sexta-feira, 12 de maio de 2017

tomações


No fim da tarde, quando começa a escurecer, a vista fica mais bonita, com as luzes dos prédios. Agora, pessoas se reúnem em grupos pequenos no Largo; alguns fumam maconha. Depois da hora de pico os carros passam com mais velocidade. Como estou sem internet, a vista é minha tela. Fiquei dez anos no ap. antigo. Fiz as contas e o que gastei de aluguel – nesses dez anos – daria para comprá-lo. O mais curioso é que eu estava para locar um outro apartamento, que coincidentemente era da mesma proprietária desse ap. antigo. Talvez ela tenha comprado o imóvel com o meu dinheiro; e eu continuaria sendo sugado por ela. Aprendi na prática como o inquilino está à mercê do proprietário. Porém, há uma liberdade em alugar, não ter um imóvel, ter pouco, não ter laços fortes, isso para mim é importante. Ter pouco a perder, essa é a alegria do vagabundo. Ele tem seu corpo, sua linguagem, seu carrinho, seus desejos. [.................] A Cidade Baixa é um dos bairros de Porto Alegre com maior número de moradores de rua. Aqui na frente, numa praça junto ao Largo, se reúnem muitos deles. No bairro, uma mulher que pede esmolas volta e meia desaparece e reaparece. Em 15 anos vi ela grávida inúmeras vezes. Na República, uma das ruas mais bonitas da Cidade Baixa, há um outro morador de rua, com idade avançada, que está ali faz uns seis anos. Também o bairro tem muitos guardadores de carros, jovens, que possivelmente não têm moradia. Além disso, junto a um conjunto habitacional, faz alguns anos, um grupo grande passa o dia junto a colchões e colchas velhas. O bairro também conta com um albergue popular e seu entorno (do albergue) reúne essas pessoas que possuem apenas o que podem carregar com as mãos. E mais, o cartão postal da cidade, nos últimos tempos, aglomera tendas em toda sua extensão, se tornou espaço dos que não têm casa – é o Viaduto da Borges, que fica a três quadras daqui e o veria se não existissem alguns prédios que tapam a vista. A prefeitura volta e meia desaloja o pessoal, mas eles sempre voltam. Interessante é o fato de que o Viaduto já foi palco de batalha entre manifestantes e polícia, principalmente em 2013. [.......................]
Em 2013 jovens saíram do Centro e vieram até o Largo. Ali, lutaram contra a polícia, depredaram carros e edifícios. Nessa época, eu e um amigo, numa segunda feira, estávamos no local, em um encontro de um coletivo libertário. Meu amigo queria tomar uma cerveja; eu disse: vamos, mas depois voltamos. Atravessamos a Perimetral e vimos junto a uma praça um bloco policial, todos policiais armados e em posição de ataque. Passamos por eles. Os policiais, por fim, não agiram contra o coletivo, mas como a cidade estava “muito quente” na época, eles faziam o controle. As brechas na cidade não são poucas. O controle não é absoluto na cidade pela própria estrutura dela. O poder quer que as linhas de fuga não existam, mas existem. [........................] O nojo dos cidadãos para com os moradores de rua mostra quem eles – os cidadãos – são; odeiam qualquer coisa que macule a cidade que deve ser higienizada, modelada – é, eles desejam o controle.  Os moradores de rua, são os sujeitos da vida nua, despida de bens, eles praticamente não consomem, não tem moradia, são feios e sujos, vivem do lixo. Mas são uma das diversidades do tecido urbano. Não é uma pobreza voluntária e esse é o problema. Porém, a riqueza deles é algo que deve ser mapeado.    
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Essa minha relação afetiva com a cidade é muito antiga. Quando comecei a usar maconha – diariamente, três, quatro, cinco, mais baseados, isso com treze anos – gostava de fumar principalmente, antes da aula, de manhã, e enfrentar a rua; era o primeiro “beque” do dia e assim fazia efeito. Eu gostava de contemplar, sentir o início do dia chapado. Eu pegava ônibus, ficava na janela e olhava para a rua como se estivesse vendo um filme. Curtia, também, quando ia fumar com meus amigos mais velhos de carro. Era a mesma sensação, o para-brisas como tela. Quando estava sentado do lado do motorista, ficava olhando o espelho retrovisor que parecia uma pequena televisão. [..........................] Minha primeira crônica foi sobre o trecho de uma estrada que vai de Porto Alegre até uma cidade vizinha; minha primeira reportagem foi sobre a noite na cidade. Na monografia trabalhei com a vagabundagem urbana. Parte da tese dediquei à cidade de Barcelona. [............] A questão afetiva sempre moveu meus trabalhos, por isso, não me encaixo na identidade ideal de pesquisador, de cientista. O que move meu trabalho, sempre, é o afeto. Considero que é impossível pensar o mundo, a sociedade em que vivemos, sem sentir dor, medo, frustração e, até mesmo, um sentimento perigoso como o de insuportabilidade.  Mas, como as linhas de fuga estão sempre agindo, como a multidão produz, resiste, deseja, pensar nisso permite afetos nobres, como paixão, alegria. E como ou por qual motivo abstrair isso – o afeto – se está sempre presente? Falar de forma aberta, franca, demonstrar os sentimentos, não se perder em uma assepsia própria a ciência é uma falha, um erro? Sim, é um erro, mas eu gosto de errar. Quando falo “eu” (e isso é frequente aqui) afirmo minha posição afetiva, tento fugir da fala impessoal acadêmica; mas obviamente ‘eu’ não diz muito. Dizer “EU” é rotular, criar uma fotografia que nega os fluxos, as conexões, os agenciamentos. O livro está cheio de memórias pessoais que dizem respeito a esse “eu”, mas foi a forma que encontrei para pensar certos coletivos e os processos que passam as cidades. Como já disse, há contradições no meu trabalho, claro, pois é uma experimentação.  
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[....................] Como havia pessoas no pátio dessa ocupação aqui perto – que eu estava rondando faz um tempo – eu abordei o pessoal e disse: olha, eu pesquiso okupas, eu passei aqui na frente inúmeras vezes, vocês devem ter me notado, estava com vergonha de me aproximar de vocês, já que eu sei que o pessoal antissistema não gosta de pesquisadores, mas gostaria de falar com um de vocês, fazer perguntas sobre o funcionamento do espaço, como ele está sendo gerido [..............] O coletivo, no momento, era formado por garotas, já tinha notado que a maior parte dos membros eram mulheres. As garotas me interrogaram e muito, disseram que eu deveria saber que eles não são abertos ao diálogo, pelo menos com gente como eu, um pesquisador. Notei que elas estavam incomodadas com a situação. Quando vi que não haveria realmente diálogo eu disse: peço desculpas por ter vindo aqui, não vou mais passar na frente do espaço, admiro vocês, que vocês fiquem bem e que dê tudo certo.
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[...................] As pessoas pensam sempre no futuro, desejam um bom mundo, mas que sempre está além e, por isso, não dão importância para o que está acontecendo, agora no presente. E o que é o presente? Tempos diversos sempre estão interagindo. O tempo do drogado não é o tempo do bom cidadão. O tempo em uma okupa funciona de forma diferente do tempo em uma empresa ou escola. Qual presente? [.....................] A revolução Contra Cultural aconteceu faz quanto tempo? E não foi apenas cultural, uma revolução de costumes – não há como separar cultura de política –, foi uma luta contra o poder reticular, as disciplinas, os dispositivos de poder atualizados: no chão da fábrica, na universidade, nas relações parentais, na família como destino obrigatório, no Estado de Bem Estar que estancava as lutas mais radicais, no patriarcado, nos gêneros e na sexualidade, no racismo, na guerra as drogas.................. [........................]  As lutas moleculares de 68 atingiram as malhas do poder e o mundo não foi mais o mesmo; direitos foram conquistados; porém o poder, tomou outras formas, mais capilares. A empresa modulada, desterritorializada, impediu a luta dos trabalhadores. As minorias se tornaram consumidores e produtores. O poder transcendente, mais localizado, os termos dominantes que se sobrepunham a termos menores, ficaram mais fluidos, imanentes. A sociedade de controle abarcou todo o social. Se na sociedade disciplinar ainda existiam buracos, brechas de subversão, na sociedade de controle o poder começou a aparecer em todo o lugar. Os cidadãos, todos, viraram policiais, de si e dos outros. Formas novas de opressão surgiram. [.............................] Uma das formas de opressão é exatamente a negação de que estamos em outro paradigma, faz muito tempo. Qual presente? Ainda usam conceitos de outros paradigmas para pensar o presente. As dicotomias correm soltas, como se o mundo fosse uma coisa simples, uma luta de opostos que leva para um bom futuro. As dicotomias ainda correm soltas: homem x mulher, inteligência x idiotia, loucura x sanidade, riqueza x pobreza, trabalho x vagabundagem, norte x sul, ciência x empiria, público x privado, frieza científica x paixão artística, indivíduo x massa, eu x o outro, direita x esquerda. Isso é o óbvio, o que todos veem, muitos só enxergam isso. Só que eles não entenderam as lutas de 68 e desconhecem as lutas em rede que começaram com os Zapatistas. Eles desconsideram as análises de poder de Foucault (o velho, mas sempre presente Foucault), não entendem o trabalho de Deleuze, nunca leram Negri. E não por falta de inteligência; eles não suportam a insegurança que o trabalho do pensamento da diferença produz, já que este mostra um mundo caótico, deliciosamente caótico. Usam bases intelectuais de um paradigma para pensar outro. Ou seja, se loucura é estar fora da realidade, isso é loucura. Qual presente? [.....................................................] O idiota não é alguém com menos saber, não há problema em ter menos saber. Idiotia é amar a segurança ao ponto de não querer enxergar o caos, e o caos é o mundo. O pensador privado em sua sala, aquele que pensa, se vê como um indivíduo, que gosta de ser visto como um sujeito pensante, dono de suas ideias, autor, ou seja, o gênio moderno, se ainda existe, não consegue ler Deleuze, já que ama sua segurança, sua vidinha pequeno burguesa. Ele, o que faz é apenas dar certa consistência para o que pensa, pensamento que na verdade é só reflexo do senso comum. Se acha especial por conseguir falar e escrever o que pensa, mas como disse, ele pensa como todos, é tão moralista, conservador, idiota como todos; só é um idiota com um capital. Como pouquíssimos conseguem fazer isso, ele se acha diferente dos que não escrevem e falam de forma articulada. Ele gosta de pensar e falar muito e sempre, ou seja, extensivamente, não intensivamente, por isso, não há diferenças de natureza entre um idiota que não escreve e um idiota que escreve, só diferenças de grau. [..........] O que pouco veem e o que o “intelectual” não vê é o caos. Para ele, caos é uma expressão pejorativa, idiotia é sua forma de se impor em relação aos outros, loucura é o que ele detesta já que é um moderno, racional. Mas idiotia é o bom senso; caos é a beleza do mundo, que deve ser experimentada com certa cautela; loucura, esquizofrenia são marcas do pós-moderno, são possibilidades de alegria ou expressões do poder. [.................................]. Os movimentos em rede não precisam ler Negri já que sabem muito bem o que Negri pensa. Deleuze e Negri já fizeram o trabalho de leitura e contextualização de Marx, Espinoza, Foucault, Bergson e tantos outros. Apenas o “gênio” moderno – que vive faz décadas na pós-modernidade e não sabe – que tentaria se colocar ao lado de Negri e fazer sua leitura de Marx para pensar o paradigma atual. [..............] Contra a segurança, dura, linha dura da mentalidade velha e cansada, contra isso temos a leveza e a liberdade da criação de conceitos novos. “O velho tem que morrer” é uma palavra de ordem dos setenta, mas faz tempo que morreu; e muitos tentam dar vida ao cadáver. [...........].  
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Em Porto Alegre, nos últimos tempos, a mobilidade ficou mais fácil, a partir de muitas ciclovias criadas. Está na moda se locomover de skate, bike e roller. E me parece que isso faz parte da moda hipster. O hipster difere dos que estão na moda, é alternativo; porém ser hipster é uma moda, mesmo que dita alternativa. Para ser um tem que se estar dentro de certos padrões. O hipster é ligado em arte e cultura de massa cult; tem interesse em gastronomia. Visualmente, a partir de suas roupas, se percebe um sem dificuldades: barbas longas, cabelos alinhados, camisas de manga curta com colarinho apertado e bermudas (ambas com adornos psicodélicos), tênis social, óculos enormes. Durante mais de um ano, ao menos em Porto Alegre, foi usado por homens um tipo peculiar de corte de cabelo: Razor, uma imitação do corte dos samurais. Todos os hipsters o usavam. Da mesma forma que surgiu, o cabelo razor despareceu, de uma hora para outra. A Cidade Baixa é o bairro hipster de Porto Alegre. Aqui há os cafés com bebidas não alcoólicas especiais, os restaurantes-bares com comidas, feitas de forma criativa, e cervejas artesanais. Além disso, o bairro tem inúmeras casas noturnas com som chamado alternativo. O bom gosto gastronômico aliado ao bom gosto musical. Nos últimos meses em Porto Alegre e, claro, na Cidade Baixa, começaram a aparecer centros de moda hipsters. Neles se faz o cabelo, a barba, tatuagens, se toma cerveja e se come. É uma moda tão pegajosa que é difícil não ter certos atributos da identidade hipster, tanto que há hipsters que odeiam ser chamados de hipsters.   Quanto a questão da mobilidade verde, aliada de um certo repúdio a grandes empresas, marcas dos hipsters, isso diz respeito a um tipo de anti-capitalismo, a uma questão ecológica, portanto, desvios de certas normas dominantes. Mas o Hipster se desvia da norma para criar uma nova norma. Ele é o bom cidadão das redes sociais, ele vai às ruas, luta por seus direitos, milita como pode, é o sujeito controlado, mas que vive como se tivesse um grande grau liberdade.  Ele se sente feliz por lutar por um bom mundo, acredita que está construindo um bom mundo possível.  Se sente feliz por ser quem é: politizado, com uma moral elevada, além de ser alguém diferenciado. O barulho que faz é pouco, não abala em nada os códigos dominantes; esse barulho não passa de uma resistência incluída, ou seja, não é resistência. Se o cidadão está feliz, não incomoda. E se ele sente feliz por ter um sentido em sua vida, ele pode dizer: eu vivi, eu lutei, eu busquei um bom mundo, sou uma pessoa especial. 
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quinta-feira, 11 de maio de 2017

sacações


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Dessubjetivar com drogas, que é um tipo de dessubjetivação, mas a partir de outras linhas de fuga e devires, faz parte da ética dos drogados. Dessubjetivação é uma questão ética, o sentido de uma vida, a forma mais importante de resistência. A cartografia não é uma questão apenas intelectual, e não precisa ser: um disco, um livro, uma transa, uma tomada da cidade, a relação com a droga podem ser mapas.
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E obviamente quando falo em loucos, em enlouquecer, estou falando em fluxos esquizos, experimentações de modulações do caos, que são os mapas, aumentar o território, dessubjetivar.
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Há um comum [....] que aproxima marginais, coletivos libertários, artistas, filósofos, cientistas; esse comum concerne a formas de viver e pensar o mundo, que não deixam de ser também políticas, já que viver é uma questão ética, estética, não de sobrevivência. Penso que a não aceitação do controle, a luta contra ele, é esse comum. A luta contra o controle é o ponto de partida para experimentações, criações de linhas de fuga. E as linhas de fuga possibilitam uma percepção ou experimentação do molecular. Essa percepção move este trabalho. Esse comum também toma uma forma mais direta, quase física: certos artistas, da linha romântica, aqueles que viveram e muito, e muitas vezes isso está mais que visível em suas obras, foram marginais e influenciaram coletivos libertários.  Muitos desses coletivos têm contato direto com teóricos. Teóricos libertários foram influenciados por artistas românticos e vice versa; e muitos desses artistas são teóricos, e certas obras do campo do conhecimento são obras de arte romântica.  Essas proximidades se devem já que, como disse, há uma questão existencial que os aproxima.  
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Deleuze não inventou a percepção molecular, deu um nome a ela, essa percepção tão especial que nos permite fugir, devir outro, enlouquecer. E quanto a fuga, a linha de fuga: Deleuze não inventou a fuga da prisão, nem o rap nos presídios ou o baseado antes do café da manhã. [........] Uns chamam a potência da vida de “aquele momento em que faço sexo com minha 'Garota Mágica' e parece que meu coração explode”, outros de “quando estou dormindo, junto a 'Ela' e [......................]
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Perceber que até o funcionamento do corpo é uma prisão [......] que a cidade é uma prisão, que fazer parte de um povo é estar preso a sua identidade, perceber que ser homem, branco racional é uma prisão, que uma família, escola, empresa são prisões, perceber que o sexo pode estar centrado em tarinhas de almanaque, que quando se delira muitos dos delírios são apenas neuroses presenteadas pela espetacularização da área médica, perceber que os  porcos pensam, são racionais e têm bom senso, muito mais do que a maioria dos humanos, que prazeres são vendidos no atacado, que mesmo a luta na rua pode afirmar o modelo político dominante [..........................] Perceber tudo isso pode levar a impotência ou a abolição. [....] Negri e Deleuze criaram esses conceitos que são linhas de fuga em relação a tudo isso, que nos mostram o vitalismo , possibilidades de formas de vida não capturadas; conceitos que afirmam a crítica total e radical e ajudam a enfrentar o encarceramento ao ar livre. E para compreendê-los, os conceitos, se necessita ativar a percepção molecular. E como ativar? Vivendo.
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Importante reconhecer as significações dominantes, em nós, na vida, na sociedade e traçar as linhas de fuga, isso é a cartografia, uma dessubjetivação em constante processo: não sou mais tão idiota, mas permaneço idiota. E deve permanecer, importante ter um pouco de segurança. Idiota não é uma pessoa, como o crítico da idiotia não é uma pessoa; percepção molecular e idiotia não são duas coisas separadas isoladas, são linhas de um agenciamento. Mesmo ao produzir crítica podemos estar afirmando o controle, o descontrole pode muitas vezes se confundir com o micro fascismo, por isso a cartografia.
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Sim, eu sei ler, escrever, interpretar, muitos não conseguem dar consistência para o que pensam, mas isso não me torna especial, já que muitos fascistas, seres sacanas, sabem ler, escrever e interpretar; e fazem isso melhor do que eu. Talvez o que eu faça bem seja esse processo de despersonalização em que “Eu” não diz muito, diz muito pouco. A despersonalização não exige inteligência, genialidade e, sim, abertura ao caos. 
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O comando central é desnecessário já que as regras e normas circulam livremente: sabemos as formas “corretas” de sentar, nos portar, caminhar, falar, urinar, cagar, nos alimentar, fazer sexo. Sonhamos com um futuro, acordamos de manhã, dormimos à noite, regramos os excessos, nos vestimos, amamos, conversamos, trabalhamos, estudamos, festejamos, ficamos felizes, nos submetemos [....] fazemos tudo isso, e muito mais, naturalmente. Sim, todos sabem disso, mas estou falando obviedades já que é divertido rir de tudo isso, dessa vida de rebanho afirmada duramente. Fazer sexo, ter prazeres, amar, e muito mais, são obviamente importantes, o problema é quando há uma forma correta de fazer isso e os desvios são rechaçados. A forma correta une as pessoas, e isso é muito diferente do comum que é a base da tradição romântica, marginal [....] A grande importância social dessa tradição é mostrar que a vida pode ser tão bela, melhor, tão interessante, quanto uma bela, melhor, interessante obra de arte.
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Posso apresentar muitas palavras de ordem que dizem respeito à base de dispositivos de poder, ao senso comum do bom cidadão:  “é um policial, então mostre os documentos”. “É um pai, um padre, um patrão: respeite”. “ Faz frio: se agasalhe”. “É uma vida, a sua: não se mate”. “É um drogado, um traficante: fuja”. “É uma rua: caminhe na faixa”. “São sete horas da manhã: acorde”. “Está tarde: durma”. “É sexta: fique feliz”. “Fuja da pobreza”. “Ele leu muitos livros: é um bosta de intelectual, o respeite”. “Está com fome: coma”. “Não fume: é proibido”. “Ame a vida. Seja feliz”. “Está com dor de dente: vá ao dentista”. “Seja de direita ou de esquerda.”.
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A arte cria um outro mundo, muito mais interessante por ser fictício. A função da droga não é essa? Arte, alucinações, devires são realidades em si mesmas. Fictício diz respeito à diferença, é tão real quanto o real, é melhor.  [.........]. Para entender o mundo não se necessita de teses, estudos de caso, e sim, se experimenta a arte; a arte ajuda a entender o mundo, mesmo que seja o mundo das percepções e afecções [....] A cidade é o suporte dessas proezas que alguns fazem: deliram a cidade, deliram na cidade.
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Junk, como chamam heroína, significa lixo e é uma das drogas mais potentes. A percepção molecular diz respeito a droga; é um estado narcótico, não é sadio [....] Mas a bad trip para quem curte drogas é algo interessante. O pesadelo é uma experiência das mais ricas; ser assaltado, ser esfaqueado, sofrer um acidente, enfrentar cirurgias, sofrer de abstinência, transar com garotas e depois saber que estavam doentes; enfrentar o mundo, vivê-lo com toda sua dor e alegria. O prazeroso e o doloroso, o triste e o feliz, esses conceitos são rasteiros; importam sim, os excessos; experimentar. Bukowski em um poema diz que se pôr em risco, mas com estilo, que isso é arte;  ou seja, a existência deve ser uma obra de arte.  
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Talvez o erro seja mais importante. O fazer acadêmico é o certo. O certo é a assepsia. O vagabundo é sujo, o punk é sujo, o hippie é sujo. Esse texto é meio punk, meio hippie. A pureza é importante, desde que seja uma anfetamina pura, coca pura, o que cria um corpo sujo, doente, drogado, maculado.
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sábado, 6 de maio de 2017

porto alegre, desde os anos 90


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Vivo em Porto Alegre desde os anos noventa. A cidade mudou, eu mudei, o mundo mudou, o Brasil mudou [................] A cidade sempre foi, também, meu espaço de festas, dramas, namoros, loucuras. O adolescente não fica muito em casa já que ele não pode fazer muito nesse tipo de espaço. Maconha tem um cheiro muito forte, e outras drogas deixam louco o suficiente para ser notado. Se a namoradinha é muito nova os pais não vão querer que ela fique no quarto do filho, por respeito aos pais delas. Os pais não aprovam a amizade com certos amigos, então eles não podem frequentar a casa. E o que o adolescente pode fazer é pouco, uma hora cansa e ele vai para a rua. [................]
Os pais de certos amigos, os que tentavam prender os filhos em casa, quando estes estavam próximos dos 15 anos não conseguiam mais impedi-los de sair. Os meus pais foram aos poucos cedendo. Um dia, era de manhã cedo e perceberam que eu não estava em casa. Entenderam que eu tinha passado a noite fora. Eu tinha 14 anos e foi toda uma cena, chamaram até a polícia. Cheguei em casa pelas 10 horas da manhã, minha mãe chorava, como disse, uma cena. Eu tinha ido para a Oswaldo Aranha, fiz a festa com amigos, quando tudo fechou fomos para um bar na Avenida Goethe. Fiquei com uma garota no alpendre de um prédio, foi minha primeira transa. Depois disso, meus pais não podiam mais me dizer: não saia.
Eu morava no bairro Tristeza, ali havia muitas possibilidades de vida noturna, muitos amigos começaram a sair pela cidade a partir desse desbravamento da região. Um dos bares mais famosos da Porto Alegre marginal, o Timbuka, era muito perto da minha casa. O bairro era incrivelmente seguro sem ladrões e polícia. Apenas uma vila próxima tinha algumas gangues de adolescentes, mas eles eram colegas meus, da minha turma, eram amigos.
Esse bairro, Tristeza, é um dos mais ricos da cidade e fica junto de um outro, o Assunção, mais rico ainda, no qual estava situado o Timbuka; além disso, há um colégio público exatamente na parte central do Assunção. O colégio público reunia o pessoal pobre ou de classe média baixa de bairros das imediações. Eu estudei ali por um bom tempo. Para mim, foi muito importante, já que tive meus primeiros amigos pobres e negros. O Timbuka juntava uma turma de malucos, que ia lá para fumar maconha, traficar, beber, cheirar pó. O meu grupo era formado pelo pessoal mais novo que o frequentava. E essa era a grande questão: pra que ficar em casa, quieto, vendo televisão, se a turma podia estar na rua, bebendo, usando drogas, vivendo a vida, curtindo a vida, curtindo tudo aquilo que a cidade, grande, proporciona? Talvez a cidade nem fosse tão fascinante, ainda mais nos anos 90, mas era muito mais do que a casa familiar.
Fiquei fascinado ao ler Bukowski, Kerouac e Fante. Eu já bebia, fumava maconha, era festeiro e peregrinava a cidade de skate. Pelo meu estilo de vida me encontrei na obra deles, isso com 14 anos. A partir dessas leituras e outras não tive mais medo de usar qualquer tipo de droga; a droga que aparecia eu usava. A noite começou a ficar mais louca e perigosa; subir o morro, também, não era mais um problema. Uma das maiores vilas de Porto Alegre ficava em um bairro próximo do local que eu morava, a Cruzeiro do Sul. Quando tinha sorte, comprava lá coca de boa qualidade. Como já andava pela cidade de madrugada e tinha amigos pobres, não havia motivo para ter medo de ir numa vila.  [..........]
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Aqui do lado, do local em que moro, há um dos cartões postais da cidade, o Viaduto da Borges. Nos anos noventa havia muito comércio mais tradicional. Hoje, exatamente hoje, serve de moradia para quem está na rua. Em 2013 ficou marcado como ponto das lutas “por outro transporte público”. Outro ponto tradicional na cidade é a Usina do Gasômetro, junto ao Rio Guaíba, que sempre reuniu turmas de maconheiros no fim da tarde; nos últimos anos está sendo reformulado arquitetonicamente. Na frente do Gasômetro há uma praça que juntava meus amigos punks na virada do século; hoje é uma praça familiar, reconstruída.
Também junto ao Rio, mas no início da Zona Sul, foi fundado um museu, o Iberê Camargo. Ele reúne pessoas nos fins das tardes; é um ponto para se tirar fotos e postar no Faceboook. Além disso, foi construída uma ciclovia que vem do centro até um dos bairros mais caros de Porto Alegre. A ciclovia passa por um shopping center recentemente construído. No local em que está o shopping e a ciclovia, havia uma avenida perigosa, que era ladeada por terrenos baldios e uma vila. Na frente do Museu, uma curva era famosa por ser local de muitos acidentes de carro. Eu sofri um acidente ali, um amigo meu também, e muitos outros. O governo da cidade preocupado com a curva fez muitas tentativas de torná-la segura. Uma delas, foi a criação de sensores na pista, o que não ajudou em nada [..................................]
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Porto Alegre na virada do século era uma cidade diferente. Haviam poucos controles de velocidade de carros nas ruas. Dava para beber nos postos de gasolina e fumar dentro das casas noturnas. A Rua Oswaldo Aranha estava no auge como ponto underground da cidade; as áreas de prostituição da Rua Farrapos e do Bairro Menino Deus eram bem vivas. A casa noturna NEO (antigo Fim de Século) passava pelo seu melhor momento. Outra, o Garagem Hermética, tinha bons shows de bandas locais além de festas para aqueles com interesse em cultura alternativa. Nos domingos à noite o pessoal fazia pegas de carro pela cidade, principalmente na Rua Nilo Peçanha. No fim da tarde de domingo enchia de gente nesse bar, o mais clássico da Zona Sul, o Timbuka. Nas segundas feiras de noite o pessoal tomava o cruzamento da Rua Independência com a Barros Cassal. Também nas segundas uma casa noturna abria, o Virtual. Além disso, ainda funcionavam outras, como o Elo Perdido e o DR Jekill.
Não sei se a cidade nessa época era tão diferente dela no início de 1990 quando tinha acabado de entrar na adolescência. Mas para mim aconteceu uma mudança radical ao começar a dirigir e ter mais dinheiro no bolso, passei a experimentar a cidade de outra forma. Sim, os automóveis são um dos grandes problemas urbanos, mas para um jovem, tirar a carteira, ter um carro em mãos, isso cria um tipo de empoderamento. Comentei sobre os pegas de carros, facilitados pelo trânsito não muito controlado. O pega é uma brincadeira na cidade, meio suicida: andar em alta velocidade pelas ruas, passar sinais vermelhos, não respeitar nenhuma sinalização, e isso as vezes em duplas, grupos de carros
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Na virada do século em Porto Alegre, o carro permitia então passar por todos esses espaços, comentados no primeiro parágrafo dessa parte, de uma forma simples e rápida. Um trajeto comum era ir da Oswaldo Aranha até a Farrapos. Dois pontos distantes, pouco comunicáveis, diferentes. Na Oswaldo, o pessoal ficava na rua, não tinha que pagar para entrar nos bares; dava para estacionar o carro curtir o espaço, sair dele e depois voltar. Na Farrapos, o que interessava era a área de prostituição, as meninas que ficavam nas ruas. O pessoal jovem frequentava a Rua não necessariamente para fazer um programa, mas sim para ver as meninas, falar com elas. E sem um carro fazer tudo isso seria impossível.
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Sempre me interessou a área de indiscernibilidade entre a vida diurna e noturna, quando a festa continua, sem parar: passar noites e dias seguidos na curtição da cidade, sem dormir, usando pó, anfetamina, álcool, o que vier pela frente. É dia, meio da semana, tudo funcionando a todo o vapor, gente no trabalho, os estudantes nas escolas, o trânsito lento e monótono, mas alguns poucos estão em outra lógica. Me interessa essa área de indiscernibilidade entre dia e noite já que diz respeito a uma apreensão, percepção, experimentação diferente da cidade. Virar a noite com a cabeça cheia de muita coisa e se chocar com a vida diurna, essa mudança da noite para o dia já é radical. E se a festa está rolando direto, e não importa qual é o dia, é fácil seguir o ritmo em uma cidade grande. [......................] Virar a noite, não dormir, ficar uma, duas, mais noites acordados, e isso não nas férias na praia, mas em uma cidade urbanizada, isso acentua a percepção molecular. Prostitutas, drogados, traficantes, gente maluca, sempre estão nas ruas, são fáceis de serem encontrados a qualquer hora de qualquer dia; claro que é mais difícil as três da tarde de quarta-feira do que as três da manhã de sexta; mas os malucos sempre se encontram.  
O tempo cronológico é um controle, duro, doloroso, e ele é marcado na metrópole. Em Porto Alegre a maioria das ruas estão praticamente paradas em muitos horários. E isso doí, é uma forma horrível de opressão, estando de carro ou de ônibus. Mas na rua pode ter esse pessoal, no mesmo horário, caminhando ao lado dos carros. Esse pessoal pode estar bêbado e chapado indo em direção do Rio para ver o pôr do sol.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

cartografia


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O idiota é o bom cidadão; é o controlado, é aquele que afirma as significações dominantes. Mas o idiota não é alguém, uma pessoa, diz respeito a uma forma de pensar. Não há como não ser idiota, não pensar como todos, não ser bom cidadão. Porém, pode-se traçar linhas de fuga, ficar menos protegido, experimentar. Isso pode ser na arte, na vida, na ciência, na filosofia, na música, no que for.  
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O controle não necessita de um comando central; as pessoas vigiam a si e aos outros. A cartografia não é autovigilância é exatamente a compreensão da vigilância, e o que se pode ou se quer fazer em relação a isso. As pessoas são apegadas a uma certa normalidade e lutam a todo custo para mantê-la. Se sentem seguras aprisionadas, longe do caos. Gostam de suas casas, querem elas bem cuidadas e agradáveis. E quando estão na rua se sentem bem em ver um policial. Seria um mundo perfeito se houvessem policiais em todas as esquinas; mas há policiais tão duros, ou piores, nas ruas, por todos os lados, como disse, vigiando os outros e a si mesmo.
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Não é fácil, principalmente sendo um doutor, branco, classe média, compor a cartografia, já que os devires, as linhas de fuga são mais imperceptíveis para a subjetividade dominante. É interessante que muitos, o bom cidadão, só conseguem pensar em termos de macro política, política do Estado. Desconsideram a micro política, que não é menos expressiva, mas se refere a outras lógicas. Não conseguem enxergar a multidão já que ela não tem rosto e não assina seu próprio nome. Ninguém diz: ‘somos a multidão’; ou: ‘ali está a multidão’. Já um político é facilmente identificado: tem um nome, um partido, fala por si mesmo, se representa. Políticos de qualquer esquerda são um atraso, parece que não viveram a virada do século; se tivessem vivido não seriam políticos, esses “Eus” centrados, personas; eles deveriam estar no meio dos movimentos em rede, ser mais um na multidão. Sim, os indivíduos são importantes e singulares nos movimentos, mas não são egocêntricos ao ponto de ter o desejo de salvar o mundo sendo um político do Estado. As pessoas enxergam apenas o visível: um político, um rosto, um posicionamento ideológico, um discurso. Belzebu é um enxame; Legião (o demônio) é uma multiplicidade; Baphomet é um monstro impuro; isso é a Multidão, não um bom Deus, seu bom filho, alguém acima, em um mundo ideal que dá as leis para que seus filhos vivam. Por isso, Negri trata os políticos, o Estado, como afirmadores de transcendência. Voltamos para a luta primeva? Deus X a Legião Demoníaca? Talvez por isso não se fale em multidão e movimentos em rede e sim apenas na política estatal. O demoníaco não pode nem ser mencionado pelos fanáticos pela transcendência. Isso mostra a necessidade de uma nova percepção para entender um outro mundo vivo, atual e caótico – e só os loucos enxergam o caos.
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O bom cidadão é apaixonado por si e os seus, eles são bons; o vagabundo é o erro da sociedade, como os outros párias. Mas o vagabundo mostra outras realidades, tempos possíveis, e isso dói no bom cidadão já que ele é apaixonado por sua vida. O bom cidadão, o sujeito incluído, de classe média, que vive com mais segurança que os outros, se ama tanto que deseja que todos tenham uma vida igual a sua, essa é sua utopia. Ele não aceita a vida do pária, o pária não pode ser pária, ele não pode ter essa possibilidade de vida. Todos têm que trabalhar, ter casa, ser consumidor, ter seus deveres e cumpri-los. Mais democracia, mas numa falsa democracia, continua sendo falsa democracia; capitalismo mais humano continua sendo capitalismo.  Claro que ‘bom cidadão’ é uma identidade ideal que não abarca uma pessoa, todos fogem, enlouquecem de certa forma, mesmo sem notar. 
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A não aceitação da vida como ela é imposta é a crítica, assim, mesmo sem produzir obra, sem teorizar a sua existência, o drogado é um crítico apenas por ser quem é. É radical, não aceita a percepção e a afecção normatizadas, não aceita o funcionamento do próprio corpo, não aceita o tempo cronológico, as leis, é contra a lógica do trabalho assalariado, mas produz, sim, essas formas de vidas críticas. Pensar assim, no drogadinho como crítico, permite que se fuja da transcendência, de colocar a teoria, o campo do saber, em um local privilegiado. Viva a sabedoria das ruas!
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Método? Se faz o possível em determinado momento a partir de certas condições para produzir, pensar e viver. Não há método para viver. Cartografia não é um método. Percepção molecular não diz respeito a métodos. Ver, ouvir, cheirar, tocar, lamber, perceber o mundo molecularmente não é método, é questão existencial. Cartografia não é um método a ser usado para se pensar determinados tipos de objetos. Não se tem a cartografia em mãos e se usa ela quando em campo. A percepção molecular, por ser um tipo de percepção, está sempre acionada, em alguns momentos fica mais clara, expressiva. É a percepção livre dos freios da normatização. Muitos não a notam, ou se assustam com ela. Como ela faz parte da vida, pensar sobre ela, é pensar sobre a vida.
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Creio que os “meus” cacos de memória, que misturam sonhos, alucinação, drogadição, vida em vigília, lembranças pela metade ou borradas, com buracos negros sempre presentes, são como Cut Ups, recortes prontos e daí…. os uso aqui nesse texto. Burroughs escreveu muitos livros a partir de Cut Ups completamente louco de morfina. Ele mesmo dizia que relia seus escritos e não tinha ideia de como aquilo havia sido escrito. Os Cut Ups, como cacos de lembranças, não se referem a método, os cacos são experiências de vida, que já estavam mais consistentes ou que foram aparecendo na escrita, se atualizando. Assim, em muitas partes o livro toma a forma de um mosaico, os cacos reunidos.
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Perceber valor na vida de um viciado, abobado, desletrado como um punk, pode parecer um romantismo bobo, mas creio que seja importante buscar valor no extremo da pobreza. O discurso corrente diz: “o suicida se matou pela tristeza”, “o mendigo é totalmente infeliz pela pobreza”, “o preso de forma alguma conseguiria sorrir”, “o viciado em crack tem que se regenerar”. Qualquer um, mesmo o bom cidadão tem momentos de tristeza e alegria. Um fumante de crack, um mendigo, um preso tem seus momentos de alegria. Um viciado em crack é tratado como um rato, ou é preso ou morto, mas naquele momento que junta um pouco de dinheiro, quando o tem em mãos, ele se dirige para a boca, pega as pedras e se recolhe feliz em sua tenda imunda; daí ele acende a pedra e se a quantidade for o suficiente para o seu vício, o suficiente para que ele se chape, fique bem chapado, naquele momento ele é mais feliz que um rei, ele é um rei. Claro que depois o barato passa e ele sente a pior dor que pode ser sentida por alguém.
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A poesia, o que ela faz bem é trazer, atualizar, mostrar, todos esses fluxos linguísticos, de fala, do que seja, menores, perdidos por aí: na rua, em certos guetos, em certas estações, cidades. Enlouquecer na língua, enlouquecer a língua, fazer ela delirar, foder a língua, a currar como ela merece. O acadêmico é aquele que fala corretamente; ele fala como poucos já que os da sua casta falam assim. Contra essa prisão, contra a seriedade dos caretas, a fala do louco, daquele que não domina a fala, do ignorante que se quer assim e que se foda, não mais que isso. E o coração do poeta está com estes, os párias.
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Este livro é uma experimentação, nele testo estilos de escrita: crônica, ensaio, caderno de notas, cadernos de notas refinado, texto acadêmico, literatura. A crônica atravessa todos os capítulos, como também insights, sacações que podem ser elementos da crônica. Junto a tudo isso está a cartografia, que não é um método, e se isso transparece em certos momentos se deve as contradições internas do trabalho.
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O grande tema do livro, portanto, é a cidade, pensada como local do controle, o qual é afrontado pelas experimentações dentro dela, contra e fora de controle. O que move o livro é a tentativa de experimentação de uma percepção molecular, essencial para pensar a potência das formas de resistência dentro da cidade.  
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Acentuando o caráter experimental do trabalho, após o fim do livro, publico no mesmo volume um outro livro. Sim, é outro livro, tem um tamanho mínimo de um livro de literatura, e é publicado conjuntamente, pelos seguintes motivos: 1. Foi escrito ao mesmo tempo que o primeiro livro. 2. Ele é continuação das linhas de fuga traçadas. 3. Ele possui uma escrita absurda, é totalmente experimental, não sei se foi feito para ser lido [..........] Esse outro livro é a dessubjetivação em estado mais bruto e ele será apresentado com mais detalhes em uma abertura em seu espaço nesse volume.  


domingo, 30 de abril de 2017

sacações de sacadas


Saí de um bairro mais familiar e vim morar na Cidade Baixa, a parte mais boemia de Porto Alegre. Por sorte, escolhi um apartamento em andar alto com sacadas amplas que tem como vista um Largo, o Zumbi dos Palmares, local com muitas ações de movimentos sociais. Já nos primeiros dias fiquei impressionado com as atividades no Largo e decidi escrever sobre o que estava vendo. Como o texto rendeu bastante em pouco tempo comecei a escrever um livro sobre a cidade como tema, este. Portanto, esta parte trata principalmente de coisas que vi pelas pelas sacadas, mas há muitas sacações sobre o bairro e suas mudanças nas últimas décadas. Não escolhi a vista como ponto de partida por questões metodológicas, mas sim, por uma questão afetiva.
Esse olhar não deixa de ser pequeno burguês; vejo o mundo do alto da minha torre, meu apartamentinho de classe média, minha posição de doutor. E o mundo está lá embaixo, perigoso como sempre. A rua é o lugar de todos, e há tantos desabrigados aqui na frente. Porém, já vivi esse espaço, o bairro, de forma transloucada: madrugadas e madrugadas, bêbado, narcotizado, com turmas de marginais. Sempre vivi a cidade; por isso, que no meu trabalho há sempre um cheiro de rua, vestígios das ruas.
Uma coisa legal da Cidade Baixa é que os donos dos estabelecimentos, quem trabalha neles e os frequentadores, todos se comunicam, se relacionam de uma forma horizontal. É gente praticamente da mesma idade, com um certo interesse em cultura não massiva; e as garotas sempre são bonitas. Quando estou nos espaços, converso com eles, o dono, ou donos, e o pessoal que trabalha para eles. São todos receptivos e comentam a deterioração do bairro nos últimos tempos. Já era violento na virada do século, depois ficou menos pela modelização, mas nos últimos dois anos é uma das partes mais perigosas da cidade.
As mudanças são mais que visíveis na Rua João Alfredo, a segunda mais importante da Cidade Baixa, que se transformou radicalmente: era uma rua meio opulenta, hoje as casas que abrigam bares estão todas pixadas e fumantes de crack estão sempre por todos os lados. Notei isso quando as cinco da manhã, depois de um tempo sem sair de noite, fui na João Alfredo e parecia uma festa dentro de uma favela. É estranho já que o bairro ganha mais comércio, muitas vezes gourmet, e ao mesmo tempo fica mais marginal.  

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Eu – Cara, achei um apartamento bem bom, ótima localização, bom preço. Mas só fiquei nas fotos, não fui lá.
Um parceiro meu – Por que?
Eu – O ap tem duas sacadas grandes, uma no quarto outra na sala. Só que são abertas, os parapeitos são tipo grades baixas de metal. Oitavo andar.
Meu parceiro – É, deve ser legal chegar de madrugada bêbado e tomar a saideira na sacada...
Eu – Estava pensando exatamente nisso.

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Decidi por fim alugar o apartamento; mas a escolha foi demorada já que tenho medo de altura. Porém, foi exatamente a vista que me fez locar o imóvel. Talvez seja uma das mais interessantes de Porto Alegre: oitavo andar, de frente para o Largo Zumbi do Palmares, local que tem atividades constantes.  Não estava interessado em morar na Cidade Baixa; não fazia questão; muito barulho, muita festa. Não queria acordar de madrugada com vontade de sair. Mas agora estou aqui desde sexta; hoje é segunda. Estou aqui escrevendo, faz sol, é de manhã, e quando paro de escrever, olho a vista. Montei a sala de tal forma que posso vê-la, a vista, mesmo quando estou escrevendo e pesquisando no computador.   
Arrumei tudo na sexta de noite, estou bem instalado, porém sem sinal de internet. Meu plano de dados está consumindo muito. Não tenho televisão, faz anos. Por isso, fiquei muito tempo entretido com o que se vê das sacadas. No sábado, fiquei intrigado com um rapaz de pé, de frente a uma janela, uns 300 metros à minha frente, no décimo andar de um edifício, que provavelmente fica na Rua José do Patrocínio. Ele estava de pé e as vezes desaparecia. Como estava distante, não conseguia ver direito. Mas entendi a cena: ele estava, não de pé, mas de joelhos em uma cama transando.  
Daqui vejo vários locais que já frequentei. Descobri no sábado que dá para ver um prédio que morei entre 2005 e 2006. Depois, notei a parte de cima de outro prédio no qual fiquei um bom tempo em 2013, já que ali morava uma namorada na época. Também vejo o edifício de um amigo meu. Aqui na frente tem mais espaços importantes para mim: uma lancheira, o Cavanhas, que era ponto de encontro de minha turma na adolescência; o local que abrigava uma casa noturna, o Dr Jekyll; o bar Ossip, que frequento desde os 20 anos; um teatro no qual assisti inúmeras peças desde a adolescência. Mas o mais importante é o Largo Zumbi. No Largo, participei de manifestações e encontros de movimentos em rede e quando era mais novo ali praticava skate.   

sábado, 29 de abril de 2017

crônicas: poa, na virada do século


As páginas posteriores são sobre cacos de memória, referidos a Porto Alegre na virada do século. Tratam da indiscernibilidade entre dia e noite, sonho e vigília, lucidez e alucinação, realidade e ficção. São coisas que vi, fiz, ouvi, outras que possivelmente são buracos negros, invenções, truques da memória. Como são situações que não tenho certeza se aconteceram, escrever sobre elas é literatura ou autobiografia? Por isso, no caso, o registro artístico é mais importante do que o trabalho cientifico, a arte expõe melhor a loucura e a narcose do que as ciências.  

De madrugada, acabei de sair de um bar, pedi um ácido prumas pessoas, desconhecidas, não sei se me deram, se eu tomei. Estou descendo de carro a rua do Jardim Botânico, os vidros abertos, som alto, alta velocidade, começo a respirar fundo, fundo, mais fundo, de repente cada inspiração é como seu eu estivesse aspirando um gás que sobe direto pro meu cérebro e me dá uma sensação de prazer. A rua fica flat, paro em um sinal, a alucinação acaba de súbito. Penso no que aconteceu: eu tomei o ácido? A turma me deu alguma droga, uma droga nova? Nunca havia sentido isso. Me envenenaram? No chão da parte da frente do carro, várias caixas de vários tipos de medicamentos estupefacientes.  
Estou voltando de carro de Canoas, cidade ao lado de Porto Alegre; tinha virado a noite. Me sinto bem; não sei o que tinha tomado, não que eu não lembre, mas eu não sei, e não sabia. Devia ter tomado muita coisa. Estou na estrada e tenho um acesso de risos. Não consigo parar de rir. Me sinto louco, mas não me importo.
A gangue na frente da NEO de manhã; a luz do dia que quase cega; me sinto meio oprimido pela luz. Poucos carros na avenida, um pouco frio. Um carro passa em alta velocidade e um dos caras do grupo golpeia o carro e quebra o espelho retrovisor. Isso realmente aconteceu? Poderia acontecer algo do tipo? Um carro na rua em alta velocidade pode ser golpeado por alguém que tá a pé? E mais, esse alguém nem se lesionou.
Tomei ácido e codeína no Garagem Hermética. A codeína tinha batido, mesmo que eu precisasse de doses cavalares pra fazer efeito já que eu tomava feito água. O ácido não tava batendo. Chego em casa de manhã nada do ácido ainda, mas sentia um vento gostoso passando sobre mim, um frio agradável. De repente, paro na frente do espelho e me olho. Olho fixamente e quase vejo os ventos. E daí, ouço uma voz: “se despeça de mim”, ela diz. Ouço isso apenas quando olho o espelho. Na semana seguinte uma amiga de infância se mata com um tiro.
Saio de um puteiro na Cidade Baixa de manhã, estou na rua. Devo ter passado a noite junto com as prostitutas. Me direciono pra casa, que ficava na quadra abaixo. Ouço uma prostituta gritar meu nome, não dou bola e continuo caminhando.  Tudo estranho; a estranheza de se encarar o dia depois de ter estado a noite toda em um lugar fechado e escuro. O que se passou? Provavelmente isso aconteceu inúmeras vezes, mas eu não tenho memórias claras.  
Nova York, década de 70, Iggy Pop louco de muita coisa como sempre. Ele passa por um pessoal, diz “oi”, mas não vê uma escada. Ele cai, rola pra baixo. Todo mundo diz: ele morreu. Mas ele se levanta e continua caminhando como se nada tivesse acontecido. Quando li a história pensei: acho que isso aconteceu comigo naquela casa noturna no fim dos 90.  
É de manhã, passo na área administrativa da cidade depois de uma longa noite. Passo um sinal vermelho, a polícia me para, e diz: “cara, é a segunda vez que você faz isso na semana; eu não vou te passar no bafômetro hoje, mas na próxima eu te prendo”.   
Eu tava vidrado nessa mina. A gente se via sempre na NEO e ela virava a cara pra mim. Num domingo na Oswaldo Aranha ela cede e a gente vai pro meu ap na Cidade Baixa. É de noite, madrugada, ela se apoia na janela, nua. Nunca havia visto uma mulher tão bela, gostosa. A gente transa na janela mesmo, olhando pra rua. Depois acho que já é dia, a gente tá na sala, eu estou nu e ela tá com aquele vestido negro mostrando o corpo. Horas mais tarde estou sozinho em casa e vejo que ela tinha escrito em meu diário: “vai a merda, eu te amo”. Na noite posterior a tudo isso, a garota que eu gostava, uma ninfeta dez anos mais nova, permite que eu a beije, não na boca, como rolou no Parque da Redenção horas antes, mas em seus peitos, em seu ventre, em sua vagina. Daí, dias depois, estou fumando um na janela e vejo que ela – a ninfeta – lê meu diário; ela lê aquilo que a outra mina tinha escrito: “vai a merda, eu te amo”. Ela, a ninfeta, foi embora e nunca mais a vi.  
Caminho pela rua, parece que estou caminhando sempre, sem parar, dia e noite. Encontro um amigo e a gente vai tomar uma ceva num bar perto da Redenção. Antes eu tava na Redenção beijando duas EMOS. Sempre encontrava elas e não sei o que mais rolava, não lembro. Eu e o amigo a gente tava bebendo uma cerveja e comentei com ele: acho que eu tava de tarde no centro, perto da Matriz, tinha poucas pessoas na rua, vi uma mina. A gente, eu e a mina se olhou, eu beijei ela, assim do nada. Nunca tinha visto ela e ela gostou. Sim, isso aconteceu, mas eu não me lembro.
Eu, minha amante e minha namorada, a gente foi pro acampamento do Fórum Social Mundial. Isso em 2001 ou 2003 ou 2002. Minha namorada ficou conversando com minha segunda amante e eu fiquei com a minha primeira já que ela tinha várias caixas de Valium e Rohypnol. Então ela foi me dando comprimidos. Eu pedia, ela me dava. Isso era de noite quando o pessoal dançava, bebia e tocava instrumentos rústicos entre fogueiras. De manhã a gente chega em casa, não sei como. Mas lembro bem de tomar tudo que ela tinha em mãos, mas não lembro da overdose, nem quando me levaram pro ambulatório. E tudo isso pode ter sido um sonho.
É uma noite escura, estou na Barros Cassal. Eu encontro aquela mina com sotaque estranho que era atriz de filmes de terror pornô. Em outra noite eu pedi pra fotografar os peitos dela, enquanto o diretor dela tava cheirando cocaína em um grande espelho, isso no Garagem Hermética. Daí eu tava com a mina e a gente deu umas voltas pela cidade de carro. Acho que tava junto aquele cara, o Paulista. Eu digo pra ela que não posso comprar codeína, a única farmácia que tinha não vendia mais pra mim. Ela vai até a farmácia com as receitas e consegue comprar. Daí o Paulista, enquanto ela comprava, disse que iria me dar pelo menos mil reais se a gente roubasse a farmácia. Eu mudo de assunto. A gente tava num posto perto na Farrapos e o Paulista desaparece num carro com um psicopata cheirador. Eu fico com ela como queria. A gente tira umas fotos. Eu peço um beijo e ela me chama de infantil. Deixo ela em algum lugar muito longe, talvez na Avenida Assis Brasil.
O dia nasce e estou caminhando em direção da Farrapos pra ir num puteiro; tinha perdido o carro? 
Eu e minha namorada a gente decide conversar sobre a relação dentro do banheiro de um bar na Lima e Silva. A gente entra e começa a conversar. Ao mesmo tempo uma das atendentes do bar fica batendo na porta dizendo pra gente sair. A gente não sai, ficou lá uma meia hora. Nossa turma de amigos tava lá fora fazendo não sei o que, mas nos esperando. Dez anos antes eu e meus amigos a gente entra em um banheiro minúsculo pra cheirar pó pela primeira vez. A porta começa a bater, e a gente ouve berros pedindo pra que a gente saísse. Isso era meio óbvio já que era o único banheiro masculino de um bar que enchia de caras que bebiam cerveja. Mas lá no bar da Lima e Silva eu e minha namorada a gente ouve uma voz alta e masculina dizendo: é a polícia, se não abrirem a porta, vamos derrubar. A gente abriu e saiu sem problemas; apenas nunca mais deixaram a gente entrar no bar. Mas o mais interessante é que a polícia bate as sete horas da manhã na porta do meu ap na José do Patrocínio. Pensei: me ralei. Eu abro a porta e o policial diz: mas você de novo! Era o policial que me tirou do banheiro em que eu tava com minha namorada. Nesse dia a coisa foi simples, eu só tinha estacionado o carro em frente de um bar o que tava impedindo que o bar fosse aberto. Não sei o quanto de verídico é essa história, já que eu não confio em mim.
Eu saio de manhã da NEO. Uma garota debocha de seu amigo gay. Ela lhe dá um tapa no rosto. Eu fico puto já que ela tava sendo sádica com alguém mais fraco. Eu lhe digo: bate em mim. Ela abaixa a cabeça. Eu lhe digo: venha com minha turma não tem ninguém na rua vocês podem ser assaltados. Ela vem atrás de mim e me beija na boca.
Eu peço cocaína pra alguém, é um segurança e ele me põe pra fora de algum lugar que eu não me lembro.
Eu beijo uma garota dentro de um bar enquanto acontece uma chuva de garrafas, uma briga de gangue.
Eu acordo na rua, e a minha futura namorada aparece e me compra um XIS pra eu comer.
Ela me chupa em seu apartamento depois de anos tentando me comer. Meses depois eu vou na casa dela de madrugada, mas ela mesmo assim me acolhe. Anos antes a gente caminhava de madrugada da Osvaldo até a casa dela na Independência. Ela queria ficar comigo, eu não. Anos depois eu durmo na casa dela e a gente transa. Ela fica brava comigo já que derramei vinho no sofá. Anos depois eu digo a ele que a amo, e ela diz que sabe que é mentira. Não posso falar sobre ela, já que não sei se ela realmente existe ou existiu.
Eu entro em um banheiro de um bar – não sei qual – com duas garotas. O banheiro é o feminino, talvez estivessem lá outras garotas. Eu e as garotas a gente se beija. Não sei como era o rosto delas. Parece que elas tavam tão seguras, livres, quanto eu. A gente não tava nem aí com seguranças, com as pessoas em volta. Sinto que isso aconteceu não uma vez, mas inúmeras vezes, em inúmeros lugares em inúmeras épocas.  
Em uma casa noturna eu começo a caminhar e beijar qualquer garota que passa pela frente. Eu beijo todas, umas dez, talvez tenha beijado rapazes, não sei. Lembro do afeto envolvido, algo que me impulsionou a isso. Depois eu tava transando com uma garota dentro da casa, junto a uma das janelas, de frente pra Redenção, só que daí um dos seguranças saca o que estou fazendo e sou expulso do lugar.  
      Estou caminhando com um amigo e digo: Lucia é uma garota bonita, não? Ele diz: você ficou com ela noite passada. Eu pergunto prum outro amigo: eu tentei agarrar a Maria noite passada? Ele diz: você não devia ter feito isso.
Eu saio de um táxi na frente da casa noturna e vejo uma mina; ela tava conversando com um cara, acho. Não dou atenção pro cara e falo pra ela: vamos pro meu ap? A gente pega o mesmo táxi, vai pra minha casa e transa. Depois disso ela foi embora. Não lembro do seu rosto.  


um delírio, um sonho, um estado de narcose


Exemplifico a percepção molecular, a cartografia do molecular, a partir de três momentos distintos: uma cena que aconteceu no cotidiano, um sonho e um estado de narcose. Esses momentos mostram áreas de indiscernibilidade entre sujeitos, colocam em jogo a racionalidade e o bom senso, afirmam mundos diferentes, dos sonhos, dos delírios, das drogas, mostram uma relação com a vida de estranheza, mas também de alegria, a possibilidade de outros mundos, não só possíveis, mas atuais, mesmo que seja a atualização a partir do delírio. A percepção molecular permite o contato com o caos, e o caos é o mundo, já a percepção normatizada, fotografa, congela, impede os fluxos.      

1. Estava na praia do rio Guaíba em Porto Alegre. Estava fumando um cigarro. Vi um rapaz entrar no rio com sua prancha de Wind Surf. Ele entrou sozinho. Começou a surfar, fazer manobras. Em determinado momento caiu na água. A partir daí ele lutou durante dez minutos para se levantar. Fiquei olhando preocupado já que ele estava sozinho. Se levantou e voltou para a areia. Senti vontade de ir perguntar a ele se estava tudo bem, queria saber como estava se sentindo. Quando fui dar o primeiro passo em direção a ele, me senti estranho, uma sensação estranha; fiquei com medo, fui para o meu carro. Quando entrei no carro, reconheci a sensação: era a mesma que sentia após ficar preso em buracos na água da praia. Para sair de um buraco se exige um grande esforço e por ser na água isso gera um tipo específico de cansaço. Penso que senti o que o surfista estava sentindo já que ele lutou na água por dez minutos para ficar de pé. Aconteceu algo entre nós, compartilhamos o mesmo afeto, ou seja, uma linha de fuga da individuação dos nossos corpos, os corpos compartimentados e isolados. Isso é uma molecularização da percepção: sentir o sentimento do outro, que não é mais outro, mas uma linha de um agenciamento no qual eu era também uma linha. 
2. Um sonho, parecido com a cena acima, no que se refere a indiscernibilidade entre sujeitos. Me perece ser um sonho recorrente, desde a adolescência. Caio de um andar baixo, mas de nuca e assim quebro o pescoço. Na caída, fico com medo, que aumenta até o contato com o solo. No contato, quando quebro o pescoço, ao mesmo tempo, penso: ok, morri. Morto, ainda me percebo; sei que estou morto e me percebo morto – isso dura uns segundos, e nesses segundos conjuntamente, algo muito estranho acontece: vejo uma garota caminhando em um espaço tempo que não reconheço; ela caminha, está feliz, não muito, mas está; uma felicidade de adolescente, quando se sente feliz sem grandes motivos. Só que entendo que eu sou aquela garota; ainda me reconheço como aquele que morreu, mas sei que agora, depois daquela morte, sou essa garota. Mais uns segundos, a lembrança da vida daquele que morreu se apaga e a garota segue a vida dela – e parece que algo meu, o que morreu, ficou com ela. É difícil de narrar esse sonho, pois ele trata de uma despersonalização, da inexistência de barreiras entre sujeitos, é um tipo de esquizofrenização. Obviamente, não faço uma leitura extra real, de vida após a morte, de reencarnação; mas sim, para mim, fica óbvio no sonho que a vida não se resume a vida pessoal: os fluxos passam entre sujeitos, entre sujeitos acontece muita coisa; há o caos, mas o enxergamos a partir de lentes embaçadas. O sonho é um delírio, e posso falar muito bem de delírios já que sou um drogado desde os 13 anos de idade. Aliás, mesmo não me drogando, consigo perceber meu devir drogado, por isso, trabalho com a percepção molecular e gosto de pensar e lembrar de meus sonhos. Esse delírio permite uma narrativa da morte interessante e acolhedora, tranquila e não dolorosa. A vida continua em sua potência ou tristeza. Fico feliz com a felicidade da garota que também sou eu, e nós somos moléculas entre o núcleo da terra e o cosmos.
3. Uma viagem de inalante recorrente: a viagem é mais difícil de ser narrada, eu sinto que a compreendo quase completamente, mas é difícil de narrar o que sinto, já que é um delírio, os signos do delírio são diferentes aos normatizados. Por isso que em momentos do livro eu tenho que usar literatura; preciso de uma linguagem inexata para expor exatamente as descodificações. Eu cheiro e praticamente apago, meu corpo deve estar parado, não tenho consciência do meu corpo, mas estou sonhando (viajando). A viagem: percebo um mundo, um mundo como o nosso, idêntico, mas eu não sou eu, eu sou um outro. Tenho uma outra vida, sou outra pessoa, estou feliz, eu me compreendo como a outra pessoa da mesma forma que todos têm uma compreensão de si, de seu corpo, história, etc.  Essa outra vida é boa, mas não muito diferente da minha em estado não onírico. Em certo momento, pelo enfraquecimento da dose de inalante, eu retorno a compreensão de minha vida em vigília, volto a ser “Diego este que fala”. Mas há um ponto, um momento na viagem, que me faz compreender as duas vidas ao mesmo tempo; e sinto um desejo de manter a vida onírica. Quando sou empurrado para a vigília sinto nostalgia da outra vida. Após passar por essa viagem inúmeras vezes, raramente, surge uma dúvida: se essa vida que penso ser minha em um mundo concreto, neste mundo, se ela não é uma viagem de inalante. Será que agora estou viajando e posso retornar em breve para outra vida? Como me sinto e me compreendo agora não é diferente de como me sentia e me compreendia nas viagens de inalante.    

sexta-feira, 28 de abril de 2017

exercícios de escrita-idiota


A ciganada veio pra cidade e em uma hora se foi. Eu tô lá faz tempo, tô lá, não aqui. Sabia que a maionese que se vende depois da madrugada dá barato? Não, ela que é barata, a mina que cuida a porta do banheiro. Ela que se cuide, disseram. Mas ela já tinha entrado pela entrada também; é, meio que foi demitida. A circulação para, parou, e ele tá mesmo assim na esquina. Qual esquina? Aquela ali perto da Praça Mario Peixoto.  A gente fingia que fingia, e sabia que não tava nem mais aí. Já disse: tô lá, não aí. Me compra um charuto, me enrola um charuto. Veadinhos fumam incenso. Bosta de vaca, chove, e daí a gente toma um ar puro. Semana que vem furúnculo na bunda. Que bom que o cú fica escondido do sol. Se bem que o Carinha, aquele mano, tem palitos de fósforos que acendem no cú. Um cú solitário é algo triste; um cú comunitário, bem, a gente canta parabéns pra você. Levei o Sandrinho na banda das mangueiras longas. Ele riu, mas riu tanto que molhou o banco traseiro. É, traseiro. Me explica uma coisa. Não, na real, dá uma banda. Tem muita gente por perto e eu fico tímido pra limpar os dentes dela. A gente sabia tanto que só sobrava espaço pra esquecer. Se avião passa aqui na frente, a gente ora por Deus. Vivi muitos anos entre aquelas pessoas anos 90. Vivi tanto com eles que passei a acreditar que nem tinha ido pra Woodstock. Ele falava tão bonito que a gente cortou um pedaço da língua dele. Agora ele fala como a gente. Banho de chuva na praia é tipo acordar as três horas da tarde no meio do mês de março. Se tudo fosse fácil, tudo não seria difícil. Entendeu filho, meu filho, meu filho da puta? Ela nos corneava; a gente, sabe? Eu e o Mário e o Maninho e o Cabeça e o Ronaldo e o cara que tava sempre na esquina dizendo: cara, que se foda-se. Os semáforos deram certo, eles nunca piscam. Os tiozinhos ganharam aquele concurso de comer barata. É, escovar os dentes ficou mais difícil. Ela pensa que tá em que lugar? Ela pensa que tá “no morro, três da manhã, acabou o pó”? Ficar de quatro é só ficar de quatro. Eu não fico nem de pé. Deito, sim; eu deito e rolo. O jogador perdeu a mão pruma máquina que só funcionava de manhã. Ele nunca acordou antes do meio dia. Me explique; não, fica na tua. Não é não e não é não, simples, não? O melhor orgasmo é aquele do peito; mas síndrome do pânico é tensão mesmo. A diferença é que os caras tão sempre dando uma de gostoso, e eu não gozo nunca, não sou da geração goza-cola. Só que a Marinara, aquela gata safada que cobra cinquenta por duas punhetinhas, ela só goza se o cara leva ela até o hotel com mais de uma estrela. Ele começou a fumar crack para ver se dava uma acalmada na loucura. Funcionou. Me paga um charuto? Faz que nem o Mané, cospe nas costas que ele não comeu. Sim, funciona, é só tirar da tomada, colocar os pés na bacia e daí já foi. Já foi tarde. E eu que nem cheguei e nem vou. Tô mais em lugar nenhum do que aqui. Não me ligue, não estou aqui. Não me acorde, não durmo mesmo faz dez dias. Me compra uma revista do Batman. Coloquei o sofá no lugar; é eu coloquei ele no lugar dele.
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Conhece o Sacana? É, o Doutor Só Cana. Ele queria dar uma averiguada na próstata do Tio Hermes. Só que ela, a Dona Próstata, já tava avariada faz tempo. Não sei, mas me parece que sessão da tarde nos dias de hoje rola de noite; e o que rolava de noite, rola qualquer hora. Sim, é isso, muito bem, sempre, já que as cascas de dentro do nariz sempre vêm com meio quilo de sangue. Por favor, meu amor, me chame de meu amor, por favor. Coloque vaselina no cabelo e curre com a cabeça uma mina-rinoceronte. Prainha da Macumba sempre foi cara pra dar uma banda nas férias. Daí a gente faz a macumba ali naquela rua naquele bairro na Zona Leste. Eu não vou estar aqui, agora, e daí, não me ligue, não ligue pra mim, ninguém se liga, tô ligado e deixa assim. Na real: que se foda; melhor, vou ser honesto: que se foda; melhor: eu te fodo quando você quiser. Colocar no forno só se for no domingo. As calcinhas foram usadas, sinto o cheiro de longe. Meu Deus do Céu Azul. Mina, se você vai no banheiro, não fale com o Mário. A Dona Gatinha se fodeu, ganhou dez perebas naquele lugar que ela nunca viu e nem sabe. Saio na noite pra pegar umas dores de corno. Não saio na noite, já que ela tá aqui. Amanhã quem ganha os cornos são as vizinhas lésbicas do andar de cima. Ok, comi uma puta de rua que fumava crack. Ainda quero fazer aquele curso de cerâmica. A cidade voltou a ser a cidade. Não sei se existem helicópteros. Quebrei o tornozelo e ela ainda quer que eu a carregue pelas costas.  Tem uma bela praia aqui no País das Loucurinhas. Vou soltar um barro, nem mais volto. Frango assado se vende por dez pilas, galinhas são mais caras, mas ainda são baratas. Coloquei o cú ao lado da caixa de som, meu cú está em estéreo, me cú está muito dançante. Você ainda me ama, Dona Megera? Uma noite no andar superior, por favor! Realizo sonhos por muito, muito mesmo, muito pouco.
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Se me encontrar não me avise. Ontem é um bom dia pra você me beijar. Sim, faço isso logo, daqui a uns dez anos. As hemorroidas não importavam, mas aquela espinha entre os dedos.... Que bom que não chupo dedos. Deve ser trauma daquela época em que os bicos tinham gosto de geleia de morango. A tua cara estava muito bonita; não gosto de caras bonitos; é, dei a garrafada por uma questão estética. Pinto mole de cachorro é mais duro que pinto duro de barata. Quando eu durmo do teu lado eu me sinto tão: “então, deixa assim”. Não entendo, quando tomo coca-cola sinto vontade de dar uma banda; quando tomo todas, a banda já aconteceu. Eles viviam naquela época em que a palavra caralho só tinha dois sentidos: pra cima e pra baixo. Hoje em dia, o caralho não tem mais sentido; caralho desorientado. É um saco, dou a banda da manhã naquela loja de conveniência e o General tá com os dois filhos. Sabe aqueles dois? A Loirinha Gostosa Quando Crescer e o Seu Malinha. Choveu, molhou e não gozou – gozar é pros fracos. A Dona Bocetinha Magra transava com guardadores de carros naqueles dias que eu tomava Valium. Não sei, sabe? Os caras fecham as lojas do bairro, mas o bairro tá sempre aberto. A sacana que vende fluoxetina é uma sacana. Ela vende por um preço baixo, mas a gente tem que aturar o bafo quente dela. Sabe o bafo dela? Me fode, mas não me beija. Se me beija, me fodeu e tamos certos. Atrás de mim, não, meu bem. Diga meu bem, meu bem. Me vende uma pedra de crack, Tia Peruana. Ele dava play nas máquinas de Pinbal da loja do Seu Otário. Mas agora não dá mais pra rolar os play, seu boy. Não sei se a gente foi pro mato e se eu tinha comprado duas garrafas de vinho, três caixas de bolas, mas eu sei muito bem o que eu não sei. Tá achando que é festa? Com dois cús se faz uma casa. Dois pintos e uma montanha venderam milhões. Como ainda pão de manhã, já que você tá lavando a louça de dois dias atrás. A gente dá um jeito. Se ela pulou da janela.... deixa ela. Dona Tia Velha dá um tempo, quem é teu alfaiate? Meu gato mija na cama, mas não na minha. A gangue das piranhas sempre vende aquelas merdas que faz a galera ficar constipada. Não estou mais fazendo academia, mas vomitei na perna do Otário, melhor, Senhor Otário, como ele gosta de ser chamado. Se tem festa na madruga eu tento não descer.... o meu pau, que nunca fica descido. Não sei, já disse. A gordinha ficava puta quando eu comia todas, mesmo ela comendo todos e todas e mais um pouco. A vida é louca. Aqui no prédio tem mais lesmas e centopeias que na parte alta da cidade.  
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Com quanto cornos se faz uma canoa? Hambúrguer barato é caro nas segundas. Ceva quente rola em qualquer lugar. Bocetinha queimada na areia. Eu fumo quando eu quiser, no lugar que eu quiser. Toda a noite eu pego carro e vou até a fronteira. Daí entro na casa dela em São Francisco do Caralho e como um banquete divino. Ela continua confiando em mim. Eu sou esperto, não confio em mim de jeito nenhum. Eu estou no lugar que devo estar, ao lado das hemorroidas de qualquer um. Gozei e não gostei. É caro gostar daquilo que elas gostam. Diferente seria se eu fosse uma lésbica, e se eu fosse, me comia bem feliz. Ela abriu as pernas, eu passei por baixo. Putinha, entra no carro, mas não seja doce demais. Namoradinha que não beija é minha namoradinha de início de mês. Meteu no lugar que não era para meter. Geladeira, paralelepípedo, te amo, e não mais. Dona Coisa, eu te respeito, mas não use tanta naftalina entre as pernas. Eu não sou um punk sujo. A gente ainda come frango, mas dizendo que brócolis é coisa de gente feliz. O tio prepara o cachorro quente na esquina. Sim, ou não, ou talvez: escolha! A feira orgânica tá sendo montada e a cadela da Marta foi montaria de todos. Dei uma volta e não voltei. Me diz uma coisa; deixa assim.  
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Casa cheia de ratos com barras de chocolate entre os pelos. Duas ruas, uma atrás da outra. 120 por hora a toda hora e nem dormi. A Dona Coisa se foi, mas era o Mário que tinha razão. José tá mijando na frente da praça. Pior foi quando o Marco cuspiu no nosso prato e a gente teve ainda que pagar uns dez cada. Era tanta loucura que só podia ser realidade, e sempre penso nisso quando esqueço disso. Desatei o nó, fiquei meio assim com a série de TV, na real, eu queria cair fora. Trinta anos depois tudo de novo. A galera comprou aqueles alfinetes, daí a gente foi preso por magia negra. Luizão deu uma de mamão. Acordar quando se está acordado dói os dedos. Daí, daí, daí a Daniela disse que a Ridícula tava saindo com o Mário. Meio copo disso, meio daquilo, mais aquilo, daí a gente compra uma casa num bairro classe média baixa. Não quero mais saber daquela noite que nunca acaba, e eu não quero acabar. Ela se acabou comigo. Tinha tanta dor de cabeça que morfina dava dor de cabeça. Cabeças de alfinete, me rebite! Santinha, vem aqui! A gente fica velho quando a gente fica velho. Eu queria menos. Não sei o que coloco por cima. Uma cabeça mais uma marmelada dá uma cabeçada. Cabeção nem tomava já que era como nós antes do verão começar. Já que está aqui me dê duas pegadas. O nome dela era aquele nome que nem mais fabricam. Buraquinhos não nasceram na mesma época dos dedinhos. Se você quer comer isso por favor lave as frases. Os dedos estavam sendo queimados nos cascos daquelas éguas chamadas de “qualquer coisa rola”. Afinou-me. Duas abelhinhas entraram no vaso e cuzinhos docinhos disseram: quero mais. Sim, eu topo quando ela quer comprar batatinhas com aquele lance gosmento em cima; mesmo que comida seja muito século passado. Queima, queima, queima, e lava as flanelas. Com quantas bucetinhas se faz uma canoa? A gordinha tava na parte de dentro daquele hemisfério. Daí aquele tio, o Opala Tunado, disse que as chevetteiras voltaram. É meio dia, cozinha uma meia calça pra dois. Comprou todas as terças e foi demais. É ele sempre faz isso. Daí era cedo para se chegar tarde. Sim, ela era demais. Me dá menos. Me liga, tipo call center depois da meia noite. Me passa a dose de natal, quero vomitar no quarto ao lado. Ao lado, sabe? Tipo naquele lugar que dói para a dona Ridícula. Mastodonte tomou aqueles lances laranjas que o Mário receitou. Tomou e daí dormiu. No outro dia, foi dar “oi” pro senhor Bidê, mas mijou de ponta cabeça. Seis horas mais tarde queria ser um peixe boi. Se eu quebro as regras... é, o jogo acabou sem um 21. A dancinha dela era legal. Namorei a Marta por um mês. No outro mês a gente sacou que ela tava grávida. Daí eu convidei as Três Putinhas pra ficarem aqui em casa. Disse: Putinhas, de aluguel, pode ser duas cervejas de cada por manhã. Daí elas vieram morar aqui. Acabou o lance quando as cevas viraram vinho de macumba. Ele era meu amigo, só que daí entrou naquelas de ser minha amiga. Sim, ela veio, amei, mas pedi pra cair fora, tipo: no meu edredom só a Marta vomita. Vamos dar aquela banda junto do rio? Vem cá, você me deve. Vovó fez muitos docinhos pra festa. Bidês de cores claras ou gravatas de fimoses? Não vejo mais nada daqui, tá tudo mais que duplicado; tipo, dobra a dose, seu Mário. Que Mário? O dono da lojinha. Nem mais queria, só que na real se fez que não queria, e por isso, mais que quero.
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Furei os olhos e ela mijou atrás da árvore. Ela, lembra dela? Aquela mina tipo coisinha dura, chata, sanguinária. Sim, ela, a que metia o Pablo por trás toda noite; a que lavava os coelhos e depois comia batatinhas chinesas. Lendo a obra completa de Mário, o senhor Soares, descobri a real motivação dos furúnculos nas bochechas dela.  Sempre a Aninha vem aqui e a gente começa a abrir as portas. As cevas quentes foram feitas para serem amaldiçoadas. Malditas cevas de Cristo do Inferno. Barrinhos? Era sobre isso que gente tava falando ontem?  Os carros aqui da frente estão com aquelas varizes que eu como sem pagar. Me dói a maionese. E daí tava todo mundo dançando, e veio o Barrinha de Chocolate e deu aquela dor na alma de todo mundo. Tipo, vinte anos depois o que tinha rolado tá escrito no jornal que a gente nem lê e que se foda. As cachaças fugiram das ressacas e as calçadas doem o cú. Não rola mais jantares de fim de ano, tipo aqueles que a gente nunca foi. Os discos mais audíveis estavam na casa do Getúlio. Pau no cú daquele que finge que ouve. Sempre usei tuas cuecas mesmo que as nossas bolas joguem pingue pongue em clubes diferentes. Se o banheiro agora tá vazio, se ninguém peidou ali antes, a gente pode até pegar as camisetas e lamber elas por dentro. Removedor de tinta é aquele lance que a gente ama mais que a própria mãe, a do Mário. Que Mário? O dono do armarinho dos Soares; Mario Soares.