoolismo. Se os escritores apresentavam eles mesmo suas
loucuras em suas obras, as vidas de muitos músicos, tão loucos quanto, são
expostas principalmente pelo jornalismo alternativo e cultural. Documentos
sobre os músicos que surgem a partir do sessenta – talvez o início de uma tradição
de suicidas, drogados, sexualmente perversos – são muitos, em formato de vídeo
e texto. São tantos, que afirmam o
fascínio por essas vidas singulares. No rock é muito comum a criação de guetos,
micro fascismos; muitos fãs se apegam a um estilo e rechaçam todos que destoem
desse estilo escolhido. Porém, no que diz respeito ao excesso, estilos
diferentes se ligam, há esse comum entre a psicodelia, o pré punk, o punk. O
pop vende a imagem do artista belo, jovem, saudável, o pop é uma música para o
bom cidadão. Entretanto, são muitos os artistas vendidos dessa forma, mas que
têm vidas desregradas. No rock, marginal, o estilo de vida desregrado é
mostrado de forma descarada. E como já
me perguntei no livro algumas vezes: por qual motivo valorizam essas vidas que
parecem não ter valor? Vício,
abstinência, prisão, temporadas em manicômios, ressacas longas e duras. O que
todos eles mostram é que a vida cotidiana é insuportável, por isso, preferem os
excessos mesmo que sejam extremamente dolorosos. É melhor o risco da morte do
que a vida das pessoas comuns. E não fazem isso para se ser uma pessoa
especial, já que um viciado não é alguém especial é um pária; e mesmo se é
glorificado pelo que faz, ninguém ficaria feliz em ser um. É comum dizerem que
as drogas ajudam na criação. Talvez em certo momento, antes da prisão do vício.
Fascina muito mais quem está de fora, o fã, do quem está por dentro, o viciado
pesado.
sábado, 13 de maio de 2017
sexta-feira, 12 de maio de 2017
tomações
No fim da tarde, quando começa a
escurecer, a vista fica mais bonita, com as luzes dos prédios. Agora, pessoas
se reúnem em grupos pequenos no Largo; alguns fumam maconha. Depois da hora de
pico os carros passam com mais velocidade. Como estou sem internet, a vista é
minha tela. Fiquei dez anos no ap. antigo. Fiz as contas e o que gastei de
aluguel – nesses dez anos – daria para comprá-lo. O mais curioso é que eu
estava para locar um outro apartamento, que coincidentemente era da mesma
proprietária desse ap. antigo. Talvez ela tenha comprado o imóvel com o meu
dinheiro; e eu continuaria sendo sugado por ela. Aprendi na prática como o
inquilino está à mercê do proprietário. Porém, há uma liberdade em alugar, não
ter um imóvel, ter pouco, não ter laços fortes, isso para mim é importante. Ter
pouco a perder, essa é a alegria do vagabundo. Ele tem seu corpo, sua
linguagem, seu carrinho, seus desejos. [.................] A Cidade Baixa é um
dos bairros de Porto Alegre com maior número de moradores de rua. Aqui na
frente, numa praça junto ao Largo, se reúnem muitos deles. No bairro, uma
mulher que pede esmolas volta e meia desaparece e reaparece. Em 15 anos vi ela
grávida inúmeras vezes. Na República, uma das ruas mais bonitas da Cidade
Baixa, há um outro morador de rua, com idade avançada, que está ali faz uns
seis anos. Também o bairro tem muitos guardadores de carros, jovens, que
possivelmente não têm moradia. Além disso, junto a um conjunto habitacional,
faz alguns anos, um grupo grande passa o dia junto a colchões e colchas velhas.
O bairro também conta com um albergue popular e seu entorno (do albergue) reúne
essas pessoas que possuem apenas o que podem carregar com as mãos. E mais, o
cartão postal da cidade, nos últimos tempos, aglomera tendas em toda sua
extensão, se tornou espaço dos que não têm casa – é o Viaduto da Borges, que
fica a três quadras daqui e o veria se não existissem alguns prédios que tapam
a vista. A prefeitura volta e meia desaloja o pessoal, mas eles sempre voltam.
Interessante é o fato de que o Viaduto já foi palco de batalha entre
manifestantes e polícia, principalmente em 2013. [.......................]
Em 2013 jovens saíram do Centro e vieram
até o Largo. Ali, lutaram contra a polícia, depredaram carros e edifícios.
Nessa época, eu e um amigo, numa segunda feira, estávamos no local, em um
encontro de um coletivo libertário. Meu amigo queria tomar uma cerveja; eu
disse: vamos, mas depois voltamos. Atravessamos a Perimetral e vimos junto a
uma praça um bloco policial, todos policiais armados e em posição de ataque.
Passamos por eles. Os policiais, por fim, não agiram contra o coletivo, mas
como a cidade estava “muito quente” na época, eles faziam o controle. As
brechas na cidade não são poucas. O controle não é absoluto na cidade pela
própria estrutura dela. O poder quer que as linhas de fuga não existam, mas
existem. [........................] O nojo dos cidadãos para com os moradores
de rua mostra quem eles – os cidadãos – são; odeiam qualquer coisa que macule a
cidade que deve ser higienizada, modelada – é, eles desejam o controle. Os moradores de rua, são os sujeitos da vida
nua, despida de bens, eles praticamente não consomem, não tem moradia, são
feios e sujos, vivem do lixo. Mas são uma das diversidades do tecido urbano.
Não é uma pobreza voluntária e esse é o problema. Porém, a riqueza deles é algo
que deve ser mapeado.
.................
Essa
minha relação afetiva com a cidade é muito antiga. Quando comecei a usar
maconha – diariamente, três, quatro, cinco, mais baseados, isso com treze anos –
gostava de fumar principalmente, antes da aula, de manhã, e enfrentar a rua;
era o primeiro “beque” do dia e assim fazia efeito. Eu gostava de contemplar,
sentir o início do dia chapado. Eu pegava ônibus, ficava na janela e olhava
para a rua como se estivesse vendo um filme. Curtia, também, quando ia fumar
com meus amigos mais velhos de carro. Era a mesma sensação, o para-brisas como
tela. Quando estava sentado do lado do motorista, ficava olhando o espelho
retrovisor que parecia uma pequena televisão. [..........................] Minha
primeira crônica foi sobre o trecho de uma estrada que vai de Porto Alegre até
uma cidade vizinha; minha primeira reportagem foi sobre a noite na cidade. Na
monografia trabalhei com a vagabundagem urbana. Parte da tese dediquei à cidade
de Barcelona. [............] A questão afetiva sempre moveu meus trabalhos, por
isso, não me encaixo na identidade ideal de pesquisador, de cientista. O que
move meu trabalho, sempre, é o afeto. Considero que é impossível pensar o
mundo, a sociedade em que vivemos, sem sentir dor, medo, frustração e, até
mesmo, um sentimento perigoso como o de insuportabilidade. Mas, como as linhas de fuga estão sempre
agindo, como a multidão produz, resiste, deseja, pensar nisso permite afetos
nobres, como paixão, alegria. E como ou por qual motivo abstrair isso – o afeto
– se está sempre presente? Falar de forma aberta, franca, demonstrar os
sentimentos, não se perder em uma assepsia própria a ciência é uma falha, um
erro? Sim, é um erro, mas eu gosto de errar. Quando falo “eu” (e isso é
frequente aqui) afirmo minha posição afetiva, tento fugir da fala impessoal
acadêmica; mas obviamente ‘eu’ não diz muito. Dizer “EU” é rotular, criar uma
fotografia que nega os fluxos, as conexões, os agenciamentos. O livro está
cheio de memórias pessoais que dizem respeito a esse “eu”, mas foi a forma que
encontrei para pensar certos coletivos e os processos que passam as cidades. Como
já disse, há contradições no meu trabalho, claro, pois é uma experimentação.
.......................
[....................]
Como havia pessoas no pátio dessa ocupação aqui perto – que eu estava rondando
faz um tempo – eu abordei o pessoal e disse: olha, eu pesquiso okupas, eu
passei aqui na frente inúmeras vezes, vocês devem ter me notado, estava com
vergonha de me aproximar de vocês, já que eu sei que o pessoal antissistema não
gosta de pesquisadores, mas gostaria de falar com um de vocês, fazer perguntas
sobre o funcionamento do espaço, como ele está sendo gerido [..............] O
coletivo, no momento, era formado por garotas, já tinha notado que a maior
parte dos membros eram mulheres. As garotas me interrogaram e muito, disseram
que eu deveria saber que eles não são abertos ao diálogo, pelo menos com gente
como eu, um pesquisador. Notei que elas estavam incomodadas com a situação.
Quando vi que não haveria realmente diálogo eu disse: peço desculpas por ter
vindo aqui, não vou mais passar na frente do espaço, admiro vocês, que vocês
fiquem bem e que dê tudo certo.
........................................................
[...................]
As pessoas pensam sempre no futuro, desejam um bom mundo, mas que sempre está
além e, por isso, não dão importância para o que está acontecendo, agora no
presente. E o que é o presente? Tempos diversos sempre estão interagindo. O tempo
do drogado não é o tempo do bom cidadão. O tempo em uma okupa funciona de forma
diferente do tempo em uma empresa ou escola. Qual presente? [.....................]
A revolução Contra Cultural aconteceu faz quanto tempo? E não foi apenas
cultural, uma revolução de costumes – não há como separar cultura de política –,
foi uma luta contra o poder reticular, as disciplinas, os dispositivos de poder
atualizados: no chão da fábrica, na universidade, nas relações parentais, na família
como destino obrigatório, no Estado de Bem Estar que estancava as lutas mais
radicais, no patriarcado, nos gêneros e na sexualidade, no racismo, na guerra
as drogas.................. [........................] As lutas moleculares de 68 atingiram as malhas
do poder e o mundo não foi mais o mesmo; direitos foram conquistados; porém o
poder, tomou outras formas, mais capilares. A empresa modulada,
desterritorializada, impediu a luta dos trabalhadores. As minorias se tornaram
consumidores e produtores. O poder transcendente, mais localizado, os termos
dominantes que se sobrepunham a termos menores, ficaram mais fluidos, imanentes.
A sociedade de controle abarcou todo o social. Se na sociedade disciplinar
ainda existiam buracos, brechas de subversão, na sociedade de controle o poder
começou a aparecer em todo o lugar. Os cidadãos, todos, viraram policiais, de
si e dos outros. Formas novas de opressão surgiram. [.............................]
Uma das formas de opressão é exatamente a negação de que estamos em outro
paradigma, faz muito tempo. Qual presente? Ainda usam conceitos de outros
paradigmas para pensar o presente. As dicotomias correm soltas, como se o mundo
fosse uma coisa simples, uma luta de opostos que leva para um bom futuro. As dicotomias
ainda correm soltas: homem x mulher, inteligência x idiotia, loucura x sanidade,
riqueza x pobreza, trabalho x vagabundagem, norte x sul, ciência x empiria, público
x privado, frieza científica x paixão artística, indivíduo x massa, eu x o
outro, direita x esquerda. Isso é o óbvio, o que todos veem, muitos só enxergam
isso. Só que eles não entenderam as lutas de 68 e desconhecem as lutas em rede
que começaram com os Zapatistas. Eles desconsideram as análises de poder de Foucault
(o velho, mas sempre presente Foucault), não entendem o trabalho de Deleuze,
nunca leram Negri. E não por falta de inteligência; eles não suportam a
insegurança que o trabalho do pensamento da diferença produz, já que este mostra
um mundo caótico, deliciosamente caótico. Usam bases intelectuais de um
paradigma para pensar outro. Ou seja, se loucura é estar fora da realidade,
isso é loucura. Qual presente? [.....................................................]
O idiota não é alguém com menos saber, não há problema em ter menos saber. Idiotia
é amar a segurança ao ponto de não querer enxergar o caos, e o caos é o mundo. O
pensador privado em sua sala, aquele que pensa, se vê como um indivíduo, que
gosta de ser visto como um sujeito pensante, dono de suas ideias, autor, ou
seja, o gênio moderno, se ainda existe, não consegue ler Deleuze, já que ama
sua segurança, sua vidinha pequeno burguesa. Ele, o que faz é apenas dar certa consistência
para o que pensa, pensamento que na verdade é só reflexo do senso comum. Se acha
especial por conseguir falar e escrever o que pensa, mas como disse, ele pensa
como todos, é tão moralista, conservador, idiota como todos; só é um idiota com
um capital. Como pouquíssimos conseguem fazer isso, ele se acha diferente dos que
não escrevem e falam de forma articulada. Ele gosta de pensar e falar muito e
sempre, ou seja, extensivamente, não intensivamente, por isso, não há diferenças
de natureza entre um idiota que não escreve e um idiota que escreve, só
diferenças de grau. [..........] O que pouco veem e o que o “intelectual” não vê
é o caos. Para ele, caos é uma expressão pejorativa, idiotia é sua forma de se
impor em relação aos outros, loucura é o que ele detesta já que é um moderno,
racional. Mas idiotia é o bom senso; caos é a beleza do mundo, que deve ser experimentada
com certa cautela; loucura, esquizofrenia são marcas do pós-moderno, são possibilidades
de alegria ou expressões do poder. [.................................]. Os movimentos
em rede não precisam ler Negri já que sabem muito bem o que Negri pensa. Deleuze
e Negri já fizeram o trabalho de leitura e contextualização de Marx, Espinoza, Foucault,
Bergson e tantos outros. Apenas o “gênio” moderno – que vive faz décadas na
pós-modernidade e não sabe – que tentaria se colocar ao lado de Negri e fazer
sua leitura de Marx para pensar o paradigma atual. [..............] Contra a
segurança, dura, linha dura da mentalidade velha e cansada, contra isso temos a
leveza e a liberdade da criação de conceitos novos. “O velho tem que morrer” é
uma palavra de ordem dos setenta, mas faz tempo que morreu; e muitos tentam dar
vida ao cadáver. [...........].
...................................
Em Porto Alegre, nos últimos tempos, a
mobilidade ficou mais fácil, a partir de muitas ciclovias criadas. Está na moda
se locomover de skate, bike e roller. E me parece que isso faz parte da moda hipster.
O hipster difere dos que estão na moda, é alternativo; porém ser hipster é uma
moda, mesmo que dita alternativa. Para ser um tem que se estar dentro de certos
padrões. O hipster é ligado em arte e cultura de massa cult; tem interesse em
gastronomia. Visualmente, a partir de suas roupas, se percebe um sem
dificuldades: barbas longas, cabelos alinhados, camisas de manga curta com
colarinho apertado e bermudas (ambas com adornos psicodélicos), tênis social,
óculos enormes. Durante mais de um ano, ao menos em Porto Alegre, foi usado por
homens um tipo peculiar de corte de cabelo: Razor, uma imitação do corte dos
samurais. Todos os hipsters o usavam. Da mesma forma que surgiu, o cabelo razor
despareceu, de uma hora para outra. A Cidade Baixa é o bairro hipster de Porto
Alegre. Aqui há os cafés com bebidas não alcoólicas especiais, os
restaurantes-bares com comidas, feitas de forma criativa, e cervejas
artesanais. Além disso, o bairro tem inúmeras casas noturnas com som chamado
alternativo. O bom gosto gastronômico aliado ao bom gosto musical. Nos últimos
meses em Porto Alegre e, claro, na Cidade Baixa, começaram a aparecer centros
de moda hipsters. Neles se faz o cabelo, a barba, tatuagens, se toma cerveja e
se come. É uma moda tão pegajosa que é difícil não ter certos atributos da
identidade hipster, tanto que há hipsters que odeiam ser chamados de
hipsters. Quanto a questão da
mobilidade verde, aliada de um certo repúdio a grandes empresas, marcas dos
hipsters, isso diz respeito a um tipo de anti-capitalismo, a uma questão
ecológica, portanto, desvios de certas normas dominantes. Mas o Hipster se
desvia da norma para criar uma nova norma. Ele é o bom cidadão das redes
sociais, ele vai às ruas, luta por seus direitos, milita como pode, é o sujeito
controlado, mas que vive como se tivesse um grande grau liberdade. Ele se sente feliz por lutar por um bom
mundo, acredita que está construindo um bom mundo possível. Se sente feliz por ser quem é: politizado,
com uma moral elevada, além de ser alguém diferenciado. O barulho que faz é
pouco, não abala em nada os códigos dominantes; esse barulho não passa de uma
resistência incluída, ou seja, não é resistência. Se o cidadão está feliz, não
incomoda. E se ele sente feliz por ter um sentido em sua vida, ele pode dizer:
eu vivi, eu lutei, eu busquei um bom mundo, sou uma pessoa especial.
................
quinta-feira, 11 de maio de 2017
sacações
[..................................]
Dessubjetivar com drogas, que é um tipo de
dessubjetivação, mas a partir de outras linhas de fuga e devires, faz parte da
ética dos drogados. Dessubjetivação é uma questão ética, o sentido de uma vida,
a forma mais importante de resistência. A cartografia não é uma questão apenas
intelectual, e não precisa ser: um disco, um livro, uma transa, uma tomada da cidade, a relação com a
droga podem ser mapas.
[.............................................................................]
E obviamente quando falo em loucos, em
enlouquecer, estou falando em fluxos esquizos, experimentações de modulações do
caos, que são os mapas, aumentar o território, dessubjetivar.
[......................]
Há um comum [....] que aproxima marginais,
coletivos libertários, artistas, filósofos, cientistas; esse comum concerne a formas
de viver e pensar o mundo, que não deixam de ser também políticas, já que
viver é uma questão ética, estética, não de sobrevivência. Penso que a não
aceitação do controle, a luta contra ele, é esse comum. A luta contra o
controle é o ponto de partida para experimentações, criações de linhas de fuga.
E as linhas de fuga possibilitam uma percepção ou experimentação do molecular. Essa
percepção move este trabalho. Esse comum também toma uma forma mais direta, quase física: certos artistas, da linha
romântica, aqueles que viveram e muito, e muitas vezes isso está mais que
visível em suas obras, foram marginais e influenciaram coletivos
libertários. Muitos desses coletivos têm
contato direto com teóricos. Teóricos libertários foram
influenciados por artistas românticos e vice versa; e muitos desses artistas
são teóricos, e certas obras do campo do conhecimento são obras de arte
romântica. Essas proximidades se devem já
que, como disse, há uma questão existencial que os aproxima.
[.............................................]
Deleuze não inventou a percepção
molecular, deu um nome a ela, essa percepção tão especial que nos permite
fugir, devir outro, enlouquecer. E quanto a fuga, a linha de fuga: Deleuze não
inventou a fuga da prisão, nem o rap nos presídios ou o baseado antes do café
da manhã. [........] Uns chamam a potência da vida de “aquele momento em que
faço sexo com minha 'Garota Mágica' e parece que meu coração explode”, outros
de “quando estou dormindo, junto a 'Ela' e [......................]
[.................................]
Perceber que até o funcionamento do corpo
é uma prisão [......] que a cidade é uma prisão, que fazer parte de um povo é
estar preso a sua identidade, perceber que ser homem, branco racional é uma
prisão, que uma família, escola, empresa são prisões, perceber que o sexo pode estar centrado em tarinhas de almanaque, que quando se delira
muitos dos delírios são apenas neuroses presenteadas pela espetacularização da área
médica, perceber que os porcos pensam, são racionais e têm bom senso, muito mais do que a maioria dos humanos, que prazeres são vendidos no atacado, que mesmo a
luta na rua pode afirmar o modelo político dominante [..........................]
Perceber tudo isso pode levar a impotência ou a abolição. [....] Negri e Deleuze
criaram esses conceitos que são linhas de fuga em relação a tudo isso, que nos
mostram o vitalismo , possibilidades de formas de vida não
capturadas; conceitos que afirmam a crítica total e radical e ajudam a
enfrentar o encarceramento ao ar livre. E para compreendê-los, os conceitos, se
necessita ativar a percepção molecular. E como ativar? Vivendo.
[..............................]
Importante reconhecer as significações
dominantes, em nós, na vida, na sociedade e traçar as linhas de fuga, isso é a
cartografia, uma dessubjetivação em constante processo: não sou mais tão idiota, mas permaneço idiota. E deve permanecer, importante
ter um pouco de segurança. Idiota
não é uma pessoa, como o crítico da idiotia não é uma pessoa; percepção
molecular e idiotia não são duas coisas separadas isoladas, são linhas de um
agenciamento. Mesmo ao produzir crítica podemos estar afirmando o
controle, o descontrole pode muitas vezes se confundir com o micro fascismo,
por isso a cartografia.
[................]
Sim, eu sei ler, escrever, interpretar,
muitos não conseguem dar consistência para o que pensam, mas isso não me torna
especial, já que muitos fascistas, seres
sacanas, sabem ler, escrever e interpretar; e fazem isso melhor do que eu.
Talvez o que eu faça bem seja esse processo de despersonalização em que “Eu”
não diz muito, diz muito pouco. A despersonalização não exige inteligência,
genialidade e, sim, abertura ao caos.
[........]
O comando central é desnecessário já que
as regras e normas circulam livremente: sabemos as formas “corretas” de sentar,
nos portar, caminhar, falar, urinar, cagar, nos alimentar, fazer sexo. Sonhamos
com um futuro, acordamos de manhã, dormimos à noite, regramos os excessos, nos
vestimos, amamos, conversamos, trabalhamos, estudamos, festejamos, ficamos
felizes, nos submetemos [....] fazemos tudo isso,
e muito mais, naturalmente. Sim, todos sabem disso, mas estou falando obviedades já
que é divertido rir de tudo isso,
dessa vida de rebanho afirmada duramente.
Fazer sexo, ter prazeres, amar, e muito mais, são obviamente importantes, o
problema é quando há uma forma correta de fazer isso e os desvios são
rechaçados. A forma correta une as pessoas, e isso é muito diferente do comum
que é a base da tradição romântica, marginal [....] A grande importância social dessa tradição é mostrar que a vida pode
ser tão bela, melhor, tão interessante, quanto uma bela, melhor, interessante
obra de arte.
[........................................]
Posso apresentar muitas palavras de ordem
que dizem respeito à base de dispositivos de poder, ao senso comum do bom cidadão: “é um policial,
então mostre os documentos”. “É um pai, um
padre, um patrão: respeite”. “ Faz frio: se agasalhe”. “É uma vida, a sua:
não se mate”. “É um drogado, um traficante: fuja”. “É uma rua: caminhe na faixa”.
“São sete horas da manhã: acorde”. “Está tarde: durma”. “É sexta: fique
feliz”. “Fuja da pobreza”. “Ele leu muitos livros: é um bosta de intelectual, o
respeite”. “Está com fome: coma”. “Não fume: é proibido”. “Ame a vida. Seja
feliz”. “Está com dor de dente: vá ao dentista”. “Seja de direita ou de
esquerda.”.
[.........]
A arte cria um
outro mundo, muito mais interessante por ser fictício. A função da droga não é
essa? Arte, alucinações, devires são realidades em si mesmas. Fictício diz
respeito à diferença, é tão real quanto o real, é melhor. [.........]. Para entender o mundo não se necessita de teses, estudos de caso, e
sim, se experimenta a arte; a arte ajuda a entender o mundo, mesmo que seja o
mundo das percepções e afecções [....] A cidade é o suporte dessas proezas que alguns
fazem: deliram a cidade, deliram na cidade.
[..........]
Junk, como chamam heroína, significa lixo
e é uma das drogas mais potentes. A percepção molecular diz respeito a droga; é
um estado narcótico, não é sadio [....] Mas a bad trip para quem curte drogas é algo interessante. O pesadelo é
uma experiência das mais ricas; ser assaltado, ser esfaqueado, sofrer um
acidente, enfrentar cirurgias, sofrer de abstinência, transar com garotas e
depois saber que estavam doentes; enfrentar o mundo, vivê-lo com toda sua dor e
alegria. O prazeroso e o doloroso, o triste e o feliz, esses conceitos são
rasteiros; importam sim, os excessos; experimentar. Bukowski em um poema diz que
se pôr em risco, mas com estilo, que isso é arte; ou
seja, a existência deve ser uma obra de arte.
[........]
Talvez o erro seja mais importante. O fazer acadêmico é o certo. O certo é a assepsia. O vagabundo é sujo, o punk é sujo, o hippie é sujo. Esse texto é meio punk, meio hippie. A pureza é importante, desde que seja uma anfetamina pura, coca pura, o que cria um corpo sujo, doente, drogado, maculado.
Talvez o erro seja mais importante. O fazer acadêmico é o certo. O certo é a assepsia. O vagabundo é sujo, o punk é sujo, o hippie é sujo. Esse texto é meio punk, meio hippie. A pureza é importante, desde que seja uma anfetamina pura, coca pura, o que cria um corpo sujo, doente, drogado, maculado.
[...................]
sábado, 6 de maio de 2017
porto alegre, desde os anos 90
...........................................................................
Vivo em Porto Alegre
desde os anos noventa. A cidade mudou, eu mudei, o mundo mudou, o Brasil mudou
[................] A cidade sempre foi, também, meu espaço de festas, dramas,
namoros, loucuras. O adolescente não fica muito em casa já que ele não pode
fazer muito nesse tipo de espaço. Maconha tem um cheiro muito forte, e outras drogas
deixam louco o suficiente para ser notado. Se a namoradinha é muito nova os
pais não vão querer que ela fique no quarto do filho, por respeito aos pais
delas. Os pais não aprovam a amizade com certos amigos, então eles não podem
frequentar a casa. E o que o adolescente pode fazer é pouco, uma hora cansa e
ele vai para a rua. [................]
Os pais de certos amigos,
os que tentavam prender os filhos em casa, quando estes estavam próximos dos 15
anos não conseguiam mais impedi-los de sair. Os meus pais foram aos poucos
cedendo. Um dia, era de manhã cedo e perceberam que eu não estava em casa.
Entenderam que eu tinha passado a noite fora. Eu tinha 14 anos e foi toda uma
cena, chamaram até a polícia. Cheguei em casa pelas 10 horas da manhã, minha
mãe chorava, como disse, uma cena. Eu tinha ido para a Oswaldo Aranha, fiz a
festa com amigos, quando tudo fechou fomos para um bar na Avenida Goethe.
Fiquei com uma garota no alpendre de um prédio, foi minha primeira transa. Depois
disso, meus pais não podiam mais me dizer: não saia.
Eu morava no bairro Tristeza,
ali havia muitas possibilidades de vida noturna, muitos amigos começaram a sair
pela cidade a partir desse desbravamento da região. Um dos bares mais famosos
da Porto Alegre marginal, o Timbuka, era muito perto da minha casa. O bairro
era incrivelmente seguro sem ladrões e polícia. Apenas uma vila próxima tinha
algumas gangues de adolescentes, mas eles eram colegas meus, da minha turma,
eram amigos.
Esse bairro, Tristeza, é
um dos mais ricos da cidade e fica junto de um outro, o Assunção, mais rico
ainda, no qual estava situado o Timbuka; além disso, há um colégio público
exatamente na parte central do Assunção. O colégio público reunia o pessoal
pobre ou de classe média baixa de bairros das imediações. Eu estudei ali por um
bom tempo. Para mim, foi muito importante, já que tive meus primeiros amigos
pobres e negros. O Timbuka juntava uma turma de malucos, que ia lá para fumar
maconha, traficar, beber, cheirar pó. O meu grupo era formado pelo pessoal mais
novo que o frequentava. E essa era a grande questão: pra que ficar em casa,
quieto, vendo televisão, se a turma podia estar na rua, bebendo, usando drogas,
vivendo a vida, curtindo a vida, curtindo tudo aquilo que a cidade, grande,
proporciona? Talvez a cidade nem fosse tão fascinante, ainda mais nos anos 90,
mas era muito mais do que a casa familiar.
Fiquei fascinado ao ler
Bukowski, Kerouac e Fante. Eu já bebia, fumava maconha, era festeiro e
peregrinava a cidade de skate. Pelo meu estilo de vida me encontrei na obra
deles, isso com 14 anos. A partir dessas leituras e outras não tive mais medo
de usar qualquer tipo de droga; a droga que aparecia eu usava. A noite começou
a ficar mais louca e perigosa; subir o morro, também, não era mais um problema.
Uma das maiores vilas de Porto Alegre ficava em um bairro próximo do local que
eu morava, a Cruzeiro do Sul. Quando tinha sorte, comprava lá coca de boa
qualidade. Como já andava pela cidade de madrugada e tinha amigos pobres, não havia motivo para ter medo de ir numa vila. [..........]
........................................
Aqui do lado, do local em
que moro, há um dos cartões postais da cidade, o Viaduto da Borges. Nos anos
noventa havia muito comércio mais tradicional. Hoje, exatamente hoje, serve de
moradia para quem está na rua. Em 2013 ficou marcado como ponto das lutas “por
outro transporte público”. Outro ponto tradicional na cidade é a Usina do Gasômetro,
junto ao Rio Guaíba, que sempre reuniu turmas de maconheiros no fim da tarde; nos
últimos anos está sendo reformulado arquitetonicamente. Na frente do Gasômetro
há uma praça que juntava meus amigos punks na virada do século; hoje é uma praça
familiar, reconstruída.
Também junto ao Rio, mas no
início da Zona Sul, foi fundado um museu, o Iberê Camargo. Ele reúne pessoas
nos fins das tardes; é um ponto para se tirar fotos e postar no Faceboook. Além
disso, foi construída uma ciclovia que vem do centro até um dos bairros mais
caros de Porto Alegre. A ciclovia passa por um shopping center recentemente
construído. No local em que está o shopping e a ciclovia, havia uma avenida
perigosa, que era ladeada por terrenos baldios e uma vila. Na frente do Museu,
uma curva era famosa por ser local de muitos acidentes de carro. Eu sofri um
acidente ali, um amigo meu também, e muitos outros. O governo da cidade
preocupado com a curva fez muitas tentativas de torná-la segura. Uma delas, foi
a criação de sensores na pista, o que não ajudou em nada
[..................................]
.............................
Porto Alegre na virada do
século era uma cidade diferente. Haviam poucos controles de velocidade de
carros nas ruas. Dava para beber nos postos de gasolina e fumar dentro das
casas noturnas. A Rua Oswaldo Aranha estava no auge como ponto underground da
cidade; as áreas de prostituição da Rua Farrapos e do Bairro Menino Deus eram
bem vivas. A casa noturna NEO (antigo Fim de Século) passava pelo seu melhor momento.
Outra, o Garagem Hermética, tinha bons shows de bandas locais além
de festas para aqueles com interesse em cultura alternativa. Nos domingos à
noite o pessoal fazia pegas de carro pela cidade, principalmente na Rua Nilo
Peçanha. No fim da tarde de domingo enchia de gente nesse bar, o mais clássico
da Zona Sul, o Timbuka. Nas segundas feiras de noite o pessoal tomava o cruzamento
da Rua Independência com a Barros Cassal. Também nas segundas uma casa noturna
abria, o Virtual. Além disso, ainda funcionavam outras, como o Elo
Perdido e o DR Jekill.
Não sei se a cidade nessa
época era tão diferente dela no início de 1990 quando tinha acabado de entrar
na adolescência. Mas para mim aconteceu uma mudança radical ao começar a
dirigir e ter mais dinheiro no bolso, passei a experimentar a cidade de outra
forma. Sim, os automóveis são um dos grandes problemas urbanos, mas para um
jovem, tirar a carteira, ter um carro em mãos, isso cria um tipo de
empoderamento. Comentei sobre os pegas de carros, facilitados pelo trânsito não
muito controlado. O pega é uma brincadeira na cidade, meio suicida: andar em
alta velocidade pelas ruas, passar sinais vermelhos, não respeitar nenhuma
sinalização, e isso as vezes em duplas, grupos de carros
[...........................]
Na virada do século em
Porto Alegre, o carro permitia então passar por todos esses espaços, comentados
no primeiro parágrafo dessa parte, de uma forma simples e rápida. Um trajeto
comum era ir da Oswaldo Aranha até a Farrapos. Dois pontos distantes, pouco
comunicáveis, diferentes. Na Oswaldo, o pessoal ficava na rua, não tinha que
pagar para entrar nos bares; dava para estacionar o carro curtir o espaço, sair
dele e depois voltar. Na Farrapos, o que interessava era a área de
prostituição, as meninas que ficavam nas ruas. O pessoal jovem frequentava a
Rua não necessariamente para fazer um programa, mas sim para ver as meninas,
falar com elas. E sem um carro fazer tudo isso seria impossível.
[...............................]
Sempre me interessou a
área de indiscernibilidade entre a vida diurna e noturna, quando a festa continua,
sem parar: passar noites e dias seguidos na curtição da cidade, sem dormir, usando
pó, anfetamina, álcool, o que vier pela frente. É dia, meio da semana, tudo
funcionando a todo o vapor, gente no trabalho, os estudantes nas escolas, o
trânsito lento e monótono, mas alguns poucos estão em outra lógica. Me
interessa essa área de indiscernibilidade entre dia e noite já que diz respeito
a uma apreensão, percepção, experimentação diferente da cidade. Virar a noite
com a cabeça cheia de muita coisa e se chocar com a vida diurna, essa mudança
da noite para o dia já é radical. E se a festa está rolando direto, e não
importa qual é o dia, é fácil seguir o ritmo em uma cidade grande. [......................]
Virar a noite, não dormir, ficar uma, duas, mais noites acordados, e isso não
nas férias na praia, mas em uma cidade urbanizada, isso acentua a percepção
molecular. Prostitutas, drogados, traficantes, gente maluca, sempre estão nas
ruas, são fáceis de serem encontrados a qualquer hora de qualquer dia; claro
que é mais difícil as três da tarde de quarta-feira do que as três da manhã de
sexta; mas os malucos sempre se encontram.
O tempo cronológico é um
controle, duro, doloroso, e ele é marcado na metrópole. Em Porto Alegre a
maioria das ruas estão praticamente paradas em muitos horários. E isso doí, é
uma forma horrível de opressão, estando de carro ou de ônibus. Mas na rua pode
ter esse pessoal, no mesmo horário, caminhando ao lado dos carros. Esse pessoal
pode estar bêbado e chapado indo em direção do Rio para ver o pôr do sol.
sexta-feira, 5 de maio de 2017
cartografia
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O idiota é o bom cidadão; é o controlado,
é aquele que afirma as significações dominantes. Mas o idiota não é alguém, uma
pessoa, diz respeito a uma forma de pensar. Não há como não ser idiota, não
pensar como todos, não ser bom cidadão. Porém, pode-se traçar linhas de fuga,
ficar menos protegido, experimentar. Isso pode ser na arte, na vida, na
ciência, na filosofia, na música, no que for.
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O controle não necessita de um comando
central; as pessoas vigiam a si e aos outros. A cartografia não é
autovigilância é exatamente a compreensão da vigilância, e o que se pode ou se
quer fazer em relação a isso. As pessoas são apegadas a uma certa normalidade e
lutam a todo custo para mantê-la. Se sentem seguras aprisionadas, longe do
caos. Gostam de suas casas, querem elas bem cuidadas e agradáveis. E quando
estão na rua se sentem bem em ver um policial. Seria um mundo perfeito se
houvessem policiais em todas as esquinas; mas há policiais tão duros, ou
piores, nas ruas, por todos os lados, como disse, vigiando os outros e a si
mesmo.
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Não é fácil, principalmente sendo um
doutor, branco, classe média, compor a cartografia, já que os devires, as
linhas de fuga são mais imperceptíveis para a subjetividade dominante. É
interessante que muitos, o bom cidadão, só conseguem pensar em termos de macro
política, política do Estado. Desconsideram a micro política, que não é menos
expressiva, mas se refere a outras lógicas. Não conseguem enxergar a multidão
já que ela não tem rosto e não assina seu próprio nome. Ninguém diz: ‘somos a
multidão’; ou: ‘ali está a multidão’. Já um político é facilmente identificado:
tem um nome, um partido, fala por si mesmo, se representa. Políticos de
qualquer esquerda são um atraso, parece que não viveram a virada do século; se
tivessem vivido não seriam políticos, esses “Eus” centrados, personas; eles
deveriam estar no meio dos movimentos em rede, ser mais um na multidão. Sim, os
indivíduos são importantes e singulares nos movimentos, mas não são
egocêntricos ao ponto de ter o desejo de salvar o mundo sendo um político do
Estado. As pessoas enxergam apenas o visível: um político, um rosto, um
posicionamento ideológico, um discurso. Belzebu é um enxame; Legião (o demônio)
é uma multiplicidade; Baphomet é um monstro impuro; isso é a Multidão, não um
bom Deus, seu bom filho, alguém acima, em um mundo ideal que dá as leis para
que seus filhos vivam. Por isso, Negri trata os políticos, o Estado, como
afirmadores de transcendência. Voltamos para a luta primeva? Deus X a Legião
Demoníaca? Talvez por isso não se fale em multidão e movimentos em rede e sim
apenas na política estatal. O demoníaco não pode nem ser mencionado pelos
fanáticos pela transcendência. Isso mostra a necessidade de uma nova percepção
para entender um outro mundo vivo, atual e caótico – e só os loucos enxergam o
caos.
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O bom cidadão é apaixonado por si e os
seus, eles são bons; o vagabundo é o erro da sociedade, como os outros párias.
Mas o vagabundo mostra outras realidades, tempos possíveis, e isso dói no bom
cidadão já que ele é apaixonado por sua vida. O bom cidadão, o sujeito
incluído, de classe média, que vive com mais segurança que os outros, se ama
tanto que deseja que todos tenham uma vida igual a sua, essa é sua utopia. Ele
não aceita a vida do pária, o pária não pode ser pária, ele não pode ter essa
possibilidade de vida. Todos têm que trabalhar, ter casa, ser consumidor, ter
seus deveres e cumpri-los. Mais democracia, mas numa falsa democracia, continua
sendo falsa democracia; capitalismo mais humano continua sendo
capitalismo. Claro que ‘bom cidadão’ é
uma identidade ideal que não abarca uma pessoa, todos fogem, enlouquecem de
certa forma, mesmo sem notar.
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A não aceitação da vida como ela é imposta
é a crítica, assim, mesmo sem produzir obra, sem teorizar a sua existência, o
drogado é um crítico apenas por ser quem é. É radical, não aceita a percepção e
a afecção normatizadas, não aceita o funcionamento do próprio corpo, não aceita
o tempo cronológico, as leis, é contra a lógica do trabalho assalariado, mas
produz, sim, essas formas de vidas críticas. Pensar assim, no drogadinho como
crítico, permite que se fuja da transcendência, de colocar a teoria, o campo do
saber, em um local privilegiado. Viva a sabedoria das ruas!
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Método? Se faz o possível em determinado
momento a partir de certas condições para produzir, pensar e viver. Não há
método para viver. Cartografia não é um método. Percepção molecular não diz
respeito a métodos. Ver, ouvir, cheirar, tocar, lamber, perceber o mundo
molecularmente não é método, é questão existencial. Cartografia não é um método
a ser usado para se pensar determinados tipos de objetos. Não se tem a
cartografia em mãos e se usa ela quando em campo. A percepção molecular, por
ser um tipo de percepção, está sempre acionada, em alguns momentos fica mais
clara, expressiva. É a percepção livre dos freios da normatização. Muitos não a
notam, ou se assustam com ela. Como ela faz parte da vida, pensar sobre ela, é
pensar sobre a vida.
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Creio que os “meus” cacos de memória, que
misturam sonhos, alucinação, drogadição, vida em vigília, lembranças pela
metade ou borradas, com buracos negros sempre presentes, são como Cut Ups,
recortes prontos e daí…. os uso aqui nesse texto. Burroughs escreveu muitos
livros a partir de Cut Ups completamente louco de morfina. Ele mesmo dizia que
relia seus escritos e não tinha ideia de como aquilo havia sido escrito. Os Cut
Ups, como cacos de lembranças, não se referem a método, os cacos são
experiências de vida, que já estavam mais consistentes ou que foram aparecendo
na escrita, se atualizando. Assim, em muitas partes o livro toma a forma de um
mosaico, os cacos reunidos.
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Perceber valor na vida de um viciado,
abobado, desletrado como um punk, pode parecer um romantismo bobo, mas creio
que seja importante buscar valor no extremo da pobreza. O discurso corrente
diz: “o suicida se matou pela tristeza”, “o mendigo é totalmente infeliz pela
pobreza”, “o preso de forma alguma conseguiria sorrir”, “o viciado em crack tem
que se regenerar”. Qualquer um, mesmo o bom cidadão tem momentos de tristeza e
alegria. Um fumante de crack, um mendigo, um preso tem seus momentos de
alegria. Um viciado em crack é tratado como um rato, ou é preso ou morto, mas
naquele momento que junta um pouco de dinheiro, quando o tem em mãos, ele se
dirige para a boca, pega as pedras e se recolhe feliz em sua tenda imunda; daí
ele acende a pedra e se a quantidade for o suficiente para o seu vício, o
suficiente para que ele se chape, fique bem chapado, naquele momento ele é mais
feliz que um rei, ele é um rei. Claro que depois o barato passa e ele sente a
pior dor que pode ser sentida por alguém.
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A poesia, o que ela faz bem é trazer,
atualizar, mostrar, todos esses fluxos linguísticos, de fala, do que seja,
menores, perdidos por aí: na rua, em certos guetos, em certas estações,
cidades. Enlouquecer na língua, enlouquecer a língua, fazer ela delirar, foder
a língua, a currar como ela merece. O acadêmico é aquele que fala corretamente;
ele fala como poucos já que os da sua casta falam assim. Contra essa prisão,
contra a seriedade dos caretas, a fala do louco, daquele que não domina a fala,
do ignorante que se quer assim e que se foda, não mais que isso. E o coração do
poeta está com estes, os párias.
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Este livro é uma experimentação, nele testo
estilos de escrita: crônica, ensaio, caderno de notas, cadernos de notas
refinado, texto acadêmico, literatura. A crônica atravessa todos os capítulos,
como também insights, sacações que podem ser elementos da crônica. Junto a tudo
isso está a cartografia, que não é um método, e se isso transparece em certos
momentos se deve as contradições internas do trabalho.
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O grande tema do livro, portanto, é a
cidade, pensada como local do controle, o qual é afrontado pelas
experimentações dentro dela, contra e fora de controle. O que move o livro é a
tentativa de experimentação de uma percepção molecular, essencial para pensar a
potência das formas de resistência dentro da cidade.
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Acentuando o caráter experimental do
trabalho, após o fim do livro, publico no mesmo volume um outro livro. Sim, é
outro livro, tem um tamanho mínimo de um livro de literatura, e é publicado
conjuntamente, pelos seguintes motivos: 1. Foi escrito ao mesmo tempo que o
primeiro livro. 2. Ele é continuação das linhas de fuga traçadas. 3. Ele possui
uma escrita absurda, é totalmente experimental, não sei se foi feito para ser
lido [..........] Esse outro livro é a dessubjetivação em estado mais bruto e
ele será apresentado com mais detalhes em uma abertura em seu espaço nesse
volume.
domingo, 30 de abril de 2017
sacações de sacadas
Saí de um bairro mais familiar e
vim morar na Cidade Baixa, a parte mais boemia de Porto Alegre. Por sorte,
escolhi um apartamento em andar alto com sacadas amplas que tem como vista um
Largo, o Zumbi dos Palmares, local com muitas ações de movimentos sociais. Já
nos primeiros dias fiquei impressionado com as atividades no Largo e decidi
escrever sobre o que estava vendo. Como o texto rendeu bastante em pouco tempo comecei
a escrever um livro sobre a cidade como tema, este. Portanto, esta parte trata
principalmente de coisas que vi pelas pelas sacadas, mas há muitas sacações sobre
o bairro e suas mudanças nas últimas décadas. Não escolhi a vista como ponto de
partida por questões metodológicas, mas sim, por uma questão afetiva.
Esse olhar não deixa de
ser pequeno burguês; vejo o mundo do alto da minha torre, meu apartamentinho de
classe média, minha posição de doutor. E o mundo está lá embaixo, perigoso como
sempre. A rua é o lugar de todos, e há tantos desabrigados aqui na frente.
Porém, já vivi esse espaço, o bairro, de forma transloucada: madrugadas e
madrugadas, bêbado, narcotizado, com turmas de marginais. Sempre vivi a cidade; por isso, que no meu
trabalho há sempre um cheiro de rua, vestígios das ruas.
Uma coisa legal da Cidade Baixa é que os donos dos
estabelecimentos, quem trabalha neles e os frequentadores, todos se comunicam,
se relacionam de uma forma horizontal. É gente praticamente da mesma idade, com
um certo interesse em cultura não massiva; e as garotas sempre são
bonitas. Quando estou nos espaços, converso com eles, o dono, ou donos, e o
pessoal que trabalha para eles. São todos receptivos e comentam a deterioração
do bairro nos últimos tempos. Já era violento na virada do século, depois ficou
menos pela modelização, mas nos últimos dois anos é uma das partes mais
perigosas da cidade.
As mudanças são mais que
visíveis na Rua João Alfredo, a segunda mais importante da Cidade Baixa, que se
transformou radicalmente: era uma rua meio opulenta, hoje as casas que abrigam
bares estão todas pixadas e fumantes de crack estão sempre por todos os lados. Notei
isso quando as cinco da manhã, depois de um tempo sem sair de noite, fui na João
Alfredo e parecia uma festa dentro de uma favela. É estranho já que o bairro
ganha mais comércio, muitas vezes gourmet, e ao mesmo tempo fica mais marginal.
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Eu – Cara, achei um
apartamento bem bom, ótima localização, bom preço. Mas só fiquei nas fotos, não
fui lá.
Um parceiro meu – Por que?
Eu – O ap tem duas
sacadas grandes, uma no quarto outra na sala. Só que são abertas, os parapeitos
são tipo grades baixas de metal. Oitavo andar.
Meu parceiro – É, deve
ser legal chegar de madrugada bêbado e tomar a saideira na sacada...
Eu – Estava pensando
exatamente nisso.
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Decidi por fim alugar o
apartamento; mas a escolha foi demorada já que tenho medo de altura. Porém, foi
exatamente a vista que me fez locar o imóvel. Talvez seja uma das mais
interessantes de Porto Alegre: oitavo andar, de frente para o Largo Zumbi do
Palmares, local que tem atividades constantes.
Não estava interessado em morar na Cidade Baixa; não fazia questão; muito
barulho, muita festa. Não queria acordar de madrugada com vontade de sair. Mas
agora estou aqui desde sexta; hoje é segunda. Estou aqui escrevendo, faz sol, é
de manhã, e quando paro de escrever, olho a vista. Montei a sala de tal forma
que posso vê-la, a vista, mesmo quando estou escrevendo e pesquisando no computador.
Arrumei tudo na sexta de
noite, estou bem instalado, porém sem sinal de internet. Meu plano de dados está
consumindo muito. Não tenho televisão, faz anos. Por isso, fiquei muito tempo
entretido com o que se vê das sacadas. No sábado, fiquei intrigado com um rapaz
de pé, de frente a uma janela, uns 300 metros à minha frente, no décimo andar
de um edifício, que provavelmente fica na Rua José do Patrocínio. Ele estava de
pé e as vezes desaparecia. Como estava distante, não conseguia ver direito. Mas
entendi a cena: ele estava, não de pé, mas de joelhos em uma cama transando.
Daqui vejo vários locais
que já frequentei. Descobri no sábado que dá para ver um prédio que morei entre
2005 e 2006. Depois, notei a parte de cima de outro prédio no qual fiquei um
bom tempo em 2013, já que ali morava uma namorada na época. Também vejo o
edifício de um amigo meu. Aqui na frente tem mais espaços importantes para mim:
uma lancheira, o Cavanhas, que era ponto de encontro de minha turma na
adolescência; o local que abrigava uma casa noturna, o Dr Jekyll; o bar Ossip,
que frequento desde os 20 anos; um teatro no qual assisti inúmeras peças desde
a adolescência. Mas o mais importante é o Largo Zumbi. No Largo, participei de
manifestações e encontros de movimentos em rede e quando era mais novo ali
praticava skate.
sábado, 29 de abril de 2017
crônicas: poa, na virada do século
As páginas posteriores
são sobre cacos de memória, referidos a Porto Alegre na virada do século.
Tratam da indiscernibilidade entre dia e noite, sonho e vigília, lucidez e
alucinação, realidade e ficção. São coisas que vi, fiz, ouvi, outras que possivelmente
são buracos negros, invenções, truques da memória. Como são situações que não tenho
certeza se aconteceram, escrever sobre elas é literatura ou autobiografia? Por
isso, no caso, o registro artístico é mais importante do que o trabalho
cientifico, a arte expõe melhor a loucura e a narcose do que as ciências.
De madrugada, acabei de
sair de um bar, pedi um ácido prumas pessoas, desconhecidas, não sei se me
deram, se eu tomei. Estou descendo de carro a rua do Jardim Botânico, os vidros
abertos, som alto, alta velocidade, começo a respirar fundo, fundo, mais fundo,
de repente cada inspiração é como seu eu estivesse aspirando um gás que sobe
direto pro meu cérebro e me dá uma sensação de prazer. A rua fica flat, paro em
um sinal, a alucinação acaba de súbito. Penso no que aconteceu: eu tomei o
ácido? A turma me deu alguma droga, uma droga nova? Nunca havia sentido isso.
Me envenenaram? No chão da parte da frente do carro, várias caixas de vários
tipos de medicamentos estupefacientes.
Estou voltando de carro
de Canoas, cidade ao lado de Porto Alegre; tinha virado a noite. Me sinto bem;
não sei o que tinha tomado, não que eu não lembre, mas eu não sei, e não sabia.
Devia ter tomado muita coisa. Estou na estrada e tenho um acesso de risos. Não
consigo parar de rir. Me sinto louco, mas não me importo.
A gangue na frente da NEO
de manhã; a luz do dia que quase cega; me sinto meio oprimido pela luz. Poucos
carros na avenida, um pouco frio. Um carro passa em alta velocidade e um dos caras
do grupo golpeia o carro e quebra o espelho retrovisor. Isso realmente
aconteceu? Poderia acontecer algo do tipo? Um carro na rua em alta velocidade
pode ser golpeado por alguém que tá a pé? E mais, esse alguém nem se lesionou.
Tomei ácido e codeína no
Garagem Hermética. A codeína tinha batido, mesmo que eu precisasse de doses
cavalares pra fazer efeito já que eu tomava feito água. O ácido não tava
batendo. Chego em casa de manhã nada do ácido ainda, mas sentia um vento
gostoso passando sobre mim, um frio agradável. De repente, paro na frente do
espelho e me olho. Olho fixamente e quase vejo os ventos. E daí, ouço uma voz: “se
despeça de mim”, ela diz. Ouço isso apenas quando olho o espelho. Na semana
seguinte uma amiga de infância se mata com um tiro.
Saio de um puteiro na
Cidade Baixa de manhã, estou na rua. Devo ter passado a noite junto com as
prostitutas. Me direciono pra casa, que ficava na quadra abaixo. Ouço uma
prostituta gritar meu nome, não dou bola e continuo caminhando. Tudo estranho; a estranheza de se encarar o
dia depois de ter estado a noite toda em um lugar fechado e escuro. O que se
passou? Provavelmente isso aconteceu inúmeras vezes, mas eu não tenho memórias
claras.
Nova York, década de 70,
Iggy Pop louco de muita coisa como sempre. Ele passa por um pessoal, diz “oi”,
mas não vê uma escada. Ele cai, rola pra baixo. Todo mundo diz: ele morreu. Mas
ele se levanta e continua caminhando como se nada tivesse acontecido. Quando li
a história pensei: acho que isso aconteceu comigo naquela casa noturna no fim
dos 90.
É de manhã, passo na área
administrativa da cidade depois de uma longa noite. Passo um sinal vermelho, a polícia
me para, e diz: “cara, é a segunda vez que você faz isso na semana; eu não vou te
passar no bafômetro hoje, mas na próxima eu te prendo”.
Eu tava vidrado nessa
mina. A gente se via sempre na NEO e ela virava a cara pra mim. Num domingo na
Oswaldo Aranha ela cede e a gente vai pro meu ap na Cidade Baixa. É de noite,
madrugada, ela se apoia na janela, nua. Nunca havia visto uma mulher tão bela,
gostosa. A gente transa na janela mesmo, olhando pra rua. Depois acho que já é
dia, a gente tá na sala, eu estou nu e ela tá com aquele vestido negro
mostrando o corpo. Horas mais tarde estou sozinho em casa e vejo que ela tinha
escrito em meu diário: “vai a merda, eu te amo”. Na noite posterior a tudo
isso, a garota que eu gostava, uma ninfeta dez anos mais nova, permite que eu a
beije, não na boca, como rolou no Parque da Redenção horas antes, mas em seus
peitos, em seu ventre, em sua vagina. Daí, dias depois, estou fumando um na
janela e vejo que ela – a ninfeta – lê meu diário; ela lê aquilo que a outra
mina tinha escrito: “vai a merda, eu te amo”. Ela, a ninfeta, foi embora e
nunca mais a vi.
Caminho pela rua, parece
que estou caminhando sempre, sem parar, dia e noite. Encontro um amigo e a
gente vai tomar uma ceva num bar perto da Redenção. Antes eu tava na Redenção beijando
duas EMOS. Sempre encontrava elas e não sei o que mais rolava, não lembro. Eu e
o amigo a gente tava bebendo uma cerveja e comentei com ele: acho que eu tava de
tarde no centro, perto da Matriz, tinha poucas pessoas na rua, vi uma mina. A
gente, eu e a mina se olhou, eu beijei ela, assim do nada. Nunca tinha visto
ela e ela gostou. Sim, isso aconteceu, mas eu não me lembro.
Eu, minha amante e minha namorada,
a gente foi pro acampamento do Fórum Social Mundial. Isso em 2001 ou 2003 ou
2002. Minha namorada ficou conversando com minha segunda amante e eu fiquei com
a minha primeira já que ela tinha várias caixas de Valium e Rohypnol. Então ela
foi me dando comprimidos. Eu pedia, ela me dava. Isso era de noite quando o
pessoal dançava, bebia e tocava instrumentos rústicos entre fogueiras. De manhã
a gente chega em casa, não sei como. Mas lembro bem de tomar tudo que ela tinha
em mãos, mas não lembro da overdose, nem quando me levaram pro ambulatório. E
tudo isso pode ter sido um sonho.
É uma noite escura, estou
na Barros Cassal. Eu encontro aquela mina com sotaque estranho que era atriz de
filmes de terror pornô. Em outra noite eu pedi pra fotografar os peitos dela,
enquanto o diretor dela tava cheirando cocaína em um grande espelho, isso no Garagem
Hermética. Daí eu tava com a mina e a gente deu umas voltas pela cidade de
carro. Acho que tava junto aquele cara, o Paulista. Eu digo pra ela que não
posso comprar codeína, a única farmácia que tinha não vendia mais pra mim. Ela
vai até a farmácia com as receitas e consegue comprar. Daí o Paulista, enquanto
ela comprava, disse que iria me dar pelo menos mil reais se a gente roubasse a
farmácia. Eu mudo de assunto. A gente tava num posto perto na Farrapos e o Paulista
desaparece num carro com um psicopata cheirador. Eu fico com ela como queria. A
gente tira umas fotos. Eu peço um beijo e ela me chama de infantil. Deixo ela
em algum lugar muito longe, talvez na Avenida Assis Brasil.
O dia nasce e estou
caminhando em direção da Farrapos pra ir num puteiro; tinha perdido o
carro?
Eu e minha namorada a
gente decide conversar sobre a relação dentro do banheiro de um bar na Lima e Silva.
A gente entra e começa a conversar. Ao mesmo tempo uma das atendentes do bar
fica batendo na porta dizendo pra gente sair. A gente não sai, ficou lá uma meia
hora. Nossa turma de amigos tava lá fora fazendo não sei o que, mas nos
esperando. Dez anos antes eu e meus amigos a gente entra em um banheiro
minúsculo pra cheirar pó pela primeira vez. A porta começa a bater, e a gente
ouve berros pedindo pra que a gente saísse. Isso era meio óbvio já que era o
único banheiro masculino de um bar que enchia de caras que bebiam cerveja. Mas
lá no bar da Lima e Silva eu e minha namorada a gente ouve uma voz alta e
masculina dizendo: é a polícia, se não abrirem a porta, vamos derrubar. A gente
abriu e saiu sem problemas; apenas nunca mais deixaram a gente entrar no bar.
Mas o mais interessante é que a polícia bate as sete horas da manhã na porta do
meu ap na José do Patrocínio. Pensei: me ralei. Eu abro a porta e o policial
diz: mas você de novo! Era o policial que me tirou do banheiro em que eu tava
com minha namorada. Nesse dia a coisa foi simples, eu só tinha estacionado o
carro em frente de um bar o que tava impedindo que o bar fosse aberto. Não sei
o quanto de verídico é essa história, já que eu não confio em mim.
Eu saio de manhã da NEO.
Uma garota debocha de seu amigo gay. Ela lhe dá um tapa no rosto. Eu fico puto
já que ela tava sendo sádica com alguém mais fraco. Eu lhe digo: bate em mim.
Ela abaixa a cabeça. Eu lhe digo: venha com minha turma não tem ninguém na rua
vocês podem ser assaltados. Ela vem atrás de mim e me beija na boca.
Eu peço cocaína pra
alguém, é um segurança e ele me põe pra fora de algum lugar que eu não me
lembro.
Eu beijo uma garota
dentro de um bar enquanto acontece uma chuva de garrafas, uma briga de gangue.
Eu acordo na rua, e a
minha futura namorada aparece e me compra um XIS pra eu comer.
Ela me chupa em seu
apartamento depois de anos tentando me comer. Meses depois eu vou na casa dela
de madrugada, mas ela mesmo assim me acolhe. Anos antes a gente caminhava de
madrugada da Osvaldo até a casa dela na Independência. Ela queria ficar comigo,
eu não. Anos depois eu durmo na casa dela e a gente transa. Ela fica brava
comigo já que derramei vinho no sofá. Anos depois eu digo a ele que a amo, e
ela diz que sabe que é mentira. Não posso falar sobre ela, já que não sei se
ela realmente existe ou existiu.
Eu entro em um banheiro
de um bar – não sei qual – com duas garotas. O banheiro é o feminino, talvez
estivessem lá outras garotas. Eu e as garotas a gente se beija. Não sei como era
o rosto delas. Parece que elas tavam tão seguras, livres, quanto eu. A gente
não tava nem aí com seguranças, com as pessoas em volta. Sinto que isso
aconteceu não uma vez, mas inúmeras vezes, em inúmeros lugares em inúmeras
épocas.
Em uma casa noturna eu
começo a caminhar e beijar qualquer garota que passa pela frente. Eu beijo
todas, umas dez, talvez tenha beijado rapazes, não sei. Lembro do afeto
envolvido, algo que me impulsionou a isso. Depois eu tava transando com uma garota dentro da casa, junto a uma das janelas, de frente pra Redenção, só que daí um dos seguranças saca o que estou fazendo e sou expulso do lugar.
Estou caminhando com um amigo e digo: Lucia é uma garota bonita, não? Ele diz: você ficou com ela noite passada. Eu pergunto prum outro amigo: eu tentei agarrar a Maria noite passada? Ele diz: você não devia ter feito isso.
Estou caminhando com um amigo e digo: Lucia é uma garota bonita, não? Ele diz: você ficou com ela noite passada. Eu pergunto prum outro amigo: eu tentei agarrar a Maria noite passada? Ele diz: você não devia ter feito isso.
Eu saio de um táxi na frente
da casa noturna e vejo uma mina; ela tava
conversando com um cara, acho. Não dou atenção pro cara e falo pra ela: vamos pro meu ap? A gente pega o mesmo táxi, vai pra minha casa e transa.
Depois disso ela foi embora. Não lembro do seu rosto.
um delírio, um sonho, um estado de narcose
Exemplifico a percepção
molecular, a cartografia do molecular, a partir de três momentos distintos: uma
cena que aconteceu no cotidiano, um sonho e um estado de narcose. Esses
momentos mostram áreas de indiscernibilidade entre sujeitos, colocam em jogo a
racionalidade e o bom senso, afirmam mundos diferentes, dos sonhos, dos
delírios, das drogas, mostram uma relação com a vida de estranheza, mas também
de alegria, a possibilidade de outros mundos, não só possíveis, mas atuais,
mesmo que seja a atualização a partir do delírio. A percepção molecular permite
o contato com o caos, e o caos é o mundo, já a percepção normatizada, fotografa, congela, impede os fluxos.
1. Estava na praia do rio
Guaíba em Porto Alegre. Estava fumando um cigarro. Vi um rapaz entrar no rio
com sua prancha de Wind Surf. Ele entrou sozinho. Começou a surfar, fazer
manobras. Em determinado momento caiu na água. A partir daí ele lutou durante
dez minutos para se levantar. Fiquei olhando preocupado já que ele estava
sozinho. Se levantou e voltou para a areia. Senti vontade de ir perguntar a ele
se estava tudo bem, queria saber como estava se sentindo. Quando fui dar o
primeiro passo em direção a ele, me senti estranho, uma sensação estranha;
fiquei com medo, fui para o meu carro. Quando entrei no carro, reconheci a
sensação: era a mesma que sentia após ficar preso em buracos na água da praia.
Para sair de um buraco se exige um grande esforço e por ser na água isso gera
um tipo específico de cansaço. Penso que senti o que o surfista estava sentindo
já que ele lutou na água por dez minutos para ficar de pé. Aconteceu algo entre
nós, compartilhamos o mesmo afeto, ou seja, uma linha de fuga da individuação
dos nossos corpos, os corpos compartimentados e isolados. Isso é uma
molecularização da percepção: sentir o sentimento do outro, que não é mais
outro, mas uma linha de um agenciamento no qual eu era também uma linha.
2. Um sonho, parecido com
a cena acima, no que se refere a indiscernibilidade entre sujeitos. Me perece
ser um sonho recorrente, desde a adolescência. Caio de um andar baixo, mas de
nuca e assim quebro o pescoço. Na caída, fico com medo, que aumenta até o
contato com o solo. No contato, quando quebro o pescoço, ao mesmo tempo, penso:
ok, morri. Morto, ainda me percebo; sei que estou morto e me percebo morto –
isso dura uns segundos, e nesses segundos conjuntamente, algo muito estranho
acontece: vejo uma garota caminhando em um espaço tempo que não reconheço; ela
caminha, está feliz, não muito, mas está; uma felicidade de adolescente, quando
se sente feliz sem grandes motivos. Só que entendo que eu sou aquela garota;
ainda me reconheço como aquele que morreu, mas sei que agora, depois daquela
morte, sou essa garota. Mais uns segundos, a lembrança da vida daquele que
morreu se apaga e a garota segue a vida dela – e parece que algo meu, o que
morreu, ficou com ela. É difícil de narrar esse sonho, pois ele trata de uma
despersonalização, da inexistência de barreiras entre sujeitos, é um tipo de
esquizofrenização. Obviamente, não faço uma leitura extra real, de vida após a
morte, de reencarnação; mas sim, para mim, fica óbvio no sonho que a vida não
se resume a vida pessoal: os fluxos passam entre sujeitos, entre sujeitos
acontece muita coisa; há o caos, mas o enxergamos a partir de lentes embaçadas.
O sonho é um delírio, e posso falar muito bem de delírios já que sou um drogado
desde os 13 anos de idade. Aliás, mesmo não me drogando, consigo perceber meu
devir drogado, por isso, trabalho com a percepção molecular e gosto de pensar e
lembrar de meus sonhos. Esse delírio permite uma narrativa da morte
interessante e acolhedora, tranquila e não dolorosa. A vida continua em sua
potência ou tristeza. Fico feliz com a felicidade da garota que também sou eu,
e nós somos moléculas entre o núcleo da terra e o cosmos.
3. Uma viagem de inalante
recorrente: a viagem é mais difícil de ser narrada, eu sinto que a compreendo
quase completamente, mas é difícil de narrar o que sinto, já que é um delírio,
os signos do delírio são diferentes aos normatizados. Por isso que em momentos
do livro eu tenho que usar literatura; preciso de uma linguagem inexata para
expor exatamente as descodificações. Eu cheiro e praticamente apago, meu corpo
deve estar parado, não tenho consciência do meu corpo, mas estou sonhando
(viajando). A viagem: percebo um mundo, um mundo como o nosso, idêntico, mas eu
não sou eu, eu sou um outro. Tenho uma outra vida, sou outra pessoa, estou
feliz, eu me compreendo como a outra pessoa da mesma forma que todos têm uma
compreensão de si, de seu corpo, história, etc.
Essa outra vida é boa, mas não muito diferente da minha em estado não
onírico. Em certo momento, pelo enfraquecimento da dose de inalante, eu retorno
a compreensão de minha vida em vigília, volto a ser “Diego este que fala”. Mas
há um ponto, um momento na viagem, que me faz compreender as duas vidas ao
mesmo tempo; e sinto um desejo de manter a vida onírica. Quando sou empurrado
para a vigília sinto nostalgia da outra vida. Após passar por essa viagem
inúmeras vezes, raramente, surge uma dúvida: se essa vida que penso ser minha
em um mundo concreto, neste mundo, se ela não é uma viagem de inalante. Será
que agora estou viajando e posso retornar em breve para outra vida? Como me
sinto e me compreendo agora não é diferente de como me sentia e me compreendia
nas viagens de inalante.
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