quarta-feira, 12 de outubro de 2016

umas crônicas do tipo: elas tão descontroladas

Gatinha 3

Gatinha, sou todo teu pra sempre. Amo você gata, muito. E você é gata demais. Linda!  Toca aqui no meu peito. Olha só, bate por você bem forte. Ele tá forte por você. Muito forte e vivo só pra você. E só pra você; pra você pra sempre. E você sabe que é verdade. Pra sempre. Tipo hoje é sábado. Pra sempre, até terça. O meu coração forte pra sempre. Forte pra você pra sempre. Desde hoje pra sempre. Desde sábado até terça. E isso é muito. Você sabe, baby, é muito. É o máximo que se pode ter. O coração que pulsa forte. Pulsa muito. Só pra você gata. Sabe disso. A sua boca faz coisas maravilhosas. Sua saliva é um drink dos bons. E isso misturado com seu sorriso. Com seu cheiro. E não para por aí. Isso que importa... a forma como você dança. E como você dança. Você dança como ninguém. Tudo compondo um lance que me faz ficar muito apaixonado por você. Pra sempre, meu bem... até terça. E sei que estou sendo sincero demais. Eu estou sendo demais. É muito pra mim. O suficiente. Paixão total. E quando você dança seus olhos aparecem e desaparecem entre seus cabelos. E muita coisa que era pra ser importante, não é mais. Não quero saber sua idade. Nome não importa; você é a gatinha, minha deusa. Porque eu sei muito de você quando você fala, sorri, beija e dança. E como você dança gatinha. Dança que vai ficar muito bem guardada. Você vai ficar muito bem guardada. Lá em casa pra sempre. Eternamente. Até terça. Não quero ver você na ressaca do dia seguinte. Neurose não combina com a gente. E não precisa. Depois a gente pega outro sábado e faz tudo de novo. Mesmo que você, daí, já seja outra. Mas vai ser tão bom quanto. As ondas batem. Cada uma diferente. Ainda mais se for um dia, uma festa, uma cidade, um país diferente. Tudo tão diferente. Só que tão bom quanto. Porque eu atravesso a cidade. Eu abro a porta. Só pra ver você dançar. Porque você é gata demais. E se isso não diz muito na boca de “gatinhos”... bem, eu não sou um gatinho. Nasci na selva. Devo ser filho de lobos. Algum felino ou canino selvagem. Então, gatinha me lembra algo.... você sabe;  se  não sabe, deixa que eu mostro pra você.

Gatinhas  

Meu bem, eu posso ser o que você quiser, e não vou ser falso. Teatro não é falsidade. É uma coisa legal da vida. Tem gente que até paga pra ver um teatro. Faço pra você de graça. Não tá bom? Você quer uma peça especial pra você? Você quer aquele lance que tanto quer? Tanto assim?  Então, deixa assim.  Sei bem que o problema é que você não sabe o que quer. Daí vira qualquer coisa. Você sai correndo do meu ap pra me ver. Estranho, não? Depois ligo, você não atende. Pô, baby, teatro é um lance, mas drama psicológico... Você menstruadinha? O lance baby, deixa que eu faço o que tem que ser feito. Eu faço a história. Deixa eu fazer uma história. Um pouco mais do que isso, já que o corpo tá envolvido. Deixa que eu armo tudo. Deixa eu guiar. E não estou sendo o macho que guia. O braço forte. Meu braço é forte, sim, naturalmente. Posso alcançar o céu com esses braços fortes. Então deixa, baby. Sem onda. Sem neurose. Eu sei o que você quer. Está aqui nas minhas mãos. Estou olhando agora de frente pro que você quer. Deixa de frescura. Não precisa me chamar de tio, mesmo eu conhecendo bem sua mãe. E mesmo que seu pai tenha medo de mim. E bem, meu bem. Deixa de ser... melhor, deixa que seja. Sem onda.

Gatinhas 2

Você tá com medo como sempre. Repara em tudo que eu faço. Cada palavra, cada gesto. Tá esperando que role alguma merda. Que eu faça alguma merda. Que eu aponte uma arma. Que eu pegue você na força; amarre você na cama. E eu torne você um monstro como o monstro que eu sou pra você. Gatinhas têm medinho de monstrinhos. Leram muitos contos de fadas. Então, você sabe que eu não sou o príncipe. E isso é bom. Já economiza muita conversa. Mas eu não vou amarrar você na cama. Não vou tirar do armário meus apetrechos. Não vou dar a você uma bela noite de sadismo. Eu vou fazer pior. Tenha medo. Muito medo. Depois do que vai rolar, as pessoas não vão mais respeitar você. Você não vai mais ter coragem de olhar na cara do seu pai. Nunca mais vai sentar no colo do vovô. Não vai mais poder dar selinho no seu irmão. Você vai ser um monstro. E gatinha, eu não estou brincando. Quem brinca aqui é você. Com seus medinhos. Com seu jeitinho de fada. Com sua educação. Com esse seu jeito de criança. E isso... bem, isso já era. Porque chegou a hora. Sou legião, você sabe. E você vacilou. Entrou no meu ap. Bebeu vinho comigo. Bebeu demais, aliás. E você me deixou beijar você. Você entrou na jogada. Agora a chave tá lá embaixo. Joguei pela janela. Não tem mais ninguém por perto. Ninguém vai ouvir você. E você pode rezar. E você pode até relaxar. Você pode me chamar de meu bem. Até dizer que me ama. Mas nada disso vai ajudar você. Porque a jogada agora é outra. Você ficou muito tempo fantasiando que eu era um monstro. E agora eu quero entrar na jogada. Você entrou com a fantasia. Eu entro com meu corpo. Com minha vontade... de enlouquecer, você.   

 Profundidade e experimentação


Tava em um encontro de um grupo ligado aos occupy em Porto Alegre. Era dia 11 do 11. Não sei exatamente por que esse dia foi escolhido, já que tem toda uma carga espiritual religiosa. Só que após um contato com pessoas ligadas às ocupações da cidade, percebi que muitos seguiam algumas formas de religiões, mesmo que não cristãs. Esse encontro era centrado em uma palestra sobre utopia. O mais importante, em um momento, um rapaz que se autodenominou de “o artista”, disse: “hoje é o dia em que todas as pessoas terão a chance de encontrar o verdadeiro amor”. Mais alguns dados: boa parte do pessoal de ocupação em Porto Alegre era de novos hippies. Os hippies foram a geração do paz e amor. Uma garota-okupa tinha tatuado “amor” em sua mão. Outra, em foto de sua página do Facebook, tem as seguintes palavras escritas: um amor. Um senhor que tava passando pela Praça 15 (lembrem-se desse número), praça central em Porto Alegre, numa demonstração dos okupas no 15 de maio de 2012, olhou um cartaz da galera que dizia, “amor”, e falou: “é isso que falta pra sociedade”. No Natal, como sempre, minha tia me enviou um cartão dizendo: “que você tenha uma vida cheia de amor”. Penso o amor partindo do senso comum: um sentimento “profundo” por alguma coisa, de preferência uma pessoa. Um sentimento “profundo”. No caso de jovens a gente sabe que dura pouco, não vira um casamento, isso acontece raramente. Também, o amor não é um lance só pra pessoas de gêneros diferentes; e não significa um lance monogâmico. Isso endurece mais com uma idade avançada. Mesmo que não endureça, em muitos casos. Só que continuam existindo casais de namorados jovens que dizem sentir esse sentimento profundo. Então, o amor é isso, algo muito profundo. Recebo uma mensagem de uma amiga que diz: “espero que você realize os seus sentimentos mais profundos”. No caso, ela não falava de amor. Em uma conversa com meu pai, ele disse que a vida de casado, com filhos, é mais rica, já que tudo é muito mais profundo, as relações são mais íntimas. Pensar profundamente sobre si mesmo cria o autoconhecimento. Pesquisa é um pensamento profundo sobre determinada coisa: às vezes, uma coisa neurótica em cima de um pequeno recorte do real. Os poetas românticos e seus sentimentos profundos. “Muito profundo isso que você disse”. “É uma pessoa profunda”. “Você foi profundo nisso.” Ensaiando: o que são os desejos profundos? Aquilo que está escondido e que deve ser conhecido? Ou aquilo que está escondido, e que não pode ser dito? Tarinhas se encaixam aí, tipo sexuais, que são da ordem do desvio? Só que profundo por isso, e deve ser escondido, ou realizado entre quatro paredes: como aceitar que papais e mamães troquem de papéis quando estão trancados no quarto? Então profundidade, aqui no caso, diz respeito a uma pessoa, suas questões, seus desvios, uma pesquisa, ou duas pessoas, o amor, etc. Uma pesquisa profunda sobre o mundo é impossível. O amor por inúmeras pessoas é menos profundo que a fidelidade. Mas “seja profundo” é uma boa palavra de ordem: na pesquisa, no amor, na terapia. No caso do amigo “artista”, todos querem um verdadeiro amor. A juventude é legal, em parte, pela experimentação.  Os jovens não se obrigam a ter relações profundas. Mesmo que a adolescência seja uma fase profunda, um lance chato. Acho que suas experiências legais são as de superfície.  A questão da festa, ambiente interessante. Um espaço de experimentação, não um lugar escuro no qual se realizem coisas proibidas. Droga é permitida de certa forma, desde que não dê problema aos donos. Os banheiros que enchem de gente pra cheirar pó, três pessoas em um banheiro em que só cabe uma. Também é proibido sexo em público, e pessoas de sexos diferentes podem ficar um bom tempo no banheiro, sem problemas. Casais do mesmo sexo se beijando. Ninguém se importa – claro que depende do lugar. Tudo isso dura pouco, deve durar apenas uma noite.   

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Crônicas Fora de Controle - algumas crônicas

Adolescentes


Caíram da infância mais cedo que os outros. Nenhum motivo em especial. Quem os dava eram os pais, psicólogos, orientadores educacionais. Essa gente lerda e burra que não entende nada. Só que eram novos e não tinha muito o que fazer. Ficar trancados no quarto longe da sala e da televisão. Fugir do pai e da mãe quando convidavam pra ir pra praia no fim de semana. Fazer desenhos no caderno em sala de aula. Só que daí a cabeça começou a funcionar. Sacaram que tinha outros na mesma e montaram a turma. Venderam os brinquedos. Compraram pranchas de surfe, skates e roupas de gente mais velha. Começaram a ouvir e tocar rock n’ roll. Os caras mais velhos começaram a notá-los. Nas festas ofereciam bebidas. Bebiam, se detonavam, enquanto os outros dançavam e tentavam pegar aquelas crianças, gatinhas mimadas. Não tinha mais razão pra ficar em sala de aula. Eram os únicos que saíam na hora que queriam. Os professores tinham medo deles. Deixavam assim. Todos juntos, na frente do colégio, fumavam cigarros. Os caras mais velhos trouxeram uns baseados. Não tinha motivo pra não fumar. Fumaram um, dois, três, quatro, cinco vezes, e nada. Na sexta vez, bateu o barato. Daí, a vida realmente começou. Sete horas da manhã, todos juntos no campo de futebol. Uma turma grande da galera de 13 e 14 anos. Tinham pegado fumo com os caras mais velhos. Um ou dois já sabiam enrolar. O baseado era grande, parecia ser de duas sedas e bem grosso. O baseado passava de mão em mão. Depois entraram na sala de aula. Riram dos professores. Riram dos alunos. E eles faziam as gatinhas rirem. Rápido, já eram um dez baseados por manhã. Depois do terceiro nem mais fazia a cabeça. Almoçavam meio chapados com os pais. Fumavam mais um depois do almoço. De tarde, tocavam com a banda de metal. Andavam de skate. Caminhavam pela cidade. Não bebiam muito, mais no fim de semana. Sexta caíam pra Oswaldo Aranha. Eram os mais novos. Mais novos que eles só as crianças que estavam em casa dormindo. E a maioria da idade deles tava vendo tv com papai e mamãe, ou indo pras festinhas que eles odiavam. Papai e mamãe ficaram putos no dia em que eles chegaram em casa de manhã cedo no sábado. Passaram a noite na rua. Os pais chamaram até a Polícia. Eles disseram pros velhos: agora é assim que as coisas funcionam. Papai achou 100 gramas de fumo. Eles disseram pros velhos: não se metam na nossa vida. Eram novos, mas pegavam as gatinhas com mais idade. Pegavam as de 16 e 17. Mentiam a idade e pegavam as de 18. Bêbados no bar do João, na Oswaldo Aranha, entraram no banheiro. Um cara esticou umas carreiras, todos cheiraram, e eles disseram: a vida começou. Em pouco tempo, não precisavam mais dos caras mais velhos pra se drogar. Aliás, os caras de mais idade começaram a buscar eles pra se drogar. Eles subiam o morro a qualquer hora, em qualquer dia. Terça de madrugada, eles estão numa parte da vila Cruzeiro do Sul, junto do bairro Cristal. Não tem pó no asfalto. Decidem subir o morro com um morador. Tudo escuro. Ruas estreitas. Podiam ser mortos. Entram na casa do traficante. Era uma mina duns 30 anos. Ela pergunta se eles não querem pó de graça; era só deixar ela chupar eles. Um deles diz: eu topo. Ela chupa no quarto ao lado. Os outros ficam rindo: olha só o cara, olha só. Depois disso, ela sempre liberava pó pra turma por uma chupada. Um deles meio que começa a namorar ela. Uma noite, tavam passando pela Vila Conceição. O ônibus tinha deixado eles longe, já que não tinham grana. Motorista filha da puta. Passaram por um bar fechado. No mezanino três caras endolavam uma montanha de pó, os olharam e disseram: tão a fim? Cheiraram as maiores carreiras que já tinham cheirado. Os que tavam endolando diziam: vai fundo meu. Daí, mandaram eles cair fora, mas liberaram de graça umas gramas.  Iam todo dia pro Parque Marinha. Lá, junto da pista de skate, toda a galera se encontrava e daí eles fumavam vários. Uma época uns manos iam até o Gasômetro e buscavam fumo mesclado. Maconha com crack. Eles fumavam de vez em quando, mas o barato era a maconha e o pó. Uma hora só queriam saber de pó e era caro. Então, pegavam maconha e vendiam pra galera no cursinho. Ali no centro de Porto Alegre, naquela praça ao lado do hospital Santa Casa. Todo mundo comprava fumo deles de manhã. De tarde, pegavam a grana e compravam pó. Um dos manos um dia cheirou muito. Tava com 50 gramas na mão. O cara morreu, mas foi ressuscitado por paramédicos. Ainda eram jovens, não estavam viciados. Mas quando acabava o pó doía na alma. Queriam mais e mais e mais. O pai de um deles tinha dólares guardados. O mano sabia a senha do cofre. Eles pegavam e iam pro morro. Os traficantes ficavam felizes em ver grana estrangeira. De noite tavam sempre no Timbuka. Bar famoso no bairro Assunção. Ali fumavam, vendiam, cheiravam. Não tinham medo da polícia. Pegavam o prato e esticavam as carreiras na rua mesmo. Os mais velhos ficavam putos. Só que agora os mais velhos tinham medo deles. As gatinhas estavam sempre em cima. Umas minas meio caídas, mas não importava. Eles liberavam pó pra elas, e elas faziam o serviço. Já tavam fazia anos nessa. Não iam mais pra escola. Já tinham sido internados. Saíam e entravam da clinica. Os pais enchiam o saco, mais os psicólogos, toda essa gente.  Eles só queriam curtir. O que tem de errado em curtir a vida? Eram jovens, o corpo era forte. Os outros, os integrados viam eles como lixo. Com 20 anos, a coisa mudou. Alguns deles pararam com tudo. Outros deram um tempo. Outros caíram na vida, continuaram. Uns morreram de overdose. Outros tão com aids. Os mais espertos, caíram de casa, montaram negócio, se formaram. Só que nos fins de semana tão na noite fazendo a cabeça. 

Crônicas Fora de Controle - algumas crônicas

Os pais, os professores, os alunos e os filhos  


Sempre ouço as pessoas falarem com orgulho: sou o que sou pela educação que meus pais ou avós me deram. Lembro de pais de amigos que impunham algo como fibra moral: não faça festa, estude. Anos depois o filho que sofria e muito com a disciplina paterna, dizia: meu pai me ensinou a ser o homem que eu sou. Se não fosse ele, eu teria continuado a usar drogas, eu não teria ido à escola etc.  Na graduação, notei que os professores mais chatos eram aqueles mais queridos. Os mais duros, os que forçavam a estudar. Lembro de dois paraninfos, que obrigavam os alunos a estudar. O desejo da dureza, da disciplina. Provavelmente, os alunos agora dizem: se não fosse o professor tal, eu não seria quem eu sou hoje. E esse mesmo cara, após o final de semana chega no trabalho se sentindo um merda, já que tomou todas, se drogou. Se sente envergonhado, quando o lembram da sua adolescência. É meu, você usava todas, e agora taí dando uma de pai, de trabalhador. O lado vergonhoso que tentam deixar de lado. Garotas dizem depois que vocês as chifram: vou ensinar a você; uma expressão que circula em tudo. Acho que família, ser pai, ter filho, mesmo com toda a flexibilização, se é obrigado a ser o disciplinador, o cara que vigia e pune. No máximo dá pra fazer uma revisão, uma reforma, mas o que não é muito. É isso: na rua você se fode, em casa você se tornará o bom cidadão. E todos querem ser bons, bons cidadãos, trabalhar, pra ter dinheiro. Legal as imagens do The Wall, na parte dois da música. O professor tendo pesadelos com as punições impostas aos alunos.  Deve ser foda saber que você vai ter que acabar com a raça de uma pessoa, ainda mais de alguém que ama, seu filho. Palavra interessante: vagabundo. Aquele vagabundo que só bebe; aquela vagabunda que dá para todo mundo. Papai não deixa o filho se drogar pra ele não virar um vagabundo. O professor fecha o aluno na sala, não deixa sair pra não virar um vagabundo. Pense e aja de tal forma.  E daí a gente pensa que tá criando uma fuga a partir do campo do saber, pensar melhor o mundo, mas fecham a gente em mais regras. O ensaio é uma escrita vagabunda. O jornalismo é interessante porque qualquer um entende. Notícia ninguém tem prazer com a forma, mas qualquer um pode ler. Crônica algo que dá prazer. Livro de jornalistas: eles sabem muito bem escrever pra todos. 99% de lixo. Mas pro homem comum, o trabalho acadêmico é 100% de lixo. Quem tá certo? Você deve trilhar esse caminho pra chegar ao texto correto. No ensaio você tem muitos caminhos para trilhar, mais fácil de errar. Faça o certo. Mas Cazuza talvez estivesse certo: erra comigo.  Os manos tão sempre certos: não me enquadra mano, me erra. O corredor é uma bagunça, mas ali também você não pode fumar um.  Mas sempre há os lugares especiais que você pode. Procurar um lugar especial no ensaio. Não para ser mais um na massa. Massa de ensaios, qualquer coisa, todos. Todo mundo enlouquece um pouco. Mas você não fuma um beque na mesa ao lado da vovó. Você não escreve um título de artigo do tipo: pau no cu do método. Aja como eu quero que você aja. Papai e professor. Todos conhecem a fundo as disciplinas, dentro de si. A maioria aceita. Eu não quero ser pai, mas quero ser professor.  E a questão não é de autoconhecimento, o poder em mim, mas de pensar o mundo. Estamos no mundo. Mas então há esse mundo, duro, o bom mundo, de papai, dos professores, do trabalho; e a fuga desse mundo, as drogas, as putas etc. o que a gente vive como vergonha. Se drogar não garante nada. A mamãe, a esposa, a vovó, a irmã, a sogra, a cunhada, todas tomam Valium e são as mais caretas de todas. Os pais bebem. Um adolescente com um beque na mão não tem nada na cabeça. Talvez venha a ter. Estava na aula de artes marciais.  Lugar bem interessante, o professor é um PM e todos os alunos são PMS. Daí aparece um gordinho, 13 anos. Cheguei nele: por que você tá aqui? Ele: quero aprender a lutar e emagrecer. Falei: meu, compra um skate, uma bike ou um roller e vai todas as tardes numa pista. Rápido você vai fazer uma turma. Eles vão oferecer cigarros pra você e drogas; vão levar você pras festas; você vai começar a emagrecer e as garotas vão começar a notar você; não só porque você vai emagrecer, mas porque você vai virar um cara legal.  Não ouça sua mãe nem seu pai. Aprenda a mentir.Você deveria ter aprendido isso sozinho, mas como até agora não, eu passo só umas dicas. Qual é? Você aceita ser aluno de um pai ou de um professor? Aceita ser aluno? Faz a sua, mano. Faz a sua. Não encontrou até agora o caminho, problema é seu. Se fecha na estrutura. Política só nas ruas, ou a burocracia. Academia não é a rua. Aqui é o lugar. Torre de marfim, meu bem. Mas como assim, sempre foi assim, é assim em tudo, você quer acabar com nosso mundo? Eu só conheço esse mundo, amo meu pai e minha mãe, quero ser um pai e uma mãe, quero trabalhar, ser um bom cidadão. Isso é coisa de revolucionário de merda! Revolução é quando tudo vai abaixo, os de cima vão pra baixo, carnaval e putaria. As vadias sacaram bem: putaria política, putaria como potência, não como segredo ou sujeira. Diferente quando a esposa e mãe diz pro marido, o qual ela chama de pai: me chama de puta. Só ele pode chamá-la de puta e ninguém pode saber. Depois olha pro filho e se envergonha. Não é qualquer  coisa meu, quando a gente pensa que tá criando, a gente pode estar no erro; mas vamos errar um pouco, uma hora a gente acerta. Me erra meu; qual é? 

Crônicas Fora de Controle - algumas crônicas

 Gatinha 2


Não precisou de muito. Muito a gente já tinha. Só que a gente deixa rolar. Isso é bom. E fica rolando. Daí, uma hora pinta. Bom que pintou. Não que fosse a hora certa. Só que tava um clima legal. Daí, você mostrou seu corpo, que eu já conhecia. Me deu o que eu queria. Daí, muito bom o que você sabe fazer. E não foi o fim do mundo. Mas foi bastante. Bastante gostoso o que você sabe fazer. E sabe muito bem o que eu quero e gosto. E não é muito. Sem exageros. Sem muita história. Não estamos na frente do vídeo. Nem estamos competindo. Quem sai vencedor, é outra história. Ele e ela que se fodam; eles perdem. Só que quando rola, e tá rolando e vai continuar...  somos  nós e pode ser três ou quatro, depende do clima. Ou muitos, depende de nós.  E quando chamo você de gatinha ou baby... bem, baby gatinha, o lance é que você tem que saber que isso tá saindo da minha boca. E tô sempre numas de dar novos significados pras coisas. E meio que trabalho com palavras. Só que o mais importante é meu tronco forte, minhas pernas fortes. Tudo isso acho que tá em jogo. Você não precisa fazer muito. Já que a neurose parece que... você deixa em casa. E você sabe que isso faz com que eu saia correndo. E acho que... você quer que eu esteja perto. Então, baby gatinha, tô aqui. Tô por aí. Fácil me encontrar. Encontros dos bons. Sem exageros. Sem muita arte marcial verbal; já física, depende da lua. Bom quando a gente nem nota que tá subindo as paredes. Só vê isso depois, porque tá bom demais. Bom assim. E acho que isso vale mais que um diário de bordo. Aqui só umas palavras, pra lembrar o que tá rolando. Acho o surf um esporte legal. Rola uma onda, encaixa legal, depois flui na boa. Bom é a quebradinha na espuma. A machucadinha na areia. Ralar um pouquinho os joelhos. Você queimadinha de sol, com a pele num bronze e não mais branquinha.  

sexta-feira, 29 de junho de 2012


ORGANIZAÇÃO DA METODOLOGIA PARA O MAPEAMENTO DO DEVIR REVOLUCIONÁRIO DOS MOVIMENTOS GLOBAIS DE INDIGNAÇÃO – PARTE ESCRITA, ROTEIRO, DE APRESENTAÇÃO EM SEMINÁRIO



A pesquisa centra-se na política contemporânea em seu duplo movimento: 1. a valorização da biopolítica (pós-Foucault), a política da multidão (Negri), os processos de singularização (Guattari), as lutas moleculares (Deleuze e Guattari). 2. a compreensão e crítica do biopoder (Foucault e pós-Foucault): biopoder é o poder exterior a multidão, do Império (Negri), em sua forma de controle (Deleuze e pós-Deleuze), o poder expresso até em micro relações. 
Premissa, ponto de partida da pesquisa: as lutas biopolíticas produzem o mundo; e o biopoder se apropria da produção; mais, se reestrutura para bloquear a potência que vem desde baixo. Processo de desterritorialização e de reterritorialização, conflitos entre o molecular (resistência) e molar (poder).
Duas questões quanto ao poder, acho que devem ser mapeadas mesmo que não sejam o centro do trabalho: 1. a molarização dos fluxos moleculares, em parte desejada pelas minorias; remanejamento do poder. ex. aceitação de demandas da multidão. Reformas no sistema político a partir das lutas. 2. molecularização molar, a serviço do poder. No contexto pós moderno, há algo como uma flexiblização das classificações, das identidades. ex. precarização, algo entre trabalho e desemprego.
Me proponho a mapear as lutas da multidão: a molecularização que diz respeito à potência, mesmo tornar a produção do poder em potência; como isso vai sendo apropriado, usado: ex. subjetividades desterritorializadas: fim do enquadramento.  Produção imaterial, intelectual: empoderamento, aumento do saber. Queda das fronteiras geopolíticas: democracia global.  Redes disseminadas: forma da multidão.
  Talvez, o movimento de remanejamento do poder, a passagem do molecular ao molar só possa ser compreendido após o devir das lutas. Talvez seja possível apenas, pesquisar os processos de singularização da multidão: a fuga dos códigos dominantes. 
Aí surge o Objeto, recorte da multidão: lutas contra a democracia representativa e o capitalismo; movimentos de indignação global (dos indignados espanhóis até os Occupy).
Creio que o mapeamento de um conceito abrange a potência do objeto de pesquisa: devir revolucionário. Devir, o que está acontecendo, não o futuro da revolução. A riqueza em si do movimento, atual. Mesmo os desejos de uma nova realidade, já são atuais, e são potência. Esse devir arrasta blocos de devir, e eu penso dessa forma produzindo uma multiplicidade, fazendo rizoma.
Devir é acontecimento, processo, experimentação, que passam sujeitos, grupos, mundo acadêmico, mídias corporativas, etc, qualquer coisa.  Devir não diz respeito aos estados duros, fixos, modelos dominantes, são linhas de fuga do poder.     
Devir, como disse, acontece em blocos: ex. Um devir nômade não se refere apenas ao deslocamento físico, pode dizer respeito à experimentação de desterritorialização, mental, social, existencial. Linha de fuga frente ao sedentarismo que marca a sociedade centrada no aparelho de Estado. Isso poderia envolver um devir-drogado: experimentação da narcose, sem o uso, ou com: o drogado como sujeito desterritorializado mentalmente. Um devir artístico: que não tem na da a ver com a arte como estado, mas como campo de experimentações perceptivas. Esse bloco de devires afetou a filosofia, o devir nômade da filosofia a partir da obra de Deleuze.  Antes com os Beatnicks, Rimbaud, o devir nômade da arte. O nômade como estado aparece como impotência para as significações dominantes: as levas de imigração, os ciganos, todos marginalizados. No entanto, permitem o devir menor para todo o social.
Importante pensar a multidão como campo de experimentação de devires, que pode se tornar um projeto político molar. Pensar não o que é, construindo identidades; mas como funciona.
Sobre o devir revolucionário da multidão, primeiro bloco de devires mapeados: 1. devir-democracia: linha de fuga da representativa; devir pois não há formas e modelos prontos a serem resgatados na história; isso é experimentado em territórios singulares horizontais, descentrados, autônomos; fuga da dicotomia dominantes-dominados. Vistos nas mídias, assembleias, organização dos grupos, acampadas. 2.  devir-midiático: novas mídias produzidas pelo movimento não capturadas; as apropriações das mídias corporativas, como facebook, youtube, etc, em usos diferenciais em relação aos usos dominantes. Outro bloco de devires, considerando a tomada das ruas (os acontecimentos da multidão), devir revolução da cidade, cidade desterritorializada; devir-marginal da multidão (os muitos presos); devir-violência (contra o patrimônio), devir-improdutivo (greves). Esses devires traçam uma linha transversal entre o dualismo legalidade-ilegalidade.  Note que o devir é revolucionário, pois escapa das significações e códigos dominantes. Põe abaixo a ordem.
 Um outro devir, importante de ser mapeado é o multidão das mídias de massa:  afetações das multidão nessas mídias. Mesmo legitimando o poder, elas não ficam ilesas da expressão da multidão.
Outros devires, as produções dos movimentos, como fuga das significações dominantes atualizadas pelo poder: 1. Produção de subjetividades: anonyma; indignada, okupa  X subjetividade dominante, enquadrada. 2. Modos de vida: okupas, devir pobre x vida burguesa. 3. Relações: parceria X não de poder. 4. Desejos em devir: de revolução X desejo de repressão.  
Por fim, importante repensar o conceito de molar e molecular, a molarização e a molecularização da potência: o molar nas minorias, os processos mais consistentes: assembleias, acampadas, grupos, teóricos, acontecimentos. E seu molecular, o minoritário do movimento: o menos expressivo.  Pra que serve esse mapeamento: principalmente para dar expressividade ao minoritário, tornar visível. No caso, creio que o desejo de revolução não se limita aos indignados, mas a todo o povo. Amplia-se assim o território: indignados são todos. O movimento deve atualizar o desejo de revolução, para se tornar mais potente. Já o molar, do movimento, deve ser pensado para ser percebido o que vai ganhando expressão e como isso rompe com possíveis centros de poder. 

2. QUESTÕES EXISTENCIAIS DA PESQUISA:

Pergunta 1: como tornar a pesquisa uma pesquisa indignada, anonyma, de okupa, não como devir mas estado? A pesquisa já permite um devir okupa, anonymo, indignado do campo de saber, ou do ambiente institucional.   
Pergunta 2. Como produzir pesquisa singular, algo que não redunde o que já foi feito?  Considerando o excesso de produção textual sobre o tema. Até agora: estou construindo a história dos acontecimentos principais, pensando o devir revolucionário, o molar e molecular do movimento, sua resistência ao poder. O diferencial talvez se dê aí, pensando a multidão a partir da obra de Deleuze.
Possibilidades: Abrir a tese para o social, primeiro pela linguagem. Usar o ensaio como potência, linguagem mais acessível. Segundo: creio que o uso da cartografia, é importante pela abrangência: não se limita a um campo ou objetos; qualquer um pode usar para mapear qualquer coisa.  Terceiro: despessoalizar a pesquisa, deixar passar os fluxos da multidão, fazer rizoma. Não criação, mas aliança, teórica e política. Não pensar na pesquisa como algo referente a um sujeito, criador: remix (Debord), antropofagia (arte e filosofia brasileiras), canibalização de estilo (o lixo pós moderno como potência). Aqui entra outra questão: fazer rizoma, abrindo o texto, traçando suas linhas de fuga, aumentando o território: ligar o tema com arte, outras formas de resistência. Também para deixar o texto mais leve. Produzir pesquisa de superfície; profundidade da superfície. 

3 – DESCIDA A CAMPO

Não gosto da expressão, de descida ao campo. O mundo, prática, fica em posição abaixo da pesquisa, teoria. Objeto também é péssima expressão; o mundo como objeto sujeitado a uma pesquisa, ou pesquisador. Também ir a campo, significa uma exterioridade, e não há fora do mundo. Nota-se aqui a reprodução do poder, mesmo em micro relações, como o pensamento, a fala.
No caso da minha pesquisa, a multidão e o poder, não há fora. Poder e potência são afirmados em tudo. Não tem como não experimentar o mundo.  E como digo: produzo para o movimento, para multidão. Se vivo a pesquisa acadêmica, vivo assim o movimento. E meu coração está com o movimento.
O que significa ir a campo para a pesquisa do movimento? 1. Pesquisa bibliográfica: há uma produção mesmo em formato de livro extensa sobre. Também muitos teóricos, fazem parte, assim dicotomia do tipo, teoria e prática não faz sentido.  2. Pesquisa dos produtos de web: sites, wikis, blogs, perfis de facebook, e de twiter, vídeos do youtube, streaming.  3. Contato com sujeitos: nas okupas, nas manifestações, via e-mail. 4. Pesquisa da mídia de massa.
Sobre análise das manifestações: off line e on line são complementares: on line: pelos inúmeros pontos de vista; pode ser feito após as demos, deve ser feito depois. Of line viver o acontecimento. Estar em uma assembleia podendo ser preso; estar em uma praça em situação de risco, isso marca mais do que estar na frente do computador. Por fim importante no contato com os sujeitos do movimento: contatar não como pesquisador, sujeito de fora, acima do suposto objeto.


domingo, 17 de junho de 2012


Roteiro de apresentação oral – Seminário – epistemologia comunicação

(primeiro trabalho sobre sociedade de controle)

Centro a apresentação nas considerações sobre o fim das disciplinas do Gomes. Primeiro trato de contexto: da transição da sociedade disciplinar para a de controle. Depois relaciono com o tema dos campos de saber.  Por fim, apresento a proposta de transversalidade. Esta é conceito de Guattari que não se refere à horizontalidade criticada por Gomes, e muito menos a verticalidade disciplinar.

Sociedade disciplinar, modernidade: uma das marcas é a importância do território e da identidade. Exemplos: território nacional, o povo como sujeito, com uma identidade. As disciplinas conceituadas por Foucault: família, pais e filhos. Escola, professor e aluno. Exército, oficiais e soldados. Fábrica: empregador e empregado.

 Segundo Deleuze, tudo é questão de território; podem ser pensados como territórios gêneros, raças, subjetividades, campos de saber. As identidades modernas desses territórios: gêneros: homem e mulher. Raças: brancos e outros. Campos do saber: objeto e método das disciplinas. Subjetividade: individualidade. Na maior parte desses casos, o aparelho de Estado codifica as singularidades em pares, nos quais um dos elementos é um centro de poder. As disciplinas de Foucault são dispositivos do aparelho em sua função de codificação, imposição de identidades.

Deleuze, sociedade de controle. Nesta o que se perde é o território fechado com suas lógicas, principalmente binares. Frente a isso, há discursos que tentam resgatar as velhas identidades; resgatar o que se perdeu; outros discursos tentam manter o que ainda está presente de rigidez. Para mim, essas teorias servem exatamente para isso: dar vida ao cadáver moderno. Também há discursos que ovacionam o múltiplo, a diferença, características da sociedade de controle.  

Segundo Deleuze, importante é não pensar o que é melhor ou pior; desejar o retorno das disciplinas ou ovacionar a sociedade de controle; importante é pensar nas potencialidades, na virtualidade aberta.

Um exemplo do conflito entre potência e tomada de poder na sociedade de controle: o hibridismo entre política e arte, a estetização da política. A estetização da política pode ser pensada como via dupla, uma molar e outra molecular. Molar e molecular são os elementos da cartografia de qualquer coisa. A molar corresponde à política dominante, dos partidos, aparelho de Estado. O que vemos na mídia, no uso do marketing nas eleições, dos showsmícios, nos discursos publicitários para angariar votos. O lado molecular, da interpenetração entre arte e política, vê-se desde o Maio de 68 em massa. Hoje se percebe isso na utilização de lógicas midiáticas e artísticas pelos movimentos de resistência, que são generalizados.   A crítica de Gomes interessa se pensada neste viés: a espetacularização das ciências, molar, o campo da comunicação como território no qual “tudo vale”. De um ponto de vista, molecular, a estetização se torna interessante pelas conexões entre arte, política, entre si, produzindo uma heterogeneidade transversal que foge do controle desde cima. No entanto, creio que falar em arte é perigoso, pois o campo apresenta o mesmo conflito: molar, o instituído, dominante, não político, ou mesmo o discurso clichê da arte como expressão da liberdade; molecular, um devir arte da política e da ciência, que não concerne à arte como estado; na construção epistemológica creio que deve ser buscado outro termo pra definir a expressão em jogo. 

O molar pode também ser referido às identidades de sujeitos, típicas da sociedade disciplinar, e também, as identidades das minorias recém incluídas. No entanto, penso a oferta de subjetividades pela mídia como molar, pois serve ao poder, que é a molaridade mais expressiva. O lado molecular, no contexto pós, seria a possibilidade aberta de experimentações de dessubjetivação, que não se referem à desterritorialização constante pela máquina massmidiática. Penso também que a desterritorializaçao já é potente pela própria descoberta de que mudanças são possíveis. Mas se faz necessária uma cartografia das subjetividades de resistência. Um exemplo é a busca de sexualidades em devir pela crítica Queer; subjetividades que não concernem ao homossexual hetero, aquele que busca direitos heterossexuais: ter filhos, casar.  

Relação entre disciplinas, fim dos territórios e epistemologia: Gallo (1995) relaciona campo de saber e o conceito de disciplinas de Foucault.  Disciplina nas ciências é delimitação, hierarquização e exercício de poder. Opõe o paradigma arborescente, hierárquico, que se refere à disciplinarização, ao paradigma rizomático, no qual qualquer conexão é possível.  
Gallo, então, faz sua proposta a partir da queda das barreiras das disciplinas no campo de saber:

transversalidade entre as várias áreas do saber, integrando-as, senão em sua totalidade, pelo menos de forma muito mais abrangente, possibilitando conexões inimagináveis através do paradigma arborescente. (GALLO, 1995, p. 10)


A transversalidade foi pensada por Guattari em sua experiência no campo psi. Segundo o autor, a verticalidade institucional rege as relações, desde cima. Um sistema centrado, com regras duras, fechado em si mesmo, para poucos. O autor não vê a horizontalidade como opção. Nesta todos são iguais, as relações são planificadas, homogeneizadas, e nada é produzido: horizontalidade é “uma certa situação de fato em que as coisas e as pessoas ajeitem-se como podem na situação em que se encontrem. (GALLO, P. 10)

A crítica de Gomes, como já dito, interessa se pensada como crítica a horizontalização das ciências: a lógica do “tudo vale”, e seus efeitos como a espetacularização, a tomada de poder por lógicas massmidiáticas.  Fruto da pós-modernidade, a espetacularização é uma das capturas pelo poder.  

Outros exemplos de transversalidade: verticalidade dos partidos, sindicatos, todos centrados, com posições hierárquicas que seguem uma ordem dada. Transversalidade: nos movimentos por outra democracia: em assembleias, em que todos podem se expor e decidir, nos quais não há hierarquia, mas nem desordem. As regras são estabelecidas por consenso. Horizontalidade acontece nos dois modelos: da rua, dos corredores, nos quais os sujeitos assumem posições de igualdade, não há decisões políticas, sejam transversais ou verticais. Outro exemplo: a ideia de povo é vertical, povo com uma identidade tendo o Estado como centro decisório. Massa é noção horizontal, nela as diferenças são apagadas, e na massa nada se produz. Multidão é conceito transversal. Multidão é rede de singularidades que produzem em comum mediante colaboração e comunicação.

No entanto em minha experiência empírica nos movimentos de ocupação, noto que a verticalidade aparece como fantasma: tomadas de poder, como quem fala melhor em público, ou tem mais tempo para participar das atividades abrindo espaço para práticas hegemônicas. E mesmo fantasmas modernos: os mais velhos, os mais escolados.  A horizontalidade é importante. Em ambientes fora dos programas há possibilidade de fala daqueles que não se permitem a fala nos ambientes transversais. Ali nascem ideias que podem depois ser retomadas nas atividades, como as assembleias e redes de comunicação, etc.   

sexta-feira, 15 de junho de 2012

SINGULARIZAÇÃO NA SOCIEDADE DE CONTROLE


SINGULARIZAÇÃO NA SOCIEDADE DE CONTROLE


Este trabalho (parte escrita, roteiro de apresentação oral em uma classe no ppgcom da unisinos) é continuação do trabalho em outras disciplinas, no qual penso a sociedade de controle e o fim das disciplinas em suas afetações epistemológicas. Centro minha atenção na sociedade de controle, e também seus efeitos midiáticos, um dos principais, para entender o mundo em que vivemos.

INTRODUÇÃO: Sociedade de controle é a intensificação da sociedade disciplinar como tomada de poder a partir das lutas de 68. A potência molecular das lutas das massas, re-estrutura o molar, o campo macropolítico. Potência como produção de mundo e resistência, biopolítica, poder como captura da produção, biopoder.

Característica mais marcante da sociedade de controle é o fim da exterioridade, dos limites dos territórios, sejam físicos, subjetivos, teóricos, existenciais.  Centro a apresentação nesta característica, e busco pensar também as possibilidades biopolíticas na condição atual.
Segundo Bruno:

[o controle] se aproxima ou mesmo se confunde com o fluxo cotidiano de trocas informacionais e comunicacionais. p. 152 BRUNO

Podemos acrescentar, que o controle e a resistência se confundem nos territórios. Por isso, a importância do mapeamento dessas linhas de forças de natureza diferentes. Creio que o mapa Deleuziano, o conceito de devir, o pensamento da diferença servem para fazer esse mapeamento.  

1.                  ESMAECIMENTO DOS TERRITÓRIOS E DE SUA RELAÇÃO COM O FORA


Fora do trabalho: pela natureza da produção no pós-industrial podemos trabalhar em casa. Levar trabalho para casa. Aqui produção e reprodução se dão em um plano de indiscernibilidade.  Também a produção, em alguns casos, se aproxima da reprodução: trabalhos em ambientes lúdicos. As TICS servem como ferramentas de controle, que acentuam a inexistência de fora do trabalho: o empregador pode contatar o empregado em qualquer lugar e hora. Mais, pode localizá-lo; pode rastrear o empregado em suas ações por redes sociais. No entanto, as mesmas técnicas que servem ao controle, servem de empoderamento: possibilidade de produção intelectual e criativa cada vez mais inclusiva. Também o fim do fora da produção em um contexto biopolítico é a valorização de produção de mundo. Negri diz que como todos produzem o mundo deveria haver uma renda de existência.

Fora da formação: a formação tende a ser constante. Vê-se isso na oferta cada vez maior de cursos de pós-graduação, e de cursos superiores. O ensino centra-se na produção de saber e de palavras de ordem: pense de tal forma, seja tal coisa. Importante perceber como isso é acentuado na sociedade de controle. Questões biopolíticas: a inexistência de fora da formação, significa a possibilidade de aumento do saber. Também se percebe um outro tipo de deslocamento do ambiente da escola para a rua: a produção de saber típica dos movimentos de resistência; saber não direcionado à profissionalização, nem à cultura culta; saber com fins políticos, mas também existenciais. Interessante notar, que conjuntamente à intensificação disciplinar, há também uma flexibilização dos papéis. Uma característica de técnicas biopolítica apropriadas pelo poder: o papel do professor e chefe é cada vez mais esmaecido. Produz-se em rede. Sabemos que esse tipo de produção coletiva, sem um centro é a mais produtiva. A produção em rede é fruto das lutas contra o sistema de dominação. Por fim, formação e produção não se distinguem, são da mesma natureza, diferem em grau, considerando o trabalho intelectual e afetivo.

Fora da subjetividade dominante: este é um caso especial e talvez o mais importante, que envolve também a produção e a formação.  

O capitalismo global (pós-moderno) tomou de assalto a subjetividade de forma mais acentuada que na modernidade. Segundo Guattari a mídia e indústria cultural afetam memória, inteligência, sensibilidade, afetos e fantasmas inconscientes Pelbart, p. 12 (rever ortografia da citação)

Fora das mídias: Como vimos as TICS são usadas como técnicas de controle, tanto na produção quanto na formação. Mais importante pensar como as mídias fazem parte da produção do consenso e da subjetividade dominante. A mídia é muito mais eficaz que a escola para difusão de palavras de ordem. Todos os discursos passam por ela.  Exemplo de produção de subjetividade são as identidades produzidas pela indústria cultural, como nas modas relacionadas à música: que envolve afetos, ouvir, mas também ver, uma relação com o corpo, e vestir, com o saber; e pode envolver estilos de vida: relações com a sexualidade, com os outros, com drogas. E as modas mudam e conjuntamente tudo isso, ou parte. Outro exemplo: o que as mídias vendem como modos de existências: negro, homem, mulher, gay.  

Fora do consumo: o capitalismo é inclusivo, para ele não importa diferenças, territórios.
Bruno exemplifica a inexistência desse fora: oferta de produtos tendo como base conteúdos de e-mail. Isso aponta uma inexistência de fora do privado [mercadológico] que afeta o privado pessoal.      


2.  RECUPERAÇÃO DO FORA COMO RESISTÊNCIA: INCLUSÃO DA DIFERENÇA

Outra característica do controle é a tentativa de apagamento das minorias como resistência, inclusão total: negros, mulheres, homossexuais. O discurso sobre se flexibiliza. Mais consumidores e produtores. Processo de inclusão e reterritorialização constante. Afirmação de identidades.  

Inclusão na arte e indústria cultural da diferença: A tradição romântica da arte faz apologia aos desvios: sexuais, drogas. Ao artista e a arte a diferença é permitida. Essa permissão é apropriada pela indústria cultural, produzindo inclusão, principalmente no mercado. Exemplo: pode se falar abertamente sobre uso de drogas e práticas homossexuais. Em alguns casos, pode-se fazer apologia, e mais, isso é vendável. Caso do Rock contracultural faz parte de um duplo movimento. Uso de drogas e sexualidade aberta como forma de contestação. No entanto, é apropriado pelo mercado. Rock como elemento da contracultura, que torna a diferença uma possibilidade. Que logo após ou ao mesmo tempo se torna valor de consumo.

Inclusão intelectual: em sociedades não democráticas ou autoritárias o intelectual tem um papel marginal, subversivo. Caso de Negri, que ficou preso durante décadas. Hoje, nas sociedades democráticas o intelectual é incluído na academia, que é financiada pelo Estado ou por corporações. Exemplo: podemos fazer crítica à rigidez institucional, disciplinar, e ao Estado em instituições do próprio Estado; podemos fazer crítica ao capitalismo, ao controle, em instituições privadas capitalistas.  

2.1. Desejo de inclusão pelas minorias: mesmo elas como resistência desejam inclusão.

Caso 1.  Desejo de inclusão no capitalismo: da marcha da maconha. Interessante que a marcha, não se refere apenas ao uso da droga como possibilidade de diferença; a marcha pede também uma inclusão dentro do sistema, não só político, mas também econômico:   

Trata-se de um dia de luta e manifestações favoráveis a mudanças nas leis relacionadas a maconha, em favor da legalização da cannabis, regulamentação de comércio e uso (tanto recreativo quanto medicinal e industrial, tendo em vista as milhares de aplicações da cannabis em várias áreas).  http://pt.wikipedia.org/wiki/Marcha_da_Maconha

Caso 2. Marcha das vadias: desejo de inclusão de cidadania:

[1] mulheres ainda são minoria em cargos de poder e recebem em média 70% do salário dos homens [2] há trabalhos desempenhados por uma maioria feminina que não são reconhecidos, nem dotados de valor econômico [3. As prostituas negam] suas cidadanias.

Pelbart sobre direitos humanos, inclusão: segundo ao autor os direitos humanos, o discurso sobre cidadania não são garantias de uma vida menos sacana:

[nas] democracias-mercado que respeitam os chamados direitos humanos [...] se vive e se pensa como porcos [essa é a ilusão que vende o neoliberalismo [...] caberia examinar [...] em que medida essa miragem [no pós-moderno] nos obriga a repensar a ideia de direitos humanos e traz à tona sua insuficiência PELBART p. 23


2.2 as resistências repetindo os discursos do poder, afirmando o poder, pois não há fora:

Caso 1. Poder na resistência: Movimento primavera global em porto alegre: em assembleia, horizontal, totalmente inclusiva, foram feitas duas propostas: fazer um evento contra a corrupção e uma campanha do agasalho. Contra a corrupção não foi aceita, pois diz respeito à reforma política, e o movimento pede radicalização da democracia. Já a campanha do agasalho, foi aceita. Interessante notar que esse tipo de campanha é realizado por entidades de consenso, paternalistas, e difundidas na mídia.

Caso 2. Lutas dos homossexuais: produz normas, e regras, identidades, caracteristicas do poder:

De que adianta lutar contra a norma heterossexual e hetero-fascista, se o movimento acaba reinventando-a como norma homossexual? Reinstala-se uma nova opressão: é o gay enquadrado e com família de comercial de margarina [...]  Que chega a nutrir preconceito contra as bichas loucas e os travestis. É a lésbica que não admite que outra mulher fique de quatro numa relação sexual. É o meio profissional de cabeleireiros ou estilistas, que conformam uma normatividade igualmente coagida. CAVA

3. TENTATIVAS DE SINGULARIZAÇÃO

Singularização é a produção de subjetividades diferenciais em relação à subjetividade dominantes, que enquadra sujeitos em identidades.

Movimento Queer:

[...]  afirma que ser homossexual já está capturado na heteronormatividade. Homossexual, bissexual, lésbica ou gay, isso por si só não é suficiente. É preciso escapar da divisão binária homem/mulher ou hetero-homo. [recusar] a própria ideia de uma normalidade [...] CAVA


CRÍTICA RADICAL: como produção de diferença quando se chega a um consenso. No caso, vejo mais como uma experimentação.

Comunicado do Black block sobre as lutas em Copenhagen:

Esse comunicado se refere ao grupo em sua crítica aos ativistas que lutam pelo clima e contra o capitalismo. No comunicado é dito que parece haver mesma lógica entre representantes do governo, ONGs e até os ativistas ecológicos mais radicais. Todos estes apresentam mesmo discurso: “nós estamos salvando o mundo”. “Quem não ia querer lutar para isso? E mesmo se você não, você tem mesmo uma escolha?”.
                 
[...] pode-se ouvir o [...] chamado para submeter-se. Sacrificar tudo o que faz a vida valer a pena em nome da própria vida. Encerrar o presente e salvar o futuro. Para controlar nossos desejos, e acima de tudo, para não perturbar o delicado equilíbrio. Ecologia pressupõe a mesma concepção de existência que caracteriza a polícia: o perigo está em toda parte, e, antes de tudo, em nós mesmos. Quando o sucesso desta conferência depende da participação da população em cada centro da cidade, onde você acha que devemos ir? E se a polícia, em todas as suas formas, é a essência da nova política global, o que você acha que deve fazer?




4. INEXISTÊNCIA DO FORA DA RESISTÊNCIA

OCCUPY, da resistência: a fórmula dos movimentos: a palavra de ordem: “somos os 99%” cria uma inclusão generalizada na resistência contra o 1%:

“O socius torna-se um megavideogame em que alguns poucos jogadores invisíveis brincam com seus milhões, de dólares, de empregos, de vidas alheias.”  PELBART, p. 23

Caso dos Anonymous: sintoma da inclusão generalizada na resistência:

Anonymous é coletivo de hacktivismo que atua na rede em ataques a sistemas de corporações e Estados. O anonymous luta diretamente contra o controle: luta pelo anonimato na rede; contra a apropriação da colaboração e do bem comum da multidão. Luta também contra a classificação da multidão: não tem nome, identidade, não é restrito a um grupo, ou centro. Age em comum, produz em comum, produção que foge da valoração dominante capitalista.

Sua produção vai além dos ataques DNS. Difunde saber, conhecimento, em seus comunicados em vídeos e texto. Também pode ser pensada como um modo de vida na rede, anônima, entre legalidade e ilegalidade, para aqueles que participam dos ataques. E mesmo as máscaras, elas são vistas em manifestações, por pessoas que não atuam nos ataques. Uma subjetividade anônima produzida. 

Só funciona por enxameamento; suas operações dependem da colaboração em massa. Por isso, é totalmente inclusivo.  A máscara que qualquer um pode vestir e o nome simbolizam muito bem a inclusão generalizada. Tem relação direta com a obra de Negri, isso é notado na citação: somos legião. Em passagem de multidão, o autor cita um mito cristão. Fala de um demônio, de nome legião, que na verdade é uma multiplicidade de demônios. Aqui uno e múltiplo se confundem. Uma boa alegoria para pensar a multidão: que é um conjunto de singularidades diferenciadas que agem em comum mediante colaboração e comunicação. Torna-se uma, pela produção e pelo comum. E não pode ser enquadrada em identidade, como a de povo. As singularidades são potentes por não terem identidades. Isso é forma de resistência ao controle:

Como diz Amadeu: “O controle é avesso ao anônimo, ao incerto e ao nômade.” p. 130

CONCLUSÃO: Por isso são produzidas identidades fixas, apropriam-se as minorias a partir do enquadramento, e de movimentos de desterritorialização e reterritorialização. As minorias, em sua potência molecular, desterritorializam os códigos macropolíticos, molares, no entanto, são reterritorializadas, perdendo potência, sendo enquadradas, em uma inclusão diferencial. Daí, importante pensar no que resta de diferenciação para ser usada como potência.

Ex. A CUFA, entidade de fomento das manifestações e modos de vida das favelas, está produzindo um concurso de top models para moradoras dos morros. Gisele Bundchen e uma marca famosa de produtos de beleza promoverão o evento. Os pobres são sinônimos de padrão de não beleza. Provavelmente as garotas com beleza mais próxima do padrão serão as vencedoras. O evento propõe que a beleza das favelas seja incluída. Assim a favela desterritorializa a moda, um das possibilidades do evento, porém, os códigos da moda reterritorializam a favela.    












quarta-feira, 18 de maio de 2011

dissertação

Estava meio assim pra postar a dissertação, não tinha achado nenhuma ferramenta decente de pdf no blogger... mas o pessoal lá do CMI-Brasil (que como é parte do meu objeto de estudo, me senti na obrigação de enviar pra eles) postou na publicação aberta o resumo e um link com a dissertação em pdf (gentil da parte deles). Assim passo o link pro post:

terça-feira, 3 de maio de 2011

A morte de Bin Laden e as lutas em rede

A mídia vampiriza o acontecimento; dá uma super exposição, dá a impressão de que ele é muito mais importante do que é; assim tem alguns dias de tema para seus receptores. Ela sabe vender o acontecimento. Foi assim com o tal do “casamento real”. Quanto à morte do Bin Laden, é o mesmo, vamos ver por quantos dias a mídia vai conseguir manter as pessoas interessadas.

Mas essa vampirização deixo de lado. Fico no que é dito: mataram o inimigo da América. A América una venceu este outro corpo também uno, o líder do terrorismo. Como sempre um contra um. A matemática mais simples; até as crianças entendem. É claro que a dicotomia seria mais visível se tivesse acontecido na era Bush. Duas figuras carismáticas. Dois odiosos. Um em nome do bem, o outro a encarnação do mal.

Pelo que nos é dito, ou melhor, imposto, a AL Qaeda é centralizada. Tinha um líder. Assim reproduzia uma estrutura antiquada. Negava o poder da rede.

O mais interessante é que todo esse joguinho que vende, obscurece o outro jogo. O Império está sob enfrentamento de rede de redes que não é composta de terroristas, isso há mais de uma década. E poucos entendem. A mídia até agora não entendeu as resistências, como poucos entenderam que o poder é também uma rede de Estados, corporações, ONGs, mídias, instituições supra-nacionais. E como dizem Negri e Hardt: contra uma rede apenas outra rede. É, é o pensamento que é lento, não a vida. Mais lenta que a mídia apenas a opinião do idiota, que, aliás, faz parte do seu discurso.

Essa rede – de insurgência – também sofreu com os atentados do 11 do 9. O estado de exceção criado após a queda das torres gêmeas aconteceu na mesma época dos dias de ação global, as primeiras lutas contra o Império, os movimentos de multidão, por outra globalização, os primeiros em rede com alcance e demandas globais. E claro, estes são menos potentes violentamente que o terrorismo. Mas são potentes, pois buscam a felicidade, a alegria contra o mundo de tristezas (fazendo distinção entre a tristeza e a alegria, terroristas e a América e os países dominantes se assemelham). São potentes, pois buscam uma democracia sem liderança, sem o corte entre dominantes e dominados, democracia de todos para todos; verdadeira democracia contra esse governo de poucos sobre muitos.

Os movimentos de multidão, sim, são efetivamente uma ameaça ao Império. Como foi dito acima: contra uma rede apenas outra rede. Mas fecham os olhos para eles e veem apenas o previsível.

As associações usadas como potência pelos alterglobalização, além de serem democráticas internamente, são impossíveis de deter. E mais, anunciam um novo mundo, pois não querem tomar o lugar da governança transcendente, mas usar sua própria forma e conteúdo como modelo para outra realidade.

Bin Laden tinha que morrer. Sua guerrilha dizia respeito a outro paradigma, antiquado. Se tivesse aprendido com os movimentos por outra globalização, com a EZLN, ou mesmo com a estrutura organizacional da internet, se tivesse dado atenção para as mudanças nas formas de produção, na estrutura do poder, todos em rede, sua morte não seria significativa. E talvez não seja, isso é a mídia quem diz. O tempo dirá, se a Al Qaeda era realmente centralizada em uma figura carismática, reflexo da modernidade, que felizmente já era.