sábado, 29 de abril de 2017

crônicas: poa, na virada do século


As páginas posteriores são sobre cacos de memória, referidos a Porto Alegre na virada do século. Tratam da indiscernibilidade entre dia e noite, sonho e vigília, lucidez e alucinação, realidade e ficção. São coisas que vi, fiz, ouvi, outras que possivelmente são buracos negros, invenções, truques da memória. Como são situações que não tenho certeza se aconteceram, escrever sobre elas é literatura ou autobiografia? Por isso, no caso, o registro artístico é mais importante do que o trabalho cientifico, a arte expõe melhor a loucura e a narcose do que as ciências.  

De madrugada, acabei de sair de um bar, pedi um ácido prumas pessoas, desconhecidas, não sei se me deram, se eu tomei. Estou descendo de carro a rua do Jardim Botânico, os vidros abertos, som alto, alta velocidade, começo a respirar fundo, fundo, mais fundo, de repente cada inspiração é como seu eu estivesse aspirando um gás que sobe direto pro meu cérebro e me dá uma sensação de prazer. A rua fica flat, paro em um sinal, a alucinação acaba de súbito. Penso no que aconteceu: eu tomei o ácido? A turma me deu alguma droga, uma droga nova? Nunca havia sentido isso. Me envenenaram? No chão da parte da frente do carro, várias caixas de vários tipos de medicamentos estupefacientes.  
Estou voltando de carro de Canoas, cidade ao lado de Porto Alegre; tinha virado a noite. Me sinto bem; não sei o que tinha tomado, não que eu não lembre, mas eu não sei, e não sabia. Devia ter tomado muita coisa. Estou na estrada e tenho um acesso de risos. Não consigo parar de rir. Me sinto louco, mas não me importo.
A gangue na frente da NEO de manhã; a luz do dia que quase cega; me sinto meio oprimido pela luz. Poucos carros na avenida, um pouco frio. Um carro passa em alta velocidade e um dos caras do grupo golpeia o carro e quebra o espelho retrovisor. Isso realmente aconteceu? Poderia acontecer algo do tipo? Um carro na rua em alta velocidade pode ser golpeado por alguém que tá a pé? E mais, esse alguém nem se lesionou.
Tomei ácido e codeína no Garagem Hermética. A codeína tinha batido, mesmo que eu precisasse de doses cavalares pra fazer efeito já que eu tomava feito água. O ácido não tava batendo. Chego em casa de manhã nada do ácido ainda, mas sentia um vento gostoso passando sobre mim, um frio agradável. De repente, paro na frente do espelho e me olho. Olho fixamente e quase vejo os ventos. E daí, ouço uma voz: “se despeça de mim”, ela diz. Ouço isso apenas quando olho o espelho. Na semana seguinte uma amiga de infância se mata com um tiro.
Saio de um puteiro na Cidade Baixa de manhã, estou na rua. Devo ter passado a noite junto com as prostitutas. Me direciono pra casa, que ficava na quadra abaixo. Ouço uma prostituta gritar meu nome, não dou bola e continuo caminhando.  Tudo estranho; a estranheza de se encarar o dia depois de ter estado a noite toda em um lugar fechado e escuro. O que se passou? Provavelmente isso aconteceu inúmeras vezes, mas eu não tenho memórias claras.  
Nova York, década de 70, Iggy Pop louco de muita coisa como sempre. Ele passa por um pessoal, diz “oi”, mas não vê uma escada. Ele cai, rola pra baixo. Todo mundo diz: ele morreu. Mas ele se levanta e continua caminhando como se nada tivesse acontecido. Quando li a história pensei: acho que isso aconteceu comigo naquela casa noturna no fim dos 90.  
É de manhã, passo na área administrativa da cidade depois de uma longa noite. Passo um sinal vermelho, a polícia me para, e diz: “cara, é a segunda vez que você faz isso na semana; eu não vou te passar no bafômetro hoje, mas na próxima eu te prendo”.   
Eu tava vidrado nessa mina. A gente se via sempre na NEO e ela virava a cara pra mim. Num domingo na Oswaldo Aranha ela cede e a gente vai pro meu ap na Cidade Baixa. É de noite, madrugada, ela se apoia na janela, nua. Nunca havia visto uma mulher tão bela, gostosa. A gente transa na janela mesmo, olhando pra rua. Depois acho que já é dia, a gente tá na sala, eu estou nu e ela tá com aquele vestido negro mostrando o corpo. Horas mais tarde estou sozinho em casa e vejo que ela tinha escrito em meu diário: “vai a merda, eu te amo”. Na noite posterior a tudo isso, a garota que eu gostava, uma ninfeta dez anos mais nova, permite que eu a beije, não na boca, como rolou no Parque da Redenção horas antes, mas em seus peitos, em seu ventre, em sua vagina. Daí, dias depois, estou fumando um na janela e vejo que ela – a ninfeta – lê meu diário; ela lê aquilo que a outra mina tinha escrito: “vai a merda, eu te amo”. Ela, a ninfeta, foi embora e nunca mais a vi.  
Caminho pela rua, parece que estou caminhando sempre, sem parar, dia e noite. Encontro um amigo e a gente vai tomar uma ceva num bar perto da Redenção. Antes eu tava na Redenção beijando duas EMOS. Sempre encontrava elas e não sei o que mais rolava, não lembro. Eu e o amigo a gente tava bebendo uma cerveja e comentei com ele: acho que eu tava de tarde no centro, perto da Matriz, tinha poucas pessoas na rua, vi uma mina. A gente, eu e a mina se olhou, eu beijei ela, assim do nada. Nunca tinha visto ela e ela gostou. Sim, isso aconteceu, mas eu não me lembro.
Eu, minha amante e minha namorada, a gente foi pro acampamento do Fórum Social Mundial. Isso em 2001 ou 2003 ou 2002. Minha namorada ficou conversando com minha segunda amante e eu fiquei com a minha primeira já que ela tinha várias caixas de Valium e Rohypnol. Então ela foi me dando comprimidos. Eu pedia, ela me dava. Isso era de noite quando o pessoal dançava, bebia e tocava instrumentos rústicos entre fogueiras. De manhã a gente chega em casa, não sei como. Mas lembro bem de tomar tudo que ela tinha em mãos, mas não lembro da overdose, nem quando me levaram pro ambulatório. E tudo isso pode ter sido um sonho.
É uma noite escura, estou na Barros Cassal. Eu encontro aquela mina com sotaque estranho que era atriz de filmes de terror pornô. Em outra noite eu pedi pra fotografar os peitos dela, enquanto o diretor dela tava cheirando cocaína em um grande espelho, isso no Garagem Hermética. Daí eu tava com a mina e a gente deu umas voltas pela cidade de carro. Acho que tava junto aquele cara, o Paulista. Eu digo pra ela que não posso comprar codeína, a única farmácia que tinha não vendia mais pra mim. Ela vai até a farmácia com as receitas e consegue comprar. Daí o Paulista, enquanto ela comprava, disse que iria me dar pelo menos mil reais se a gente roubasse a farmácia. Eu mudo de assunto. A gente tava num posto perto na Farrapos e o Paulista desaparece num carro com um psicopata cheirador. Eu fico com ela como queria. A gente tira umas fotos. Eu peço um beijo e ela me chama de infantil. Deixo ela em algum lugar muito longe, talvez na Avenida Assis Brasil.
O dia nasce e estou caminhando em direção da Farrapos pra ir num puteiro; tinha perdido o carro? 
Eu e minha namorada a gente decide conversar sobre a relação dentro do banheiro de um bar na Lima e Silva. A gente entra e começa a conversar. Ao mesmo tempo uma das atendentes do bar fica batendo na porta dizendo pra gente sair. A gente não sai, ficou lá uma meia hora. Nossa turma de amigos tava lá fora fazendo não sei o que, mas nos esperando. Dez anos antes eu e meus amigos a gente entra em um banheiro minúsculo pra cheirar pó pela primeira vez. A porta começa a bater, e a gente ouve berros pedindo pra que a gente saísse. Isso era meio óbvio já que era o único banheiro masculino de um bar que enchia de caras que bebiam cerveja. Mas lá no bar da Lima e Silva eu e minha namorada a gente ouve uma voz alta e masculina dizendo: é a polícia, se não abrirem a porta, vamos derrubar. A gente abriu e saiu sem problemas; apenas nunca mais deixaram a gente entrar no bar. Mas o mais interessante é que a polícia bate as sete horas da manhã na porta do meu ap na José do Patrocínio. Pensei: me ralei. Eu abro a porta e o policial diz: mas você de novo! Era o policial que me tirou do banheiro em que eu tava com minha namorada. Nesse dia a coisa foi simples, eu só tinha estacionado o carro em frente de um bar o que tava impedindo que o bar fosse aberto. Não sei o quanto de verídico é essa história, já que eu não confio em mim.
Eu saio de manhã da NEO. Uma garota debocha de seu amigo gay. Ela lhe dá um tapa no rosto. Eu fico puto já que ela tava sendo sádica com alguém mais fraco. Eu lhe digo: bate em mim. Ela abaixa a cabeça. Eu lhe digo: venha com minha turma não tem ninguém na rua vocês podem ser assaltados. Ela vem atrás de mim e me beija na boca.
Eu peço cocaína pra alguém, é um segurança e ele me põe pra fora de algum lugar que eu não me lembro.
Eu beijo uma garota dentro de um bar enquanto acontece uma chuva de garrafas, uma briga de gangue.
Eu acordo na rua, e a minha futura namorada aparece e me compra um XIS pra eu comer.
Ela me chupa em seu apartamento depois de anos tentando me comer. Meses depois eu vou na casa dela de madrugada, mas ela mesmo assim me acolhe. Anos antes a gente caminhava de madrugada da Osvaldo até a casa dela na Independência. Ela queria ficar comigo, eu não. Anos depois eu durmo na casa dela e a gente transa. Ela fica brava comigo já que derramei vinho no sofá. Anos depois eu digo a ele que a amo, e ela diz que sabe que é mentira. Não posso falar sobre ela, já que não sei se ela realmente existe ou existiu.
Eu entro em um banheiro de um bar – não sei qual – com duas garotas. O banheiro é o feminino, talvez estivessem lá outras garotas. Eu e as garotas a gente se beija. Não sei como era o rosto delas. Parece que elas tavam tão seguras, livres, quanto eu. A gente não tava nem aí com seguranças, com as pessoas em volta. Sinto que isso aconteceu não uma vez, mas inúmeras vezes, em inúmeros lugares em inúmeras épocas.  
Em uma casa noturna eu começo a caminhar e beijar qualquer garota que passa pela frente. Eu beijo todas, umas dez, talvez tenha beijado rapazes, não sei. Lembro do afeto envolvido, algo que me impulsionou a isso. Depois eu tava transando com uma garota dentro da casa, junto a uma das janelas, de frente pra Redenção, só que daí um dos seguranças saca o que estou fazendo e sou expulso do lugar.  
      Estou caminhando com um amigo e digo: Lucia é uma garota bonita, não? Ele diz: você ficou com ela noite passada. Eu pergunto prum outro amigo: eu tentei agarrar a Maria noite passada? Ele diz: você não devia ter feito isso.
Eu saio de um táxi na frente da casa noturna e vejo uma mina; ela tava conversando com um cara, acho. Não dou atenção pro cara e falo pra ela: vamos pro meu ap? A gente pega o mesmo táxi, vai pra minha casa e transa. Depois disso ela foi embora. Não lembro do seu rosto.  


um delírio, um sonho, um estado de narcose


Exemplifico a percepção molecular, a cartografia do molecular, a partir de três momentos distintos: uma cena que aconteceu no cotidiano, um sonho e um estado de narcose. Esses momentos mostram áreas de indiscernibilidade entre sujeitos, colocam em jogo a racionalidade e o bom senso, afirmam mundos diferentes, dos sonhos, dos delírios, das drogas, mostram uma relação com a vida de estranheza, mas também de alegria, a possibilidade de outros mundos, não só possíveis, mas atuais, mesmo que seja a atualização a partir do delírio. A percepção molecular permite o contato com o caos, e o caos é o mundo, já a percepção normatizada, fotografa, congela, impede os fluxos.      

1. Estava na praia do rio Guaíba em Porto Alegre. Estava fumando um cigarro. Vi um rapaz entrar no rio com sua prancha de Wind Surf. Ele entrou sozinho. Começou a surfar, fazer manobras. Em determinado momento caiu na água. A partir daí ele lutou durante dez minutos para se levantar. Fiquei olhando preocupado já que ele estava sozinho. Se levantou e voltou para a areia. Senti vontade de ir perguntar a ele se estava tudo bem, queria saber como estava se sentindo. Quando fui dar o primeiro passo em direção a ele, me senti estranho, uma sensação estranha; fiquei com medo, fui para o meu carro. Quando entrei no carro, reconheci a sensação: era a mesma que sentia após ficar preso em buracos na água da praia. Para sair de um buraco se exige um grande esforço e por ser na água isso gera um tipo específico de cansaço. Penso que senti o que o surfista estava sentindo já que ele lutou na água por dez minutos para ficar de pé. Aconteceu algo entre nós, compartilhamos o mesmo afeto, ou seja, uma linha de fuga da individuação dos nossos corpos, os corpos compartimentados e isolados. Isso é uma molecularização da percepção: sentir o sentimento do outro, que não é mais outro, mas uma linha de um agenciamento no qual eu era também uma linha. 
2. Um sonho, parecido com a cena acima, no que se refere a indiscernibilidade entre sujeitos. Me perece ser um sonho recorrente, desde a adolescência. Caio de um andar baixo, mas de nuca e assim quebro o pescoço. Na caída, fico com medo, que aumenta até o contato com o solo. No contato, quando quebro o pescoço, ao mesmo tempo, penso: ok, morri. Morto, ainda me percebo; sei que estou morto e me percebo morto – isso dura uns segundos, e nesses segundos conjuntamente, algo muito estranho acontece: vejo uma garota caminhando em um espaço tempo que não reconheço; ela caminha, está feliz, não muito, mas está; uma felicidade de adolescente, quando se sente feliz sem grandes motivos. Só que entendo que eu sou aquela garota; ainda me reconheço como aquele que morreu, mas sei que agora, depois daquela morte, sou essa garota. Mais uns segundos, a lembrança da vida daquele que morreu se apaga e a garota segue a vida dela – e parece que algo meu, o que morreu, ficou com ela. É difícil de narrar esse sonho, pois ele trata de uma despersonalização, da inexistência de barreiras entre sujeitos, é um tipo de esquizofrenização. Obviamente, não faço uma leitura extra real, de vida após a morte, de reencarnação; mas sim, para mim, fica óbvio no sonho que a vida não se resume a vida pessoal: os fluxos passam entre sujeitos, entre sujeitos acontece muita coisa; há o caos, mas o enxergamos a partir de lentes embaçadas. O sonho é um delírio, e posso falar muito bem de delírios já que sou um drogado desde os 13 anos de idade. Aliás, mesmo não me drogando, consigo perceber meu devir drogado, por isso, trabalho com a percepção molecular e gosto de pensar e lembrar de meus sonhos. Esse delírio permite uma narrativa da morte interessante e acolhedora, tranquila e não dolorosa. A vida continua em sua potência ou tristeza. Fico feliz com a felicidade da garota que também sou eu, e nós somos moléculas entre o núcleo da terra e o cosmos.
3. Uma viagem de inalante recorrente: a viagem é mais difícil de ser narrada, eu sinto que a compreendo quase completamente, mas é difícil de narrar o que sinto, já que é um delírio, os signos do delírio são diferentes aos normatizados. Por isso que em momentos do livro eu tenho que usar literatura; preciso de uma linguagem inexata para expor exatamente as descodificações. Eu cheiro e praticamente apago, meu corpo deve estar parado, não tenho consciência do meu corpo, mas estou sonhando (viajando). A viagem: percebo um mundo, um mundo como o nosso, idêntico, mas eu não sou eu, eu sou um outro. Tenho uma outra vida, sou outra pessoa, estou feliz, eu me compreendo como a outra pessoa da mesma forma que todos têm uma compreensão de si, de seu corpo, história, etc.  Essa outra vida é boa, mas não muito diferente da minha em estado não onírico. Em certo momento, pelo enfraquecimento da dose de inalante, eu retorno a compreensão de minha vida em vigília, volto a ser “Diego este que fala”. Mas há um ponto, um momento na viagem, que me faz compreender as duas vidas ao mesmo tempo; e sinto um desejo de manter a vida onírica. Quando sou empurrado para a vigília sinto nostalgia da outra vida. Após passar por essa viagem inúmeras vezes, raramente, surge uma dúvida: se essa vida que penso ser minha em um mundo concreto, neste mundo, se ela não é uma viagem de inalante. Será que agora estou viajando e posso retornar em breve para outra vida? Como me sinto e me compreendo agora não é diferente de como me sentia e me compreendia nas viagens de inalante.    

sexta-feira, 28 de abril de 2017

exercícios de escrita-idiota


A ciganada veio pra cidade e em uma hora se foi. Eu tô lá faz tempo, tô lá, não aqui. Sabia que a maionese que se vende depois da madrugada dá barato? Não, ela que é barata, a mina que cuida a porta do banheiro. Ela que se cuide, disseram. Mas ela já tinha entrado pela entrada também; é, meio que foi demitida. A circulação para, parou, e ele tá mesmo assim na esquina. Qual esquina? Aquela ali perto da Praça Mario Peixoto.  A gente fingia que fingia, e sabia que não tava nem mais aí. Já disse: tô lá, não aí. Me compra um charuto, me enrola um charuto. Veadinhos fumam incenso. Bosta de vaca, chove, e daí a gente toma um ar puro. Semana que vem furúnculo na bunda. Que bom que o cú fica escondido do sol. Se bem que o Carinha, aquele mano, tem palitos de fósforos que acendem no cú. Um cú solitário é algo triste; um cú comunitário, bem, a gente canta parabéns pra você. Levei o Sandrinho na banda das mangueiras longas. Ele riu, mas riu tanto que molhou o banco traseiro. É, traseiro. Me explica uma coisa. Não, na real, dá uma banda. Tem muita gente por perto e eu fico tímido pra limpar os dentes dela. A gente sabia tanto que só sobrava espaço pra esquecer. Se avião passa aqui na frente, a gente ora por Deus. Vivi muitos anos entre aquelas pessoas anos 90. Vivi tanto com eles que passei a acreditar que nem tinha ido pra Woodstock. Ele falava tão bonito que a gente cortou um pedaço da língua dele. Agora ele fala como a gente. Banho de chuva na praia é tipo acordar as três horas da tarde no meio do mês de março. Se tudo fosse fácil, tudo não seria difícil. Entendeu filho, meu filho, meu filho da puta? Ela nos corneava; a gente, sabe? Eu e o Mário e o Maninho e o Cabeça e o Ronaldo e o cara que tava sempre na esquina dizendo: cara, que se foda-se. Os semáforos deram certo, eles nunca piscam. Os tiozinhos ganharam aquele concurso de comer barata. É, escovar os dentes ficou mais difícil. Ela pensa que tá em que lugar? Ela pensa que tá “no morro, três da manhã, acabou o pó”? Ficar de quatro é só ficar de quatro. Eu não fico nem de pé. Deito, sim; eu deito e rolo. O jogador perdeu a mão pruma máquina que só funcionava de manhã. Ele nunca acordou antes do meio dia. Me explique; não, fica na tua. Não é não e não é não, simples, não? O melhor orgasmo é aquele do peito; mas síndrome do pânico é tensão mesmo. A diferença é que os caras tão sempre dando uma de gostoso, e eu não gozo nunca, não sou da geração goza-cola. Só que a Marinara, aquela gata safada que cobra cinquenta por duas punhetinhas, ela só goza se o cara leva ela até o hotel com mais de uma estrela. Ele começou a fumar crack para ver se dava uma acalmada na loucura. Funcionou. Me paga um charuto? Faz que nem o Mané, cospe nas costas que ele não comeu. Sim, funciona, é só tirar da tomada, colocar os pés na bacia e daí já foi. Já foi tarde. E eu que nem cheguei e nem vou. Tô mais em lugar nenhum do que aqui. Não me ligue, não estou aqui. Não me acorde, não durmo mesmo faz dez dias. Me compra uma revista do Batman. Coloquei o sofá no lugar; é eu coloquei ele no lugar dele.
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Conhece o Sacana? É, o Doutor Só Cana. Ele queria dar uma averiguada na próstata do Tio Hermes. Só que ela, a Dona Próstata, já tava avariada faz tempo. Não sei, mas me parece que sessão da tarde nos dias de hoje rola de noite; e o que rolava de noite, rola qualquer hora. Sim, é isso, muito bem, sempre, já que as cascas de dentro do nariz sempre vêm com meio quilo de sangue. Por favor, meu amor, me chame de meu amor, por favor. Coloque vaselina no cabelo e curre com a cabeça uma mina-rinoceronte. Prainha da Macumba sempre foi cara pra dar uma banda nas férias. Daí a gente faz a macumba ali naquela rua naquele bairro na Zona Leste. Eu não vou estar aqui, agora, e daí, não me ligue, não ligue pra mim, ninguém se liga, tô ligado e deixa assim. Na real: que se foda; melhor, vou ser honesto: que se foda; melhor: eu te fodo quando você quiser. Colocar no forno só se for no domingo. As calcinhas foram usadas, sinto o cheiro de longe. Meu Deus do Céu Azul. Mina, se você vai no banheiro, não fale com o Mário. A Dona Gatinha se fodeu, ganhou dez perebas naquele lugar que ela nunca viu e nem sabe. Saio na noite pra pegar umas dores de corno. Não saio na noite, já que ela tá aqui. Amanhã quem ganha os cornos são as vizinhas lésbicas do andar de cima. Ok, comi uma puta de rua que fumava crack. Ainda quero fazer aquele curso de cerâmica. A cidade voltou a ser a cidade. Não sei se existem helicópteros. Quebrei o tornozelo e ela ainda quer que eu a carregue pelas costas.  Tem uma bela praia aqui no País das Loucurinhas. Vou soltar um barro, nem mais volto. Frango assado se vende por dez pilas, galinhas são mais caras, mas ainda são baratas. Coloquei o cú ao lado da caixa de som, meu cú está em estéreo, me cú está muito dançante. Você ainda me ama, Dona Megera? Uma noite no andar superior, por favor! Realizo sonhos por muito, muito mesmo, muito pouco.
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Se me encontrar não me avise. Ontem é um bom dia pra você me beijar. Sim, faço isso logo, daqui a uns dez anos. As hemorroidas não importavam, mas aquela espinha entre os dedos.... Que bom que não chupo dedos. Deve ser trauma daquela época em que os bicos tinham gosto de geleia de morango. A tua cara estava muito bonita; não gosto de caras bonitos; é, dei a garrafada por uma questão estética. Pinto mole de cachorro é mais duro que pinto duro de barata. Quando eu durmo do teu lado eu me sinto tão: “então, deixa assim”. Não entendo, quando tomo coca-cola sinto vontade de dar uma banda; quando tomo todas, a banda já aconteceu. Eles viviam naquela época em que a palavra caralho só tinha dois sentidos: pra cima e pra baixo. Hoje em dia, o caralho não tem mais sentido; caralho desorientado. É um saco, dou a banda da manhã naquela loja de conveniência e o General tá com os dois filhos. Sabe aqueles dois? A Loirinha Gostosa Quando Crescer e o Seu Malinha. Choveu, molhou e não gozou – gozar é pros fracos. A Dona Bocetinha Magra transava com guardadores de carros naqueles dias que eu tomava Valium. Não sei, sabe? Os caras fecham as lojas do bairro, mas o bairro tá sempre aberto. A sacana que vende fluoxetina é uma sacana. Ela vende por um preço baixo, mas a gente tem que aturar o bafo quente dela. Sabe o bafo dela? Me fode, mas não me beija. Se me beija, me fodeu e tamos certos. Atrás de mim, não, meu bem. Diga meu bem, meu bem. Me vende uma pedra de crack, Tia Peruana. Ele dava play nas máquinas de Pinbal da loja do Seu Otário. Mas agora não dá mais pra rolar os play, seu boy. Não sei se a gente foi pro mato e se eu tinha comprado duas garrafas de vinho, três caixas de bolas, mas eu sei muito bem o que eu não sei. Tá achando que é festa? Com dois cús se faz uma casa. Dois pintos e uma montanha venderam milhões. Como ainda pão de manhã, já que você tá lavando a louça de dois dias atrás. A gente dá um jeito. Se ela pulou da janela.... deixa ela. Dona Tia Velha dá um tempo, quem é teu alfaiate? Meu gato mija na cama, mas não na minha. A gangue das piranhas sempre vende aquelas merdas que faz a galera ficar constipada. Não estou mais fazendo academia, mas vomitei na perna do Otário, melhor, Senhor Otário, como ele gosta de ser chamado. Se tem festa na madruga eu tento não descer.... o meu pau, que nunca fica descido. Não sei, já disse. A gordinha ficava puta quando eu comia todas, mesmo ela comendo todos e todas e mais um pouco. A vida é louca. Aqui no prédio tem mais lesmas e centopeias que na parte alta da cidade.  
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Com quanto cornos se faz uma canoa? Hambúrguer barato é caro nas segundas. Ceva quente rola em qualquer lugar. Bocetinha queimada na areia. Eu fumo quando eu quiser, no lugar que eu quiser. Toda a noite eu pego carro e vou até a fronteira. Daí entro na casa dela em São Francisco do Caralho e como um banquete divino. Ela continua confiando em mim. Eu sou esperto, não confio em mim de jeito nenhum. Eu estou no lugar que devo estar, ao lado das hemorroidas de qualquer um. Gozei e não gostei. É caro gostar daquilo que elas gostam. Diferente seria se eu fosse uma lésbica, e se eu fosse, me comia bem feliz. Ela abriu as pernas, eu passei por baixo. Putinha, entra no carro, mas não seja doce demais. Namoradinha que não beija é minha namoradinha de início de mês. Meteu no lugar que não era para meter. Geladeira, paralelepípedo, te amo, e não mais. Dona Coisa, eu te respeito, mas não use tanta naftalina entre as pernas. Eu não sou um punk sujo. A gente ainda come frango, mas dizendo que brócolis é coisa de gente feliz. O tio prepara o cachorro quente na esquina. Sim, ou não, ou talvez: escolha! A feira orgânica tá sendo montada e a cadela da Marta foi montaria de todos. Dei uma volta e não voltei. Me diz uma coisa; deixa assim.  
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Casa cheia de ratos com barras de chocolate entre os pelos. Duas ruas, uma atrás da outra. 120 por hora a toda hora e nem dormi. A Dona Coisa se foi, mas era o Mário que tinha razão. José tá mijando na frente da praça. Pior foi quando o Marco cuspiu no nosso prato e a gente teve ainda que pagar uns dez cada. Era tanta loucura que só podia ser realidade, e sempre penso nisso quando esqueço disso. Desatei o nó, fiquei meio assim com a série de TV, na real, eu queria cair fora. Trinta anos depois tudo de novo. A galera comprou aqueles alfinetes, daí a gente foi preso por magia negra. Luizão deu uma de mamão. Acordar quando se está acordado dói os dedos. Daí, daí, daí a Daniela disse que a Ridícula tava saindo com o Mário. Meio copo disso, meio daquilo, mais aquilo, daí a gente compra uma casa num bairro classe média baixa. Não quero mais saber daquela noite que nunca acaba, e eu não quero acabar. Ela se acabou comigo. Tinha tanta dor de cabeça que morfina dava dor de cabeça. Cabeças de alfinete, me rebite! Santinha, vem aqui! A gente fica velho quando a gente fica velho. Eu queria menos. Não sei o que coloco por cima. Uma cabeça mais uma marmelada dá uma cabeçada. Cabeção nem tomava já que era como nós antes do verão começar. Já que está aqui me dê duas pegadas. O nome dela era aquele nome que nem mais fabricam. Buraquinhos não nasceram na mesma época dos dedinhos. Se você quer comer isso por favor lave as frases. Os dedos estavam sendo queimados nos cascos daquelas éguas chamadas de “qualquer coisa rola”. Afinou-me. Duas abelhinhas entraram no vaso e cuzinhos docinhos disseram: quero mais. Sim, eu topo quando ela quer comprar batatinhas com aquele lance gosmento em cima; mesmo que comida seja muito século passado. Queima, queima, queima, e lava as flanelas. Com quantas bucetinhas se faz uma canoa? A gordinha tava na parte de dentro daquele hemisfério. Daí aquele tio, o Opala Tunado, disse que as chevetteiras voltaram. É meio dia, cozinha uma meia calça pra dois. Comprou todas as terças e foi demais. É ele sempre faz isso. Daí era cedo para se chegar tarde. Sim, ela era demais. Me dá menos. Me liga, tipo call center depois da meia noite. Me passa a dose de natal, quero vomitar no quarto ao lado. Ao lado, sabe? Tipo naquele lugar que dói para a dona Ridícula. Mastodonte tomou aqueles lances laranjas que o Mário receitou. Tomou e daí dormiu. No outro dia, foi dar “oi” pro senhor Bidê, mas mijou de ponta cabeça. Seis horas mais tarde queria ser um peixe boi. Se eu quebro as regras... é, o jogo acabou sem um 21. A dancinha dela era legal. Namorei a Marta por um mês. No outro mês a gente sacou que ela tava grávida. Daí eu convidei as Três Putinhas pra ficarem aqui em casa. Disse: Putinhas, de aluguel, pode ser duas cervejas de cada por manhã. Daí elas vieram morar aqui. Acabou o lance quando as cevas viraram vinho de macumba. Ele era meu amigo, só que daí entrou naquelas de ser minha amiga. Sim, ela veio, amei, mas pedi pra cair fora, tipo: no meu edredom só a Marta vomita. Vamos dar aquela banda junto do rio? Vem cá, você me deve. Vovó fez muitos docinhos pra festa. Bidês de cores claras ou gravatas de fimoses? Não vejo mais nada daqui, tá tudo mais que duplicado; tipo, dobra a dose, seu Mário. Que Mário? O dono da lojinha. Nem mais queria, só que na real se fez que não queria, e por isso, mais que quero.
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Furei os olhos e ela mijou atrás da árvore. Ela, lembra dela? Aquela mina tipo coisinha dura, chata, sanguinária. Sim, ela, a que metia o Pablo por trás toda noite; a que lavava os coelhos e depois comia batatinhas chinesas. Lendo a obra completa de Mário, o senhor Soares, descobri a real motivação dos furúnculos nas bochechas dela.  Sempre a Aninha vem aqui e a gente começa a abrir as portas. As cevas quentes foram feitas para serem amaldiçoadas. Malditas cevas de Cristo do Inferno. Barrinhos? Era sobre isso que gente tava falando ontem?  Os carros aqui da frente estão com aquelas varizes que eu como sem pagar. Me dói a maionese. E daí tava todo mundo dançando, e veio o Barrinha de Chocolate e deu aquela dor na alma de todo mundo. Tipo, vinte anos depois o que tinha rolado tá escrito no jornal que a gente nem lê e que se foda. As cachaças fugiram das ressacas e as calçadas doem o cú. Não rola mais jantares de fim de ano, tipo aqueles que a gente nunca foi. Os discos mais audíveis estavam na casa do Getúlio. Pau no cú daquele que finge que ouve. Sempre usei tuas cuecas mesmo que as nossas bolas joguem pingue pongue em clubes diferentes. Se o banheiro agora tá vazio, se ninguém peidou ali antes, a gente pode até pegar as camisetas e lamber elas por dentro. Removedor de tinta é aquele lance que a gente ama mais que a própria mãe, a do Mário. Que Mário? O dono do armarinho dos Soares; Mario Soares. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

crônica em homenagem ao centésimo ano de vida do Amilton Carvalho


Eu tenho domínio apenas de duas linguagens escritas: a acadêmica e a literária. Eu não tenho capacidade para escrever um artigo sobre o Amilton e sua obra. Assim, fico preso na literatura. Prefiro escrever sobre a nossa relação. Algo entre nós, que envolve muita coisa, e também minha família. A relação do pai com meu irmão é diferente. Meu irmão foi corajoso e aceitou o sobrenome Carvalho, seguindo no mesmo campo. Minha irmã é uma moça, bem mais nova, o bebê da casa. Eu não cursei direito, não sou uma moça. Assim há todas essas diferenças. Mas todos nos aproximamos, pois estamos na academia. Algo bem pequeno burguês, não? Uma família de intelectuais... Isso para mim foi algo como um “determinismo”. Não poderia ser diferente, por sermos filhos de quem somos. E herdamos outras identidades mais duras, profundas: somos gente da classe média, brancos, heterossexuais, brasileiros, gaúchos, colorados. Poderíamos culpá-lo por isso. Você nos obrigou a ser quem somos!  Você nem perguntou! Assim do nada nos pôs no mundo! Se eu fosse um desses românticos existencialistas poderia dizer: eu não queria ser humano, nem existir, a culpa é sua. Porém, além do “determinismo”, ser filho do Amilton, quanto a mim, me abriu todo um campo de possíveis, realidades a serem escolhidas, potencializadas, experimentadas, transgredidas. Desde pequeno, eu o via em seu gabinete, só, escrevendo ou lendo. Não era um santuário, um lugar que criança não podia ficar. Mas sabia que era seu espaço de trabalho e respeitava. O gabinete cheio de livros, com pinturas. Cedo comecei a sentir prazer em ler e ficar recolhido. Com a chegada do vídeo cassete, os filmes se somaram. Desde criança, eu fui muito extrovertido, tinha muitas turmas, como o pai. E como ele, eu gostava, então, de ficar sozinho, lendo minhas revistas e vendo meus filmes. Um dia, com quatorze anos, ele me botou na parede e me intimou a ler um livro; eu nunca havia lido um além dos obrigados pelo colégio. Eu não fui com a cara do autor. Era um psicanalista metido a libertário. Mas, meses depois, comecei a ler Bukowski, Fante e a Geração Beat. Fui posto na parede e aceitei, mas aceitei da minha forma. Literatura foi o mais importante em minha adolescência e na graduação. Faz pouco tempo, lancei um livro de crônicas. Nele não falo da minha relação com meu pai, mas da relação pai e filho; da dicotomia; da prisão de ser o termo menor. Mas de forma alguma faria uma crítica a um centro de poder tendo como base minha experiência pessoal. Não sou um amador. E na real, talvez seja uma prisão maior ser o termo dominante; ser obrigado a agir como um adulto, branco, macho. Portanto, duas coisas que se atualizaram: a solidão e essa experiência com a literatura e o cinema; solidão e arte duas coisas que se atravessam. Fui obrigado quando criança a me mudar para inúmeras cidades do interior, porém, isso me possibilitou uma relação com a cidade. Sempre havia coisas e pessoas novas. No início da pré-adolescência, mudamos para uma cidade maior. Sempre me foi dada a liberdade para circular por ela. Algo comum, já que era uma cidade segura; mas não me tratavam feito criança. Eu podia ficar até de noite na rua, como podia ir na locadora e pegar o filme que eu quisesse. E quando não podia, fazia assim mesmo. Isso me foi possibilitado e a forma como experimentei a cidade me atinge até hoje. Meus pais se separaram; depois disso meu pai tentou alguns relacionamentos mais duradouros. Não deu certo. Eu experimentei alguns quase casamentos. Pensei em ter filhos em certos momentos. Morei com algumas garotas, possíveis esposas. Mas já faz muito tempo que isso para mim é impossível. Não quero ter uma esposa e filhos. Um caminho seria casar para saber que isso é insuportável. Mas o campo de possíveis foi aberto. Vi que a vida familiar não é uma obrigação. O pai em um momento parou de votar. Eu achei algo radical. Porém, comecei aprofundar meus estudos sobre os movimentos de resistência a ali me encontrei. Virei anarquista. Como eu digo: não estou repetindo os passos, se fizesse isso seria obrigado a enfrentar muitos erros. Mas a figura do meu pai permitiu que eu escolhesse algumas coisas. Eu não pude ser um rockeiro, isso não me foi permitido, já que o pai nunca teve interesse por música e isso me afetou. Mas pude ser um teórico que trabalha com as resistências, já que o pai sempre teve ligação com movimentos sociais. Não tenho problemas com a prisão de ser filho dele. A vida é uma prisão se você deseja se manter dentro dos padrões dominantes. Mas a beleza é todo esse campo aberto, múltiplos caminhos. Escolher, traçar linhas, montar uma vida como se monta um mosaico. Ele viveu muito e sempre esteve presente, aprendi com os erros dele.

Ele é meu parceiro de cafés. Um cara muito intuitivo. Um bom cristão. Melhor, alguém que fez sua antropofagia do cristianismo. Alguém que se pode contar. Um bom pai. Eu posso chamá-lo de fascista ou sacana em nossas divagações “cafeínicas”; e ele tem a cabeça tão boa que reconhece que é de uma geração anterior, com todos seus vícios. Eu poderia dizer que ele tem muito ainda a aprender. Mas, como ele sabe disso, tem como projeto o trabalho com Nietzsche, nestes últimos tempos – que estes durem o máximo possível. 

domingo, 23 de outubro de 2016

CFC - crônicas fora de controle

Prazer e dor ou outra história  

Sempre pensei que a história do cara que cheira coca é de fugir da frita, do repé, da ruim, do fim do pó. O cara começa a cheirar e daí faz o possível pra não parar; fica uma semana acordado até acabar ou o corpo parar. Daí desmaia por três dias, mal na cama, fritando, suor lá em cima, ressaca moral e um monte de merda. Daí tem o lado bom, o pico do pó; o lado ruim é o pico da dor da falta do pó. Mas acho que seria legal sair das oposições, das piores, bom e mal, prazer e dor, e pensar que isso faz parte do território do pó. O território: o cara junta o máximo de grana de alguma forma, como está só na fissura, só muito a fim, junta uma grana de forma legal, ou se for ilegal, faz algo bem pensado. De repente, pega no morro um quarto de fumo e combina com o patrão que paga depois. O cara pega o fumo, faz as parangas e vende rápido pros amigos (em outro caso, se  o cara só fuma maconha, pega metade pra consumo próprio, com o resto faz a grana do patrão e sobra mais uma boa grana), paga o patrão e fica com uma grana boa pro brilho, tipo mais que dobra a mão. Mas trafiquinho é uma opção, ele pode passar algum lance, sempre tem algo pra vender em casa; pode fazer um roubo bem pensado, algum equipamento eletrônico dum vizinho. Pega o pó. Se dá sorte pega com alguém que recém recebeu e que tá vendendo ainda com bom preço. No caso, penso no cara que não passa o pó, ou se passar, vai ser pouco, penso mais no cara que acha que tráfico de pó é meio roubada. Pega o pó e faz a mão. O pó vai acabar uma hora. Ainda mais cheio de pó, vai acabar liberando pras minas, pros manos, de repente, vai acabar liberando até pros malas. E esse pó vai acabar e o lance é não deixar acabar. Como falava, pode ser a fuga da dor, mas pode não ser só isso, porque quanto mais cheirar, mais dor vai ter depois. O pó vai acabar. Antes das últimas carreiras já pensa: quero mais e não tenho grana. Vai ter que fazer grana de forma ilícita, mas de forma alguma quer ser preso, muito menos por coisa pesada. Possibilidades: vender fumo vai demorar muito. Pedir arrego pro patrão, certamente já fez isso e tá fugindo dele. Vender algo, trocar algo por mais pó, já foi tudo. Provavelmente, tá queimado para pedir empréstimo pros pais e nenhum dos amigos vai emprestar, porque tão juntando grana pra fazer a própria mão. Uma boa é saber o número dos cartões dos velhos, o que já deve saber. Roubo: de repente um som de carro. Algo na casa dos vizinhos. Atacar alguém na rua. Simular um michê com algum veado e roubar o cara. Fazer um michê. Daí pega mais pó. E a história continua. Quando acabar e sempre acaba, vai pra cama. Toma Valium, fuma um e daí o resto é o pesadelo. Só que o que parece que é oposto é muito próximo, falta e barato da droga. Talvez sejam a mesma coisa. A cabeça que funciona sem parar nos dois casos. A fala contínua no uso; na falta, a cabeça continua, mas sem o outro pra exteriorizar.  As ações que fogem daquilo que se faria normalmente, no uso. Na falta, a impossibilidade da ação, os pensamentos delirantes, fora do normal. O corpo que sua, treme, mesma coisa nos dois casos. E como dizia um cheirador: uma semana cheirado só vale se a gente sofre na cama depois uns três dias. Faz parte.

Relação diferente com o corpo

Acho que nos últimos anos é cada vez mais fácil parar de fumar do que continuar fumando. A mídia, a área da saúde mais os psis, a indústria do corpo com as academias, as pessoas comuns, Estado com suas leis e etc.; tudo isso serve como uma rede de terapia em massa. Pra quem quer parar de fumar e entrar na onda, beleza. Pra quem quer resistir, esse se fode. Mas tudo muito bonito, em nome da saúde, da gorda saúde dominante.  O cara que fuma sabe que vai trocar alguns anos de vida por décadas daquilo que o cigarro permite. Já que uma doença grave, tipo câncer, avc, aparece só na velhice, ou se o cara tiver azar de já ter tendência pra certos tipos de doenças. Mas e daí, vale a pena uma morte talvez bem dolorosa, menos tempo de vida, pelo que o cigarro proporciona?   Acho que o prazer é o mesmo pra todos, talvez... Fumo principalmente como estimulante: café, cigarro e computador pra mim criam uma combinação perfeita. Me sinto bem sempre em saber que vou poder fumar o próximo cigarro. Isso que interessa, né? O próximo cigarro. Decidi continuar fumando após anos de pressão de todos os lados e dentro de mim. Uma época não conseguia nem ver certos programas de Tv, rádio ou ler certas matérias que tratavam do tema. Sentia o câncer virtual dentro de mim.  Em três momentos cheguei a agendar uma data pra parar. Mas uma hora decidi dizer: foda-se! Fico com o crivo. Se isso me der um final de vida mais doloroso, bem, isso pode acontecer com todos. E provavelmente morfina e heroína vão continuar existindo, ou drogas mais pesadas vão existir, o que já dá uns anos de alívio. E no caso de avc, que deve ser um lance foda pelas sequelas, eutanásia caseira sempre é uma saída.  E na real, acho legal pôr a ideia de saúde em jogo, tirar a doença do espaço marginal, ou mais, colocar em termos de desejo: desejo da enfermidade, pôr a doença como possibilidade até de alegria, ou mesmo a morte; tirar as associações negativas. De repente, uma relação diferente com o corpo, uma relação existencial diferente, dessa existência que criam para todos. Interessante que o padre sempre diz: “mas você fuma, você não tem amor pela vida”. Só que viver uma vida construída por algo que vem de cima (poder), que funciona para acabar com a vida (apropriá-la), é amor pela vida? Claro que fumar não é uma grande solução, mas a gente faz o que dá.  Ouvi de um cara da saúde num programa de TV: “as pessoas não têm direito ao cigarro somente à saúde”, ele disse isso em rede nacional. Mas daí comecei a dar mais atenção às pessoas ao meu redor quando estou fumando, e o que acontece é a reprodução (só que mais chata) do mesmo tipo de discurso fascista.  


A tradição romântica da arte

As experimentações de Willian Burroughs – o escritor mais radical da geração Beat – eram com as drogas. Droga como possibilidade de fuga do pensamento tradicional, do corpo normalizado, dos afetos dominantes. Não só droga, como os outros beats, junto disso a estrada.  Estrada e droga, só que isso não garante muita coisa. Tipo viagens turísticas que só o corpo se desloca, a mente continua a mesma. A droga como imbecilização, como dizia o velho punk: o que aprendemos com Sid Vicious[1] é que ninguém precisa de talento pra se drogar.  Só que a droga e a estrada dos beats, com toda a sua dor e alegria, com todas as merdas... Bem, sobre isso, a gente pode falar em transcendência. Outro elemento que vem junto da droga e da estrada na tradição marginal da arte, é a pobreza: Artaud, Rimbaud, Wilde, Baudelaire, De Quincey. A crítica literária fala sempre do desregramento dos sentidos, mas isso e a vagabundagem da estrada estão ligados a uma pobreza espontânea. Pobreza que na real é autonomia e não a prisão da falta. O drogado que desiste de tudo, até dos bens, pela droga. Largar tudo e cair na estrada. E a pobreza produz riqueza, se sairmos do senso comum. Privação, dor, fome, tudo isso fez parte do caminho seguido por esses caras e outros. Tipo Bukowski, um beat solitário. O cara era meio reacionário de direita; só que, na real, ele tinha um inconformismo com a geração do paz e amor. Importante que ele segue essa tradição: pagar por algumas noites por um barraco de papelão em alguma cidade qualquer dos EUA, bêbado e com fome, e buscar um pouco de luz pra escrever alguma coisa. Ou seu mentor, Fante, que se alimentava apenas de frutas colhidas, não trabalhar (vagabundear) pra ter tempo de escrever. Burroughs no Tanger, em seu estado terminal da heroína, esperando que alguém morra em sua frente pra roubar sua carteira e ter grana pra se drogar; e tempos depois descobrir rascunhos dessa época que nem se lembrava de ter escrito. Só que tudo isso ainda preso no sujeito, o gênio moderno, criador. Mas o próximo passo é quando os beats se tornam referência de massa, com a contracultura. Daí, droga, estrada, pobreza espontânea viram uma possibilidade pra mais gente, pela difusão do estilo de vida. Hoje a gente vê algo parecido nos movimentos de okupação de praças. Algo que deve ser pensado.


 Prostituição

Sobre a prostituição, seria legal pensar nela como potência, não como impotência, vergonha. Impotência é mais que real: exclusão, marginalidade criadas pelas significações dominantes. Ou mesmo, prostituição como fantasma: as minas que se sentem putas quando transam. E daí elas misturam vergonha, desejo escondido, tudo negativo. Quanto à potência, ela não é a imitação da prostituição: a mina que dá pro cara já que ele lhe deu um presente caro. Seria um mundo melhor se a prostituição fosse mais uma das cores da vida, e se faltasse essa cor no mundo, no caso, esse mundo melhor, ele seria menos vivo. Se fosse assim.

Laranja Mecânica

Cena inicial: a gangue de Alex (personagem principal) e ele, eles tomam “leite com facas”, um tipo de droga pesadíssima. Estão sentados, olhando pra câmera. Olhar fixo de chapados. O som de fundo, um órgão com alguma música de Beethoven. A câmera vai abrindo aos poucos. A primeira metade do filme o torna o que é: uma grande obra; só que da libertação de Alex da prisão, no meio do filme, até um poucos antes do final é moralista. Nesse tempo, Alex paga pelos pecados. Já o final é um final feliz, mas diferente desses de filmes ruins: a felicidade de um psicopata.  Depois de se dar mal, pode voltar a agir como um monstro.  A história do filme: Alex tem menos de 18. Toma drogas pra ficar violento. Em uma noite, espanca uma gangue rival; quase mata um velho mendigo com seus amigos; estupra uma jovem esposa de 30 anos. No fim, bebe mais leite, vai pra casa e meio que adormece ouvindo Beethoven. Tem sonhos com assassinatos. Em seu quarto toda uma riqueza de signos: escultura de cristo dançando; uma cobra de verdade; quadros de mulheres nuas de pop arte. No meio do filme, mata uma mulher, é traído pelos companheiros, pega 14 anos de prisão. Na prisão, entra em um programa de condicionamento. Vê filmes de violência e impõem a ele doses de uma droga terrível, ao fundo a música de Beethoven que mais gostava, a Nona Sinfonia. Fica condicionado. Sempre que pensa em agir violentamente ou ouve a música, sente que vai morrer, uma dor terrível. Até aí ok, mas depois, como disse, o filme fica chato, Alex paga o preço. Encontra todos que abusou com violência, e quase morre. No fim do filme, o Estado o acolhe, e ele se liberta do condicionamento. Eu não havia falado da violência sádica, no caso de Alex, por prazer. Violência pela violência. Legal que o Estado permite a violência de Alex. Isso tá mais evidente no livro do Anthony Burgess, que deu origem ao filme. No livro, uma hora ele acaba se cansando, como se a violência estivesse mais relacionada à juventude. Duas coisas importantes que estão relacionadas: violência e juventude.  Isso aparece nos movimentos de luta contra o sistema. Vemos a violência contra o Estado feita pelos jovens, só que violência legítima, a violência da revolução. Aparece como possibilidade aqui neste livro, algo como tentar uma escrita violenta; a partir da violência existente. Violentar o leitor, ou seus ideais, o que dá no mesmo. Um pouco de psicopatia talvez, frieza, meter o dos outros na reta e também o meu. O dos outros que está em mim, o que compartilho, ou seja, me violento. Uma coisa que não gosto em aula: falta paixão nas falas, reflexo da mesma falta nos textos. Nas assembleias dos movimentos de ocupação, já senti o ambiente aguado. Só que em Barcelona o pessoal tá realmente indignado. Ouvi algumas vezes, nos encontros do movimento, o pessoal falando de ação direta violenta, de forma apaixonada. E bem, os caras tão encarando a polícia de frente, diferente daqui do Brasil.     

Mulheres

Um amigo meu jovem, duns vinte e poucos anos. Tava numa fase bem aberta: drogas, loucuras, mulheres. Tava meio que namorando uma mina. Daí começou meio que namorar a melhor amiga dela. Ficava com as duas. É, tava ficando com as duas, e um dia, do nada, apareceu uma mina que ele meio que tinha namorado. Era verão, elas não tinham o que fazer nem ele e... bem, um dia ele diz que olhou pra sala e estavam as três conversando: duas de 18 e uma mais velha que ele. Sentiu que tava num transe, e de repente acordou com elas ali. Daí olhou pro outro lado da sala e estava uma mina que morava com ele. Dormia na cama com ele, os dois abraçados. Ele transava com todas elas, uma de cada vez, enquanto as outras faziam sei lá o que. O cara não era bonito, também não era feio. Não era burro, mas também meio pateta pra ser inteligente. Podia só fingir que tinha lido. E o cara não era nenhum grande amante. Na real, o cara era filha da puta. E as garotas eram bonitinhas, a mais nova, a mais bonita virou namorada fixa. Ele não se preocupou com preservativos com elas. Quando a festa acabou, ele pensou: me fodi, vou ser pai de quatro crianças direto, tô fodido; mais, aids na certa. Só que elas se cuidavam, ele que não. Eram todas meio caretinhas, deixaram de ser com ele. Mesmo assim, ele tava meio noiado com tudo e conta que o fantasma da aids meio que pegou ele por um tempo. Meio foda, delírios e tudo mais. No fim, tava tudo bem.  Só que ele pensou na loucura: talvez fosse bom, de repente, nós cinco com aids, uma família decadente feliz. Dessas dos adesivos dos carros: tipo cinco lacinhos vermelhos.   

Sono

 Muito puto porque em algumas noites peguei umas gatinhas caídas. Daí, durmo muito no fim de semana, e travo na terça. Fico dois dias sem dormir. Daí uma amiga me liga dizendo que tá com uma doença de merda. Isso me deixou fodido pacas. Primeira crise existencial do semestre. Um saco; muita noia. E por aí vai. Daí, decidi ficar mais em casa, o que acentuou tudo, meti solidão no meio. Como não dormi até agora, fiz um café bem forte. Nove da manhã. A vizinha do andar de baixo vai tomar banho. E eu aqui escrevendo. Como dizia: aproveitar o que tá rolando. Mesmo que me leve bem pra baixo.    

Cinema Strange

Viajo todos os dias pra Novo Hamburgo de carro. Cidade que fica a 50 quilômetros de Porto Alegre.  Gosto de dirigir, é quando ouço um som. Não ouço em casa, só no carro e em festa. Notei um dia que já fazia um tempo que tava ouvindo só um disco duma banda. Uma banda bem estranha, Cinema Strange. Tão estranha que demorou um tempo pra eu conseguir ouvi-la de verdade. Eu sabia que a banda era boa. Faz parte dum segmento que me interessa: death rock. Um tipo de som gótico, meio puxado pro punk ou pro metal. Então, gostava do segmento, tinha lido sobre a banda, mas não conseguia ouvir. Já em vídeo descia melhor. A banda era muito estranha no visual: moicanos, roupas rasgadas e coloridas. Especial o vocal: alto, magro, feio. Vestido com roupas de mulher. A cara com pasta d’água e batom. Uma cara de palhaço assassino. Na real, queria ver um show deles. Ou talvez, dançar numa festa. Só que ouvir no carro, era muito pra mim. O som era difícil de ouvir. Barulhento, sem melodia, nervoso. Mais, a voz do vocal não tem referência a outros vocalistas. Aguda, não humana. De mulher, de criança? Isso é o que mais me chamou a atenção. Daí, uma hora, notei que tava ouvindo direto no carro. Ouvi muito. Um momento, comecei a ouvir só duas músicas. Fiquei dias ouvindo as duas músicas, melhor, semanas. Não conseguia parar de ouvir. Ouvi esse som enquanto escrevia esse texto. Uma dose de loucura sonora pra compor a loucura textual. Som sem controle (do Cinema Strange, esquisitão), fazendo a trilha duma literatura que tenta ser descontrolada.  

Revivendo  

Fazia tempo que ele não cheirava. Fazia uns cinco anos. Tinha sido um bom cheirador por muito tempo. Parou porque mandaram ele  parar. Um monte de gente: namorada, pais, treinador, psicólogo, Polícia, pombos, ratos e mais um monte de chatos. Ok, parou, e parou mesmo. Cinco anos sem cheirar. Nesse tempo, virou o senhor bom cidadão. Virou um cara bom, um amor, o filhinho da mamãe, o esposinho que abre a porta. Olhava para o espelho e se sentia orgulhoso. Percebia como os outros olhavam pra ele e se sentia orgulhoso. Empinava a cabeça e estufava o peito não mais por causa do pó, mas pelo orgulho. Até os policiais quando passavam por ele, olhavam com admiração. Só que um dia apareceu um mano. O mano tava com a mão, não muito sabe, só umas cinquenta gramas de pó. E ele deu um teco. E depois outro, e depois outro. Quando viu tinha passado o final de semana e o pó tinha acabado. Daí, ele subiu o morro sozinho e pegou mais umas 20 gramas. Pegou um quarto de motel barato. Esticou umas belas carreiras. Se olhou no espelho e disse pra si mesmo: vou vender tudo que eu tenho. Vou comprar tudo em pó. Quando acabar o pó, vou me dar um tiro, e já era. Decidiu isso porque não queria ficar preso na rotina. É, a rotina do pó: conseguir grana, comprar, cheirar, depois ficar sem, ter que roubar pra ter mais. Incomodação demais. Então, não queria a rotina do pó e, muito menos, a rotina do bom cidadão, do filhinho da mamãe, do babaca que ama uma babaca. Vendeu tudo, comprou tudo em pó. Se enrolou com uma mina muito louca porque ela tinha um ap. Esticou as carreiras. Fez a festa. Uns três meses de festa. Pó, canha, sexo, brigas, grana pra Polícia, bares, putas, muitas pessoas, tudo a cem por hora. Ele sabia que se resolvesse não se matar, a ressaca seria tão grande que acabaria se matando. Ou seja, o tiro na cabeça já era certo. Tava na praia de Ipanema em Porto Alegre. Tava no carro. Não tinha vendido o carro porque pó e carro andam juntos. Tava na praia, tava com as últimas parangas de pó. Esticou uma carreira com tudo que tinha. Deu uma longa aspirada. Botou tudo pra dentro. Esperou o pó descer. Esperou o brilho começar a se apagar. Pegou a arma. Meteu na boca. E já era. Parte dois. Ele namorou-a por cinco anos. Ela meteu-o nos eixos. Fez ele parar de sair, de beber  e se drogar. Ele virou o caretão. E gostava disso. Dizia: agora eu sou um homem. Encarava de frente o pai, não ouvia mais o velho o chamar de “um imaturo que só faz merda”. Tomava cerveja apenas no almoço de domingo. Enchia a cara junto com o sogro. Depois via tv com toda a família da namorada. Viam o jogo de futebol todos bêbados. Ele era novo, tinha 28 anos, mas já se sentia um senhor. Falava sobre casamento. Falava sobre ter filhos. O pai ofereceu uma grana pra montar seu negócio e seguir em frente, fazer sua família. Montou uma empresa. Em pouco tempo, começou a dar dinheiro. Fez uma grana. Marcou o casamento. Todos estavam tão felizes. Ele podia se casar, tinha autonomia que nenhum amigo tinha. Uma semana antes do casamento ele disse: tô fora. Não quero mais me casar. O pai, a família dela, ela, todos ficaram loucos com ele. Mas ficou firme na posição. Primeira coisa que fez depois de toda a novela, foi num bar. Tomou todas com os velhos amigos. Fumou uns baseados, cheirou umas carreiras. Depois foram numa casa noturna. Pegou uma gatinha duns 20 anos. Levou-a pra casa. Transou com ela. Era a primeira transa em cinco anos com alguém diferente das ex-quase esposa. Transou com ela feito louco. Parecia uma transa que nunca tinha experimentado. A coisa foi demais. A partir daí, começou a sair direto. Na sexta, no sábado, no domingo. Em pouco tempo, voltou à ativa do pó, mas de uma forma diferente. Não tava viciado como já tinha sido. Durante a semana o negócio até ia bem. Trabalhava normalmente. Mas não passava um dia de trabalho sem que pensasse nas festas. Na real, pensava o dia todo nas gatinhas, nas drogas. Só que sabia que tinha que ser um lance eventual, senão ele não ia ter como se manter. Tinha que trabalhar. Era sexta, tava na noite. Rolou mais uma gatinha. Levou-a pra casa. Transou com ela. De manhã, ainda tava cheirando umas carreiras na sala, vendo tv. Ela dormia no quarto. Como disse, ele não tava viciado em pó, estava encarando de uma forma diferente o lance. Isso não era o mais importante. O que ele queria era a noite, a festa, com tudo que vem junto, sempre. Mas só tinha a opção da festa apenas no fim de semana. Sentia uma dor por dentro. Daí, decidiu o que fazer.  Vendeu tudo que tinha. Não falou pra ninguém. Vendeu o carro, móveis, o que era seu da empresa. Pegou toda a grana do banco. Foi pra Europa. Tinha grana suficiente pra fazer festa durante cinco meses direto; e fez. Curtiu. Se apaixonou por garotas, curtiu festas, usou drogas que nunca tinha usado. No fim, quando acabou a grana, comprou uma arma. Estava em um quarto dum ap que dividia com estrangeiros. Tomou uma garrafa de uísque.  Meteu a arma na boca, e já era.  





[1] Baixista da banda punk mais famosa dos anos 70, os Sex Pistols. Vicious criou fama principalmente por ser viciado em morfina e um péssimo instrumentista. 

domingo, 16 de outubro de 2016

crônicas fora de controle

Introdução 2

Esses textinhos curtos, impressionistas, posso chamar de lixinhos. São restos, do que vai vir pela frente.  Surgiram de um monte de coisa. Surgiram da pesquisa, de contatos com gente de muitos locais diferentes, das minhas leituras, de coisas mal lidas, que tenho que ver e rever, de pedaços de memória, minhas, de outras pessoas. Aqui atiro pra todos os lados, com a chance certa de erro. Penso coisas que são do discurso dominante e busco linhas de fuga. Não só discurso, mas o que é dominante na vida. Busco isso no que está ao meu redor, sem rigorosidade. Ou o que estava ao meu redor. Escrevi, principalmente, como linha de fuga da dureza disciplinar, da caretice acadêmica, que é a vida que sigo e quero continuar seguindo. Mas experimento a linguagem, as ideias, num barato porra loca da pesquisa acadêmica, da minha pesquisa. Barato louco, drogado, puto, marginal, etc. Claro que o texto não se torna puto; como um livrinho se tornaria puto? Como injetar pó num livro, se ele não tem veias? Como fazer dele um ladrão? Provavelmente, se passar pra qualquer acadêmico que se diz sério demais pra falar algo simples, e muitas vezes carinhoso, como “foda-se” em sala de aula, em seus artigos, nos congressos... se eu passar esses textos pra esse cara, ele vai dizer que eu tô fora da casinha. Vai me mandar pra longe.  Parte por medo, da disciplina, da burocracia, parte por pudor, ou mesmo porque se acha acima disso. Só que mano, eu posso defender minha bundinha acadêmica, dizendo que eu uso essa linguagem, tom, porque os autores em que eu me apoio não medem palavras; posso dizer que tenho influências da geração romântica, então posso falar dessa forma: saca?  Tô usando a arte como potência. Posso dizer que tô fazendo literatura, o que já fiz e, aliás, foi sempre bem aceita, mesmo no ambiente acadêmico, porque na arte é permitido. Mas o que interessa é usar, experimentar pra depois cravar os dentes na pesquisa em sua forma tão branca, chata e careta; cravar os dentes nela... delícia, um pouco de pele, de sangue, de dor, prazer, uma curra por traz no pescoço; contagiar ela, com o vírus, numa transa vampiresca; deixar o vírus agir aos poucos, mesmo deixá-lo adormecido, sem que ela saiba... até que! até que!! Atéé-hummm!!!... ver o que acontece.    

Sid e Nancy

Puta filme. Os dois viciados em heroína. Nancy garota de programa. Sid roqueiro que come todas. Os dois se amam de uma forma punk. Se batem, se xingam, fazem um monte de merda. Sid chega ao final da carreira como músico. Só heroína. Perde show. Nancy se acaba também, daí Sid a mata. Música anarquista, heroína, amor livre, um amor punk.  

Detonação em Porto Alegre

Moro então em Porto Alegre. Merda de cidade do Sul do Brasil. Cidade de merda. Nada pra fazer. Tinha o que fazer quando eu topava todas. Hoje, merda, tô noutras. Só que bem... olha só. Saí com uma amiga na segunda de noite. A gente foi nuns picos. A gente queria conversar. A gente não tinha trampo na terça. Daí a gente queria ficar na nossa, mas na rua. Daí, o que fazer? Não tinha quase nada aberto. A gente foi nuns postos. Eu tava dirigindo. Daí a gente tava numas de café. Muito café, cigarro. Rango a gente tava pensando pra mais tarde. Uma hora a gente sacou que já tinha encarado todos os postos legais. Daí a gente foi pro aeroporto. Mais café e conversa. Daí a gente saiu de lá às 2 horas da madruga. Só que queria ainda dar mais banda. Daí, não tinha realmente mais nada pra fazer. E a gente foi pro ap dela. Beleza. Só que depois das 11 da noite notei que, em alguns lugares, bem poucos, tinha gente. Lugares em que eu não queria estar. Daí tinha gente nesses lugares. E essa gente tava bebendo. Era segunda-feira. Era quase madruga. E os manos bebendo ali na Cidade Baixa. Daí, me lembrei de uns anos antes na segunda, quando eu quebrava todas; quando curtia todas. E segunda era só mais um dia. Mais importante quando era continuação de domingo. Não mano, era continuação de sábado. Mano, podia ser continuação de sexta. Ou de sete dias atrás. E bem... então, segunda, noite. Nada pra fazer. Pior dia da semana. Tudo fechado.  Só que é noite e o cara tá a fim de festa. E depois da meia noite, o cara tá bêbado e cheirado. Daí vai pra cima e pra baixo. Procura lugar com gente. Sempre encontra, mesmo os lugares sendo boca braba. Só que uma hora não tem mais ninguém. Daí o cara tá num carro com mais três caras. Um amigo e dois caras que não sabe como tão ali no carro. Todos tão ligados. Têm ceva. Pó na mão. E querem ver outras pessoas. Melhor, querem ver mulher. Daí o que faz? Acho que por isso que vários puteiros ficam abertos a noite toda todos os dias. As putas são gente legal, topam todas. Tão ali pra fazer o serviço. E assim mano, na real elas são legais. São gente como a gente. Só tão na ruim. Só tão a fim de fazer a mão delas. Então... bem mano, daí nasceu o sol. O carro é metade puta, metade uns caras que comem puta sem preservativo. Eles vão num posto. Eles baixam ceva. Eles se revezam no estacionamento. Fodem feito louco. Todos eles têm namoradas. Todos têm emprego. Eles tão na faculdade. E que se foda tudo. Que se foda os dias da semana e os professores. A futura esposa. O patrão. O superego. Que se foda o sol. Que se fodam os neurônios. Que se foda.  

As vilas de Porto Alegre

Uns merdas de garotos. Hoje médicos, economistas, comunicadores, e tal. Um ou outro fodido. Mas poucos. Os caras tinham 15 anos. E nada na cabeça. Eram caras da classe média que tinham levado bomba em colégio particular. Daí os velhos os colocaram  em colégio público. No público, os colegas todos pobres.  Daí os classe média se reuniram e formaram a gangue dos playboys. Diferente dos outros, eles tinham mesada. E mesada gorda. Tinham cigarro caro que pegavam dos pais. E todo o resto, roupas, bons presentes. Bem, só que caíram em outra real. Começaram a fazer amizade com os caras mais pobres. Uns caras de vila, marginais. Interessante como as vilas e bairros ricos se misturam em Porto Alegre, bem Brasil.  Por isso, essa mistura nos colégios públicos. É cara, um dos bairros mais chiques de Porto Alegre, tipo Assunção, só com casas de milionários... Olha só, casa residencial e riqueza, um lance raro hoje em dia. Cara, essas casas tão do lado de um monte de favelas. Favela da Guaíba. Antes tinha uma mais abaixo que virou shopping pra rico. Mais acima, favela Conceição. Mais pro lado, tem a Funil e, uns dez anos atrás, tinha uma vilinha, a Vagão. E pertinho tem uma das maiores, a Cruzeiro do Sul. Da parte alta da Assunção (olha que massa, o nome do bairro é Vila Assunção, vila de rico) dá pra ver a Cruzeiro. E mais legal, no coração desse bairro de ricos tem um colégio público, que mistura os ricos caídos com os pobres. Voltando, pra história. E cara... os riquinhos entram no colégio levando soco; só que no ano seguinte tão dando soco junto com os manos pobres. Entraram na turma. Daí os riquinhos meio que viram a casaca. O cara tem grana no bolso, mas porra, não vai comprar comida no super. O cara compra e vai ser roubado. Daí, o cara riquinho rouba também. Vai pagar bus? Os manos vão sacar que tá com grana, melhor descer por trás. E por aí vai. Daí os caras crescem juntos. Aos poucos, frequentam as casas. Aparecem amizades que meio que se fortalecem. Daí vira merda. Vira merda já que muitos dos manos pobres já tavam marcados pra fazer merda na vida adulta. E certos manos riquinhos acham essa uma vida legal. Melhor, usam os manos pobres como trafi, receptor, e tudo mais. 

Iggy Pop  

Iggy Pop foi num show dos Doors. Gostou pacas da performance do Morrison. Dá pra notar isso em sua dança. Só que Pop deixou as coisas mais cruas. Bem, o cara tornou urbana a dança do Morrison, que era ritual. Um ritual de xamanismo, pagão, tudo isso misturado com ácido. E ácido, bem, nos anos 60 permitia o contato com algo divino. Além da vida. O lance do Iggy era punk. Acho que isso: um Morrison punk, do subúrbio, da heroína, do lixo da vida real. Heroína torna o cara um rato. Ácido deixa o cara, ou deixava, numas de “vejo deus”, ou até de “sou deus”. E Morrison dizia isso: sou Dionísio, sou um xamã. Pop deixava bem claro: quero ser seu cachorro, nada mais que isso.  

Experimentação da marginalidade

Acho que é melhor falar na marginalidade como um todo. Não pensar só em coisas específicas. Tudo se liga. A prostituta se droga e rouba. O drogado faz michê e rouba. E por aí vai. Daí tem essas crianças. Eles têm entre 12 e 17 anos. São amparadas pela lei. Os de classe média papai faz de tudo por eles. Daí, eles fazem o que querem. Não vão ser presos. Eles não são drogados, michês, putas, ladrões profissionais. Só que eles fazem isso tudo, e parte por curtição. Depois ficam adultos e a coisa muda. A maioria não se torna viciado, muito menos ladrão e profissional do corpo. Pra mim, isso é uma das riquezas da juventude: experimentar a marginalidade, de um jeito espontâneo e sem paranoias. E mais importante: quando adultos, têm a possibilidade de experimentar algo que tava presente na adolescência. Não sendo marginal, mas algo ligado ao marginal, um marginal possível. Pode ser na escrita, na arte. Na relação com a esposa ou marido. Na relação com o filho. Na relação com os alunos. No trabalho, com o patrão ou empregado. Na vida, na relação com a vida. Pode ser até nos pensamentos. Manter o coração com o jovem, o marginal, não como um lance paternalista. Ser parceiro de sua própria adolescência.

Gírias drogadas

Muitas gírias se referem a coisas ligadas a drogas, ao uso, ao usuário. Segue uma lista. Massa: uma coisa legal. Massa é a maconha da boa. Palha, uma coisa ruim. Palha é maconha fraca. Fraca como uma palha.  Na loucura, doido, são palavras dúbias. Podem se referir a um cara do tipo sem noção, um bobão, ou um cara legal que faz merdas que não sujam. Sujeira e limpeza: sujeira com os canas, com os pais, com os amigos. O cara que tá com o filme queimado. Limpeza, um cara tranquilo, um lance que pode ser feito sem problema. Noia é um cara meio sujeira. Que viaja. Viagem: lance também bom e ruim. O cara é uma viagem, é uma figura, é massa. Ou é um viajão, o cara tá fora da casinha. Tipo o cara que pirou da bola. Na antiga, todo mundo falava de artane: uma bola, remédio, que levava o cara à loucura, uma sujeira. Da boa: maconha forte. Fazer a mão: comprar droga. Fazer algum lance, uma história. “Faz a mão então, busca as biras. Dá um jeito”. Frito: o cara que fritou do pó. A ressaca do pó. Que coisa: redução de coisa boa. Droga boa. “Essa é da boa”. Tá ligado: o cara é ligado, antenado. O cara que saca das coisas. Quem tá ligado curtiu uns estimulantes. Desligado, largado: o cara chapado de maconha. O cara que não tá nem aí pra nada. Furar a mão: o cara que não cumpre o que prometeu. “O cara disse que ia estar com o fumo tal hora e não apareceu”. Alto, alturas: o cara que tá podendo; tomou algo bom. Cai da boca: o cara que tá na boca de droga, queimando o filme. Sai fora. Dá um tempo: o cara que larga as drogas pra fazer a cabeça careta. Cabeça feita: um cara ligado, dos bons. Careta: o que não se droga. Careteou. O cara que deixou de fazer a mão. Roubada: ser passado pra trás. O cara compra droga malhada. Melado: alguma combinação não realizada. Melou a história. Melado é o pó que fica no sol e vira uma pasta grudada. O cara só pode pôr embaixo da língua, depois frita. Se queimar, queimou. Queimar a cabeça: usar muita droga. Parece que a cabeça, os neurônios, tão queimando. Ficar burro: usar maconha. Não é só uma coisa ruim. O cara fuma e fica burro, mas numa legal. Legal: inversão de ilegal. O cara faz um lance ilegal, se droga, mas pros drogados isso é legal. Ilegal pro Estado, legal pros manos. Mete a história: tipo: “faz a mão. Dá um jeito”. “Mete a história rápido, a droga rápido. A polícia pode chegar”. Ou os pais. Cortar: misturar droga. Coca com farinha. Cair a casa: dar tudo errado. Polícia atracando o barraco. Enquadrar: sacanear. Tirar. Ser preso pela polícia.  Onda: curtir uma onda, fazer onda. Onda da maconha. O cara viaja em alguma coisa. Fica uma hora divagando sobre algo mínimo. Dar um brilho: fazer algo legal. O cara ligado de pó. Acabado: cansado, falido. O cara que tomou todas, tá acabado. Se acabar: fazer as coisas ao extremo. Fez demais.  

Porto Alegre nos anos 90


A gente tava na Oswaldo. Tava fazendo a cabeça no Bar João. Tava rolando aquelas cachaças da boa. Alguém pegava um copo grande e botava na roda. Aquela merda era muito forte. Um golinho por vez. E de gole em gole o barato batia. A gente ia até outro bar, o Escaler, e pegava um fumo. Uns trafis vendiam ali numa viela sem luz. A gente fumava. Voltava pro João. Pedia mais uma canha. Sempre rolava algo mais. Umas minas vendiam hipofagin e inibex. A gente comprava. É, a gente tava lá. A gente tava curtindo. Chegaram uns boys. Eles tavam de carro. Era uma saveiro. Disseram pra gente: sobe aí, vamos dar uma volta. A gente subiu na parte aberta da caminhonete. Eu, um mano e duas minas. A gente tava doido de bola, fumo e canha. Os manos da direção, os boys meteram o carro na rua. Alta velocidade. E a gente ali atrás. A gente tava passando pelo Parcão, numa descida. Os caras não tiravam o pé do acelerador. Era nos anos 90. Não tinha essa de lei seca. Não tinha essa de que menor não pode entrar em casa noturna. Não tinha essa de que menor não pode comprar cigarro. A gente fazia a festa. A gente tava descendo a lomba ali do Parcão. Na traseira tava o mano, viajando. Junto tavam as duas minas. Uma delas eu tava ficando fazia um tempo. Só que a outra era muito gata. Dei uns beijos na mina que eu tava ficando. Vi que a outra ficou com a cara fechada. Saquei que ela tava a fim. Beijei-a também. Ela gostou. Quando vi, nós três, a gente tava se beijando. Eu com duas garotas. E elas também se beijavam. Primeira vez que fiquei com duas garotas ao mesmo tempo. Primeira vez que duas garotas se beijavam na minha frente. O carro voltou pra Oswaldo. Os boys eram parceiros. Dei uma paranga de fumo pra eles. A mina que eu tava ficando me chamou prum canto. A outra desapareceu. Parte dois. A gente saiu da Oswaldo, eu e um mano. Era no meio dos anos 90. A gente tava doido de bira e bola. A gente passou pela universidade federal. Tava tudo meio escuro. A gente tava quase no centro e passava por uma rua estreita. Daí meu mano disse: cara, tem uma galera ali na frente. Era uma gangue duns 50 caras, blacks, de vila. Eles tinham saído das festas no alto do centro, ali do lado da Santa Casa, e se concentram na rua. Tavam atrás de confusão.  Eu e meu mano, a gente tava doido. A gente nem deu bola e passou por eles. Os caras nos tiraram. Falaram dos nossos tênis de marca. A gente nem olhou pra eles. E eles deixaram assim. Devem ter pensado: esses caras são loucos de passar por nós. Daí, a gente parou numa outra ruinha. Ficava entre o centro e a Cidade Baixa. A gente tava ali esperando o ônibus que não passava. A gente ficou conversando. Putos já que não tinha mais crivo. Putos porque não tinha mais fumo. Mas a gente tava na boa. A rua, a gente já tinha sacado, era lugar que uns michês faziam ponto. Eles pegavam putos ali. Mas isso só rolava de vez em quando. Mas daí a gente não ficou surpreso quando um veado passou e nos ofereceu carona. A gente entrou no carro.  Pediu crivo pra ele. Ele deu. Perguntou se tinha fumo. Ele disse que não tinha. Daí ele disse pra gente: vamos fazer programa? Eu e meu mano a gente disse que topava. A gente disse que podia rolar na Usina do Gasômetro. Lá tinha um estacionamento e ninguém passava. Era junto do rio Guaíba. O veado parou o carro e disse pro meu mano: “quero fazer primeiro com você. Quero chupar você.” Saí do carro. Meu mano tava na carona. O veado tentou baixar as calças dele. Meu mano deu uma joelhada na cara dele. Eu abri a porta na parte que o veado tava. Empurrei ele pra fora. Meu mano veio junto. A gente encheu ele de chute na cara. A gente chutou ele até apagar. A gente pegou a carteira do cara. Ele tava cheio de grana. A gente empurrou ele até a areia. Deu mais chutes na cabeça pra apagar ele de vez. A gente pegou o carro, e se foi. Eu era o único que sabia dirigir, a gente tinha só 16 anos. Meu mano do meu lado, tava tremendo todo. Começou a falar: “será que e gente matou o cara, será que a gente matou?” Eu também tava nervoso, tinha ficado careta com toda a história. Daí disse: “cara, vamos até a Cruzeiro, a gente deixa o carro ali perto. A gente pega essa grana e compra pó. Não se preocupe.” A gente deixou o carro numa rua. Subiu o morro. A gente pegou toda a grana em pó. Deu umas 10 gramas. Tava de boa. A gente cheirou, e daí esqueceu do cara. Nos dias seguintes a gente ainda tava com medo. Podia dar merda, a gente podia ter matado o cara. Mas não rolou nada. Três semanas depois a gente tava no mesmo ponto que tinha pegado o cara. A gente queria pegar mais um veado e roubar o cara e fazer a festa.