domingo, 16 de outubro de 2016

crônicas fora de controle

Introdução 2

Esses textinhos curtos, impressionistas, posso chamar de lixinhos. São restos, do que vai vir pela frente.  Surgiram de um monte de coisa. Surgiram da pesquisa, de contatos com gente de muitos locais diferentes, das minhas leituras, de coisas mal lidas, que tenho que ver e rever, de pedaços de memória, minhas, de outras pessoas. Aqui atiro pra todos os lados, com a chance certa de erro. Penso coisas que são do discurso dominante e busco linhas de fuga. Não só discurso, mas o que é dominante na vida. Busco isso no que está ao meu redor, sem rigorosidade. Ou o que estava ao meu redor. Escrevi, principalmente, como linha de fuga da dureza disciplinar, da caretice acadêmica, que é a vida que sigo e quero continuar seguindo. Mas experimento a linguagem, as ideias, num barato porra loca da pesquisa acadêmica, da minha pesquisa. Barato louco, drogado, puto, marginal, etc. Claro que o texto não se torna puto; como um livrinho se tornaria puto? Como injetar pó num livro, se ele não tem veias? Como fazer dele um ladrão? Provavelmente, se passar pra qualquer acadêmico que se diz sério demais pra falar algo simples, e muitas vezes carinhoso, como “foda-se” em sala de aula, em seus artigos, nos congressos... se eu passar esses textos pra esse cara, ele vai dizer que eu tô fora da casinha. Vai me mandar pra longe.  Parte por medo, da disciplina, da burocracia, parte por pudor, ou mesmo porque se acha acima disso. Só que mano, eu posso defender minha bundinha acadêmica, dizendo que eu uso essa linguagem, tom, porque os autores em que eu me apoio não medem palavras; posso dizer que tenho influências da geração romântica, então posso falar dessa forma: saca?  Tô usando a arte como potência. Posso dizer que tô fazendo literatura, o que já fiz e, aliás, foi sempre bem aceita, mesmo no ambiente acadêmico, porque na arte é permitido. Mas o que interessa é usar, experimentar pra depois cravar os dentes na pesquisa em sua forma tão branca, chata e careta; cravar os dentes nela... delícia, um pouco de pele, de sangue, de dor, prazer, uma curra por traz no pescoço; contagiar ela, com o vírus, numa transa vampiresca; deixar o vírus agir aos poucos, mesmo deixá-lo adormecido, sem que ela saiba... até que! até que!! Atéé-hummm!!!... ver o que acontece.    

Sid e Nancy

Puta filme. Os dois viciados em heroína. Nancy garota de programa. Sid roqueiro que come todas. Os dois se amam de uma forma punk. Se batem, se xingam, fazem um monte de merda. Sid chega ao final da carreira como músico. Só heroína. Perde show. Nancy se acaba também, daí Sid a mata. Música anarquista, heroína, amor livre, um amor punk.  

Detonação em Porto Alegre

Moro então em Porto Alegre. Merda de cidade do Sul do Brasil. Cidade de merda. Nada pra fazer. Tinha o que fazer quando eu topava todas. Hoje, merda, tô noutras. Só que bem... olha só. Saí com uma amiga na segunda de noite. A gente foi nuns picos. A gente queria conversar. A gente não tinha trampo na terça. Daí a gente queria ficar na nossa, mas na rua. Daí, o que fazer? Não tinha quase nada aberto. A gente foi nuns postos. Eu tava dirigindo. Daí a gente tava numas de café. Muito café, cigarro. Rango a gente tava pensando pra mais tarde. Uma hora a gente sacou que já tinha encarado todos os postos legais. Daí a gente foi pro aeroporto. Mais café e conversa. Daí a gente saiu de lá às 2 horas da madruga. Só que queria ainda dar mais banda. Daí, não tinha realmente mais nada pra fazer. E a gente foi pro ap dela. Beleza. Só que depois das 11 da noite notei que, em alguns lugares, bem poucos, tinha gente. Lugares em que eu não queria estar. Daí tinha gente nesses lugares. E essa gente tava bebendo. Era segunda-feira. Era quase madruga. E os manos bebendo ali na Cidade Baixa. Daí, me lembrei de uns anos antes na segunda, quando eu quebrava todas; quando curtia todas. E segunda era só mais um dia. Mais importante quando era continuação de domingo. Não mano, era continuação de sábado. Mano, podia ser continuação de sexta. Ou de sete dias atrás. E bem... então, segunda, noite. Nada pra fazer. Pior dia da semana. Tudo fechado.  Só que é noite e o cara tá a fim de festa. E depois da meia noite, o cara tá bêbado e cheirado. Daí vai pra cima e pra baixo. Procura lugar com gente. Sempre encontra, mesmo os lugares sendo boca braba. Só que uma hora não tem mais ninguém. Daí o cara tá num carro com mais três caras. Um amigo e dois caras que não sabe como tão ali no carro. Todos tão ligados. Têm ceva. Pó na mão. E querem ver outras pessoas. Melhor, querem ver mulher. Daí o que faz? Acho que por isso que vários puteiros ficam abertos a noite toda todos os dias. As putas são gente legal, topam todas. Tão ali pra fazer o serviço. E assim mano, na real elas são legais. São gente como a gente. Só tão na ruim. Só tão a fim de fazer a mão delas. Então... bem mano, daí nasceu o sol. O carro é metade puta, metade uns caras que comem puta sem preservativo. Eles vão num posto. Eles baixam ceva. Eles se revezam no estacionamento. Fodem feito louco. Todos eles têm namoradas. Todos têm emprego. Eles tão na faculdade. E que se foda tudo. Que se foda os dias da semana e os professores. A futura esposa. O patrão. O superego. Que se foda o sol. Que se fodam os neurônios. Que se foda.  

As vilas de Porto Alegre

Uns merdas de garotos. Hoje médicos, economistas, comunicadores, e tal. Um ou outro fodido. Mas poucos. Os caras tinham 15 anos. E nada na cabeça. Eram caras da classe média que tinham levado bomba em colégio particular. Daí os velhos os colocaram  em colégio público. No público, os colegas todos pobres.  Daí os classe média se reuniram e formaram a gangue dos playboys. Diferente dos outros, eles tinham mesada. E mesada gorda. Tinham cigarro caro que pegavam dos pais. E todo o resto, roupas, bons presentes. Bem, só que caíram em outra real. Começaram a fazer amizade com os caras mais pobres. Uns caras de vila, marginais. Interessante como as vilas e bairros ricos se misturam em Porto Alegre, bem Brasil.  Por isso, essa mistura nos colégios públicos. É cara, um dos bairros mais chiques de Porto Alegre, tipo Assunção, só com casas de milionários... Olha só, casa residencial e riqueza, um lance raro hoje em dia. Cara, essas casas tão do lado de um monte de favelas. Favela da Guaíba. Antes tinha uma mais abaixo que virou shopping pra rico. Mais acima, favela Conceição. Mais pro lado, tem a Funil e, uns dez anos atrás, tinha uma vilinha, a Vagão. E pertinho tem uma das maiores, a Cruzeiro do Sul. Da parte alta da Assunção (olha que massa, o nome do bairro é Vila Assunção, vila de rico) dá pra ver a Cruzeiro. E mais legal, no coração desse bairro de ricos tem um colégio público, que mistura os ricos caídos com os pobres. Voltando, pra história. E cara... os riquinhos entram no colégio levando soco; só que no ano seguinte tão dando soco junto com os manos pobres. Entraram na turma. Daí os riquinhos meio que viram a casaca. O cara tem grana no bolso, mas porra, não vai comprar comida no super. O cara compra e vai ser roubado. Daí, o cara riquinho rouba também. Vai pagar bus? Os manos vão sacar que tá com grana, melhor descer por trás. E por aí vai. Daí os caras crescem juntos. Aos poucos, frequentam as casas. Aparecem amizades que meio que se fortalecem. Daí vira merda. Vira merda já que muitos dos manos pobres já tavam marcados pra fazer merda na vida adulta. E certos manos riquinhos acham essa uma vida legal. Melhor, usam os manos pobres como trafi, receptor, e tudo mais. 

Iggy Pop  

Iggy Pop foi num show dos Doors. Gostou pacas da performance do Morrison. Dá pra notar isso em sua dança. Só que Pop deixou as coisas mais cruas. Bem, o cara tornou urbana a dança do Morrison, que era ritual. Um ritual de xamanismo, pagão, tudo isso misturado com ácido. E ácido, bem, nos anos 60 permitia o contato com algo divino. Além da vida. O lance do Iggy era punk. Acho que isso: um Morrison punk, do subúrbio, da heroína, do lixo da vida real. Heroína torna o cara um rato. Ácido deixa o cara, ou deixava, numas de “vejo deus”, ou até de “sou deus”. E Morrison dizia isso: sou Dionísio, sou um xamã. Pop deixava bem claro: quero ser seu cachorro, nada mais que isso.  

Experimentação da marginalidade

Acho que é melhor falar na marginalidade como um todo. Não pensar só em coisas específicas. Tudo se liga. A prostituta se droga e rouba. O drogado faz michê e rouba. E por aí vai. Daí tem essas crianças. Eles têm entre 12 e 17 anos. São amparadas pela lei. Os de classe média papai faz de tudo por eles. Daí, eles fazem o que querem. Não vão ser presos. Eles não são drogados, michês, putas, ladrões profissionais. Só que eles fazem isso tudo, e parte por curtição. Depois ficam adultos e a coisa muda. A maioria não se torna viciado, muito menos ladrão e profissional do corpo. Pra mim, isso é uma das riquezas da juventude: experimentar a marginalidade, de um jeito espontâneo e sem paranoias. E mais importante: quando adultos, têm a possibilidade de experimentar algo que tava presente na adolescência. Não sendo marginal, mas algo ligado ao marginal, um marginal possível. Pode ser na escrita, na arte. Na relação com a esposa ou marido. Na relação com o filho. Na relação com os alunos. No trabalho, com o patrão ou empregado. Na vida, na relação com a vida. Pode ser até nos pensamentos. Manter o coração com o jovem, o marginal, não como um lance paternalista. Ser parceiro de sua própria adolescência.

Gírias drogadas

Muitas gírias se referem a coisas ligadas a drogas, ao uso, ao usuário. Segue uma lista. Massa: uma coisa legal. Massa é a maconha da boa. Palha, uma coisa ruim. Palha é maconha fraca. Fraca como uma palha.  Na loucura, doido, são palavras dúbias. Podem se referir a um cara do tipo sem noção, um bobão, ou um cara legal que faz merdas que não sujam. Sujeira e limpeza: sujeira com os canas, com os pais, com os amigos. O cara que tá com o filme queimado. Limpeza, um cara tranquilo, um lance que pode ser feito sem problema. Noia é um cara meio sujeira. Que viaja. Viagem: lance também bom e ruim. O cara é uma viagem, é uma figura, é massa. Ou é um viajão, o cara tá fora da casinha. Tipo o cara que pirou da bola. Na antiga, todo mundo falava de artane: uma bola, remédio, que levava o cara à loucura, uma sujeira. Da boa: maconha forte. Fazer a mão: comprar droga. Fazer algum lance, uma história. “Faz a mão então, busca as biras. Dá um jeito”. Frito: o cara que fritou do pó. A ressaca do pó. Que coisa: redução de coisa boa. Droga boa. “Essa é da boa”. Tá ligado: o cara é ligado, antenado. O cara que saca das coisas. Quem tá ligado curtiu uns estimulantes. Desligado, largado: o cara chapado de maconha. O cara que não tá nem aí pra nada. Furar a mão: o cara que não cumpre o que prometeu. “O cara disse que ia estar com o fumo tal hora e não apareceu”. Alto, alturas: o cara que tá podendo; tomou algo bom. Cai da boca: o cara que tá na boca de droga, queimando o filme. Sai fora. Dá um tempo: o cara que larga as drogas pra fazer a cabeça careta. Cabeça feita: um cara ligado, dos bons. Careta: o que não se droga. Careteou. O cara que deixou de fazer a mão. Roubada: ser passado pra trás. O cara compra droga malhada. Melado: alguma combinação não realizada. Melou a história. Melado é o pó que fica no sol e vira uma pasta grudada. O cara só pode pôr embaixo da língua, depois frita. Se queimar, queimou. Queimar a cabeça: usar muita droga. Parece que a cabeça, os neurônios, tão queimando. Ficar burro: usar maconha. Não é só uma coisa ruim. O cara fuma e fica burro, mas numa legal. Legal: inversão de ilegal. O cara faz um lance ilegal, se droga, mas pros drogados isso é legal. Ilegal pro Estado, legal pros manos. Mete a história: tipo: “faz a mão. Dá um jeito”. “Mete a história rápido, a droga rápido. A polícia pode chegar”. Ou os pais. Cortar: misturar droga. Coca com farinha. Cair a casa: dar tudo errado. Polícia atracando o barraco. Enquadrar: sacanear. Tirar. Ser preso pela polícia.  Onda: curtir uma onda, fazer onda. Onda da maconha. O cara viaja em alguma coisa. Fica uma hora divagando sobre algo mínimo. Dar um brilho: fazer algo legal. O cara ligado de pó. Acabado: cansado, falido. O cara que tomou todas, tá acabado. Se acabar: fazer as coisas ao extremo. Fez demais.  

Porto Alegre nos anos 90


A gente tava na Oswaldo. Tava fazendo a cabeça no Bar João. Tava rolando aquelas cachaças da boa. Alguém pegava um copo grande e botava na roda. Aquela merda era muito forte. Um golinho por vez. E de gole em gole o barato batia. A gente ia até outro bar, o Escaler, e pegava um fumo. Uns trafis vendiam ali numa viela sem luz. A gente fumava. Voltava pro João. Pedia mais uma canha. Sempre rolava algo mais. Umas minas vendiam hipofagin e inibex. A gente comprava. É, a gente tava lá. A gente tava curtindo. Chegaram uns boys. Eles tavam de carro. Era uma saveiro. Disseram pra gente: sobe aí, vamos dar uma volta. A gente subiu na parte aberta da caminhonete. Eu, um mano e duas minas. A gente tava doido de bola, fumo e canha. Os manos da direção, os boys meteram o carro na rua. Alta velocidade. E a gente ali atrás. A gente tava passando pelo Parcão, numa descida. Os caras não tiravam o pé do acelerador. Era nos anos 90. Não tinha essa de lei seca. Não tinha essa de que menor não pode entrar em casa noturna. Não tinha essa de que menor não pode comprar cigarro. A gente fazia a festa. A gente tava descendo a lomba ali do Parcão. Na traseira tava o mano, viajando. Junto tavam as duas minas. Uma delas eu tava ficando fazia um tempo. Só que a outra era muito gata. Dei uns beijos na mina que eu tava ficando. Vi que a outra ficou com a cara fechada. Saquei que ela tava a fim. Beijei-a também. Ela gostou. Quando vi, nós três, a gente tava se beijando. Eu com duas garotas. E elas também se beijavam. Primeira vez que fiquei com duas garotas ao mesmo tempo. Primeira vez que duas garotas se beijavam na minha frente. O carro voltou pra Oswaldo. Os boys eram parceiros. Dei uma paranga de fumo pra eles. A mina que eu tava ficando me chamou prum canto. A outra desapareceu. Parte dois. A gente saiu da Oswaldo, eu e um mano. Era no meio dos anos 90. A gente tava doido de bira e bola. A gente passou pela universidade federal. Tava tudo meio escuro. A gente tava quase no centro e passava por uma rua estreita. Daí meu mano disse: cara, tem uma galera ali na frente. Era uma gangue duns 50 caras, blacks, de vila. Eles tinham saído das festas no alto do centro, ali do lado da Santa Casa, e se concentram na rua. Tavam atrás de confusão.  Eu e meu mano, a gente tava doido. A gente nem deu bola e passou por eles. Os caras nos tiraram. Falaram dos nossos tênis de marca. A gente nem olhou pra eles. E eles deixaram assim. Devem ter pensado: esses caras são loucos de passar por nós. Daí, a gente parou numa outra ruinha. Ficava entre o centro e a Cidade Baixa. A gente tava ali esperando o ônibus que não passava. A gente ficou conversando. Putos já que não tinha mais crivo. Putos porque não tinha mais fumo. Mas a gente tava na boa. A rua, a gente já tinha sacado, era lugar que uns michês faziam ponto. Eles pegavam putos ali. Mas isso só rolava de vez em quando. Mas daí a gente não ficou surpreso quando um veado passou e nos ofereceu carona. A gente entrou no carro.  Pediu crivo pra ele. Ele deu. Perguntou se tinha fumo. Ele disse que não tinha. Daí ele disse pra gente: vamos fazer programa? Eu e meu mano a gente disse que topava. A gente disse que podia rolar na Usina do Gasômetro. Lá tinha um estacionamento e ninguém passava. Era junto do rio Guaíba. O veado parou o carro e disse pro meu mano: “quero fazer primeiro com você. Quero chupar você.” Saí do carro. Meu mano tava na carona. O veado tentou baixar as calças dele. Meu mano deu uma joelhada na cara dele. Eu abri a porta na parte que o veado tava. Empurrei ele pra fora. Meu mano veio junto. A gente encheu ele de chute na cara. A gente chutou ele até apagar. A gente pegou a carteira do cara. Ele tava cheio de grana. A gente empurrou ele até a areia. Deu mais chutes na cabeça pra apagar ele de vez. A gente pegou o carro, e se foi. Eu era o único que sabia dirigir, a gente tinha só 16 anos. Meu mano do meu lado, tava tremendo todo. Começou a falar: “será que e gente matou o cara, será que a gente matou?” Eu também tava nervoso, tinha ficado careta com toda a história. Daí disse: “cara, vamos até a Cruzeiro, a gente deixa o carro ali perto. A gente pega essa grana e compra pó. Não se preocupe.” A gente deixou o carro numa rua. Subiu o morro. A gente pegou toda a grana em pó. Deu umas 10 gramas. Tava de boa. A gente cheirou, e daí esqueceu do cara. Nos dias seguintes a gente ainda tava com medo. Podia dar merda, a gente podia ter matado o cara. Mas não rolou nada. Três semanas depois a gente tava no mesmo ponto que tinha pegado o cara. A gente queria pegar mais um veado e roubar o cara e fazer a festa. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

umas crônicas foda de controle

Adolescentes riquinhos  

Uns caras da classe média, filhinhos da mamãe, que vão ser os pais da classe média do futuro. Mas eles não são a versão mais jovem de papi e mami. Eles tão na rua de madrugada num bus passando uma vila, cheio de maloqueiro no bus. Eles tão bebendo vodka de garrafa de plástico e tão fazendo amizade com os blacks. Eles tão de manhã cedo acordando no meio da rua com um monte de gente ao redor na mesma. Vômito no chão e tudo mais. Eles tão subindo o morro de madrugada e são amigos dos trafi. Eles frequentam a casa dum traficante, um cara fodido, com aids, a mulher também, e os filhos do trafi tudo magros e fodidos. Se bate fome e tão sem grana comem até do lixo. Eles transam no mato. Eles fodem em banheiros sujos. Mas meu, eles não tão imitando o bebê que faz caquinha nas calças ou vomita a papinha no peito, meu... eles tão fugindo exatamente disso, ou de repente, tão tornando a impotência da criança na potência. Claro que eles sempre voltam pra casa, para a caminha com edredom. Podem pegar o carro de papai quando fazem 18. Vão pra praia nas férias. Vão pra Disney. Mas entre 13 e 17 anos meu, na noite são como mendigos. Mesadinha acaba na hora com umas pedras de fumo, e o resto do mês...  fazer o quê?  Os garotos sempre pensam, de repente fazer um michê pra conseguir grana. Se for com uma mulher nem precisa pensar. Fazem uns lances de pobre, drogado, veado, puto, maloqueiro, e tudo mais. Experimentação, de tudo que papai e mamãe odeiam. E daí classificam e dizem: isso passa. E é pra passar, não pode continuar, e os jovens vão envelhecendo: aparece carro, viagem,  trabalho, dinheiro.  O cara comia comida do lixo, em meia hora chega o sushi. Ontem tava bebendo vinho de três real, hoje é whisky escocês e red bull. A cola de sapateiro virou 50 gramas de coca, comprada por um amigo já que não sobe mais o morro e nem mais trafica. Transa de pé, mas no banheiro com água quente do  ap, não no banheiro de um bar com um mina pra lá de louca. Catava bituca no chão, juntava e com uma seda fazia um crivo; hoje tá lá o estoque de crivo pro mês todo guardado. A gente pode e é foda, a pobreza que se foda. Não quero nem me lembrar, diz mamãe quando pensa no filho que fumava crack. E o filho diz o mesmo. E mamãe fica braba porque filhinho tá corneando a nora, e lembra ele: você era um viciado. E ele se sente mal. Ela transava com todos os caras e depois chorava de culpa. Tava aprendendo a crescer.  E daí o esposo joga com ela: você era uma puta. E come ela por trás com dor. A mina filhinha da mamãe, o bibelô da casa: transou com o namorado viciado em todos os lugares, o cara comia ela em qualquer lugar, banheiros públicos, praças e ela gostava. A mina era quente demais na cama. Mas sem sujeiras. Era uma puta mulher. Era assim quando tava com o namorado doidão. Mas em casa vestia pijaminha rosa. Comprava artesanatos, brinquedinhos.  Mamãe dava suquinho de maça antes de dormir. A princesinha da casa. Hoje ela tá velha, nem se lembra da juventude. Nem se lembra, mas a juventude tá presente, toda a noite quando toma remédio pra dormir. E ela fecha os olhos e tem pesadelos. Oh, o que foi que eu fiz, eu era uma vadia. Vadia a mãe que fechava a mina em casa; batia nela quando ficava um mês fora de casa na rua sendo um outro tipo de vadia. A das nossas, mano. Daquelas minas do rock que a gente admira. Mina que só os manés falam mal. E ela fecha os olhos quando o marido a come, e experimenta algo relacionado ao passado, mas depois se olha no espelho e diz com culpa: eu sou uma vadia. Deixam de lado a experimentação, põem no lixo. Isso já passou. Era adolescência. Hoje você é homem e tem que impedir a experimentação, principalmente pro seu filho. Odeie a pobreza, a vagabundagem, e tudo mais. Você parece um negro, tá agindo feito bicha. Acabe com o minoritário em você. Não experimente. E a questão não é de fuga momentânea da caretice, mas uma questão existencial. Ele velho, com seus quarenta anos, um tio bem-sucedido, pai de família; ele experimenta um lance meio homossexual quando caminha, e gosta disso; não é muito, mas é um pouco; depois o filho vai dizer “eu sou bicha” e ele vai dizer: curta a vida meu filho. As minorias vão pra rua, dizendo: não nos incomodem; e ele vai dizer: meu coração está com vocês. Não sou pai de vocês, sou uma bichona, mesmo sem dar o cu. A mulher vai chorar enquanto ele a penetra, e ele vai dizer: não chore, você não precisa ter vergonha de ser mulher, quando eu penetro a sua, na verdade é você que está me penetrando; aí o território dos dois aumenta, podem mais. Eu sou sua mulher, enquanto eu penetro a sua, seja meu homem, não aquele que tem poder sobre mim, mas aquele que está do meu lado. Seja puta com alegria. Somos todos veados. Somos brasileiros e favelados. Viva a pobreza. A gente se fode, mas é divertido. Uma grande putaria. Carnaval. Isso que se impede, a alegria contra uma suposta seriedade. Sou um homem sério, sou uma mulher séria. Mas aqui ninguém tá brincando, não é qualquer coisa, já havia dito: experimentação do texto acadêmico. Torcer o pensamento, cavar até lá embaixo, no lugar que tá o demo. Traçar caminhos. Uma hora a gente acerta. Me erra!  

Texto indignado contra os caras do consenso 

Eu tô falando exatamente com você e você sabe muito bem disso. E quando você lê isso, dói as suas... costas, já que eu meto bem onde você quer levar, essa é a real. E eu gosto disso, sou às vezes como você, um filho da puta... mas o lance é você, quem está em jogo... você foi filho da puta por muito tempo. Você deve. Você sustenta essa merda e diz que não. Você diz que é cool, que luta contra a merda. Só que na real, isso é a sua forma de manter as coisas como elas estão. Só que a gente tá de olho em você e você sabe disso. Sua política mantém essa merda mesmo que você diga que lute contra ela. Sua saída é se tornar puta ou puta. A puta que nos fode ou a puta que é puta como a gente. Nós, as putas com alegria.  E você sabe o que isso significa quando você é inteligente, quando é dos nossos. E aí, mané, vai encarar? Já sabe com que tá lidando. SOMOS LEGIÃO. E a gente vai lutar até acabar com você; a gente quer derrubar tudo que você construiu. E você está em tudo, ou tudo está em você. E como é que é? Você acha que eu vou deixar tudo de lado e que vou escrever uma tese exatamente sobre você, toda branca e limpinha, cheia de palavras retinhas, tudo muito veado? Acha que vou dar a real sobre você sem ao menos dizer: eu vou pegar você e vou quebrar você e acabar com você? Acha que vou quebrar sua cara apenas com um texto insípido, como se fosse uma carta branca de paz? Cuspir na sua cara é pouco, e uma tese não faria mais que isso. E todos sabem que você é o problema, que você reforça o problema. E arma branca é pouco. Um tiro é pouco. Eu quero acabar com você e isso vai doer e muito, da forma que você tem mais medo. Vamos acabar com seu mundo. E não com palavras apenas. Eu não deixo minha paixão de lado. Eu quero vida e sangue. Se eu gosto do gozo quando eu trepo, eu quero trepar loucamente e estou fazendo isso agora, trepando com sua vida, fodendo com sua vida. Não basta falar sobre a loucura, estou fazendo a loucura, experimentando... com você agora. Você está faz tempo sentando e calmo na sua vidinha, e a calmaria acabou: CHEGOU A HORA. “Controle-se”, você diz o tempo todo, e isso está dentro de nós, mas agora...  é o reverso. Vamos acabar com o controle, vamos enlouquecer; aprendemos isso na juventude e agora é guerra. “Controle o que você fala e o que você faz. Sente-se como se fosse um âncora de TV. Não fale merda. Escreva de forma insípida. Faça o certo. Enlouqueça longe. Faça o que você quiser longe; não chegue bêbado, ou se chegar: imite alguém sóbrio. Faça as coisas certas. Ou finja que está fazendo arte.” Que você é um cara legal, que curte arte, já que arte é coisa de gente legal, livre. Você entende o significado de indignado. Não é?

Escrita maluquete

Só que mano, tô meio maluquete. Acordei assim semana passada, e depois não dormi mais. Tô meio maluquete, cabeça queimando. Parece que os neurônios tão se indo. Parece não, os neurônios tão na neura. E putz, véio, num tomei nada. Tipo Roger Waters 20 anos depois da fase do doce: “um flash back me pegou, pensei que ia ficar que nem o Syd”. Tô mais pra Waters, mas estar em Waters é ter medo do Syd, nosso Syd. Syd em mim. Mora um Syd no coração de todo cidadão. Véio, figura, mano. Loucura veio pra ficar, e se ficar meu... Já tô numas, eu pirado, saindo pra rua e mandando: mano, trafi, tem uma noia pra me passar? Trafi, tem um deliriozinho só pra mim, do bom pra vender? Mano, trafi, tô a fim de qualquer coisa, pode ser uns tocs, ou até um déficit de atenção. Pode ser até deprê da boa. Me vende aí uma bipolaridade.  Porque se passo o meu lance pros cara da saúde, os cara me trancam, daí vou pro xilindró. E daí o lance é fugir, meu. Sair correndo. E não só noia, meu, qualquer coisa viagem.  Me vende aí uma viragem de 180 graus do cabeção. Pode ser uma viadagem. Umas horas de lésbica. Me vende aí uma cor pretinha, pra eu ficar neguinho. Pode ser uma dose de cigano. Qualquer barato.  Me vende umas horas de sapo. Virar um sapinho e curtir um lance úmido. Meu, tem um lance pra vender tipo norteafricano na Europa? Tipo, cubano nos anos 80 na Flórida? Meu, preciso de qualquer coisa. Cansei de correr. Tô dando volta e tô tonto. O mundo tá muito circular, sei lá. Me passa aí um câncer, me passa um avc, qualquer barato meu. Pode ser um hiv. Pode ser uma dose de qualquer coisa de duas horas, meu. Qual é. Vai deixar o mano na seca? Só não me passa barato ruim: tipo ladrão na cadeia; tipo viciado em clínica; tipo doente em hospital; tipo louco no manicômio. Meu, não quero ar livre, me vende uma poluição. Meu, me trafica um ataque nuclear. Meu, me dá uma radiação, qualquer merda. Meu, me passa aí uma febre religiosa, tipo: amo deus. Meu, me passa um lance meio vadia, transando em banheiro em fim de festa. Me passa aí um barato tipo briga de faca na rua. Meu, me dá uma noite inteira por duas horas, cara. Pode ser também comida transgênica. Rango de super, sucrilhos, doritos. Uma ceva brasileira. Um vinho da colônia. Um mcdonalds. Meu, qualquer coisa. Pode ser até notícia ruim. Meu, me manda uma notícia horrível, tipo: depois de dez anos de revolução nada mudou. Meu, tá vendo que tô sendo flexível. Topo todas; qual é? E aí? Só não me coloca numa fila. E se for engarrafamento, só devido a acidente com mortes. Me dá uma morte aí, meu. Uma morte eterna, no fogo do inferno por duas horas, meu. Muito a fim. Mina feia. Puta com dst. Qualquer coisa. Me dá umas veias cheia de coágulo, abscesso. Conhaque francês falsificado do Paraguai. Me dá uma traição. Me dá uma chifrada da boa. Mas tem que ser junto ao mar. Meu, me dá uma frase: seu cachorro. Pode ser criança chorando; o choro de um monte de crianças. Depois eu pago. Passa agora. Senão, vou cair numas. E pra prisão não volto.

Relacionamentos

Viver uma vida clichê não é difícil. Melhor, difícil é não viver uma vida clichê. Imite um filho, imite um pai, imite alguém incluído; ou mesmo: imite uma bicha. Tudo muito fácil. A gente sabe como agir, tá tudo pronto. Imite um namorado. É só comprar um fone de ouvido, a mina vai falar a tarde toda. Mais sutil: finja que você está interessado. Se o cara não finge, se está interessado, é porque tá fodido... encontrou o amor de sua vida. Vive num conto de fadas, naqueles que se diz de coração: você chupa bem, meu bem. Mesmo que ela não saiba o que tá fazendo. Difícil fingir ter paciência. Impossível. E tem uns caras que querem isso pra sempre. O cara do filme o Homem do Ano (do José Fonseca), diz: quero casar, ter filho, arrumar um emprego. No fim, mata a esposa, vende o filho, larga tudo, cai na estrada. Deve ter prestado atenção no Pereio que diz no filme: são todas umas vingativas, umas chatas, tem que dar porrada. Sobre filhos, Pereio lança outra: no casamento o que é mais complexo são os tipos de merda, tem de todo tipo, nada muda de casamento pra casamento, só a merda. E eu falei acima do cara que tem tesão de gozar e falar: quero casar com você. Uma boa tática pra brochar, isso sim. Outra tática é olhar pra esposa ou namorada de longa data. Mesmo se for bonita, deixa de ser de tanto o cara olhar pra ela. Por isso, o cara tem que ficar na espreita, olhar as minas que tão namorando há mais tempo. Forma mais fácil de pegar mulher bonita. E já faz um bem pra sociedade. Faz elas se sentirem amadas por alguém.

Retorno

Reviver uma história, só se foi suave, sem compromissos. Sem que se saiba muito um do outro. Senão, quando a coisa esquenta, se acrescenta o passado, coisas do tipo; ele: você era uma puta que eu sei. Ela rebate: e você era um filho da puta, que comia todas putas sem preservativo.  Ele, terminando a conversa: Como você? Andar pra trás é um saco; legal ficar cego, sem direção num giro de 350 graus.  

Gatinha 1

Pô, gatinha. Hoje quando chamam você de gatinha, são esses merdinhas que tão a fim duma mina mais velha e gata. Só que pra eles, na real, gatinhas são aquelas que eu chamo de crianças. Você era mulher, 11, 12 anos atrás. Daí eu tinha medo. Só que agora você é a gatinha. Gatinha, sou eu que envelheço. Eu que fico velho, você sempre mais gatinha. E você fica puta quando eu chamo essas menininhas de gatinhas. Mas entre nós é diferente. Você é mais velha, sempre foi... só que quando você sorri; quando seus peitinhos empinam; quando você fala; e você dança quando fala; e quando você caminha e rebola as coxinhas e a bundinha. Mina, você é a gatinha, demais. É, você diz: mas você chama todas as vadias de gatinha, eu sou o que, então? Você é essas coxas delicadas, mas fortes em mim. Essa boca que sabe muito bem o que quer. Daí fico aqui esperando, envelhecendo em uma madeira meio nobre. Só que a gente quer. Você quer. Eu quero. E a gente se encontra. Então, antes que a gente morra. Antes que ele volte. Ou que ele apareça. Ou antes que  a dança vire um bocejo. Antes que a gente vire o que não deve. Seja minha gatinha. Vai deixar essas crianças terem o que é seu? Meu corpo. Deixa assim, mas não comigo. Comigo não vai ser assim. As suas pernas viraram história. As minhas são mais fortes. Isso é bom pra nós. Sem complicação. No gelo você sabe muito bem se virar. Dança bem com o seu terninho de couro. Sabe muito. Só que quando você sorri e geme, meu bem, a gente tá jogando o mesmo jogo. É só deixar de imitar aquele tipo de gatinha. Você sabe mais. Posso tratar você daquele jeito. Você deixa, mas se sente mal. Então, vamos fazer direito. Como deve ser feito. A gente não vai casar. Não vai ter filhos. Vai curtir. E só. Fecha as pernas, meu bem. Mas fecha com o meu dentro. Me machuca que eu machuco, e isso é bom. Como você sabe fazer. E eu faço em você.   

Festa no centro  

Pegava metrô direto pras cidades vizinhas de Porto Alegre. Ia pra Canoas, Esteio, São Leopoldo, Novo Hamburgo, quando tinha entre 13 e 20. Muitos amigos viviam nessas cidades.  Um dia tava no metro. Tava voltando dum campeonato de skate. Era quase meia noite. Aparece um mano. Conhecia meio mal o cara. Só que a gente começou a conversar. O cara disse que tinha brigado com a mina. O cara era mais velho. Tinha brigado com a mina e tinha recebido a grana do trampo. Aproveitei a situação: mano, baixa uma ceva. A gente foi num bar bem no centro. Uma ceva virou umas dez das grandes. O mano tava bebendo feito água. Eu seguindo a onda. Eu morava na zona Sul. Saía só nos picos rock de gente branca. Esse mano era negro. Daí ele disse: vamos num pico que tem som e umas gatinhas. Era também no centro, do lado do Mercado Público. O dia era um domingo. Eu disse, vamos, já que ele tava baixando a festa. O pico era só um salão com um bar. Nada demais. Só que o público era bem diferente do que eu tava acostumado. Metade brancos, metade negros. E a aparência física das minas era... elas eram todas meio gordas.  O som que tava tocando era música regional. O pessoal dançava abraçado. O mano tava doido. Começou a pegar as minas. O cara pegou umas cinco em pouco tempo, umas feiosas. Daí meio que entrei na onda. Tava dançando com uma mina muito feia. Conversando com ela. Daí ela disse que no bar as minas eram todas prostitutas. Só que tavam ali curtindo a noite. Eu pensei: putz... as putas mais caídas da cidade. Daí o mano meio que se grudou numa feinha e ela nos convidou pra ir pra outro pico. No centrão, o mano encarou uns caras. Pediu pó. Os caras venderam. A gente deu uns tecos na rua. Quando dei a aspirada no lance... porra meu, deu um baque. Eu puxei o pó e cuspi. O cara tinha vendido uma merda. Fiquei com medo. O mano nem aí, continuou cheirando. Daí a gente foi pros bares da parte alta do centro, do lado da Santa Casa, um hospital. O som no pico, mais eletrônico, só que brega. Tinha um grupo de minas. Umas bonitas. Cheguei nelas, eram tudo lésbicas. Daí o mano apagou. Dormiu no bar. Eu peguei uma grana no bolso dele pra pagar o bus. Caí fora. Nunca mais vi o cara.   





quarta-feira, 12 de outubro de 2016

umas crônicas do tipo: elas tão descontroladas

Gatinha 3

Gatinha, sou todo teu pra sempre. Amo você gata, muito. E você é gata demais. Linda!  Toca aqui no meu peito. Olha só, bate por você bem forte. Ele tá forte por você. Muito forte e vivo só pra você. E só pra você; pra você pra sempre. E você sabe que é verdade. Pra sempre. Tipo hoje é sábado. Pra sempre, até terça. O meu coração forte pra sempre. Forte pra você pra sempre. Desde hoje pra sempre. Desde sábado até terça. E isso é muito. Você sabe, baby, é muito. É o máximo que se pode ter. O coração que pulsa forte. Pulsa muito. Só pra você gata. Sabe disso. A sua boca faz coisas maravilhosas. Sua saliva é um drink dos bons. E isso misturado com seu sorriso. Com seu cheiro. E não para por aí. Isso que importa... a forma como você dança. E como você dança. Você dança como ninguém. Tudo compondo um lance que me faz ficar muito apaixonado por você. Pra sempre, meu bem... até terça. E sei que estou sendo sincero demais. Eu estou sendo demais. É muito pra mim. O suficiente. Paixão total. E quando você dança seus olhos aparecem e desaparecem entre seus cabelos. E muita coisa que era pra ser importante, não é mais. Não quero saber sua idade. Nome não importa; você é a gatinha, minha deusa. Porque eu sei muito de você quando você fala, sorri, beija e dança. E como você dança gatinha. Dança que vai ficar muito bem guardada. Você vai ficar muito bem guardada. Lá em casa pra sempre. Eternamente. Até terça. Não quero ver você na ressaca do dia seguinte. Neurose não combina com a gente. E não precisa. Depois a gente pega outro sábado e faz tudo de novo. Mesmo que você, daí, já seja outra. Mas vai ser tão bom quanto. As ondas batem. Cada uma diferente. Ainda mais se for um dia, uma festa, uma cidade, um país diferente. Tudo tão diferente. Só que tão bom quanto. Porque eu atravesso a cidade. Eu abro a porta. Só pra ver você dançar. Porque você é gata demais. E se isso não diz muito na boca de “gatinhos”... bem, eu não sou um gatinho. Nasci na selva. Devo ser filho de lobos. Algum felino ou canino selvagem. Então, gatinha me lembra algo.... você sabe;  se  não sabe, deixa que eu mostro pra você.

Gatinhas  

Meu bem, eu posso ser o que você quiser, e não vou ser falso. Teatro não é falsidade. É uma coisa legal da vida. Tem gente que até paga pra ver um teatro. Faço pra você de graça. Não tá bom? Você quer uma peça especial pra você? Você quer aquele lance que tanto quer? Tanto assim?  Então, deixa assim.  Sei bem que o problema é que você não sabe o que quer. Daí vira qualquer coisa. Você sai correndo do meu ap pra me ver. Estranho, não? Depois ligo, você não atende. Pô, baby, teatro é um lance, mas drama psicológico... Você menstruadinha? O lance baby, deixa que eu faço o que tem que ser feito. Eu faço a história. Deixa eu fazer uma história. Um pouco mais do que isso, já que o corpo tá envolvido. Deixa que eu armo tudo. Deixa eu guiar. E não estou sendo o macho que guia. O braço forte. Meu braço é forte, sim, naturalmente. Posso alcançar o céu com esses braços fortes. Então deixa, baby. Sem onda. Sem neurose. Eu sei o que você quer. Está aqui nas minhas mãos. Estou olhando agora de frente pro que você quer. Deixa de frescura. Não precisa me chamar de tio, mesmo eu conhecendo bem sua mãe. E mesmo que seu pai tenha medo de mim. E bem, meu bem. Deixa de ser... melhor, deixa que seja. Sem onda.

Gatinhas 2

Você tá com medo como sempre. Repara em tudo que eu faço. Cada palavra, cada gesto. Tá esperando que role alguma merda. Que eu faça alguma merda. Que eu aponte uma arma. Que eu pegue você na força; amarre você na cama. E eu torne você um monstro como o monstro que eu sou pra você. Gatinhas têm medinho de monstrinhos. Leram muitos contos de fadas. Então, você sabe que eu não sou o príncipe. E isso é bom. Já economiza muita conversa. Mas eu não vou amarrar você na cama. Não vou tirar do armário meus apetrechos. Não vou dar a você uma bela noite de sadismo. Eu vou fazer pior. Tenha medo. Muito medo. Depois do que vai rolar, as pessoas não vão mais respeitar você. Você não vai mais ter coragem de olhar na cara do seu pai. Nunca mais vai sentar no colo do vovô. Não vai mais poder dar selinho no seu irmão. Você vai ser um monstro. E gatinha, eu não estou brincando. Quem brinca aqui é você. Com seus medinhos. Com seu jeitinho de fada. Com sua educação. Com esse seu jeito de criança. E isso... bem, isso já era. Porque chegou a hora. Sou legião, você sabe. E você vacilou. Entrou no meu ap. Bebeu vinho comigo. Bebeu demais, aliás. E você me deixou beijar você. Você entrou na jogada. Agora a chave tá lá embaixo. Joguei pela janela. Não tem mais ninguém por perto. Ninguém vai ouvir você. E você pode rezar. E você pode até relaxar. Você pode me chamar de meu bem. Até dizer que me ama. Mas nada disso vai ajudar você. Porque a jogada agora é outra. Você ficou muito tempo fantasiando que eu era um monstro. E agora eu quero entrar na jogada. Você entrou com a fantasia. Eu entro com meu corpo. Com minha vontade... de enlouquecer, você.   

 Profundidade e experimentação


Tava em um encontro de um grupo ligado aos occupy em Porto Alegre. Era dia 11 do 11. Não sei exatamente por que esse dia foi escolhido, já que tem toda uma carga espiritual religiosa. Só que após um contato com pessoas ligadas às ocupações da cidade, percebi que muitos seguiam algumas formas de religiões, mesmo que não cristãs. Esse encontro era centrado em uma palestra sobre utopia. O mais importante, em um momento, um rapaz que se autodenominou de “o artista”, disse: “hoje é o dia em que todas as pessoas terão a chance de encontrar o verdadeiro amor”. Mais alguns dados: boa parte do pessoal de ocupação em Porto Alegre era de novos hippies. Os hippies foram a geração do paz e amor. Uma garota-okupa tinha tatuado “amor” em sua mão. Outra, em foto de sua página do Facebook, tem as seguintes palavras escritas: um amor. Um senhor que tava passando pela Praça 15 (lembrem-se desse número), praça central em Porto Alegre, numa demonstração dos okupas no 15 de maio de 2012, olhou um cartaz da galera que dizia, “amor”, e falou: “é isso que falta pra sociedade”. No Natal, como sempre, minha tia me enviou um cartão dizendo: “que você tenha uma vida cheia de amor”. Penso o amor partindo do senso comum: um sentimento “profundo” por alguma coisa, de preferência uma pessoa. Um sentimento “profundo”. No caso de jovens a gente sabe que dura pouco, não vira um casamento, isso acontece raramente. Também, o amor não é um lance só pra pessoas de gêneros diferentes; e não significa um lance monogâmico. Isso endurece mais com uma idade avançada. Mesmo que não endureça, em muitos casos. Só que continuam existindo casais de namorados jovens que dizem sentir esse sentimento profundo. Então, o amor é isso, algo muito profundo. Recebo uma mensagem de uma amiga que diz: “espero que você realize os seus sentimentos mais profundos”. No caso, ela não falava de amor. Em uma conversa com meu pai, ele disse que a vida de casado, com filhos, é mais rica, já que tudo é muito mais profundo, as relações são mais íntimas. Pensar profundamente sobre si mesmo cria o autoconhecimento. Pesquisa é um pensamento profundo sobre determinada coisa: às vezes, uma coisa neurótica em cima de um pequeno recorte do real. Os poetas românticos e seus sentimentos profundos. “Muito profundo isso que você disse”. “É uma pessoa profunda”. “Você foi profundo nisso.” Ensaiando: o que são os desejos profundos? Aquilo que está escondido e que deve ser conhecido? Ou aquilo que está escondido, e que não pode ser dito? Tarinhas se encaixam aí, tipo sexuais, que são da ordem do desvio? Só que profundo por isso, e deve ser escondido, ou realizado entre quatro paredes: como aceitar que papais e mamães troquem de papéis quando estão trancados no quarto? Então profundidade, aqui no caso, diz respeito a uma pessoa, suas questões, seus desvios, uma pesquisa, ou duas pessoas, o amor, etc. Uma pesquisa profunda sobre o mundo é impossível. O amor por inúmeras pessoas é menos profundo que a fidelidade. Mas “seja profundo” é uma boa palavra de ordem: na pesquisa, no amor, na terapia. No caso do amigo “artista”, todos querem um verdadeiro amor. A juventude é legal, em parte, pela experimentação.  Os jovens não se obrigam a ter relações profundas. Mesmo que a adolescência seja uma fase profunda, um lance chato. Acho que suas experiências legais são as de superfície.  A questão da festa, ambiente interessante. Um espaço de experimentação, não um lugar escuro no qual se realizem coisas proibidas. Droga é permitida de certa forma, desde que não dê problema aos donos. Os banheiros que enchem de gente pra cheirar pó, três pessoas em um banheiro em que só cabe uma. Também é proibido sexo em público, e pessoas de sexos diferentes podem ficar um bom tempo no banheiro, sem problemas. Casais do mesmo sexo se beijando. Ninguém se importa – claro que depende do lugar. Tudo isso dura pouco, deve durar apenas uma noite.   

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Crônicas Fora de Controle - algumas crônicas

Adolescentes


Caíram da infância mais cedo que os outros. Nenhum motivo em especial. Quem os dava eram os pais, psicólogos, orientadores educacionais. Essa gente lerda e burra que não entende nada. Só que eram novos e não tinha muito o que fazer. Ficar trancados no quarto longe da sala e da televisão. Fugir do pai e da mãe quando convidavam pra ir pra praia no fim de semana. Fazer desenhos no caderno em sala de aula. Só que daí a cabeça começou a funcionar. Sacaram que tinha outros na mesma e montaram a turma. Venderam os brinquedos. Compraram pranchas de surfe, skates e roupas de gente mais velha. Começaram a ouvir e tocar rock n’ roll. Os caras mais velhos começaram a notá-los. Nas festas ofereciam bebidas. Bebiam, se detonavam, enquanto os outros dançavam e tentavam pegar aquelas crianças, gatinhas mimadas. Não tinha mais razão pra ficar em sala de aula. Eram os únicos que saíam na hora que queriam. Os professores tinham medo deles. Deixavam assim. Todos juntos, na frente do colégio, fumavam cigarros. Os caras mais velhos trouxeram uns baseados. Não tinha motivo pra não fumar. Fumaram um, dois, três, quatro, cinco vezes, e nada. Na sexta vez, bateu o barato. Daí, a vida realmente começou. Sete horas da manhã, todos juntos no campo de futebol. Uma turma grande da galera de 13 e 14 anos. Tinham pegado fumo com os caras mais velhos. Um ou dois já sabiam enrolar. O baseado era grande, parecia ser de duas sedas e bem grosso. O baseado passava de mão em mão. Depois entraram na sala de aula. Riram dos professores. Riram dos alunos. E eles faziam as gatinhas rirem. Rápido, já eram um dez baseados por manhã. Depois do terceiro nem mais fazia a cabeça. Almoçavam meio chapados com os pais. Fumavam mais um depois do almoço. De tarde, tocavam com a banda de metal. Andavam de skate. Caminhavam pela cidade. Não bebiam muito, mais no fim de semana. Sexta caíam pra Oswaldo Aranha. Eram os mais novos. Mais novos que eles só as crianças que estavam em casa dormindo. E a maioria da idade deles tava vendo tv com papai e mamãe, ou indo pras festinhas que eles odiavam. Papai e mamãe ficaram putos no dia em que eles chegaram em casa de manhã cedo no sábado. Passaram a noite na rua. Os pais chamaram até a Polícia. Eles disseram pros velhos: agora é assim que as coisas funcionam. Papai achou 100 gramas de fumo. Eles disseram pros velhos: não se metam na nossa vida. Eram novos, mas pegavam as gatinhas com mais idade. Pegavam as de 16 e 17. Mentiam a idade e pegavam as de 18. Bêbados no bar do João, na Oswaldo Aranha, entraram no banheiro. Um cara esticou umas carreiras, todos cheiraram, e eles disseram: a vida começou. Em pouco tempo, não precisavam mais dos caras mais velhos pra se drogar. Aliás, os caras de mais idade começaram a buscar eles pra se drogar. Eles subiam o morro a qualquer hora, em qualquer dia. Terça de madrugada, eles estão numa parte da vila Cruzeiro do Sul, junto do bairro Cristal. Não tem pó no asfalto. Decidem subir o morro com um morador. Tudo escuro. Ruas estreitas. Podiam ser mortos. Entram na casa do traficante. Era uma mina duns 30 anos. Ela pergunta se eles não querem pó de graça; era só deixar ela chupar eles. Um deles diz: eu topo. Ela chupa no quarto ao lado. Os outros ficam rindo: olha só o cara, olha só. Depois disso, ela sempre liberava pó pra turma por uma chupada. Um deles meio que começa a namorar ela. Uma noite, tavam passando pela Vila Conceição. O ônibus tinha deixado eles longe, já que não tinham grana. Motorista filha da puta. Passaram por um bar fechado. No mezanino três caras endolavam uma montanha de pó, os olharam e disseram: tão a fim? Cheiraram as maiores carreiras que já tinham cheirado. Os que tavam endolando diziam: vai fundo meu. Daí, mandaram eles cair fora, mas liberaram de graça umas gramas.  Iam todo dia pro Parque Marinha. Lá, junto da pista de skate, toda a galera se encontrava e daí eles fumavam vários. Uma época uns manos iam até o Gasômetro e buscavam fumo mesclado. Maconha com crack. Eles fumavam de vez em quando, mas o barato era a maconha e o pó. Uma hora só queriam saber de pó e era caro. Então, pegavam maconha e vendiam pra galera no cursinho. Ali no centro de Porto Alegre, naquela praça ao lado do hospital Santa Casa. Todo mundo comprava fumo deles de manhã. De tarde, pegavam a grana e compravam pó. Um dos manos um dia cheirou muito. Tava com 50 gramas na mão. O cara morreu, mas foi ressuscitado por paramédicos. Ainda eram jovens, não estavam viciados. Mas quando acabava o pó doía na alma. Queriam mais e mais e mais. O pai de um deles tinha dólares guardados. O mano sabia a senha do cofre. Eles pegavam e iam pro morro. Os traficantes ficavam felizes em ver grana estrangeira. De noite tavam sempre no Timbuka. Bar famoso no bairro Assunção. Ali fumavam, vendiam, cheiravam. Não tinham medo da polícia. Pegavam o prato e esticavam as carreiras na rua mesmo. Os mais velhos ficavam putos. Só que agora os mais velhos tinham medo deles. As gatinhas estavam sempre em cima. Umas minas meio caídas, mas não importava. Eles liberavam pó pra elas, e elas faziam o serviço. Já tavam fazia anos nessa. Não iam mais pra escola. Já tinham sido internados. Saíam e entravam da clinica. Os pais enchiam o saco, mais os psicólogos, toda essa gente.  Eles só queriam curtir. O que tem de errado em curtir a vida? Eram jovens, o corpo era forte. Os outros, os integrados viam eles como lixo. Com 20 anos, a coisa mudou. Alguns deles pararam com tudo. Outros deram um tempo. Outros caíram na vida, continuaram. Uns morreram de overdose. Outros tão com aids. Os mais espertos, caíram de casa, montaram negócio, se formaram. Só que nos fins de semana tão na noite fazendo a cabeça. 

Crônicas Fora de Controle - algumas crônicas

Os pais, os professores, os alunos e os filhos  


Sempre ouço as pessoas falarem com orgulho: sou o que sou pela educação que meus pais ou avós me deram. Lembro de pais de amigos que impunham algo como fibra moral: não faça festa, estude. Anos depois o filho que sofria e muito com a disciplina paterna, dizia: meu pai me ensinou a ser o homem que eu sou. Se não fosse ele, eu teria continuado a usar drogas, eu não teria ido à escola etc.  Na graduação, notei que os professores mais chatos eram aqueles mais queridos. Os mais duros, os que forçavam a estudar. Lembro de dois paraninfos, que obrigavam os alunos a estudar. O desejo da dureza, da disciplina. Provavelmente, os alunos agora dizem: se não fosse o professor tal, eu não seria quem eu sou hoje. E esse mesmo cara, após o final de semana chega no trabalho se sentindo um merda, já que tomou todas, se drogou. Se sente envergonhado, quando o lembram da sua adolescência. É meu, você usava todas, e agora taí dando uma de pai, de trabalhador. O lado vergonhoso que tentam deixar de lado. Garotas dizem depois que vocês as chifram: vou ensinar a você; uma expressão que circula em tudo. Acho que família, ser pai, ter filho, mesmo com toda a flexibilização, se é obrigado a ser o disciplinador, o cara que vigia e pune. No máximo dá pra fazer uma revisão, uma reforma, mas o que não é muito. É isso: na rua você se fode, em casa você se tornará o bom cidadão. E todos querem ser bons, bons cidadãos, trabalhar, pra ter dinheiro. Legal as imagens do The Wall, na parte dois da música. O professor tendo pesadelos com as punições impostas aos alunos.  Deve ser foda saber que você vai ter que acabar com a raça de uma pessoa, ainda mais de alguém que ama, seu filho. Palavra interessante: vagabundo. Aquele vagabundo que só bebe; aquela vagabunda que dá para todo mundo. Papai não deixa o filho se drogar pra ele não virar um vagabundo. O professor fecha o aluno na sala, não deixa sair pra não virar um vagabundo. Pense e aja de tal forma.  E daí a gente pensa que tá criando uma fuga a partir do campo do saber, pensar melhor o mundo, mas fecham a gente em mais regras. O ensaio é uma escrita vagabunda. O jornalismo é interessante porque qualquer um entende. Notícia ninguém tem prazer com a forma, mas qualquer um pode ler. Crônica algo que dá prazer. Livro de jornalistas: eles sabem muito bem escrever pra todos. 99% de lixo. Mas pro homem comum, o trabalho acadêmico é 100% de lixo. Quem tá certo? Você deve trilhar esse caminho pra chegar ao texto correto. No ensaio você tem muitos caminhos para trilhar, mais fácil de errar. Faça o certo. Mas Cazuza talvez estivesse certo: erra comigo.  Os manos tão sempre certos: não me enquadra mano, me erra. O corredor é uma bagunça, mas ali também você não pode fumar um.  Mas sempre há os lugares especiais que você pode. Procurar um lugar especial no ensaio. Não para ser mais um na massa. Massa de ensaios, qualquer coisa, todos. Todo mundo enlouquece um pouco. Mas você não fuma um beque na mesa ao lado da vovó. Você não escreve um título de artigo do tipo: pau no cu do método. Aja como eu quero que você aja. Papai e professor. Todos conhecem a fundo as disciplinas, dentro de si. A maioria aceita. Eu não quero ser pai, mas quero ser professor.  E a questão não é de autoconhecimento, o poder em mim, mas de pensar o mundo. Estamos no mundo. Mas então há esse mundo, duro, o bom mundo, de papai, dos professores, do trabalho; e a fuga desse mundo, as drogas, as putas etc. o que a gente vive como vergonha. Se drogar não garante nada. A mamãe, a esposa, a vovó, a irmã, a sogra, a cunhada, todas tomam Valium e são as mais caretas de todas. Os pais bebem. Um adolescente com um beque na mão não tem nada na cabeça. Talvez venha a ter. Estava na aula de artes marciais.  Lugar bem interessante, o professor é um PM e todos os alunos são PMS. Daí aparece um gordinho, 13 anos. Cheguei nele: por que você tá aqui? Ele: quero aprender a lutar e emagrecer. Falei: meu, compra um skate, uma bike ou um roller e vai todas as tardes numa pista. Rápido você vai fazer uma turma. Eles vão oferecer cigarros pra você e drogas; vão levar você pras festas; você vai começar a emagrecer e as garotas vão começar a notar você; não só porque você vai emagrecer, mas porque você vai virar um cara legal.  Não ouça sua mãe nem seu pai. Aprenda a mentir.Você deveria ter aprendido isso sozinho, mas como até agora não, eu passo só umas dicas. Qual é? Você aceita ser aluno de um pai ou de um professor? Aceita ser aluno? Faz a sua, mano. Faz a sua. Não encontrou até agora o caminho, problema é seu. Se fecha na estrutura. Política só nas ruas, ou a burocracia. Academia não é a rua. Aqui é o lugar. Torre de marfim, meu bem. Mas como assim, sempre foi assim, é assim em tudo, você quer acabar com nosso mundo? Eu só conheço esse mundo, amo meu pai e minha mãe, quero ser um pai e uma mãe, quero trabalhar, ser um bom cidadão. Isso é coisa de revolucionário de merda! Revolução é quando tudo vai abaixo, os de cima vão pra baixo, carnaval e putaria. As vadias sacaram bem: putaria política, putaria como potência, não como segredo ou sujeira. Diferente quando a esposa e mãe diz pro marido, o qual ela chama de pai: me chama de puta. Só ele pode chamá-la de puta e ninguém pode saber. Depois olha pro filho e se envergonha. Não é qualquer  coisa meu, quando a gente pensa que tá criando, a gente pode estar no erro; mas vamos errar um pouco, uma hora a gente acerta. Me erra meu; qual é? 

Crônicas Fora de Controle - algumas crônicas

 Gatinha 2


Não precisou de muito. Muito a gente já tinha. Só que a gente deixa rolar. Isso é bom. E fica rolando. Daí, uma hora pinta. Bom que pintou. Não que fosse a hora certa. Só que tava um clima legal. Daí, você mostrou seu corpo, que eu já conhecia. Me deu o que eu queria. Daí, muito bom o que você sabe fazer. E não foi o fim do mundo. Mas foi bastante. Bastante gostoso o que você sabe fazer. E sabe muito bem o que eu quero e gosto. E não é muito. Sem exageros. Sem muita história. Não estamos na frente do vídeo. Nem estamos competindo. Quem sai vencedor, é outra história. Ele e ela que se fodam; eles perdem. Só que quando rola, e tá rolando e vai continuar...  somos  nós e pode ser três ou quatro, depende do clima. Ou muitos, depende de nós.  E quando chamo você de gatinha ou baby... bem, baby gatinha, o lance é que você tem que saber que isso tá saindo da minha boca. E tô sempre numas de dar novos significados pras coisas. E meio que trabalho com palavras. Só que o mais importante é meu tronco forte, minhas pernas fortes. Tudo isso acho que tá em jogo. Você não precisa fazer muito. Já que a neurose parece que... você deixa em casa. E você sabe que isso faz com que eu saia correndo. E acho que... você quer que eu esteja perto. Então, baby gatinha, tô aqui. Tô por aí. Fácil me encontrar. Encontros dos bons. Sem exageros. Sem muita arte marcial verbal; já física, depende da lua. Bom quando a gente nem nota que tá subindo as paredes. Só vê isso depois, porque tá bom demais. Bom assim. E acho que isso vale mais que um diário de bordo. Aqui só umas palavras, pra lembrar o que tá rolando. Acho o surf um esporte legal. Rola uma onda, encaixa legal, depois flui na boa. Bom é a quebradinha na espuma. A machucadinha na areia. Ralar um pouquinho os joelhos. Você queimadinha de sol, com a pele num bronze e não mais branquinha.  

sexta-feira, 29 de junho de 2012


ORGANIZAÇÃO DA METODOLOGIA PARA O MAPEAMENTO DO DEVIR REVOLUCIONÁRIO DOS MOVIMENTOS GLOBAIS DE INDIGNAÇÃO – PARTE ESCRITA, ROTEIRO, DE APRESENTAÇÃO EM SEMINÁRIO



A pesquisa centra-se na política contemporânea em seu duplo movimento: 1. a valorização da biopolítica (pós-Foucault), a política da multidão (Negri), os processos de singularização (Guattari), as lutas moleculares (Deleuze e Guattari). 2. a compreensão e crítica do biopoder (Foucault e pós-Foucault): biopoder é o poder exterior a multidão, do Império (Negri), em sua forma de controle (Deleuze e pós-Deleuze), o poder expresso até em micro relações. 
Premissa, ponto de partida da pesquisa: as lutas biopolíticas produzem o mundo; e o biopoder se apropria da produção; mais, se reestrutura para bloquear a potência que vem desde baixo. Processo de desterritorialização e de reterritorialização, conflitos entre o molecular (resistência) e molar (poder).
Duas questões quanto ao poder, acho que devem ser mapeadas mesmo que não sejam o centro do trabalho: 1. a molarização dos fluxos moleculares, em parte desejada pelas minorias; remanejamento do poder. ex. aceitação de demandas da multidão. Reformas no sistema político a partir das lutas. 2. molecularização molar, a serviço do poder. No contexto pós moderno, há algo como uma flexiblização das classificações, das identidades. ex. precarização, algo entre trabalho e desemprego.
Me proponho a mapear as lutas da multidão: a molecularização que diz respeito à potência, mesmo tornar a produção do poder em potência; como isso vai sendo apropriado, usado: ex. subjetividades desterritorializadas: fim do enquadramento.  Produção imaterial, intelectual: empoderamento, aumento do saber. Queda das fronteiras geopolíticas: democracia global.  Redes disseminadas: forma da multidão.
  Talvez, o movimento de remanejamento do poder, a passagem do molecular ao molar só possa ser compreendido após o devir das lutas. Talvez seja possível apenas, pesquisar os processos de singularização da multidão: a fuga dos códigos dominantes. 
Aí surge o Objeto, recorte da multidão: lutas contra a democracia representativa e o capitalismo; movimentos de indignação global (dos indignados espanhóis até os Occupy).
Creio que o mapeamento de um conceito abrange a potência do objeto de pesquisa: devir revolucionário. Devir, o que está acontecendo, não o futuro da revolução. A riqueza em si do movimento, atual. Mesmo os desejos de uma nova realidade, já são atuais, e são potência. Esse devir arrasta blocos de devir, e eu penso dessa forma produzindo uma multiplicidade, fazendo rizoma.
Devir é acontecimento, processo, experimentação, que passam sujeitos, grupos, mundo acadêmico, mídias corporativas, etc, qualquer coisa.  Devir não diz respeito aos estados duros, fixos, modelos dominantes, são linhas de fuga do poder.     
Devir, como disse, acontece em blocos: ex. Um devir nômade não se refere apenas ao deslocamento físico, pode dizer respeito à experimentação de desterritorialização, mental, social, existencial. Linha de fuga frente ao sedentarismo que marca a sociedade centrada no aparelho de Estado. Isso poderia envolver um devir-drogado: experimentação da narcose, sem o uso, ou com: o drogado como sujeito desterritorializado mentalmente. Um devir artístico: que não tem na da a ver com a arte como estado, mas como campo de experimentações perceptivas. Esse bloco de devires afetou a filosofia, o devir nômade da filosofia a partir da obra de Deleuze.  Antes com os Beatnicks, Rimbaud, o devir nômade da arte. O nômade como estado aparece como impotência para as significações dominantes: as levas de imigração, os ciganos, todos marginalizados. No entanto, permitem o devir menor para todo o social.
Importante pensar a multidão como campo de experimentação de devires, que pode se tornar um projeto político molar. Pensar não o que é, construindo identidades; mas como funciona.
Sobre o devir revolucionário da multidão, primeiro bloco de devires mapeados: 1. devir-democracia: linha de fuga da representativa; devir pois não há formas e modelos prontos a serem resgatados na história; isso é experimentado em territórios singulares horizontais, descentrados, autônomos; fuga da dicotomia dominantes-dominados. Vistos nas mídias, assembleias, organização dos grupos, acampadas. 2.  devir-midiático: novas mídias produzidas pelo movimento não capturadas; as apropriações das mídias corporativas, como facebook, youtube, etc, em usos diferenciais em relação aos usos dominantes. Outro bloco de devires, considerando a tomada das ruas (os acontecimentos da multidão), devir revolução da cidade, cidade desterritorializada; devir-marginal da multidão (os muitos presos); devir-violência (contra o patrimônio), devir-improdutivo (greves). Esses devires traçam uma linha transversal entre o dualismo legalidade-ilegalidade.  Note que o devir é revolucionário, pois escapa das significações e códigos dominantes. Põe abaixo a ordem.
 Um outro devir, importante de ser mapeado é o multidão das mídias de massa:  afetações das multidão nessas mídias. Mesmo legitimando o poder, elas não ficam ilesas da expressão da multidão.
Outros devires, as produções dos movimentos, como fuga das significações dominantes atualizadas pelo poder: 1. Produção de subjetividades: anonyma; indignada, okupa  X subjetividade dominante, enquadrada. 2. Modos de vida: okupas, devir pobre x vida burguesa. 3. Relações: parceria X não de poder. 4. Desejos em devir: de revolução X desejo de repressão.  
Por fim, importante repensar o conceito de molar e molecular, a molarização e a molecularização da potência: o molar nas minorias, os processos mais consistentes: assembleias, acampadas, grupos, teóricos, acontecimentos. E seu molecular, o minoritário do movimento: o menos expressivo.  Pra que serve esse mapeamento: principalmente para dar expressividade ao minoritário, tornar visível. No caso, creio que o desejo de revolução não se limita aos indignados, mas a todo o povo. Amplia-se assim o território: indignados são todos. O movimento deve atualizar o desejo de revolução, para se tornar mais potente. Já o molar, do movimento, deve ser pensado para ser percebido o que vai ganhando expressão e como isso rompe com possíveis centros de poder. 

2. QUESTÕES EXISTENCIAIS DA PESQUISA:

Pergunta 1: como tornar a pesquisa uma pesquisa indignada, anonyma, de okupa, não como devir mas estado? A pesquisa já permite um devir okupa, anonymo, indignado do campo de saber, ou do ambiente institucional.   
Pergunta 2. Como produzir pesquisa singular, algo que não redunde o que já foi feito?  Considerando o excesso de produção textual sobre o tema. Até agora: estou construindo a história dos acontecimentos principais, pensando o devir revolucionário, o molar e molecular do movimento, sua resistência ao poder. O diferencial talvez se dê aí, pensando a multidão a partir da obra de Deleuze.
Possibilidades: Abrir a tese para o social, primeiro pela linguagem. Usar o ensaio como potência, linguagem mais acessível. Segundo: creio que o uso da cartografia, é importante pela abrangência: não se limita a um campo ou objetos; qualquer um pode usar para mapear qualquer coisa.  Terceiro: despessoalizar a pesquisa, deixar passar os fluxos da multidão, fazer rizoma. Não criação, mas aliança, teórica e política. Não pensar na pesquisa como algo referente a um sujeito, criador: remix (Debord), antropofagia (arte e filosofia brasileiras), canibalização de estilo (o lixo pós moderno como potência). Aqui entra outra questão: fazer rizoma, abrindo o texto, traçando suas linhas de fuga, aumentando o território: ligar o tema com arte, outras formas de resistência. Também para deixar o texto mais leve. Produzir pesquisa de superfície; profundidade da superfície. 

3 – DESCIDA A CAMPO

Não gosto da expressão, de descida ao campo. O mundo, prática, fica em posição abaixo da pesquisa, teoria. Objeto também é péssima expressão; o mundo como objeto sujeitado a uma pesquisa, ou pesquisador. Também ir a campo, significa uma exterioridade, e não há fora do mundo. Nota-se aqui a reprodução do poder, mesmo em micro relações, como o pensamento, a fala.
No caso da minha pesquisa, a multidão e o poder, não há fora. Poder e potência são afirmados em tudo. Não tem como não experimentar o mundo.  E como digo: produzo para o movimento, para multidão. Se vivo a pesquisa acadêmica, vivo assim o movimento. E meu coração está com o movimento.
O que significa ir a campo para a pesquisa do movimento? 1. Pesquisa bibliográfica: há uma produção mesmo em formato de livro extensa sobre. Também muitos teóricos, fazem parte, assim dicotomia do tipo, teoria e prática não faz sentido.  2. Pesquisa dos produtos de web: sites, wikis, blogs, perfis de facebook, e de twiter, vídeos do youtube, streaming.  3. Contato com sujeitos: nas okupas, nas manifestações, via e-mail. 4. Pesquisa da mídia de massa.
Sobre análise das manifestações: off line e on line são complementares: on line: pelos inúmeros pontos de vista; pode ser feito após as demos, deve ser feito depois. Of line viver o acontecimento. Estar em uma assembleia podendo ser preso; estar em uma praça em situação de risco, isso marca mais do que estar na frente do computador. Por fim importante no contato com os sujeitos do movimento: contatar não como pesquisador, sujeito de fora, acima do suposto objeto.


domingo, 17 de junho de 2012


Roteiro de apresentação oral – Seminário – epistemologia comunicação

(primeiro trabalho sobre sociedade de controle)

Centro a apresentação nas considerações sobre o fim das disciplinas do Gomes. Primeiro trato de contexto: da transição da sociedade disciplinar para a de controle. Depois relaciono com o tema dos campos de saber.  Por fim, apresento a proposta de transversalidade. Esta é conceito de Guattari que não se refere à horizontalidade criticada por Gomes, e muito menos a verticalidade disciplinar.

Sociedade disciplinar, modernidade: uma das marcas é a importância do território e da identidade. Exemplos: território nacional, o povo como sujeito, com uma identidade. As disciplinas conceituadas por Foucault: família, pais e filhos. Escola, professor e aluno. Exército, oficiais e soldados. Fábrica: empregador e empregado.

 Segundo Deleuze, tudo é questão de território; podem ser pensados como territórios gêneros, raças, subjetividades, campos de saber. As identidades modernas desses territórios: gêneros: homem e mulher. Raças: brancos e outros. Campos do saber: objeto e método das disciplinas. Subjetividade: individualidade. Na maior parte desses casos, o aparelho de Estado codifica as singularidades em pares, nos quais um dos elementos é um centro de poder. As disciplinas de Foucault são dispositivos do aparelho em sua função de codificação, imposição de identidades.

Deleuze, sociedade de controle. Nesta o que se perde é o território fechado com suas lógicas, principalmente binares. Frente a isso, há discursos que tentam resgatar as velhas identidades; resgatar o que se perdeu; outros discursos tentam manter o que ainda está presente de rigidez. Para mim, essas teorias servem exatamente para isso: dar vida ao cadáver moderno. Também há discursos que ovacionam o múltiplo, a diferença, características da sociedade de controle.  

Segundo Deleuze, importante é não pensar o que é melhor ou pior; desejar o retorno das disciplinas ou ovacionar a sociedade de controle; importante é pensar nas potencialidades, na virtualidade aberta.

Um exemplo do conflito entre potência e tomada de poder na sociedade de controle: o hibridismo entre política e arte, a estetização da política. A estetização da política pode ser pensada como via dupla, uma molar e outra molecular. Molar e molecular são os elementos da cartografia de qualquer coisa. A molar corresponde à política dominante, dos partidos, aparelho de Estado. O que vemos na mídia, no uso do marketing nas eleições, dos showsmícios, nos discursos publicitários para angariar votos. O lado molecular, da interpenetração entre arte e política, vê-se desde o Maio de 68 em massa. Hoje se percebe isso na utilização de lógicas midiáticas e artísticas pelos movimentos de resistência, que são generalizados.   A crítica de Gomes interessa se pensada neste viés: a espetacularização das ciências, molar, o campo da comunicação como território no qual “tudo vale”. De um ponto de vista, molecular, a estetização se torna interessante pelas conexões entre arte, política, entre si, produzindo uma heterogeneidade transversal que foge do controle desde cima. No entanto, creio que falar em arte é perigoso, pois o campo apresenta o mesmo conflito: molar, o instituído, dominante, não político, ou mesmo o discurso clichê da arte como expressão da liberdade; molecular, um devir arte da política e da ciência, que não concerne à arte como estado; na construção epistemológica creio que deve ser buscado outro termo pra definir a expressão em jogo. 

O molar pode também ser referido às identidades de sujeitos, típicas da sociedade disciplinar, e também, as identidades das minorias recém incluídas. No entanto, penso a oferta de subjetividades pela mídia como molar, pois serve ao poder, que é a molaridade mais expressiva. O lado molecular, no contexto pós, seria a possibilidade aberta de experimentações de dessubjetivação, que não se referem à desterritorialização constante pela máquina massmidiática. Penso também que a desterritorializaçao já é potente pela própria descoberta de que mudanças são possíveis. Mas se faz necessária uma cartografia das subjetividades de resistência. Um exemplo é a busca de sexualidades em devir pela crítica Queer; subjetividades que não concernem ao homossexual hetero, aquele que busca direitos heterossexuais: ter filhos, casar.  

Relação entre disciplinas, fim dos territórios e epistemologia: Gallo (1995) relaciona campo de saber e o conceito de disciplinas de Foucault.  Disciplina nas ciências é delimitação, hierarquização e exercício de poder. Opõe o paradigma arborescente, hierárquico, que se refere à disciplinarização, ao paradigma rizomático, no qual qualquer conexão é possível.  
Gallo, então, faz sua proposta a partir da queda das barreiras das disciplinas no campo de saber:

transversalidade entre as várias áreas do saber, integrando-as, senão em sua totalidade, pelo menos de forma muito mais abrangente, possibilitando conexões inimagináveis através do paradigma arborescente. (GALLO, 1995, p. 10)


A transversalidade foi pensada por Guattari em sua experiência no campo psi. Segundo o autor, a verticalidade institucional rege as relações, desde cima. Um sistema centrado, com regras duras, fechado em si mesmo, para poucos. O autor não vê a horizontalidade como opção. Nesta todos são iguais, as relações são planificadas, homogeneizadas, e nada é produzido: horizontalidade é “uma certa situação de fato em que as coisas e as pessoas ajeitem-se como podem na situação em que se encontrem. (GALLO, P. 10)

A crítica de Gomes, como já dito, interessa se pensada como crítica a horizontalização das ciências: a lógica do “tudo vale”, e seus efeitos como a espetacularização, a tomada de poder por lógicas massmidiáticas.  Fruto da pós-modernidade, a espetacularização é uma das capturas pelo poder.  

Outros exemplos de transversalidade: verticalidade dos partidos, sindicatos, todos centrados, com posições hierárquicas que seguem uma ordem dada. Transversalidade: nos movimentos por outra democracia: em assembleias, em que todos podem se expor e decidir, nos quais não há hierarquia, mas nem desordem. As regras são estabelecidas por consenso. Horizontalidade acontece nos dois modelos: da rua, dos corredores, nos quais os sujeitos assumem posições de igualdade, não há decisões políticas, sejam transversais ou verticais. Outro exemplo: a ideia de povo é vertical, povo com uma identidade tendo o Estado como centro decisório. Massa é noção horizontal, nela as diferenças são apagadas, e na massa nada se produz. Multidão é conceito transversal. Multidão é rede de singularidades que produzem em comum mediante colaboração e comunicação.

No entanto em minha experiência empírica nos movimentos de ocupação, noto que a verticalidade aparece como fantasma: tomadas de poder, como quem fala melhor em público, ou tem mais tempo para participar das atividades abrindo espaço para práticas hegemônicas. E mesmo fantasmas modernos: os mais velhos, os mais escolados.  A horizontalidade é importante. Em ambientes fora dos programas há possibilidade de fala daqueles que não se permitem a fala nos ambientes transversais. Ali nascem ideias que podem depois ser retomadas nas atividades, como as assembleias e redes de comunicação, etc.